Marxismo e nacionalismo (II): Os comunistas russos e a questão nacional

Marxismo e nacionalismo (II): Os comunistas russos e a questão nacional

em 2 jun

As revoluções ocorridas na Rússia em 1917 constituíram a expressão de um movimento que atravessara a maior parte da Europa, mas esta luta de classe supranacional foi desviada para a edificação de um Estado revolucionário nacional. Por João Bernardo

Os discípulos de Marx e de Engels enfrentaram um duplo problema. Por um lado, receberam uma herança ideológica carregada pelo peso da enorme contradição entre uma análise teórica concebida em termos de classe e uma estratégia política conduzida em termos de blocos nacionais. Por outro lado, verificaram que a questão das nacionalidades se tornava cada vez mais urgente, porque os povos colonizados e semicolonizados começavam a reclamar a emancipação, mesmo sem cumprirem as condições de viabilidade económica e de tradição estatista que Marx e Engels haviam postulado.

Assim, e contrariamente ao que pretenderam várias ortodoxias posteriores, na II Internacional quem seguia a verdadeira tradição de Marx e de Engels eram os defensores de uma espécie de imperialismo esclarecido, paternalista, benévolo, que pouco a pouco ajudasse os povos colonizados a evoluir até um nível considerado superior. O problema surgiu quando esses povos não se revelaram dispostos a esperar. A noção de um imperialismo socialista foi derrubada com mais vigor pela irrupção dos povos colonizados do que pela crítica teórica proveniente da ala esquerda do marxismo, mas ficava por resolver uma grande questão. A emancipação das colónias resultaria de uma luta conduzida exclusivamente pelo proletariado e pelo campesinato pobre, num plano de internacionalismo que ultrapassasse e deixasse sem efeito as reivindicações especificamente nacionais? Ou seria necessário adquirir primeiro a independência política e construir um Estado nacional, no interior do qual o proletariado autóctone se desenvolveria e reforçaria?

A questão começara a ser debatida ainda em vida dos fundadores do marxismo, quando a perspectiva que eles haviam adoptado deparou com a oposição de alguns socialistas polacos, para quem a opressão nacional só poderia ser superada por uma revolução proletária internacional. Fundado em 1882, o primeiro partido socialista polaco, o Partido Social-Revolucionário do Proletariado, inspirava-se no marxismo para atribuir a prioridade aos conflitos sociais, rejeitando o patriotismo e a luta pela independência e proclamando o carácter internacional da luta de classe. Perante este desafio, Engels manteve as suas posições de sempre, dando prioridade à questão nacional, e numa carta endereçada a Karl Kautsky, em Fevereiro de 1882, escreveu que os socialistas polacos devem «colocar a libertação do seu país na primeira linha do seu programa» e que «a independência é a base de qualquer acção internacional comum». Enquanto infamava os socialistas internacionalistas polacos, que algum tempo depois haveriam de encontrar em Rosa Luxemburg a sua melhor intérprete, Engels dava o aval à tendência nacionalista do socialismo, que dez anos mais tarde iria ser encabeçada por Piłsudski e que se situa na origem da extrema-direita polaca.

