É sob a dupla influência da religiosidade popular e dos escritos e do mito em torno de Marcus Garvey que se forma o movimento rastafari, responsável pela última onda do retorno à África e pela “canonização” do imperador etíope Haile Selassie I. Por Manolo e João Bernardo

Veja aqui todas as 5 partes da série De Volta à África.

Haile Selassie I
Haile Selassie I

Dissemos em momento anterior que o fracasso prático de Marcus Garvey em suas tentativas de estabelecer o retorno à África como meio de estabelecimento de uma nova elite negra nos países africanos não representou em absoluto um fracasso ideológico: centenas de milhares de pessoas o haviam seguido, muitas mais o haviam escutado e a imprensa da UNIA atingiu durante anos uma tiragem considerável, sendo lida em diversos países e territórios coloniais, e proibida em alguns deles. Enquanto militantes da resistência africana seus contemporâneos como W. E. B. DuBois e os integrantes da National Association for the Advancement of Coloured People (NAACP) confrontavam diretamente as ideias segregacionistas de Booker T. Washington com argumentos de cunho científico em prol da conquista de direitos políticos nos países onde se encontravam, Garvey, também um segregacionista em polêmica contra DuBois [1], transformou o retorno à África num elemento messiânico do movimento mundial de resistência negra, que tomava então as formas que conhecemos hoje. E é sob a dupla influência da religiosidade popular, alimentada por um milenarismo cristão originado das duras condições de vida do povo negro antilhano, e dos escritos e do mito em torno de Marcus Garvey que se forma o movimento rastafari nas Antilhas, responsável pela última onda “popular” do retorno à África e pela “canonização” do controverso imperador etíope Haile Selassie I.

Alexander Bedward
Alexander Bedward

Na Jamaica do início do século XX, onde os maroons permaneciam presentes no imaginário popular, a Jamaica Native Baptist Free Church – seita batista fundada em 1889 por Harrison E. S. Woods no bojo do avivamento cristão ocorrido entre 1850 e 1900 – era a religião de maior apelo popular, especialmente sob a liderança de Alexander Bedward. Já em 1895 ele conclamava seus fiéis a “lembrarem-se de Morant Bay”, a grande rebelião jamaicana de 1865, e identificava-se como Paul Bogle, um de seus líderes; em um de seus sermões mais famosos, disse que “há um muro branco e um muro negro, e o muro branco fechava-se em torno do muro negro; mas agora o muro negro está ficando maior que o muro branco, e deve derrubá-lo. Por anos o muro branco nos oprimiu; agora devemos oprimir o muro branco” [2]. Bedward foi preso e internado num asilo por três semanas, e não se ouviu mais falar dele até 1921, quando tentou liderar seus fiéis em procissão de Augustus Town, seu reduto, até Kingston; como a administração colonial inglesa na Jamaica e a classe média de Kingston temiam uma reprise do levante de Morant Bay, a prisão de Bedward foi novamente ordenada. Por haver se apresentado sinceramente às autoridades policiais como Jesus Cristo, sua prisão por sedição foi convertida em novo internamento, e em 1930 Bedward morreu entre loucos [3]. Antes de mudar sua identidade de Paul Bogley para Jesus Cristo, Bedward aproximara-se do movimento garveísta, levando consigo muitos fiéis que viam em Garvey um profeta ou o novo Moisés.

Outras expressões da religiosidade popular floresciam então na Jamaica, todas vendo em Marcus Garvey a encarnação de algum santo ou profeta. Em 1924, Robert Athlyi Rogers, anguilhano fundador da religião afrocêntrica Gaathly [igreja] Construtiva Afro-Athlicana, publicou a Piby Sagrada, texto que aclamava tanto Marcus Garvey quanto Robert Lincoln Poston e Henrietta Vinton Davis – duas figuras de peso na Universal Negro Improvement Association de Garvey – como apóstolos, conferia status divino a seus já conhecidos propósitos de migração para a África [4]. Em 1926, o Real Pergaminho da Supremacia Negra, obra religiosa escrita por Fitz Balintine Petersburgh com a técnica surrealista do fluxo de consciência, referia-se muito favoravelmente a Garvey como um “piloto” que levaria os negros de volta à África, além de mencionar Robert Rogers em várias passagens [5]. Ambos os textos são tidos como precursores diretos do movimento rastafari.

Não é possível analisar estes textos sem fazer menção à Bíblia e ao etiopismo. Já o livro do Gênese (2:13) situa o reino de Cuch ao sul do jardim do Éden e o menciona quarenta vezes somente no Antigo Testamento [6]. A Septuaginta – base de muitas traduções modernas da Bíblia, junto com a Vulgata – traduziu o hebraico “Cuch” como “A’ithiopia” [7], raiz grega da atual denominação, já encontrada na obra de Heródoto [8]. De fronteiras fluidas, este território abrange a região localizada atualmente entre o norte do Sudão, o sul do Egito e partes da Etiópia, Eritreia e Somália. Esta “confusão” entre Etiópia e África está presente na raiz do etiopismo enquanto ideologia popular na Jamaica. George Lisle, primeiro missionário batista a chegar à colônia no século XVIII, convertia novos fiéis afro-descendentes ressaltando as passagens da Bíblia que falavam da Etiópia (África) para gerar identificação entre o conteúdo bíblico e seus leitores, e sempre iniciava seus sermões com a mesma exortação: “Levantai, ó filhos da Etiópia”. A própria salvação milenar cristã era ensinada por Lisle como o advento de um novo império etíope, amalgamado com a libertação social e política da opressão. Nem a posterior chegada de missionários batistas britânicos, enviados à Jamaica para corrigir esta “heresia”, foi capaz de redirecionar o etiopismo segundo os preceitos batistas tradicionais. Com esta bagagem histórica, não era de se estranhar que a Etiópia fosse assunto corrente entre os jamaicanos de origem africana no começo do século XX, muitos inclusive clamando ancestralidade etíope e mesmo ascendentes da linhagem salomônica [9].

