O Movimento de Ação Direta Britânico dos anos 1990 (II)

O Movimento de Ação Direta Britânico dos anos 1990 (II)

em 27 ago

A luta da M11, em 1993 e 1994, foi um marco para o movimento de ação direta britânico. Entre outras coisas, pela questão social ter aparecido de forma mais clara ao movimento, para além da questão ambiental. Por Leo Vinicius

Em 1993 se iniciaria a resistência mais marcante do movimento antiestradas, de fundamental importância na evolução do movimento de ação direta britânico. A resistência à construção de uma estrada pela região leste de Londres que ligaria à rodovia M11, diferentemente de outras campanhas antiestradas, envolvia diretamente questões sociais, e não apenas ambientais, uma vez que a estrada atravessaria uma comunidade e destruiria centenas de casas. Não se tratava de preservar uma natureza selvagem e intocada, mas de defender lares e uma comunidade urbana. A luta contra a M11 foi importante também por ter reunido diferentes grupos – ecologistas de ação direta, anarquistas urbanos, punks, grupos de esquerda como Class War e grupos locais mais focados em campanhas específicas – ajudando a alargar a base do movimento de ação direta.

A resistência ativa à construção da estrada que ligaria à M11 começou em setembro de 1993, quando as escavadeiras e tratores chegaram. Nos dois primeiros meses a maioria das pessoas que sentava em frente aos tratores, que ocupava locais e árvores e que se acorrentava às máquinas era de eco-ativistas experientes que haviam se mudado para lá semanas antes – muitos deles participantes da resistência de Twyford Down e de outras. Composição que pareceria paradoxal na medida que a construção dessa estrada envolvia a destruição de casas (cerca de 350) muito mais do que de “árvores” e da “natureza”.

As casas evacuadas, embora sendo logo parcialmente destruídas para evitar a reocupação por squatters (pessoas que ocupam edificações abandonadas), eram recuperadas tanto como algo a ser defendido em si mesmo quanto para servir de ponto de resistência, de reunião, de base de comunicação e de habitação para aqueles que chegavam para se opor à construção da estrada.

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Defendendo a árvore

A comunidade local, embora em geral não quisesse a estrada, não se envolvia diretamente nas ações de resistência, achando que já não havia o que fazer para a deter, uma vez que todos os recursos jurídicos e políticos haviam falhado. Isso começaria a mudar quando uma cerca de mais de dois metros de altura foi posta em volta de uma castanheira de quase 300 anos em uma localidade chamada George Green. Apesar da construção dessa estrada levar à demolição de várias casas, foi somente ao perceber que a castanheira de 300 anos seria derrubada que a comunidade realmente se mobilizou contra a construção e partiu para a ação direta, dando um grande impulso à luta da M11. Isso porque a árvore, ao contrário das casas, era percebida como algo comum, e tinha um valor simbólico e histórico principalmente para as crianças. No dia 6 de novembro foi organizada por eco-ativistas e militantes locais uma cerimônia com crianças vestidas de árvore em torno da castanheira. Muitas famílias da comunidade assistiram à cerimônia. Alguns ativistas tentaram escalar a cerca, mas foram contidos por seguranças que guardavam o local. As crianças começaram então a escalá-la, e a partir de então os seguranças e polícias não sabiam o que fazer. Uma escavadeira foi ocupada e expulsa do local. A enorme pilha de terra foi posta de volta pelos moradores, usando sacos, cobrindo novamente a raiz da castanheira. A cerca foi posta abaixo rapidamente. Durante o final de semana foram plantadas flores no local e quase toda a terra havia sido posta de volta no lugar. Uma casa foi construída na árvore. O local se tornou ponto de encontro da comunidade e de todos que resistiam à construção da estrada, criando um contato antes inexistente entre os próprios residentes locais e entre estes e os eco-ativistas. Mais de quatrocentas cartas de apoio à árvore foram enviadas (para a casa construída na árvore), e a luta contra a ligação à M11 começou a ser noticiada pela imprensa.

Dia 7 de dezembro a árvore foi derrubada, com o uso de 400 policiais.

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Derrubando a árvore
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Wanstonia

Em janeiro de 1994 as casas ocupadas pelos ativistas no bairro de Wanstead foram declaradas como “Área Autônoma Livre de Wanstonia”, numa forma de trazer atenção e publicidade à resistência. A “queda” de Wanstonia, em 16 de fevereiro de 1994, se deu com a presença de 700 policiais, que retiraram as centenas de ativistas dos telhados das casas, onde resistiam de forma não-violenta à desocupação. Após a queda de Wanstonia as energias foram jogadas em uma operação de interrupção de todo e qualquer local onde a estrada estivesse em construção. Pulava-se as cercas dos canteiros de obras, subia-se nas máquinas, acorrentava-se a elas, sabotava-se a obra. O custo da obra crescia tanto pelo seu retardo quanto pela quantidade de seguranças e policiais que tinham que ser alocados.

A resistência continuaria, com ocupação das casas que seriam demolidas, sabotagens, interrupções das obras, invasão dos canteiros de obra até o segundo semestre de 1994, quando ocorreria a batalha final, em Claremont Road, uma rua que havia sido ocupada totalmente e transformada em um cenário surreal. A rua fora transformada em uma sala-de-estar, com carros transformados em vasos de flor, com sofás, obras de arte plástica – muitas das quais eram preenchidas com concreto, servindo ao mesmo tempo e principalmente de barricada. Uma multiplicidade de táticas foi utilizada para resistir ao despejo, a partir da criatividade das cerca de 500 pessoas que permaneciam no local. Foi o mais longo e mais caro despejo da história da Inglaterra, durando cinco dias e custando 2 milhões de libras, com o efetivo de mais de 700 policiais e 400 seguranças, ao som da música eletrônica do grupo Prodigy, posta pelos ativistas.

