A política além do voto

A política além do voto

em 6 abr

Em época de eleição tornam-se frequentes mensagens e argumentos que enfatizam a culpa dos problemas do país nos cidadãos, que não sabem eleger. Gostaria de fazer algumas objeções a este tipo de retórica. Por Luiz Antonio Guerra

voto1É preciso ser franco: um voto, um único voto, não muda nada, principalmente se tivermos em mente que estamos tratando da democracia representativa tal como é a brasileira, com todas as suas falhas e contando com 130 milhões de eleitores [1]. O poder de mudança do voto a nível macro é irrisório, mesmo se um indivíduo convencer todo o seu círculo social a votar em um único candidato. É praticamente nulo o poder individual de influenciar através do voto em alguma decisão do governo, de determinar alguma política pública ou mesmo de impedir um governante corrupto de exercer seu cargo. É muito maior tal capacidade ao exercer um cargo público, participar de alguma organização social, recorrer a meios como lobby ou marketing.

O que quero deixar claro é a armadilha que se pode cair ao dar tanta ênfase ao método eleitoral, ao delegar tamanha importância a um dia apenas de outubro a cada quatro anos – e descansar os outros 1460 dias com a sensação de missão cumprida. O voto, entretanto, tem uma função fundamental: o poder simbólico de legitimar esta democracia representativa. Cada indivíduo que confirma seu voto na urna está confirmando seu credo no sistema político brasileiro, ainda que de maneira crítica e não conivente com as falhas sistêmicas e com os casos de corrupção. Mais do que eleger um candidato, cada cidadão que vota exprime sua vontade de que seja governado por tal candidato e que aceitará o vencedor de acordo com as regras do jogo, seja ele quem for.

Dar tanta importância aos votos do povo brasileiro, tratando esse como despreparado para o exercício da democracia, pode – repito – esconder uma grande armadilha. Afinal, quem é mais despreparado para o exercício democrático: o povo ou as elites políticas? Quem são os responsáveis pelas políticas ineficientes, mau gasto do dinheiro público, prostituição partidária, tráfico de influência, nepotismo, casos de corrupção sem fim? Quem é que a cada eleição investe pesado em marketing político?

Considerando o baixo poder de influência individual através do voto e somando ainda a conivência do judiciário, alguns setores da população recorrem a meios não formais de participação política: manifestações de rua, ocupação de terras e órgãos públicos, intervenções artísticas, boicote, greves e outros meios de ação direta. Entretanto, os mesmos críticos que acusam o povo de não estar preparado para exercer a democracia condenam tais tipos de participação política. Esses casos de manifestações radicais são sistematicamente estigmatizados pela mídia dominante e tratados de forma repressora pelo Estado. Ainda assim, podemos perceber o quão essenciais foram essas formas de participação política para as conquistas de assentamentos do MST ou para a retirada de políticos envolvidos em esquemas de corrupção, como fora recentemente o caso de Arruda e Paulo Otávio no Distrito Federal.

Um dos mais reconhecidos cientistas políticos do país, José Murilo de Carvalho [2], ao se deparar com tal problemática, tendo como urnaprincipal preocupação a formação da cidadania no Brasil, questionava se culpar o povo eleitor e condenar métodos mais radicais de participação política não é consequência antes do tipo de povo ou de cidadão que se busca. Como a democracia é um sistema político importado de outros países economicamente mais desenvolvidos, idealiza-se tal forma de governo e cidadãos mais cultos e submissos às leis. Outra vez insisto que o comportamento do cidadão é um reflexo da própria democracia formal que temos. Em outras palavras, como respeitar leis com as quais não se concorda, frutos de uma política podre num país tão desigual?

Ainda que não dê tamanha importância ao mecanismo eleitoral, não é meu intuito isentar a população de culpa. Tenho a plena convicção de que não há como construir uma sociedade sólida e saudável com níveis de educação tão baixos. Entretanto, outra vez voltamos o alvo às elites políticas, ou não é competência do Estado garantir educação de qualidade para todos os brasileiros? A quem interessa um povo tão desinteressado? Mais que um analfabetismo eleitoral, o problema político está na escassa participação de toda a população (sem excluir nenhuma classe social) no período extra-eleitoral. É preciso entender os processo sociais, reconhecer que a política é a administração da vida coletiva e, portanto, da própria vida e da vida dos outros. Entender que a política vai muito mais além do voto é assumir, verdadeiramente, o título de cidadão – e não apenas o título de eleitor.

Notas:

[1] http://tse.gov.br – Estatísticas.

[2] CARVALHO, J. M. Os Bestializados: O Rio de Janeiro e a República que não foi. Companhia das Letras, São Paulo, 1989


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