Mapa histórico com os limites aproximados dos impérios kushita e aksumita
Mapa histórico com os limites aproximados dos impérios kushita e aksumita

Historicamente falando, a região assim demarcada pela Bíblia foi a sede dos impérios cuchita e aksumita. O primeiro chegou a dominar o Egito durante a 25ª dinastia faraônica (entre 760 e 656 a.C.) e entrou em declínio após uma guerra contra a província romana do Egito no século I; seu sucessor, o segundo, principal ator comercial entre o Império Romano e a Índia, floresceu até o século XII de nossa era. Com o declínio do império aksumita, a região foi controlada pela dinastia Zagüe, antes de seu último nəgusä nägäst [10] ser assassinado por Yekuno Amlak, autoproclamado descendente de Dil Na’od, último rei de Aksum, e de Menelique, tido como descendente direto do rei Salomão e da rainha de Sabá [11]. Yekuno Amlak é o primeiro nəgusä nägäst da dinastia salomônica, à qual pertenceu o ras [12] Tafari Makonnen, que assumiu o trono etíope em 1930 com o nome – conveniente com a posição do cargo dentro da Igreja Ortodoxa Etíope Tewahido – Haile Selassie (“Poder da Trindade”), Rei dos Reis, Eleito de Deus, Leão Conquistador da Tribo de Judá.

A coroação de Selassie, como seria de se esperar num país onde o etiopismo era ideologia forte, foi primeira página do Daily Gleaner, principal jornal da Jamaica [13], mas a ligação de Selassie com o movimento rastafari – em si, uma variação de seu próprio nome – começa com a publicação, em 1935 (cinco anos após a coroação de Selassie), da Chave Prometida, escrito pelo líder religioso jamaicano Leonard Percival Howell sob o pseudônimo Gong Guru (G. G.) Marajh [14]. A obra é um resumo melhorado do Real Pergaminho da Supremacia Negra, a esta altura proibido na Jamaica, assim como a Piby Sagrada. A principal diferença entre o Real Pergaminho e a Chave Prometida é a substituição, por Howell, das identidades do Rei Alfa e da Rainha Ômega: enquanto Fitz Balintine Petersburgh insere a si mesmo e sua esposa em tais papéis, Howell os substituiu por Haile Selassie e sua esposa, a rainha Menen Asfaw. Fazendo-o, Howell seguia uma suposta profecia de Marcus Garvey, segundo a qual a coroação de um rei negro na África seria um sinal para os negros de que o dia da salvação estaria próximo [15]. Howell, anti-colonialista convicto [16], tinha como seu “segundo em comando” e sucessor Robert Hinds, um dos mais famosos seguidores de Alexander Bedward, que num futuro breve arregimentaria centenas de seguidores [17]. Outros antigos bedwardistas haviam se tornado seguidores de Howell.

Leonard Percival Howell
Leonard Percival Howell

Para estes profetas e líderes religiosos populares, como é regra no campo religioso, mito e história são tomados como constituintes de uma só narrativa, atemporal e imutável. A Etiópia bíblica, seguindo a tradição etiopista na qual se inseriam, era por eles interpretada como sendo a África inteira, e sua existência passada é confundida com sua existência atual. De nada lhes importava o patrimonialismo característico do reinado de Selassie e a progressiva centralização do poder que levou a comparações de seu reinado com as monarquias absolutas europeias dos séculos XVI e XVII [18]. Uma breve descrição do regime de Selassie demonstra suas contradições constituintes:

O grande paradoxo do Imperador Haile Selassie era ser um líder reacionário e retrógrado em seu país, mas um símbolo de radicalismo e mesmo de revolução no exterior. Em seu país, o Imperador e seus nobres preocupavam-se não apenas com a preservação da independência etíope, mas também em manter a antiga ordem política, econômica e social do país. Politicamente a Etiópia era governada por uma pequena classe dirigente, a aristocracia feudal amárica, que consistia de Imperador e seus nobres. Eles eram não apenas uma classe social dominante; eram também os líderes do grupo étnico predominante no país. Um parlamento existia, mas era uma simulação. O imperador escolhia os membros da Casa Alta com os nobres, e a Casa Alta, consistindo geralmente da alta nobreza, escolhia a Casa Baixa entre a baixa nobreza. A política partidária não era permitida. A política consistia de faccionalismo em torno de candidatos rivais ao trono, ministérios e governadorias. Quanto ao pertencimento étnico, muitos dos não-amáricos, especialmente os gala e os somali, sentiam-se tão livres sob Haile Selassie quanto qualquer comunidade africana governada pelos colonialistas brancos. Dificilmente qualquer tipo de desenvolvimento econômico ou social moderno tomou lugar entre a morte do grande reformador Menelik em 1913 e a invasão italiana de 1935. Indústrias não existiam, e não se ouvia falar de sindicatos. Não havia a classe média de comerciantes ou da intelligentsia entre a aristocracia e o campesinato. Uma modestíssima expansão da educação nos primeiros anos do regime de Haile Selassie sequer causou qualquer impressão sobre o analfabetismo que grassava entre a maioria da população. A Etiópia, então, era um estado feudalista negro. [19]

Cecil Rhodes, agente britânico de colonização da África
Cecil Rhodes, agente britânico de colonização da África

Não obstante tamanhas contradições, a Etiópia de Haile Selassie era tida pelos africanos da diáspora, e especialmente entre aqueles que seguiram Garvey ou foram por eles influenciados de alguma maneira, como uma chama de esperança entre os africanos da diáspora, oprimidos e explorados nos quatro cantos da Terra. O cumprimento da profecia de Garvey era o elemento mais importante, e tais aspectos terrenos eram de pouca importância diante da realização do reino de Jah na Terra. A Etiópia havia sido deixada de lado na divisão da África estabelecida pelas potências europeias reunidas no Congresso de Berlim (1895), fazendo dela, além de uma das mais antigas monarquias do mundo à época, uma das poucas nações africanas não-colonizadas. A encarniçada resistência etíope contra a invasão italiana (1935-1941) inspirou negros no mundo inteiro a adotar formas mais radicais de resistência. Os muitos títulos reais de Selassie assemelhavam-se a outros encontrados na Bíblia [20].

