Ainda acerca da crise económica. 3) a China em primeiro plano

Ainda acerca da crise económica. 3) a China em primeiro plano

em 9 set

Existem na China condições favoráveis ao pleno desenvolvimento do capitalismo. A elevada taxa de crescimento económico permite aumentar os salários e o consumo privado, permitindo que aumentem mais ainda os lucros das empresas e os investimentos. Por João Bernardo

Mesmo para quem só leia apressadamente as notícias, a China aparece como o derradeiro recurso do capitalismo mundial, o país mais importante entre os BRICs [1], um colosso sem o qual nada se faz na economia. Quando a administração Obama — com ou sem razão — insiste na necessidade de a China alterar a paridade do yuan e desviar o eixo do seu crescimento do mercado externo para o mercado interno, está a reconhecer a primazia daquele país. Decerto os analistas concordam que o reequilíbrio mundial requer o aumento da poupança interna dos Estados Unidos e o aumento do consumo interno da China. Mas segundo Christopher Wood, economista da CLSA, uma firma de corretores e serviços financeiros, a China está a contribuir mais para esse reequilíbrio do que os Estados Unidos, porque tem tomado medidas mais eficazes para estimular o consumo interno do que os Estados Unidos para estimular a sua poupança. (Devo prevenir os leitores de que, consoante o uso português, chamo mil milhões ao que os brasileiros chamam bilhão, ou seja, 109, e bilião ao que no Brasil se chama trilhão, um milhão de milhões, ou seja, 1012.)

O crescimento económico

Avaliada segundo as taxas de câmbio, a economia chinesa tem menos de 1/3 da dimensão da norte-americana e o seu Produto Interno Bruto (PIB) per capita é 1/14 do norte-americano. Mas não se trata aqui, como nunca se trata em economia, de situações estáticas. Verdadeiramente importantes são as tendências de desenvolvimento.

A economia chinesa cresceu em 2005-2009 a uma taxa anual superior a 10%. A crise financeira e a recessão nos Estados Unidos e na União Europeia não provocaram na China uma contracção, apenas um abrandamento do crescimento. O PIB chinês, que em 2007 aumentou 13%, aumentou só 9% no terceiro trimestre de 2008 e 6,8% no último trimestre daquele ano. Isto significa que, feitos os ajustamentos sazonais, a taxa anualizada de crescimento do PIB foi de cerca de 1% no último trimestre de 2008. Mas dados oficiais publicados em Abril de 2009 indicavam já que no primeiro trimestre desse ano a taxa anualizada de crescimento do PIB fora superior a 6%, subindo para 7,9% no segundo trimestre e para 8,9% no terceiro trimestre. Se estabelecermos a comparação entre os últimos trimestres de 2008 e 2009, parece que o crescimento do PIB real foi superior a 10%, e entre o primeiro trimestre de 2009 e o primeiro trimestre de 2010 o PIB aumentou 11,9%. O crescimento abrandou um pouco no segundo trimestre de 2010, passando para 10,3%.

Quanto à produção industrial, vemos que ela cresceu 18% nos finais de 2007, mas só 5,7% nos finais de 2008. É certo que a produção de electricidade, que tivera um crescimento anual médio de 15% em 2003-2007, diminuiu 6% nos três primeiros trimestres de 2008. Mas deve ter-se em conta que as indústrias chinesas mais afectadas pela crise foram as que consomem mais electricidade. Já no primeiro trimestre de 2009 a produção industrial aumentou a uma taxa anualizada de 25%, sendo 11% mais elevada em Julho de 2009 do que em Julho de 2008, 16,1% mais elevada em Outubro de 2009 do que em Outubro de 2008 e 18,5% mais elevada em Dezembro de 2009 do que em Dezembro de 2008.

Para onde se dirige esta produção? São muito mencionadas as exportações chinesas, mas o que revelam os números?