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Henk Sneevliet

As teses de Rosa Luxemburg a este respeito estão ao alcance de todos os que as quiserem ler, já que a partir da década de 1960 aquela notável marxista começou a sair do esquecimento a que o comunismo de inspiração soviética a havia votado. Muitíssimo menos conhecida é a figura de Henk Sneevliet, um marxista holandês que além da sua actividade partidária militava também no sindicato dos ferroviários. Tendo entrado em conflito com a facção moderada, que controlava o partido e a maioria dos sindicatos, Sneevliet partiu em 1913 para as Índias Orientais, a actual Indonésia, que eram então uma colónia holandesa, onde participou na fundação da Associação Social-Democrata das Índias − os partidos marxistas denominavam-se então social-democratas − cujos membros eram tanto holandeses como indonésios. A Associação defendia uma orientação estrita de classe, lutando ao mesmo tempo contra o colonialismo e contra as elites autóctones. Entretanto, Sneevliet começou a militar no sindicato ferroviário, o único nas Índias Orientais a juntar holandeses e nativos, e conseguiu imprimir-lhe uma orientação radical, a ponto que ele haveria mais tarde de ser o embrião do movimento comunista naquela colónia. Não é aqui ocasião para referir o percurso posterior de Sneevliet, os seus conflitos com a maioria da direcção do Partido Comunista holandês, a sua participação na luta anticolonial na III Internacional, a sua oposição à política seguida pela União Soviética, a fundação do Partido Revolucionário Socialista em 1927, a sua discordância com o sectarismo de Trotsky, a sua luta clandestina contra os ocupantes nazis durante a segunda guerra mundial, até à sua prisão e execução em 1942. O que importa aqui sublinhar é que para Sneevliet e os demais marxistas que defendiam a mesma orientação, a luta contra o colonialismo era inseparável da luta contra as classes dominantes nativas. A emancipação dos povos não era considerada como um objectivo específico nem como uma fase prévia de um processo, e a luta de classes dos explorados não era desviada para a construção de Estados nacionais. Esta estratégia culminou durante a segunda guerra mundial. Nas difíceis condições da clandestinidade, numa Holanda ocupada pelas tropas nazis, Sneevliet orientou o seu partido para a rejeição de todas as burguesias e burocracias, qualquer fosse o lado em que se encontrassem no conflito, e opôs-lhes uma «terceira frente», a da classe trabalhadora internacional.

Da guerra à revolução

Da guerra à revolução

Mas voltemos à época que aqui me interessa. Aqueles que na II Internacional defendiam uma orientação internacionalista acolheram entusiasticamente as insurreições militares e depois as greves operárias e os levantamentos camponeses que entre 1916 e 1918, desde as trincheiras da França até às estepes russas, passando pela Alemanha, pela Itália, pela Bulgária e pelo Império Austro-Húngaro, se opuseram à carnificina da primeira guerra mundial. As revoluções ocorridas na Rússia em 1917 constituíram a expressão vitoriosa de um movimento muitíssimo mais amplo, que atravessara a maior parte da Europa. Poderia esperar-se, então, que o recém-implantado regime soviético prosseguisse a estratégia de desagregação interna das nações e dos nacionalismos mediante a internacionalização da luta da classe trabalhadora e dos camponeses miseráveis dos espaços coloniais, mas não foi o que sucedeu. Pelo contrário, a luta de classe supranacional, com que os soldados e os trabalhadores se opunham à guerra, foi desviada para a edificação de um Estado revolucionário nacional.

A data decisiva deste processo foi o tratado de paz que o governo soviético assinou em Março de 1918, em Brest-Litovsk, com as Potências Centrais, ou seja, a Alemanha, o Império Austro-Húngaro e o Império Otomano. Reforçando a posição das Potências Centrais e entregando-lhes a Ucrânia, o Tratado de Brest-Litovsk implicava que o jovem poder soviético desse a prioridade à edificação do Estado relativamente à internacionalização da insurreição. No início das conversações de Brest-Litovsk, Trotsky distribuíra panfletos aos soldados das Potências Centrais que formavam a guarda de honra, incitando-os à revolução, mas no 5º Congresso dos Sovietes, reunido em Julho de 1918, ele apresentou e fez aprovar um decreto que não só condenava à prisão quem quer que conduzisse acções de agitação contra as autoridades alemãs e austro-húngaras ocupantes da Ucrânia, mas ainda ameaçava de fuzilamento os que insistissem em participar em guerrilhas contra os exércitos das Potências Centrais. E na medida em que aliviava a pressão militar sobre as Potências Centrais, o Tratado de Brest-Litovsk dificultava os movimentos insurreccionais dos soldados alemães e austro-húngaros e os movimentos de greve em ambos os países. As consequências deste Tratado para o interior do Estado soviético não foram menos graves do que os seus efeitos externos. A ala esquerda do Partido Comunista opusera-se vigorosamente ao rumo que as conversações de paz estavam a tomar, sendo aliás derrotada por uma margem muito estreita, e o Partido Socialista-Revolucionário de Esquerda, que formava governo juntamente com os comunistas, opusera-se também. Com a assinatura do Tratado os socialistas-revolucionários de esquerda abandonaram o governo e lançaram-se na luta contra Lenin e os seus apoiantes, recorrendo inclusivamente ao terrorismo, e as medidas repressivas então encetadas pela direcção do Partido Comunista assinalam o estabelecimento do regime de partido único e da ditadura de partido, com resultados bem conhecidos.