A combinação entre milenarismo, pan-africanismo militante e profetismo bíblico que marcaram o início do movimento rastafari [21] levaram-no – não sem uma longa história de rejeição e perseguição por parte da elite jamaicana, a que respondeu com a criação de guardas rastafari para garantir a segurança dos cultos públicos e das sedes [22] – a espalhar-se muito rapidamente por toda a Jamaica ainda na década de 1930, chegando ao auge na década de 1960. As futuras cisões do movimento em suas atuais mansões (Bobo Shanti, Niyabinghi, Doze Tribos de Israel etc.), seu futuro encontro com Haile Selassie em sua visita à Jamaica em 1966 (tida pelos rastafari como dia santo), as tentativas de integrá-lo à Igreja Etíope Ortodoxa Tewahido na década de 1970, sua crítica feroz ao colonialismo [23] e outros fatos marcantes da história rastafari não importam muito neste instante; interessam, sim, outras formas de aproximação entre a fé rastafari e a política pan-africanista na pauta do retorno à África.

Em 1936, três líderes da organização United Aid for Ethiopia viajaram para a Inglaterra, rumo ao local de exílio de Haile Selassie durante a invasão italiana. Pretendiam conversar sobre questões financeiras relativas à organização. O resultado desta conversa foi a criação, em 1937, da Ethiopian World Federation [Federação Mundial Etíope] – EWF. Os objetivos destes membros fundadores podem ser vistos no preâmbulo do estatuto da Federação:

Nós, o povo negro do mundo, tendo como objetivos efetivar a Unidade, Solidariedade, Liberdade e auto-determinação, para assegurar a Justiça e manter a Integridade da Etiópia, que é nossa herança divina, doravante estabelecemos e ordenamos esta constituição para a Federação Etíope Mundial, Inc. [24]

James Piper
James Piper em Shashamane

Muitos rastafaris associaram-se à EWF. Em 1948, como forma de gratidão pelo apoio oferecidos por negros do mundo inteiro durante a resistência contra a invasão italiana – em especial pelos rastafari, e mais especialmente ainda aqueles ligados à EWF – Selassie doou-lhes 2km2 de suas terras pessoais próximas à cidade de Shashamane, a 240km da capital etíope, Addis-Abeba. Em 1955 a EWF confirmaria o recebimento destas terras, e no ano seguinte lá chegariam James Piper e família, os primeiros colonos deste novo retorno à África.

Em 1961, o governo jamaicano enviou à Etiópia uma delegação de rastafaris e leigos para discutir o repatriamento. Gladstone Robinson, outro membro da EWF e segundo administrador da colônia de Shashamane após o fim do mandato de Piper, foi o primeiro rastafari a chegar a Shashamane, em 1964. Foi seguido por Papa Noel Dyer, que saiu da Inglaterra rumo à Etiópia em 1964, pegando caronas e andando através da França, Espanha, Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Egito e Sudão até chegar em 1965 a Addis-Abeba, onde o imperador etíope o recebeu em pessoa e encaminhou-o a Shashamane no dia seguinte. Durante sua visita à Jamaica em 1966, Selassie estimulou ainda mais a migração rastafari para a Etiópia, e o volume de migrantes praticamente obrigou os líderes dos dois partidos jamaicanos, Hugh Shearer e Michael Manley, a visitar a colônia em 1969. Embora Shearer e Manley fossem primos e, ambos, antigos militantes sindicalistas, Shearer via com desconfiança o nacionalismo negro e o pan-africanismo, terreno em que Manley se sentia mais à vontade – tanto que resolveu aproximar-se do imperador etíope, recebendo dele, como prova de confiança, o Cajado de Josué, símbolo religioso que certamente o ajudou a vencer as eleições para primeiro-ministro em 1972.

Muito embora quase toda a terra da colônia haja sido confiscada pelo Derg após o golpe de Estado que depôs Selassie em 1974, hoje ainda vivem na comunidade cerca de duzentas pessoas – dez vezes menos que a população dos tempos do auge. Mesmo com o declínio do ideal messiânico do retorno à África – muito bem aproveitado para seus próprios fins por Selassie, “um autocrata medieval, um reformador moderno ou uma combinação dos dois” [25] – a Etiópia, e particularmente Shashamane, ainda são tidas pelos rastafari como sua pátria espiritual. Tanto assim que em 2005 circulou um rumor segundo o qual Rita Marley, viúva do mais famoso rastaman do mundo, pretendia transferir para lá os restos mortais de seu falecido marido, gerando polêmica na Jamaica. Na data em que se comemoraria o sexagésimo aniversário de Bob Marley, seus fãs, contrariando a tradição de festejar na Jamaica, reuniram-se na comunidade durante um mês para relembrar o ídolo – o que mostra a perseverança da ideia do retorno à África, setenta anos após a morte do seu último e maior profeta, Marcus Garvey. A África rastafari, transformada em utopia e mito, é uma “África” edênica, sem conflitos interétnicos ou interclassistas, uma “África” que precisa, segundo a ideologia rastafari, ser libertada da opressão da Babilônia. E é esta África mítica que servirá como pano de fundo de toda a política do pan-africanismo.

Notas

[1]: Garvey não economizava adjetivos contra seu adversário integracionista, chamando-o rotineiramente de “inimigo declarado da raça negra” e “mulato vadio e vendido”. Cf. Philippe Decraene. O pan-africanismo. São Paulo: DIFEL, 1962, p. 19.

[2]: Richard D. E. Burton. Afro-creole: power, opposition and play in the Caribbean. Ítaca: Cornell University Press, 1997, p. 116.

[3]: Richard D. E. Burton, ob. cit., pp. 118-119.