As exportações

Nos dez anos anteriores a 2008 as exportações chinesas haviam crescido, em termos de dólares, a uma taxa média anual de 23%, mais do dobro da taxa de crescimento do comércio mundial. As exportações, que em 2001 tinham correspondido a pouco mais de 20% do PIB, chegaram a 36% em 2007; e mesmo em 2008, quando os países ricos estavam em recessão, as exportações corresponderam a 34% do PIB. De Janeiro de 2008 até Janeiro de 2009, porém, as exportações desceram 17,5%, mais do que se esperara, e desceram 26% de Fevereiro de 2008 até Fevereiro de 2009; em Março de 2009 as exportações foram 17% inferiores ao que haviam sido no mesmo mês do ano anterior. No segundo trimestre de 2009 o excedente comercial chinês foi 40% mais baixo do que um ano antes. Segundo Yu Song e Helen Qiao, da firma financeira Goldman Sachs, o declínio foi ainda mais acentuado em termos reais e, se tomarmos em conta as variações nos preços das importações e das exportações, o excedente reduziu-se a menos de 1/3 do que fora um ano antes. Em suma, as exportações líquidas, ou seja, as exportações menos as importações, teriam contribuído com 2,6% do crescimento do PIB em 2007, mas na primeira metade de 2009 retiraram quase 3% ou 4% da sua taxa de crescimento. A queda persistiu, e em Novembro de 2009 as exportações chinesas foram 14% inferiores ao que tinham sido em Novembro de 2008. No final de 2009 as exportações haviam descido para cerca de 24% do PIB. Não espanta que metade dos cerca de 9.000 exportadores de brinquedos tivesse falido até Fevereiro de 2009, e a redução das exportações constituiu um factor importante na perda de 20 milhões de postos de trabalho que haviam sido ocupados por migrantes rurais em zonas urbanas e industriais.

Apesar da queda das suas exportações em 2008 e 2009, como as exportações de outros países sofreram um declínio ainda mais acentuado, a China melhorou a sua posição relativa. Nos primeiros dez meses de 2009 as importações dos Estados Unidos em proveniência da China baixaram 15% relativamente a idêntico período de 2008; mas tendo baixado 33% as suas importações provenientes dos outros países, a percentagem do mercado norte-americano ocupada pelos artigos chineses alcançou a cifra sem precedentes de 19%. Em termos absolutos o défice comercial dos Estados Unidos com a China diminuiu, mas em termos relativos a China passou a ser responsável por quase 1/2 do défice total norte-americano, enquanto que em 2008 fora responsável por menos de 1/3 desse défice. Ao mesmo tempo a China ultrapassou a Alemanha e tornou-se em 2009 o maior exportador mundial. Em 1999 as exportações chinesas haviam correspondido a 3% das exportações totais, mas no final de 2009 chegaram quase a 10%, tanto quanto o Japão no máximo que este país atingira, em 1986.

As exportações chinesas retomaram o crescimento em 2010, sendo 8% superiores em Fevereiro ao que haviam sido em Fevereiro de 2009, e sendo 46% superiores ao seu nível de três anos antes. O movimento acelerou-se e em Maio de 2010 as exportações foram 48,5% superiores ao que haviam sido no mesmo mês do ano anterior. Mas a percentagem das exportações no PIB pode dar uma ideia errada de dependência relativamente ao mercado estrangeiro. Basta pensar que, enquanto o aumento das exportações líquidas contribuiu apenas para 15% do crescimento real do PIB chinês entre 2002 e 2007, contribuiu para cerca de 50% em Singapura ou em Taiwan, por exemplo. Por isso, em 2009 menos de 10% dos postos de trabalho se deviam ao sector de exportação. Mas o factor decisivo nesta apreciação é a composição dos artigos exportados. Cerca de metade das exportações chinesas tem uma grande parte de componentes importados, que são processados e vendidos para o estrangeiro sem incorporarem qualquer valor acrescentado significativo. Segundo algumas estimativas, o valor acrescentado originário da China incorporado às exportações do país corresponde apenas a 18% do PIB. É certo que a China ultrapassou os Estados Unidos enquanto principal compradora dos bens produzidos nos restantes países asiáticos, de onde são provenientes mais de 60% das importações chinesas. Mas cerca de metade destas importações é constituída por componentes montados na China e reexportados para os países ricos. Nestas condições, uma queda nas exportações repercute-se mais numa queda das importações do que num declínio do crescimento do PIB. Com efeito, de Janeiro de 2008 até Janeiro de 2009 as importações da China desceram 43%, enquanto as suas exportações desceram só 18%. Podemos agora reduzir às devidas proporções a tão propalada dependência das exportações chinesas relativamente ao consumo norte-americano. Se forem medidas em termos de valor acrescentado, excluindo o custo dos componentes importados, as exportações da China para os Estados Unidos representaram em 2009 menos de 5% do PIB chinês.