Trotsky na delegação soviética a Brest-Litovsk

Trotsky na delegação soviética a Brest-Litovsk

De então em diante o Partido Comunista soviético colocou sistematicamente os interesses do seu Estado à frente dos interesses revolucionários dos trabalhadores dos outros países. Um panfleto publicado em 1918 pelos bolchevistas em defesa do Tratado de Brest-Litovsk, depois de afirmar que «ao sustentarmos o poder soviético estamos a apoiar da melhor e mais eficaz das maneiras o proletariado de todos os países» e que «não podia ocorrer agora um pior insucesso para a causa do socialismo do que o colapso do poder soviético na Rússia», extraía a conclusão lógica. «Somos “defensistas”. Desde o dia 25 de Outubro de 1917 que conquistámos o direito de defender a pátria […] estamos a defender a pátria contra os imperialistas […] proclamamos que os interesses do socialismo, os interesses do socialismo mundial, são superiores aos interesses nacionais, superiores aos interesses do Estado. Somos “defensistas” da pátria socialista». Graças a este perverso jogo verbal, em que os termos passaram a significar o seu exacto contrário, o internacionalismo ficou identificado com o patriotismo soviético.

Os actos corresponderam às palavras. «A supressão da diplomacia secreta é a condição prévia de uma política estrangeira honesta, popular e autenticamente democrática», escreveu Trotsky quando o governo soviético decidiu publicar os tratados secretos do czar. Mas passados poucos meses, perante a intervenção militar do Reino Unido e da França na guerra civil russa, foi precisamente à diplomacia secreta que os dirigentes bolchevistas recorreram. Em 1 de Agosto de 1918 o comissário do povo para os Negócios Estrangeiros, Tchitcherin, propôs ao embaixador alemão que as tropas germânicas, apoiadas pelo exército finlandês que dois meses e meio antes acabara de esmagar os comunistas do seu país numa sangrenta guerra civil, penetrassem no território russo para ajudar os soviéticos a combater os britânicos. A proposta teve efeito. A versão pública de um dos acordos assinados com o governo alemão em 27 de Agosto de 1918 anunciou que o governo soviético renunciava aos direitos de soberania sobre a Estónia e a Letónia e reconhecia a independência da Geórgia, transformada então num protectorado germânico. Mas uma troca secreta de notas diplomáticas estabelecia que a Rússia soviética se comprometia a «empregar todos os meios à sua disposição para expulsar as forças da Entente», na prática, a aliança franco-britânica, «dos territórios do norte da Rússia, em cumprimento do seu estatuto de neutralidade»; se não conseguisse fazê-lo, a Alemanha «ver-se-ia obrigada a empreender essa acção, se necessário com a ajuda de tropas finlandesas», e a Rússia «não encararia esta intervenção como um acto hostil». Chegara a tal grau de degenerescência nacionalista uma revolução iniciada no âmbito internacional. Ao apresentar os acordos públicos de 27 de Agosto para ratificação no Comité Executivo Central Panrusso dos Sovietes, Tchitcherin mencionou a «coabitação pacífica» dos dois Estados, antecipando uma terminologia que teria um vasto uso. Mas como os alemães estavam numa situação militar catastrófica e impossibilitados de novas aventuras, não aproveitaram a boa disposição do governo soviético.

Naquela época Trotsky, ao lado de Lenin, imprimia um carácter nacionalista à política externa soviética. Num livro publicado em 1920 e que constituía uma réplica a um dos mais ilustres teóricos da social-democracia germânica, Trotsky escreveu: «Foi no Outono de 1918, depois da derrocada dos exércitos alemães, que atravessámos o momento mais crítico da nossa situação internacional. Em vez de dois campos poderosos, que se neutralizavam mais ou menos um ao outro, tínhamos perante nós a Entente vitoriosa, no auge do seu poder mundial, e a Alemanha esmagada […]». Os dirigentes bolchevistas, que antes haviam invocado o atraso da revolução alemã para justificar a capitulação em Brest-Litovsk, lastimaram-se depois pelo facto de a revolução alemã de Outubro e Novembro de 1918 ter posto em risco a segurança do Estado soviético ao destruir o equilíbrio das potências. A política externa assente na expansão dos processos insurreccionais fora substituída pela velha diplomacia, que consistia em manobrar entre blocos imperialistas rivais.