[4]: “No ano de mil novecentos e vinte e três, a palavra do Senhor Deus da Etiópia chegou ao apóstolo Marcus Garvey dizendo, ‘onde está teu colega’ [Robert Lincoln Poston]? E ele respondeu, ‘Pai, observai, pois ele está aqui comigo’. ‘Reuni os filhos da Etiópia’, disse o Senhor, ‘para que possam conhecer Meu pedido, e enviai uma missão à terra da Etiópia, que dei a seus filhos desde o início do mundo, para que preparem uma fundação para toda a posteridade da Etiópia, até o final dos tempos. Porque Eu, o Senhor Deus, virei julgar entre as três raças de homem; que o sofrimento caia sobre os de mãos vazias, os indolentes e os covardes. Trarei o julgamento sobre eles com o fogo e o enxofre, e nem mesmo o bebê no seio da mãe escapará’, disse o Senhor. ‘Preparai um termo de acordo’, disse o Senhor, ‘e entregai-o nas mãos de teu colega para que ele vá à terra da Etiópia (África) e às nações à entrada da terra, e solicite-lhes que abram a porta para o retorno de teus filhos. E Eu, o Senhor, irei com ele, e tocarei os corações das nações e elas cederão ao pedido. Então deverão os filhos da Etiópia retornar à sua própria terra e lá estabelecer uma luz com a qual nenhuma outra nação poderá se comparar, nem haverá poder suficiente para apagá-la. Pois Eu sou o Senhor Deus da Etiópia, e devo ter comigo um ungido, e eles devem ser meu povo enquanto seguirem os ensinamentos de meus apóstolos. Além disso, observa a teu lado a nobre Henrietta, adorada pelos céus pela grandeza de sua fé e pelo modo leal com que luta para salvar a Etiópia e sua geração da decadência duradoura. Ponha-a ao lado de teu colega, pois grande é sua sabedoria’, disse o Senhor (…). ”. (Cf. o original em http://www.sacred-texts.com/afr/piby) O texto narra, em estilo bíblico, a viagem realmente feita por Robert Poston e Henrietta Davis à Libéria em 1923 como parte de uma delegação da UNIA, tão infrutífera que Poston morreu – possivelmente de desgosto – ainda no trajeto de volta, no navio. Ver mais informações no sítio da UNIA: http://www.unia-acl.org/.

[5]: “Piloto Marcus Garvey garante aos Escravos Negros na Nacionalidade partir para a Estação dos Etíopes”. Ver em http://www.sacred-texts.com/afr/rps/

[6]: Maricel Ména-López. “Raízes afro-asiáticas nas genealogias bíblicas”. Identidade – boletim do Grupo de [email protected] da EST/IECLB, vol. 5, jan.-jun. 2004. Disponível em http://www.cebi.org.br/noticia.php?secaoId=13¬iciaId=133.

[7]: Clinton Chisholm. “The rasta-Selassie-Ethiopian conenctions”. Em Nathaniel Samuel Murrell, William Davis Spencer e Adrian Anthony McFarlane (orgs.). Chanting down Babylon: the rastafari reader. Philadelphia: Temple University Press, 1998, p. 167.

[8]: “Para cima de Elefantina [ilha próxima da primeira catarata do Nilo] já encontramos etíopes. Ocupam eles a metade da ilha de Tachompso e os Egípcios a outra metade. Junto à ilha estende-se um grande lago, em cujas margens vivem Etíopes nômades. (…) Depois de doze dias de navegação chega-se a uma grande cidade chamada Méroe, tida como capital dos Etíopes  da região”. Heródoto. História, vol. 1. Trad. J. Brito Broca. Rio de Janeiro: W. M. Jackson, 1950, p. 123.

[9]: Ennis Barrington Edmonds. Rastafaris: from outcasts to culture bearers. New York: Oxford Universitu Press, pp. 34-36.

[10]: Termo da língua ge’ez usada na Etiópia que significa “rei dos reis”, o supremo monarca segundo o sistema nobiliárquico etíope. Uma curiosidade histórica: Yetbarak, último nəgusä nägäst da dinastia Zagüe, é conhecido na tradição oral etíope como Za-Ilmaknun, que pode ser traduzido como “o desconhecido”, deixando subentendido que seu nome foi propositalmente apagado dos relatos orais como forma de punição. Cf. Taddesse Tamrat. Church and State in Ethiopia. Oxford: Clarendon Press, 1972, pp. 56 e segs..

[11]: Apesar de a Bíblia ocidental mencionar apenas o encontro entre ambos (I Reis, 10:1-10), o Kebra Nagast (“Glória dos Reis” em ge’ez) estabelece claramente a filiação. Cf. Kebra Nagast: the queen of Sheba and her only son Menyelek. Traduzido por E. A. Wallis Budge. Londres: The Medici Society, 1922. Disponível em http://books.google.com.

[12]: Título nobiliárquico etíope equivalente ao “duque” das monarquias europeias.

[13]: Clinton Chisholm, ob. cit., p. 167.

[14]: Antes de ser tocado pela coroação de Selassie, Howell era um admirador ardoroso do hinduísmo. Em sânscrito, Gong Guru significa “professor de afamada sabedoria”, e Marajh, “rei”. Ennis Barrington Edmonds, ob. cit., p. 39.

[15]: Clinton Chisholm. ob. cit., p. 166. Graças a esta profecia, Garvey é considerado pelos rastafari como um segundo João Batista.

[16]: “Inquestionavelmente, uma das maiores forças de Howell era seu ousado anti-colonialismo, que aparece mesmo no Boletim da Universidade, onde se diz que ele encorajava ou ameaçava camponeses a não pagar taxas. Sua própria abordagem de organização era uma crítica ao colonialismo (…) a padaria [com a qual se sustentava a comunidade liderada por Howell] era gerida de um modo que ‘sempre que um pobre vai lá e compra um pedaço de pão, leva também um pouco de açúcar e fubá de graça’.” Barry Chevannes. Rastafari: roots and ideologies. Siracusa: Syracuse University Press, 1994, p. 121. Este apoio mútuo comunitário seria uma das marcas das comunidades rastafari.

[17]: Barry Chevannes, ob. cit., p. 127.

[18]: Robert H. Jackson e Carl Gustav Rosberg. Personal rule in black Africa: prince, autocrat, prophet, tyrant. Berkeley: University of California Press, 1982, p. 121.

[19]: Ali A. Mazrui e Michael Tidy. Nationalism and new states in Africa: from about 1935 to the present. Nairobi: Heinemann, 1984, p. 1.

[20]: “Rei dos reis” está em Apocalipse 19:16, “leão da tribo de Judá” está em Apocalipse 5:5 etc.. A monarquia etíope, e Haile Selassie em particular, adotavam títulos encontrados no mais escatológico dos livros bíblicos para criar em torno de si uma aura salvacionista.

[21]: Carole Boyce Davies (org.). Encyclopedia of african diaspora: origins, experience and culture. Vol. 1. Santa Barbara: ABC-CLIO, 2008, p. 266.