Despejo em Claremont Road

Para as pessoas engajadas na ação direta antiestradas, e especialmente em Claremont Road, não se tratava de simples reação à destruição, mas de afirmação da vida, da autonomia. Claremont Road, e a luta contra a M11, seria uma experiência fundamental para centenas de pessoas envolvidas. John Jordan, professor universitário de arte, uma das pessoas chave e mais ativas do Reclaim The Streets de 1995 ao final de 2000, descreve a sua experiência de ação direta contra a M11 como algo que ocasionou uma influência política e pessoal profunda:

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Claremont Road, luta contra a M11

Para Jordan “ação direta é ação não-mediada e imediata para mudar algo”.

“Ação direta diz respeito a tomarmos controle direto sobre nossas vidas, recusando aceitar a autoridade de burocratas ou de políticos, ‘líderes’ ou ‘especialistas’, para agir em nosso favor. Ela se distancia dos perigos e traições da representação (…). Não é uma última opção, algo que usamos quando todas as outras formas de campanha – como escrever cartas ou fazer lobby – se esgotam. Ela é o oposto disso: é a forma preferencial de fazer as coisas e é ao mesmo tempo uma maneira de atuar e um modelo de como vemos uma sociedade futura funcionar.”

O Reclaim The Streets seria re-formado em fevereiro de 1995, com o término e como um dos resultados da experiência de resistência à M11. Mais especificamente, pode-se perceber o RTS como uma continuidade da experiência de Claremont Road. Uma rua retomada e transformada em um espaço lúdico. Com som e muita criatividade a rua era retomada dos carros, com uma crítica ecológica e social implícita. Esse espectro rebelde e criativo de Claremont Road se espalharia pelo Reino Unido nos anos seguintes através do RTS.

A luta da M11 teve a participação da comunidade local, mas em geral as atividades desempenhadas pelos locais se diferenciavam da dos eco-ativistas. O nível de engajamento em ações diretas que poderiam causar ferimentos ou detenção era substancialmente menor entre os locais, em parte por medo de que isso comprometesse seus empregos. Acabavam predominantemente fornecendo apoio logístico e material aos ativistas e “eco-guerreiros” – expressão forjada pela mídia britânica durante a resistência em Twyford Down. Vários trabalhadores da construção civil, que tinham empregos relativamente bem pagos, se somaram à resistência, preferindo trabalhar gratuitamente pela causa que por um salário, como foi o caso especialmente em Claremont Road. Ou seja, em alguma medida um leque social maior foi envolvido na luta, embora predominante e hegemonicamente, mas não estritamente, a resistência tenha sido levada por uma juventude ativista. Como salientou o coletivo comunista britânico Aufheben, o capital requer que aqueles que se conformam percebam os estilos de vida daqueles que não se conformam como não-atrativos e precários. E o modo de vida adotado por muitos ativistas na luta da M11 teria sido o oposto disso, ou seja, teria se mostrado atraente, apontando ainda para o modo que a sociedade como um todo poderia viver. Além disso, para Aufheben essa forma de existência alternativa e subversiva durante a luta da M11 teria nascido de necessidades práticas imediatas de resistência, e não de idealismo.

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Claremont Road, 1994

Pela lei britânica até então em vigor a invasão de propriedade não era considerada crime: a ocupação de canteiros de obras, assim como outras formas de ação direta, eram da esfera do direito civil e não do direito penal. Durante a luta da M11, no entanto, o governo do Reino Unido prepararia uma arma legal como resposta à ação direta do movimento antiestradas, mas que visaria também a repressão a contraculturas e atividades autônomas, de travellers ao squating, passando pelas raves – festas livres – e pelos ativistas de libertação animal. Mas a nova carta legal, chamada Criminal Justice Bill, ao invés de conseguir deter as práticas e contraculturas que ela pretendia criminalizar, acabou unindo e criando laços entre diferentes contraculturas e grupos, com o objetivo inicial de combater a nova lei. Ela foi recebida como um ataque aos vários estilos de vida e formas políticas “alternativas”, unindo todos eles em torno de uma defesa comum, dando visibilidade ao que ficaria conhecido na Inglaterra nos anos 1990 como cultura do faça-você-mesmo (do-it-yourself culture). Especialmente a cena rave se politizou, e se tornou um foco de comunidade para muitos nesse período. Na leitura feita por Aufheben, o que unia esses grupos de tal modo a se tornarem um alvo tão visado pelo governo seria que, embora pudessem estar longe de conscientemente declarar guerra ao capital, eles compartilhavam uma recusa à ética do trabalho, a uma vida subordinada ao trabalho assalariado.

(continua)

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Referências usadas

As publicações do coletivo inglês Aufheben: http://www.geocities.com/aufheben2/ ;

A revista Do or Die: http://www.eco-action.org/dod

ADAMS, D.; ROOTES, C.; SEEL, B. The Old, the New and the Old New: British environmental organizations from conservationism to radical ecologism. Artigo apresentado no Workshop “Environmental Organisations in Comparative Perspective”, ECPR Joint Sessions, Copenhagen, 14–19 de abril, 2000;

JORDAN, John. The Art of Desertion. Apresentado em Live Culture – Live Art at the Tate Modern, Londres, 2003. Disponível em http://amsterdam.nettime.org/Lists-Archives/nettime-l-0304/msg00016.html


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