Nos primeiros meses de 1920, quando parecia definitivamente encerrada a guerra civil, o governo soviético repetiu em todos os tons o desejo de coexistência pacífica com os Estados capitalistas, e esta orientação não foi ditada por qualquer apatia do movimento operário nos outros países, visto que eram então cada vez mais numerosas e mais eficazes as acções prosseguidas pelos trabalhadores europeus em apoio ao regime bolchevista. A política externa de Moscovo não só deixara de depender do processo revolucionário internacional como lhe podia ser francamente adversa, e a orientação seguida no Ocidente reproduzia-se a Leste. A 4 de Junho de 1920, Trotsky, comissário do povo para a Guerra, enviou a seguinte nota secreta a Tchitcherin, com cópias para Lenin, Kamenev, Krestinsky e Bukharin: «Todas as informações sobre a situação em Khiva, na Pérsia, no Bukhara e no Afeganistão confirmam o facto de que uma revolução soviética nestes países causar-nos-ia no momento presente as maiores dificuldades […] Até a situação a ocidente estar estabilizada e até melhorarem as nossas indústrias e transportes, uma expansão soviética para leste poder-se-á revelar não menos perigosa do que uma guerra a ocidente […] uma revolução soviética potencial a leste é-nos hoje vantajosa principalmente como um elemento importante nas relações diplomáticas com a Inglaterra. Daqui se conclui que: 1) a leste devemos dedicar-nos ao trabalho político e educativo […] e ao mesmo tempo aconselhar toda a prudência possível quanto a acções calculadas para exigir o nosso apoio militar, ou capazes de exigi-lo; 2) temos de continuar por todas as formas a insistir através de todos os canais possíveis na nossa disposição de chegar a um entendimento com a Inglaterra quanto ao leste». Concepções deste tipo eram comuns entre os orientadores da política externa soviética. O anarquista norte-americano Alexander Berkman, que junto com outros revolucionários havia sido deportado para a União Soviética, anotou no seu diário, em 24 de Fevereiro de 1920, uma conversa com Karakhan em que o então vice-comissário do povo para os Negócios Estrangeiros lhe disse que na Índia «o movimento era revolucionário, se bem que, em sua opinião, tivesse um carácter nacionalista, e podia ser explorado para colocar a Inglaterra em xeque». Vemos aqui, em poucas palavras, como interessava ao Estado soviético que a luta de classes nos territórios colonizados se convertesse numa luta nacional.

Kuchik Khan
Kuchik Khan

Esta política teve efeitos catastróficos para o proletariado das colónias e dos países semicolonizados. Limitar-me-ei ao sucedido na Pérsia e na Turquia. Inicialmente o governo bolchevista apoiara o embrionário movimento comunista persa e na Primavera de 1920 prestou auxílio militar ao nacionalista revolucionário Kuchik Khan e ajudou-o a criar uma república soviética independente na província de Gilan, no norte do país, onde ele gozava de grande popularidade. No Outono daquele ano, porém, as relações de Moscovo com Teerão melhoraram consideravelmente e, embora continuassem a apoiar a república de Gilan, os dirigentes bolchevistas decidiram limitar as actividades do pequeno Partido Comunista persa e deram-lhe instruções para declarar que a revolução naquele país só se tornaria possível depois de ter sido levada até ao fim a fase burguesa das transformações socioeconómicas.

Convém recordar que fora precisamente essa questão a dividir os bolchevistas e os menchevistas. Até 1917 estas duas facções do marxismo russo estavam de acordo em considerar que o atraso das forças produtivas no país impunha à revolução um carácter burguês. Mas enquanto os menchevistas afirmavam que uma revolução de carácter burguês teria de ser conduzida pela burguesia, Lenin sustentava que, dada a debilidade social e política da burguesia russa, só o proletariado seria capaz de conduzir o processo revolucionário. Assim, para os bolchevistas a missão do proletariado russo era dirigir uma revolução de carácter burguês. Só Trotsky e o pequeno grupo que o rodeava defendiam, antes de 1917, uma opinião diferente, considerando que, pelo facto de o proletariado tomar a iniciativa, a revolução burguesa adquiriria rapidamente um carácter socialista. Mas vemos que passados poucos anos eram as teses menchevistas que os chefes bolchevistas, e Trostky com eles, pretendiam impor aos comunistas persas. Com efeito, essas teses implicavam uma aliança entre o proletariado e a burguesia do país, convertendo portanto a luta de classe num movimento nacionalista.