[22]: Barry Chevannes, ob. cit., p. 131-139.

[23]: Nathaniel Samuel Murrell e Burchell K. Taylor. “Rastafari’s messianic ideology and Caribbean Theology of Liberation”. Em Nathaniel Samuel Murrell, William Davis Spencer e Adrian Anthony McFarlane (orgs.). Chanting down Babylon: the rastafari reader. Philadelphia: Temple University Press, 1998, p. 390.

[24]: Esta e outras informações sobre a Federação Etíope Mundial foram encontradas no sítio da organização: http://www.ethiopianworldfederation.com/.

[25]: David H. Shinn e Thomas P. Ofcansky. Historical dictionary of Ethiopia. Oxford: Scarecrow, 2004, p. 196.

[Veja aqui a quinta e última parte desta série de artigos.]

15 COMENTÁRIOS

  1. Excelentes artigos desta série.

    Em relação a idéia de segregação “racial” completa na primeira fase de sua atuação Malcon X também divulgou as idéias da não integração entre negros e brancos. Entretanto, a concepção de retorno a África não fazia parte do seu discurso.

    Malcon X fazia parte e posteriormente foi assassinado pela “Nação do Islã”, organização originária dos EUA e de atuação internacional que tem ainda hoje atuação forte dentro de aproximadamente 25 organizações estudantis em universidades. A organização também dirige cerca de 50 mesquitas, negócios financeiros que incluem um jornal, uma fazenda de produtos agrícolas na Geórgia e uma firma de seguros. As informações constam no livro “O ódio entre os homens” (Raquel Stivelmen Rio De Janeiro:Imago 2006.)

    Caro João Bernardo e Manolo:
    vocês conhecem a organização que faço referência? na opinião de vocês podemos considerar a “Nação do Islã” como um grupo de extrema direita?
    saudações e abraços
    Jefferson Rodrigues Barbosa

  2. Caro Jefferson
    Na minha juventude, quando seguíamos com um interesse apaixonado as lutas sociais nos Estados Unidos, e nomeadamente a luta pelos direitos cívicos dos negros, todos nós, jovens de extrema-esquerda, considerávamos a Nação do Islã como um movimento de extrema-direita. O Malcolm X foi assassinado precisamente por estar a transitar para a extrema-esquerda. Isto era muito comentado.
    Depois, o pouco que li sobre a Nação do Islã situa-a entre as correntes oriundas do movimento de Garvey, tanto pelo seu racismo negro como pelo seu pró-capitalismo. Mas o Manolo decerto saberá muito mais a este respeito.
    Abraço.

  3. Caro Jefferson,

    pessoalmente, faz tempo que abandonei a divisão entre “esquerda”, “centro” e “direita” ao analisar a atuação política de quem quer que seja. Me interessa mais saber se a atuação do grupo “X”, “Y” ou “Z” reforça ou enfraquece as relações sociais de exploração e opressão que estão na base do capitalismo, e como o fazem. Mas esta classificação ainda faz algum sentido em nossas conversas cotidianas, e disto resulta que nestes momentos surja uma enorme dificuldade para entender, por exemplo, como e por quê o Partido Comunista Alemão (extrema-esquerda) se aliou ao Partido Nazista (extrema-direita) nos anos que antecederam à ascensão de Hitler ao poder político; ou, ainda, por que partidos com uma interessantíssima origem, como o PT, aliam-se com as principais frações hegemônicas do capitalismo brasileiro. A não ser dando crédito à disparatada “teoria da ferradura” (segundo a qual os extremos políticos se encontram, e o que deve ser realmente tido em conta é a sua distância do “centro” moderado), estes problemas que a prática política nos coloca impõem outras formas de análise.

    Mas, respondendo à sua questão, se considerarmos que estes conceitos ainda têm alguma utilidade em nossas conversas cotidianas, a Nação do Islã se inscreve na longa história do separatismo racial estadunidense, que tem, entre negros e brancos, representantes extremamente díspares. Booker T. Washington, por exemplo, pretendia promover melhorias nas condições de vida dos negros dentro do quadro jurídico imposto pelas Leis de Jim Crow; não pretendia – ao menos em público – militar pela abolição destas leis separatistas. No outro extremo, Marcus Garvey pregava a separação total entre negros e brancos em todos os aspectos, do institucional ao genético; sobre ele não é necessário explicar nada além do que já foi dito nesta mesma série. Em todos os casos, este separatismo se inscreve perfeitamente no campo político da direita; se usarmos novamente Booker T. Washington e Marcus Garvey como exemplos, o primeiro poderia ser considerado um conservador moderado, e o segundo um proto-fascista, no ponto extremo da direita.

    A Nação do Islã vai na mesma linha: é um separatismo de extrema-direita. O retorno à África, de fato, está longe de sua perspectiva, mas seu separatismo radical e sua teologia da supremacia racial negra, ao mesmo tempo em que podem ser interpretados como uma reação de resistência ao racismo sofrido pelos negros nos EUA, justificam e legitimam uma prática de integração ao capitalismo bastante semelhante à de Garvey. Ao invés de propor o retorno à África, a Nação do Islã quer integrar-se ao capitalismo: é o que diz nas entrelinhas Louis Farrakhan, seu atual líder, quando afirma ser a separação o último ponto de quatro reivindicações políticas fundamentais (liberdade total e completa; justiça, sob o regime da lei, aplicada igualmente para todos, independentemente de sua raça, classe ou cor; igualdade social, com direito “ao que há de melhor na sociedade civilizada”). Ora, salvo se eu estiver muito enganado, este é um programa de plena integração à sociedade capitalista estadunidense. A separação resultaria apenas da impossibilidade de conquistar os três pontos anteriores. Neste caso, tendo em vista o tipo de relações sociais nas quais a Nação do Islã, na voz de seu líder, diz querer integrar-se, é possível imaginar o tipo de sociedade a ser construída após a separação.

  4. Oi,

    Longe de querer entrar nesta discussão, que a cada capítulo fico mais maravilhado com a riqueza da pesquisa, a qualidade das fontes, argumentos e tal, parabéns! Está virando um jogo de adivinhação (não houve previsão de quantos capítulos este assunto irá ter) e ganhei este: era inevitável vcs entrar no papel dos rastafari, mas nem de longe imaginava que tinham material bastante para encher um capítulo inteiro só com isso.