«[…] a percepção corrente de que a China tem sempre contado com um crescimento devido às exportações é bastante enganadora», concluiu The Economist de 1 de Agosto de 2009, e em 9 de Janeiro de 2010 esta revista chamou a atenção para o facto de que, «em vez de exaurir a procura global, a China contribuiu para empurrar a economia mundial durante o ano passado». Ora, se o motor principal do crescimento económico chinês não são as vendas para o mercado externo, resta o mercado interno. Em 2009, enquanto as exportações líquidas retiraram quase 4% ao crescimento do PIB, o consumo interno contribuiu com 12% para esse crescimento. The Economist de 18 de Abril de 2009, e de novo em 18 de Julho daquele ano, considerou que a perda de velocidade da economia chinesa começara em 2007, antes do declínio das exportações, devendo-se às restrições de crédito decididas pelo governo para evitar o sobreaquecimento da economia, que provocaram uma grande contracção no mercado imobiliário. Calcula-se que a diminuição das despesas internas, motivada sobretudo pela queda da construção de imóveis, fosse responsável por mais de metade do abrandamento económico do país em 2008. Isto leva-me a analisar, com a indispensável brevidade num artigo deste tipo, o consumo interno e a poupança na China.

O consumo interno

Na primeira década deste milénio, a taxa de crescimento do mercado de consumo chinês, de 8% anualmente, em termos reais, foi a maior em todo o mundo. Segundo dados oficiais, as vendas a retalho [no varejo] teriam aumentado 15% em 2008, e embora vários economistas considerassem que esta taxa resultou de estimativas exageradas, eles calcularam que o consumo familiar estaria a crescer a uma taxa anual de 9%, o que só por si é uma cifra muito considerável. Em meados de 2009 as despesas de consumo reais nas áreas urbanas foram superiores de quase 11% à mesma época do ano precedente. Entre Outubro de 2008 e Outubro de 2009 as vendas a retalho cresceram 16,2%, e o movimento acelerou-se, porque entre os meses de Dezembro de ambos os anos essas vendas aumentaram 17,5%, o que foi, em termos reais, o maior aumento nas duas últimas décadas.

Especialmente importante é a aquisição de automóveis, devido aos seus efeitos económicos em cadeia, e este tipo de mercado animou-se muitíssimo ao longo de 2009. As vendas de automóveis foram 48% superiores em Junho de 2009 relativamente ao mesmo mês de 2008, subindo esta taxa para 70% entre os meses de Agosto de ambos os anos e para 72,5% entre os meses de Outubro. Mais importante ainda é o mercado imobiliário, pelo grande número de indústrias e de serviços mobilizados pelo ramo da construção. Basta pensar que cerca de metade da perda de postos de trabalho entre os migrantes internos se deveu à crise na construção, provocada deliberadamente pelo governo chinês para deflacionar uma bolha potencial no mercado imobiliário. Apesar do consequente declínio das vendas de casas, em Março de 2009 essas vendas foram 36% superiores, em valor, ao que haviam sido no mesmo mês de 2008, e entre os meses de Junho de ambos os anos o aumento ultrapassou os 80%. Aliás, prevendo o momento em que começarem a extinguir-se os efeitos do estímulo de 4 biliões de yuans anunciado em Novembro de 2008, a partir do último trimestre de 2009 o governo procurou promover o aumento do preço das casas, para reanimar o mercado imobiliário.

O panorama é muito diferente, todavia, se verificarmos que a percentagem ocupada pelos rendimentos salariais no PIB tem declinado, passando de 53% em 1998 para 40% em 2007, enquanto tem aumentado a percentagem ocupada pelos lucros, que em 2007 representaram 22% do PIB. Em Janeiro-Fevereiro de 2010, por exemplo, os lucros das grandes companhias industriais foram 120% mais elevados do que em idêntico período do ano anterior. Este desfasamento [defasagem] cada vez maior entre as duas taxas deve-se ao facto de nas últimas décadas o desenvolvimento económico chinês ter sido sobretudo capital-intensivo e gerado relativamente poucos postos de trabalho, que aumentaram apenas a uma taxa anual de 1%. Assim, os investimentos subiram de 35% do PIB em 1990 para 44% em 2008, em comparação com a taxa de 18% verificada nos Estados Unidos também em 2008. Isto significa que o crescimento do PIB na China é movido mais pelos investimentos do que pelo consumo privado. No primeiro semestre de 2009, segundo o Standard Chartered Bank, os investimentos foram responsáveis por 87% do crescimento da economia chinesa. A diminuição relativa da posição ocupada pelos salários levou a um declínio relativo do consumo privado, que representou 49% do PIB em 1990, passou para 46% em 2000, para 36% em 2007 e para 35% em 2008. Note-se que a taxa equivalente se situa entre 50% e 60% na maior parte dos outros países asiáticos e é de 70% nos Estados Unidos. Ou seja, em menos de vinte anos as despesas de consumo, que representavam 1/2 do PIB, desceram para praticamente 1/3.