Blumkin
Blumkin

Em Fevereiro de 1921 um golpe de Estado estabeleceu em Teerão uma ditadura nacionalista e modernizadora, e o facto de o novo regime ser ferozmente anticomunista e proceder a uma perseguição sistemática da extrema-esquerda não impediu o governo soviético de assinar com ele um tratado que reconhecia a Moscovo o direito de intervir militarmente na Pérsia se a Grã-Bretanha invadisse aquele país com intenções hostis aos soviéticos e se o governo persa não fosse, por si só, capaz de evitar esta agressão. Os equilíbrios geopolíticos haviam passado a prevalecer sobre os processos revolucionários, o que levou os dirigentes soviéticos a suspender o apoio prestado aos comunistas persas e aos nacionalistas radicais da república de Gilan. Aliás, como as tropas britânicas abandonaram a Pérsia em Maio de 1921, os soviéticos, segundo o tratado que haviam acabado de assinar, ficavam obrigados a retirar as forças militares que protegiam Gilan. No Verão desse ano Kuchik tentou marchar sobre Teerão, contando ainda com o auxílio de algumas personalidades soviéticas, mas a expedição foi um fiasco e em Setembro Moscovo cancelou-lhe o aval político e chamou as suas tropas. No mês seguinte o regime de Teerão, com a aprovação soviética, ocupou militarmente Gilan e enforcou Kuchik. Passados anos, Victor Serge, que fora amigo de Blumkin, revolucionário com uma curta vida recheada de aventuras e peripécias extraordinárias, recordou o que ele lhe contara acerca destes acontecimentos. «A minha história na Pérsia? Éramos algumas centenas de russos andrajosos […] Um dia recebemos um telegrama do comité central: Parem tudo, já não há revolução no Irão […] Se não fosse isso, tínhamos entrado em Teerão». «Se não fosse isso», mas por detrás daquele telegrama estava uma longa história.

A orientação da luta de classe para objectivos limitadamente nacionalistas inspirou também a política soviética relativamente à Turquia. Depois de ter aproveitado habilmente um movimento camponês que em 1919 e 1920 levara à formação de um exército próprio e à criação de inúmeros sovietes locais, Mustafa Kemal conseguiu no final de 1920 e no começo de 1921 desarticular esse movimento, liquidar ou dispersar os chefes principais e assimilar o que restava das suas bases sociais de apoio. Logo em seguida ele desencadeou a repressão contra as organizações comunistas que, embora pequenas, eram vigorosas, e em Janeiro de 1921 enviou agentes ao território soviético para assassinarem uma das figuras mais conhecidas do comunismo turco, Mustafa Suphi, juntamente com dezasseis dos seus camaradas. Nada disto esfriou a simpatia que os dirigentes bolchevistas haviam passado a nutrir por Kemal e pelo seu regime, e o preâmbulo do tratado soviético-turco, assinado em Março de 1921, sublinhava a solidariedade dos dois países «na luta contra o imperialismo» e um dos artigos proclamava a existência de uma «afinidade mútua entre o movimento de libertação nacional dos povos do Oriente e a luta dos trabalhadores da Rússia por uma nova ordem social». No caso do regime de Mustaka Kemal o anti-imperialismo consistia numa política antibritânica, já que ele não era menos imperialista para as pequenas nacionalidades periféricas e para os outros povos sujeitos ao domínio turco. Mas a convergência de interesses geopolíticos era suficiente para que Moscovo fechasse os olhos ao subimperialismo turco e ao assassinato e encarceramento de comunistas.

Mustafa Kemal, chefe do «bastião avançado do Oriente revolucionário»
Mustafa Kemal, chefe do «bastião avançado do Oriente revolucionário»