    Já que meu anseio é de ver vcs chegar aos dias de hoje, espero então o próximo…..

    Tenho uma preocupação: como passar esta história toda (que não vi reproduzida em nenhum outro blog ou outra lista que conheço e, fora falha minha, também não divulguei) de forma didática, já que o PassaPalavra não publica textos por motivos puramente acadêmicos, certo?

    Só como anedota: lembro bem, ainda criança, assistir na TV (p&b) as visitas da rainha da Holanda à Etiopia e viceversa, o Haile Selassie era o cara, como o Shah da Persia também era…
    hehe

  5. Caro Eric,
    Quando os assuntos são pouco conhecidos, como é o caso deste, ou pior ainda, quando são objecto de mitos e de mistificações deliberadas, é talvez necessário analisar e narrar primeiro com certo pormenor. Só a partir daí é que se pode começar a fazer sínteses mais didáticas. Esperamos que isso suceda neste caso.
    E também me lembro da visita de Selassié a Portugal, onde foi, evidentemente, recebido por Salazar.

  6. Caro Eric,

    é curioso que este artigo sobre a ligação entre o movimento rastafari e as propostas de retorno à África tenha sido o mais comentado até o momento. Na verdade, os comentários realmente tendiam a aumentar à medida em que os artigos se aproximassem do presente.

    O movimento rastafari tem muitos outros aspectos a serem analisados, mas, evidentemente, tal análise extrapolaria os objetivos desta série. O artigo de Nathaniel Samuel Murrell e Burchell K. Taylor citado na nota 23, por exemplo, faz um interessantíssimo paralelo entre a teologia rastafari e a teologia da libertação. Ainda há as semelhanças impressionantes do rastafarismo mais desenvolvido – após o final da década de 1940, quando o grupo Youth Black Faith “purificou” a doutrina e a prática rastafaris de todo traço que lembrasse o revivalismo cristão de sua origem – com o anarquismo individualista, e também com as doutrinas expostas por Leo Tolstoi em O reino de Deus está em vós. É esta versão “rebelde” do rastafarismo que chegou até nós pela voz e imagem das estrelas do reggae. E todos estes aspectos de uma “mística de resistência” dentro do movimento rastafari convivem com a idolatria a um imperador absolutista!

    Quanto à divulgação disto… bem, o PassaPalavra licencia seus textos em copyleft. Basta colocar tudo em circulação – e se preparar para ouvir muita coisa, porque há pessoas para quem mexer nestas histórias representa algo semelhante a discutir com um trotskista a militarização do trabalho na URSS durante a guerra civil.

  7. Saudações e retorno devido a atenção na pergunta que coloquei a respeito da “Nação do Islã”.
    Gostaria de aproveitar e repassar a informação que no livro Diário de skinhead (Antonio Salas)constam uns dados interessantes sobre as novas modalidades de aproximação de militantes de extrema direita que advogam o islamismo e o nazismo.
    Sobre a consideração sobre a didática nos artigos penso que a série de informações nos comentários postados pelos leitores cumprem uma finalidade didática bem interessante além do conteúdo próprio dos textos.
    Jefferson

  8. Exatamente.

    Essa parte é mais interessante porque todos nós fomos criados tendo uma imagem dos rastafaris associada ao pacificismo e liberdades individuais: uma mistura de faz-o-que-tu-queres com papa negro e bonzinho. Nesse caso, algo da extrema direita nos chegou como símbolo de paz e liberdade individual + comunitarismo.

    No oposto, casos de verdadeiro comunitarismo revolucionário nos chegaram como símbolo de convervadorismo e opressão. É o caso, por exemplo, das raízes profundas do que são hoje os evangélicos.

  9. Em conversa com amigos que estavam acompanhando a série, depois de alguma discussão, ficamos todos em certo estado de perplexidade ao perceber que os mais diversos movimentos de resistência podem decair até o mais evidente fascismo.
    E que isto pode acontecer por um pequeno desvio no caminho das lutas… É como se estas lutas estivessem sempre imersas em dimensões retorcidas que podem apontar seu exato oposto…
    O pior disto é sempre se ver imerso neste mundo, onde tentar correr é condição do próprio isolamento.

    Olho o meu passado: fiz parte de grupos que hoje reconheço, como nas reflexões do manolo, como colaboracionistas ativos das relações de exploração, só que em minha formação isso concorria com ideologias que acabavam por colabor com o capitalismo de forma mais passiva. Por fim acabei por me envolver com grupos de formação marxista e hoje tento viver uma militância que se distâncie das cadeias da hieraquia e que seja autonomamente integrada a outros movimentos…

    O que fica claro pra mim é que nem tudo está vencido nem perdido, que tudo dependeria da disputa, mas existiria caminho anticapitalista para um movimento baseado em critérios rácicos?

  10. R.,

    ao contrário do que parece, há regras bastante rígidas para quem queira seguir a fé rastafari. Trata-se de um movimento religioso, não de uma colônia de férias. Um exemplo é suficiente para ilustrar tais regras. Como para os rastafaris o próprio corpo é o templo de deus, seguem uma dieta bastante rigorosa, prevista pelos livros bíblicos do Gênese, Levítico e Deuteronômio, chamada ital; nela está proibido o consumo de aditivos alimentares artificiais (corantes, conservantes etc.) e álcool, além de carne de porco, crustáceos, moluscos e animais que comam carniça ou que fucem a terra. Outro exemplo: rastafaris não podem se envolver com política — muito embora a International Rastafari Development Society tenha status consultivo junto à ONU. Não acho que isto seja exatamente um “faz-o-que-tu-queres”, exceto se por esta expressão você queira dizer que os rastafari te parecem uns hippies desregrados, a quem para viver bem bastaria deixar crescer os dreadlocks e fumar a ganja, o que não é bem o caso. A imagem nem sempre coincide com a realidade.