A poupança

Uma desfasagem idêntica à observada entre a taxa de crescimento do consumo privado e a taxa de crescimento das despesas empresariais pode verificar-se em relação às poupanças. Segundo Louis Kuijs, um economista do Banco Mundial residente em Pequim, a poupança familiar total fora de 21% do PIB em 1998, passando para 24% em 2008. Aplicando outro critério, Eswar Prasad, professor na Cornell University, calculou que a taxa de poupança das famílias urbanas subiu de 20% para 28% do seu rendimento disponível ao longo da primeira década deste milénio. No final de 2009 a dívida total dos agregados familiares era apenas de 35% do seu rendimento disponível. Esta elevada taxa de poupança familiar não se deve atribuir apenas ao contexto político e à estrutura económica e certamente se fazem sentir tendências mais profundas, porque uma taxa idêntica se verifica em Taiwan.

No mercado imobiliário observa-se a mesma aversão ao endividamento. Segundo Yan Wang, um economista da firma canadiana de pesquisa BCA Research, só cerca de 1/5 do custo do actual surto de construção de imóveis, tanto residenciais como comerciais, é financiado por empréstimos bancários, devendo-se o resto à poupança. No final de 2009, o crédito prestado aos compradores de residências e aos investidores no imobiliário representou apenas 17% do crédito total oferecido pelos bancos chineses, enquanto nos Estados Unidos o valor equivalente era 56%. Em 2009, Andy Rothman, um economista da firma de corretores CLSA, calculou que, entre as pessoas de «classe média» proprietárias da sua residência, apenas 1/4 tinha feito uma hipoteca e que o empréstimo obtido representava só, em média, 46% do valor do imóvel, em comparação com 76% nos Estados Unidos. Assim, as medidas restritivas da construção civil e do mercado imobiliário tomadas pelo governo chinês em 2007 não provieram de um risco de hipotecas exageradas, como nos Estados Unidos, mas da necessidade de combater o aumento demasiado veloz dos preços das casas, motivado pelo crescimento do consumo particular. Todavia, depois de os preços das casas terem descido em 2008, e embora na média nacional praticamente não tivessem subido entre meados de 2008 e meados de 2009, eles voltaram a aumentar rapidamente nas grandes cidades. Apesar de ter deixado sem efeito a promessa de construir um maior número de habitações de baixo custo, o que decerto teria contribuído para baixar os preços dos imóveis, o governo chinês anunciou que tomaria medidas para prevenir a especulação na compra de casas. Um consultor do banco central declarou que a situação no mercado imobiliário chinês é pior do que nos Estados Unidos antes de ter estourado a bolha inflacionista, mas em sentido contrário vários cálculos indicam que, em relação aos rendimentos, os preços das casas desceram ao longo da primeira década deste milénio. De qualquer modo, é importante não esquecer que os problemas existentes resultam da concentração do consumo e não de qualquer extensão do crédito hipotecário.

E assim como no consumo interno a fracção devida aos agregados familiares cresceu mais lentamente do que a devida às empresas, também a maior parte do aumento da poupança nos últimos anos tem sido gerada pelas empresas. Segundo o economista do Banco Mundial Louis Kuijs, de 1998 até 2008 os agregados familiares foram responsáveis por apenas 1/5 do aumento da poupança interna total na China, cabendo às empresas a maior parte deste aumento.

Em suma, observo na China condições favoráveis ao pleno desenvolvimento do capitalismo. A elevada taxa de crescimento económico permite aumentar os salários e o consumo privado, mas permite que aumentem mais ainda os lucros das empresas e os investimentos. E este dinamismo tem capacidade para resistir às vicissitudes exteriores, porque se deve à situação interna do país e não depende fundamentalmente do mercado constituído pelos Estados Unidos e pela União Europeia, afectados pela recessão ou pela estagnação. O aumento da produtividade é o mecanismo que dá azo à ampliação dos lucros ampliando simultaneamente os salários, num círculo desenvolvido em espiral. É este mecanismo que devo analisar.

Nota

[1] Chama-se BRICs ao conjunto formado pelo Brasil, Rússia, Índia e China. Ver a este respeito o segundo artigo desta série.

Esta série inclui os seguintes artigos
1) O declínio dos Estados Unidos
2) A nova hegemonia
3) A China em primeiro plano
4) O problema da produtividade
5) Transnacionalização e espaços nacionais
6) A crise do neoliberalismo
7) Uma crise de regulação
8) A crise de regulação na zona do euro


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