Alguns meses depois da assinatura do tratado o governo turco informou Moscovo de que decidira libertar os comunistas presos e entregar à justiça os responsáveis pelo assassinato de Suphi. Os soviéticos apoiaram militarmente a Turquia numa fase já adiantada da guerra contra a Grécia em 1921 e 1922, e em consequência disto, e também devido à ajuda prestada pela diplomacia soviética por ocasião da conferência de Génova, o Partido Comunista turco pôde gozar de oito meses de actividade legal, depois de mais de um ano de intensa perseguição. Mas em Outubro de 1922, derrotados os gregos, quando lhe interessava aproximar-se da Grã-Bretanha e deixara de necessitar do auxílio de Moscovo, Kemal recomeçou a caça aos comunistas. Em Novembro desse ano, numa das sessões do 4º Congresso da III Internacional, o chefe da delegação turca lastimou que o seu partido continuasse a ser vítima da repressão, apesar de ter obedecido às indicações do 2º Congresso e ter apoiado o governo de Kemal. Mas os dirigentes da Internacional Comunista mantiveram-se inflexíveis e Karl Radek, a figura mais influente nos bastidores desta organização, recordou aos camaradas turcos as instruções que lhes haviam sido dadas. «A vossa primeira tarefa, logo que se tiverem organizado como partido autónomo, consiste em apoiar o movimento pela liberdade nacional na Turquia». No mesmo congresso Bukharin colocou a questão nos termos de um princípio geral, declarando que a União Soviética podia «estabelecer alianças militares com um país burguês a fim de enfrentar outro país burguês». O que sucedia, porém, quando os chefes do «movimento pela liberdade nacional» dispensavam de maneira truculenta o apoio dos comunistas locais? Sem se embaraçar com estes detalhes, o congresso erigiu a Turquia em «bastião avançado do Oriente revolucionário». E no 12º Congresso do Partido Comunista Russo, em Abril de 1923, Bukharin considerou que a Turquia, «apesar das perseguições aos comunistas, desempenha um papel revolucionário devido ao facto de ser um instrumento destrutivo relativamente ao sistema imperialista considerado como um todo». Segundo esta admirável dialéctica, um regime podia ser classificado como revolucionário por considerações estritamente geopolíticas, quando a sua orientação externa era favorável ao Estado soviético no confronto com outras potências, sem que em nada parecesse importar o seu carácter contra-revolucionário no plano social interno, o único em que tais questões deviam ser aferidas.

O confronto entre a orientação nacionalista e a orientação de classe atravessou o interior dos partidos comunistas. Formou-se assim uma ala esquerda, que defendia a luta não só contra as grandes potências imperialistas mas igualmente contra as classes dominantes locais, e uma ala apoiada pela III Internacional, que atribuía a prioridade à luta contra o imperialismo estrangeiro e para isso apoiava a burguesia nacional e a tecnocracia modernizadora. À medida que a evolução da base social dos partidos comunistas, agravada pela repressão local e pelas interferências de Moscovo, contribuiu para a marginalização e depois para a expulsão das alas esquerdas, esses partidos foram-se transformando em câmaras de eco do nacionalismo junto à classe trabalhadora. A luta de classe foi substituída pela geopolítica.

Referências

A carta de Engels para Kautsky, de Fevereiro de 1882, acerca da questão polaca vem em Paul W. Blackstock e Bert F. Hoselitz (orgs.) The Russian Menace to Europe, by Karl Marx and Friedrich Engels, Glencoe: Free Press, 1952, pág. 117. O decreto apresentado por Trotsky ao 5º Congresso dos Sovietes encontra-se em Isaac Deutscher, Trotsky. I: Le Prophète Armé (1879-1921), Paris: Julliard e Union Générale d’Éditions (10/18), 1972, vol. II, págs. 244-245 e em Parti des Socialistes-Révolutionnaires de Gauche (Internationalistes), La Russie Socialiste (Événements de Juillet 1918), Genebra: Reggiani, 1918 (reprodução fac-simile em Les Socialistes-Révolutionnaires de Gauche dans la Révolution Russe. Une Lutte Méconnue, Paris: Spartacus, 1983), págs. 59-60. O panfleto defensista de 1918 pode ler-se em Edward Hallett Carr, A History of Soviet Russia. The Bolshevik Revolution, 1917-1923, Harmondsworth: Penguin, 1966, vol. III, pág. 67. As considerações de Trotsky acerca da supressão da diplomacia secreta encontram-se em Deutscher, vol. II, pág. 163. Os termos do acordo de 27 de Agosto de 1918 e as palavras empregues por Tchitcherin a respeito deste acordo e dos outros assinados na mesma data estão em Carr, vol. III, págs. 94 e 95. A passagem de Leon Trotsky, considerando que a revolução alemã pusera em risco o Estado soviético, encontra-se na sua obra Terrorisme et Communisme (L’Anti-Kautsky), Paris: Union Générale d’Éditions (10/18), 1963, pág. 191. A nota de Trotsky de 4 de Junho de 1920 está reproduzida em Jan M. Meijer (org.) The Trotsky Papers, 1917-1922, Londres, Haia e Paris: Mouton, 1964-1971, vol. II, pág. 209. As declarações de Karakhan a respeito da revolução na Índia estão registadas em Alexandre Berkman, Le Mythe Bolchevik, Baye: La Digitale – Calligrammes, 1987, pág. 60. As recordações de Blumkin encontram-se em Jean Rière e Jil Silberstein (orgs.) Victor Serge. Mémoires d’un Révolutionnaire et autres Écrits Politiques. 1908-1947, Paris: Robert Laffont, 2001, pág. 711. As citações do preâmbulo do tratado soviético-turco, de Março de 1921, e as declarações de Radek acerca da Turquia no 4º Congresso da III Internacional estão em Carr, vol. III, págs. 303 e 476. As declarações de Bukharin no mesmo congresso vêm em Stephen F. Cohen, Bukharin. Uma Biografia Política, 1888-1938, São Paulo: Paz e Terra, 1990, pág. 174. A frase das decisões tomadas por esse congresso relativamente à Turquia e as declarações de Bukharin no 12º Congresso do Partido Comunista Russo encontram-se em Carr, vol. III, págs. 478 e 479.