    Cabeça,

    o real é bem mais complexo que os pobres esquemas que usamos para interpretá-lo. Não é assim tão difícil que nos surpreendamos com o que ontem nos parecia perfeito. Mas a questão que vejo no movimento rastafari — um amigo há pouco me explicou que os rastafaris não gostam de ser incluídos num “rastafarismo” por verem todos os “ismos” como formas de dividir as pessoas, e o que querem é integrá-las — não é sua aproximação com o fascismo histórico, que creio ser extremamente tênue. (Salvo se você entende como “fascismo” aquele modo genérico com que nos acostumamos a descrever qualquer autoritarismo extremado). O que o movimento rastafari herda de Garvey me parece ser outra coisa: a edenização da África, sua transformação num paraíso terreno onde não há conflitos sociais entre os próprios africanos. Tal edenização se fazia necessária, pois como seria possível, sem ela, canonizar um rei absolutista? O que se apresenta diante de quem quer que se interesse pelas lutas sociais na África contemporânea é outra coisa bem diferente, como você mesmo deve saber, e os meios de solidarizarmo-nos eficazmente com os africanos nestas mesmas lutas passam longe de qualquer edenização.

    Quanto a existir “caminho anticapitalista para um movimento baseado em critérios rácicos”, basta lembrar quão anticapitalista foi a prática do nazismo no Leste Europeu. Destruição do parque produtivo, extinção física dos quadros médios (professores, técnicos etc.), extermínio da mão-de-obra de untermenschen (judeus, eslavos, ciganos etc.) combinado com a desqualificação e escravização da mão-de-obra sobrevivente… Isto são práticas anticapitalistas, pois esboçava-se então a inauguração de um modo de produção outro, diferente do capitalismo.

    Tenho como certo que não é num “anticapitalismo” genérico que devemos buscar caminhos para superar as relações de exploração e opressão nas quais nos vemos inseridos, mas sim em movimentos que apóiem e pratiquem relações solidárias, coletivistas e igualitárias entre as pessoas, sejam quem forem, venham de onde vierem. Se este é um critério válido, difícil crer que um movimento que tenha a divisão “racial” entre pessoas como sua única justificativa, fundamento e motor, sem acrescer-lhe qualquer outra consideração a respeito das demais clivagens sociais (classe, gênero, idade, deficiências físicas ou cognitivas etc.), possa servir de fundamento à construção de uma sociedade que enterre no passado a opressão e a exploração a que somos sujeitados hoje.

  11. Fiquei realmente satisfeito com sua resposta, me fez ver em outra perspectiva que a “edenização” da África é o que liga intimamente este movimento ao fascismo e que por sua vez também se liga às esquerdas com a “edenização” do comunismo…
    A criação de um lugar mítico para onde as pessoas iriam depois de um longo sofrimento é um mecanismo que serve para que se aceite uma realidade que é contraditória aos seus próprios objetivos.
    De forma oposta é que surgem então as relações de solidareidade e igualitarismo enquanto proposta de um novo mundo… Ok e de acordo.
    O problema é que quando agente fala em solidariedade já existe todo um significado sobre esta palavra(para além do significado formal), então eu acho que quando autores como você e o joão bernardo usam o termo isso gera um pouco de confusão, porque na minha cabeça a coisa fica naquele âmbito da intuição. Eu também nunca li nenhum autor tratando especificamente sobre isso.

  12. Oi Cabeça,

    Pessoalmente, quando falo em “solidariedade”, não me refiro àquela solidariedade ampla e genérica, dessa que se usa como sinônimo de caridade, que se mal não faz também pouco influi na mudança social. Falo, sim, de uma solidariedade nas lutas, capaz de criar brechas na disciplina e na formação ideológica necessárias ao melhor funcionamento do sistema capitalista.

    Um exemplo. No ciclo de lutas massivas da juventude pela redução nas tarifas e pelo passe livre que se espraiou pelas grandes cidades brasileiras entre 2003 e 2007 (aproximadamente), não foram poucos os grupos de jovens que ultrapassaram seu “lugar” de estudantes, sua organização específica de estudantes e sua pauta específica de estudantes; buscaram solidarizar-se com as lutas dos trabalhadores rodoviários, participando de suas mobilizações e apoiando-lhe no necessário sem querer tomar-lhes o lugar. Ainda é muito cedo para falar dos resultados mais profundos desta cooperação, mas naqueles momentos de luta conjunta plantou-se a semente de algo novo no imaginário e nas práticas de quem deles participou. Outro exemplo. Nas recentes lutas por moradia que se desenrolam no Brasil acontece de militantes de movimentos de sem-teto ultrapassarem os limites das reivindicações por moradia para si próprios e buscarem integrar-se às lutas cotidianas dos bairros circunvizinhos (melhor atendimento nos postos de saúde e construção de novos onde não existam, pavimentação e esgotamento sanitário, inscrição de endereços de rua nos Correios, novas linhas de ônibus etc.), ou mesmo abrir a ocupação às atividades dos bairros (futebol, celebrações religiosas etc.) e convidar as comunidades circunvizinhas a participar das atividades culturais da ocupação (saraus de poesia, sessões de cine-debate, aniversários etc.). Ao fazê-lo, as pessoas nos bairros circunvizinhos deixam de ver os sem-teto como “vagabundos”, “baderneiros” e “traficantes”, e passam a tê-los “gente boa”, acontecendo inclusive de haver muito intercâmbio de atividades e mesmo de militantes entre a ocupação e a comunidade onde se insere. A luta do movimento deixa de ser algo setorial e é reforçada pela incorporação, nela, daqueles que já tem moradia (mesmo precária), mas que solidarizam-se com quem ainda não a tem.

    Em ambos os casos, abrem-se as tais brechas a que me referi, pois a exploração capitalista funciona melhor quando aqueles que são explorados e oprimidos não se vêm enquanto tal, mas como grupos particulares, atomizados e isolados — isto quando não se vêem como indivíduos somente, sem sentirem pertença a qualquer identidade coletiva. Nos dois exemplos, ao invés de dividir-se os trabalhadores em grupos diferentes (“estudantes” vs. “rodoviários”, “sem-teto” vs “moradores do bairro” etc.), eles integraram-se, superaram as divisões, buscaram compreender-se um ao outro, abriram-se ao apoio e solidariedade e também apoiaram e solidarizaram-se com outras lutas. Ao invés de propor a solução individualizada, fragmentada e corporativista dos problemas sociais, busca-se soluções coletivas, inventa-se novas formas de agir em coletivo que não raro fazem o que delas não se espera.