Comentários 6

    • PL

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      jun 4, 2009

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      São dos momentos mais agudos da luta de classes que podemos tirar grandes ensinamentos. O que você escreveu, relatando e mostrando algumas minúcias do processo histórico das lutas sociais do início do século XX, contribue muito para isto. Muito esclarecedor. Obrigado por mais um João.

    • J.R.Paiva

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      jun 4, 2009

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      O texto é também importante para perceber o porquê da repressão da GPU e do PSUC catalão ao proletariado revolucionário espanhol da CNT/FAI e do POUM, na Espanha de 36-38 (como se documenta também no filme “Terra e Liberdade” de Ken Loach). Ou também o porquê da “estratégia” do PCP de “unidade de todos os portugueses honrados” , nos anos 60, em detrimento da luta de classes e da revolução social…Ou também, do 25 de Abril de 74 ao 25 de Novembro de 1975, em Portugal, o porquê da oposição do PCP a tantos movimentos operários e populares que lutavam contra o capitalismo e já não só contra “o fascismo e os monopólios”… Tal como em 36-39 em Espanha, não convinha à estratégia da antiga URSS e bloco dos estados do “socialismo real” (nem à R.P.China, diga-se de passagem) que qualquer coisa parecida com um processo de revolução social ANTI-CAPITALISTA pudesse ocorrer neste canto da Europa…Daí o papel REACIONÁRIO que o PCP assumiu em tantas lutas operárias e populares anti-capitalistas (e mesmo “antifascistas”) logo após o 25 de Abril de 74, entre elas a dos operários da Lisnave, a dos Correios, a do “25 Janeiro 75”, no Porto …
      Ainda me lembro do que se passou, por ex.º, num comício dos Metalúrgicos do Norte, de que eu também fazia parte, no palácio de cristal, no Porto, em que o discurso predominante dos dirigentes sindicais era o de “consolidar, consolidar, a democracia” e o de que “quem fazia greve era reacionário e destabilisava a democracia” e “estava a soldo da reacção”…

      São coisas sobre as quais os actuais jovens -e alguns menos jovens -militantes do PCP nada sabem, mas que precisam saber!…
      Por isso também me tornei libertário e adepto das ideias do anarquismo social e do anarco-sindicalismo – que se por cá ainda tem uma fraca expressão, tenderão certamente a crescer nestes momentos de “crise”…

    • |

      jun 4, 2009

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      Quando se identifica marxismo e comunismo com bolchevismo é fácil tirar daí conclusões pró-anarquistas, ou melhor, anti-marxistas. A questão é que este artigo ignora completamente os comunistas de esquerda e os comunistas de conselhos. Podem parecer agora insignificantes mas não eram na época considerada. Aliás, eles fizeram e têm feito as críticas feitas aqui ao bolchevismo.

    • João Bernardo

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      jun 5, 2009

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      Caro António Oliveira
      Não creio que neste artigo eu tivesse «ignora[do] completamente os comunistas de esquerda e os comunistas de conselhos». Comecei por mencionar os precursores de Rosa Luxemburg no Partido Social-Revolucionário do Proletariado e por evocar a posição internacionalista da própria Rosa e chamei a atenção para Sneevliet, que infelizmente continua menos conhecido do que outros marxistas de esquerda holandeses. Recordei também que a posição adoptada por Lenin e seguidamente por Trotsky nas conversações de Brest-Litovsk deparou com a hostilidade de uma facção bolchevista de esquerda, muito numerosa, além dos socialistas-revolucionários de esquerda. Finalmente, no último parágrafo, escrevi que a orientação nacionalista seguida pelos dirigentes soviéticos e pela III Internacional teve de enfrentar a oposição de facções de esquerda, internacionalistas, nos demais partidos comunistas. Aliás, como eu próprio sou marxista, a minha crítica ao nacionalismo marxista não poderia deixar de ser uma crítica… marxista.
      Cordialmente,
      João Bernardo

    • Vinicius

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      dez 11, 2011

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      O grande problema de muitos marxistas (não é o caso do João bernardo) é que tratam os escritos de Marx como dogma, e qualquer crítica aos textos sagrados vira um grande sacrilégio. Como é o caso do nosso amigo António Oliveira, que se tivesse analisado os artigos com mais cuidado, não falaria o que disse na postagem aqui em cima. Aliás falta leitura pra maioria dos marxistas.

    • |

      ago 5, 2016

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      Belo e contundente texto camarada. Quando debato em sala sobre esta época , tenho sempre cuidado de evidenciar ” …devemos sempre entender o contexto histórico daquele momento…” A Russia totalmente inviabilizada economicamente pela guerra ( 1914 – 1918 ) , com objetivos de uma via revolucionária prática em 1917 , bem como , tendo de enfrentar uma interferência estrangeira de 14 nações até 1921 , fico a imaginar tal momento e a discussão de saídas ‘ plausíveis” na tarefa de defender a primeira experiência socialista do planeta. LENIN em seus escritos se mostra coerente e muito claro nos caminhos possíveis na tarefa de vencer a intervenção e em angariar apoio dos conselhos . Sobre o nacionalismo : “” …Lênin / 1920 – Era essencial trabalhar por uma união federativa mais firme, tanto política quanto economicamente; mas, ao mesmo tempo, advertia Lênin, completo reconhecimento dos direitos das nações e minorias, inclusive o direito a Estados separados deveria ser apoiado. ”
      ONU – AS PESSOAS TEM DIREITO A UM LEVANTAMENTO ARMADO .
      Por fim, os marxista-leninistas definem nacionalidade como um atributo da (condição de pertencer a uma) nação. Ela não é um formalismo jurídico-político.

      Escreveu Lênin: “por autodeterminação das nações entendemos a sua separação estatal das coletividades nacionais estrangeiras, a formação de um Estado Nacional independente

      “Acusar os partidários da liberdade de autodeterminação, isto é, da liberdade de separação, de estimular o separatismo é tão absurdo e hipócrita como acusar os partidários da liberdade do divórcio de estimular a destruição dos laços familiares”. Continuou ele: “Posso reconhecer a uma nação o direito da separação, mas isso não significa que a obrigue a separar-se. O povo tem o direito a separar-se, mas pode, segundo seja a situação, não usar desse direito”.
      Diz Lenine: “O direito de autodeterminação das nações significa exclusivamente o direito à independência no senso político, à livre separação política da nação opressora.
      Concretamente, esta reivindicação da democracia política significa a plena liberdade de agitação em pró da separação, e de que esta seja decidida por meio de um referendo da nação que deseja separar-se”. (Obras Completas, t. XXII, p. 158).

      Подробнее: http://comstol.info/2011/11/politika/2637

      Esta é uma tentativa de voltar mais uma vez para as palavras vivas de Lenin, para encontrar algumas respostas e talvez pensar em algo importante.
      Leia Lenin, se você está interessado nos problemas da sociedade e da história da Rússia. Leia Lenin, se você se preocupa com o presente e o futuro do nosso país e do mundo.
      Parabéns pelo texto camarada. O Marxismo continua vivo …. A luta continua !!!

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