    Estas brechas, evidentemente, não estão “dadas” de uma vez e para sempre, mas surgem nas lutas e mantém-se através das lutas, pois estão sempre a ser calafetadas pelos capitalistas para que seu edifício não venha abaixo. E não são sempre as mesmas, porque o “fazer-se” dos trabalhadores — não só através de suas lutas, mas também de sua produção cultural, de seu modo de vida etc. — não traça um só rumo para as lutas sociais, mas vários, não raro simultâneos. Desafio mesmo é acompanhar — e fazer parte — de tudo isso!

  13. Sou obrigado a confessar que me parece evidente a edenização da propria experiência de luta de Manolo. Eu não sou adepto de algo diferente da a solidariedade colectiva tal como aqui é descrita, sobretudo quando a alternativa passa ou por individualismo extremo ou moderado ou solidarideda “centralizada”. Mas não tenho um eden nas lutas sociais, acho que são a resposta justa a um sistema de exploração muito apurado, refinado e poderoso embora falível e profundamente predatório (mortalmente predatório). A resposta centralizada ou descentralizada é geradora de fracturas no sistema no mínimo é expositora das contradições do mesmo. Mas não são o éden, e não podem ser encaradas como tal; na minha juventude com muito Marley na cabeça também me aproximei das ideias rastafarianas até perceber que na minha cabeça nem deus nem profetas fazem sentido na minha cabeça, mas em Marley e Tosh não terei ouvido ideias claras de contradição de classe e da pobreza ( os de barriga cheia e os famintos, aqueles que se devem erguer e lutar pelos seus direitos, a selva de pedra)? Será que o reggeao se resume ao rastafaranismo? Será apenas a mensagem de retorno e adoração messiânica o que se expreme dessa corrente musical?? Cada homem pensa que o seu fardo é o mais pesado de todos os fardos; seremos nós assim também: edenizando na secretária e na manif (que o sistema engole e rumina facilmente) os portadores do mais pesado dos fardos?

  14. O texto e bastante tendencioso ,com o intuito de demonizar sellassie e a Etiopia .Tanto que nao fala da convençao de berlim 1884 onde a italia teve a incumbencia de invadir a etiopia em 1896 ,deixaram livre do ? primeiro erro ,segundo que se a etiopia nao guerreasse iria virar colonia ,mas a italia nao deu nem p cheiro ,terceiro que Sellassie assumiu o trono etiope em 1930 ,mas fora assinado um acordo de boa vizinhança para com a italia em 1928 ,que obviamente nao foi ele quem assinou ,a italia estava na trairagem e de olho na etiopia querendo vingaça ,desde 1922 ,12 anos depois começam as provocaçoes contra a etiopia e de uma forma covarde a italia começou a atacar ,so que fora negado pela liga das nacoes ,armas a etiopia ,ao passo que estavam abastecendo a italia e ate agrotoxico tinha para matar os etiopes ,Sellassie estava disposto a dar a vida pela Etiopia fora negado tudo ao pais africano e dado tudo ao pais europeu ,ate hitler ofereceu ajuda para o ditador mussolini ,nao restou a sellassie fazer mais nada ,e sim procurar aliados .Assim em 1941 junto com a inglaterra ,ele expulsa os italianos de la ,covardes italianos ,por este feito sellassie ganhou varios titulos e premios ,colocou anteriormente a isso ,a etiopia na liga das nacoes ,como um cara desses pode ser arcaico ?arcaico porque nao era um eurocentrico ? por que ele nao entregou a etiopia ? ele nao iria entregar a etiopia e deixou bem claro que se a etiopia fosse colonizada o “oriente iria ruir junto “portanto ao escrever sobre temas pouco comentados e conhecido procure se informar mais e ser imparcial

  15. Faz anos desde que não retornava a este artigo, e vejo que há comentários os mais díspares desde minha intervenção mais recente no comentário. E claro, todos pretendendo-se corretos. Vamos a eles, ponto a ponto.

    RE primeiro. Como não sabe nem se almocei hoje, quanto mais o que fiz e faço da vida, constroi uma imagem negativa de mim próprio para montar seus argumentos. A estratégia argumentativa falha, entretanto, pelo simples fato de que a História, com “H” maiúsculo, é o que é, e não nossos mitos. Neles, está tudo límpido e claro, sem qualquer contradição; na História, e na nossa vida cotidiana que é seu substrato e matéria-prima, é a contradição a regra, é o paradoxo a norma, e é deles que devemos partir. Indo ao assunto do comentário, o reggae é mais um exemplo destas contradições: a mensagem de luta contida no reggae mais afrontador de Bob Marley e Peter Tosh — que mostre onde eu disse que ela não existe! — vem junto com a divinização de Selassié. É exemplar, neste sentido, o comportamento de Rita Marley na visita de Selassié à Jamaica em 1966, jamais negado pela própria e que não é vergonha alguma. Tudo isto é contraditório — e por isto mesmo, real. O que importa não é purificar o real de suas contradições, mas entender no que elas resultam. Esta a que me referi, no que resulta?

    Samuel, por outro lado, é ainda mais contraditório, porque inocente. Quer “imparcialidade”; sabemos que ela não existe em lugar algum. Quer um Selassié incontroverso; ora, a controvérsia é própria a qualquer chefe de Estado ou de governo, e Selassié não é exceção. Veja-se, por exemplo, que todas as informações que obtive sobre Selassié vieram de fontes que Samuel certamente conhece; por isto mesmo, peço-lhe que deixe aqui sua opinião abalizada sobre Ali Mazrui e sua polêmica relação com o continente africano. Por outro lado, independente desta opinião, é de se notar que no comentário de Samuel tanto as palavras quanto os silêncios reforçam a opinião de Ali Mazrui, já citada no texto mas cuja ideia central faço questão de destacar aqui mais uma vez: “O grande paradoxo do Imperador Haile Selassie era ser um líder reacionário e retrógrado em seu país, mas um símbolo de radicalismo e mesmo de revolução no exterior”.

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