Não era a primeira vez que eu escutava algum acampado usar a palavra “terapia” para definir o acampamento. De fato, eu também ouvi isso inúmeras vezes. Muitos outros militantes relatam ter ouvido o mesmo. Por Marco Fernandes

Por dentro e por fora é uma série de artigos de debate sobre as lutas e os movimentos sociais, da iniciativa conjunta de Paulo Arantes e do coletivo Passa Palavra. Série aberta a um amplo leque de colaboradores individuais, convidados ou espontâneos, mais ou menos empenhados (ou ex-empenhados) nas lutas concretas, que ajude a aprofundar diagnósticos sobre a sociedade que vivemos, a cruzar experiências, a abrir caminhos – e cujos critérios seletivos serão apenas a relevância e a qualidade dos textos propostos.

Leia a primeira parte deste artigo aqui.

Lampejos terapêuticos em acampamentos de sem teto [2]

“A situação da gente lá… sabe aquele nervoso que você tem no dia a dia? Quando você chega aqui é outra coisa: você começa a dar risada, brinca com um, brinca com outro… A gente se sente muito bem mesmo aqui, é muito bom! Eu chego aqui, eu deito até pelo chão. Se eu não tivesse serviço, eu ficava aqui dia e noite. Só alegria, porque é muito bom!” (Fala de Gilda, no acampamento “João Cândido”, na Zona Sul de São Paulo) [3]

Um processo de luta massivo e bem organizado tem tudo para gerar uma forte mística e possibilitar experiências de ruptura e de desnaturalização das relações sociais determinadas pelo capital. As ocupações de terrenos vazios nas periferias das metrópoles brasileiras chegam a reunir milhares de famílias sem teto e, num período de refluxo das lutas sociais como o que vivemos, é provavelmente um dos mais eficientes instrumentos de mobilização na cidade. Ocupa-se um terreno durante a madrugada com 200 a 300 pessoas e em uma ou duas semanas essa cifra pode chegar facilmente a mil, 2 mil pessoas (ou mais) dispostas a lutar pela conquista de uma moradia digna.

Assim como os acampamentos infanto-juvenis, tradicionalmente organizados por escolas, igrejas e outras associações, que tanto sucesso fazem entre crianças e jovens, a experiência de um acampamento sem teto também provoca uma ruptura com o cotidiano, como se abrisse para as pessoas uma espécie de espaço e tempo paralelos, possibilitando experiências improváveis de serem vividas em “condições normais de vida”.

No meio desta brecha, abre-se para o movimento a chance de questionar, na vivência cotidiana, os valores desta sociedade. De mostrar que estes não são “naturais” e que é possível tentar construir relações de forma distinta às que estamos acostumados. Uma ocupação de terra é sempre um território onde experiências de coletividade são vividas na prática como a única maneira de resistir ao poço sem fundo do individualismo contemporâneo, sobretudo para o povo pobre da periferia. Difícil viver meses num acampamento como estes e não se sentir, de alguma forma, modificado pelo que viu, ouviu e sentiu. Sempre tive a sensação de que viver um mês numa ocupação equivale a viver um ano de uma “vida normal”, tamanha é a intensidade (e mesmo a quantidade) das nossas vivências.

“É que aqui você… não sei, é tão sem explicação… você vê a vida com outros olhos, sabe? Você começa a ver as coisas diferentes. Eu, pelo menos assim, pra mim, aqui… nossa! Como mudou meu modo de pensar as coisas, sabe?” (Maria Aparecida)

No caso do MTST, desde o primeiro dia, havia um grande esforço do movimento para fomentar a criação de espaços coletivos auto-geridos pelas próprias famílias. Assim, o movimento propunha que as famílias se organizassem em “grupos”, em média de 50 a 100 famílias, a depender do tamanho da ocupação. A partir disso, havia uma divisão de tarefas no interior de cada grupo (infraestrutura, disciplina, limpeza, cozinha e coordenação geral) e se propunha a construção de “equipamentos básicos coletivos” (de lona preta): a cozinha, os banheiros e o barracão para reuniões. Cada grupo elegia seus coordenadores, que, junto a um grupo de militantes, faziam parte da “coordenação geral do acampamento”, com reuniões praticamente todos os dias e que era responsável por discutir desde questões de organização interna até as lutas que seriam feitas. Ao mesmo tempo, tais reuniões eram um espaço privilegiado para atividades de “formação política”, pois, partindo das questões mais concretas da luta da ocupação, podíamos tratar, aos poucos, do sentido de um movimento popular, do lugar da classe trabalhadora na sociedade capitalista, do sonho de construção do poder popular. Ao mesmo tempo, solidificávamos a identidade coletiva do movimento. Num espaço como este sempre se podia formar um bom número de futuros militantes.

A organização das cozinhas se constituía como uma das principais formas de criação de vínculos do acampamento, pois demandava a divisão de diversas tarefas (quem cozinha, quem lava, quem vai atrás de doações, quem traz a lenha etc.) e muito trabalho para alimentar dezenas de pessoas diariamente. Todo este trabalho coletivo, realizado durante semanas à base de muita solidariedade, tendia a gerar um importante sentimento de pertença entre as famílias, mesmo porque se tratava de uma experiência nova para quase todos, já que uma “cozinha comunitária”, infelizmente, não faz parte do imaginário, nem da prática cotidiana de nenhum de nós.

“Aqui, eu me sinto mais em casa que na minha própria casa”. (Lu)

Imagine-se, por exemplo, a experiência vivida numa grande ocupação como a “João Cândido” (Itapecerica da Serra, 2007), onde havia cerca de 30 cozinhas como essas num terreno de mais ou menos 400 mil m². Essa forma de organização possibilitava a formação de inúmeros grupos menores no acampamento, algo fundamental para que as pessoas se sentissem acolhidas e não desaparecessem na grande massa humana que é uma ocupação desse porte. Para não falar do quão fundamental é o espaço da cozinha para a sociabilidade popular, que nos remete a odores e perfumes de memórias infantis, às lembranças do acolhimento materno e à sagrada hora da partilha do alimento. Nas palavras de uma companheira:

“Quando a gente chega aqui, a gente chega só, mas a partir do momento que você chega aqui, você cria uma família, né? Você cria uma família e nunca tá só”. (Maria Aparecida)

As inúmeras ações diretas decididas em assembléia, como marchas, ocupações de órgãos públicos, “trancaços” de ruas e rodovias eram um importante instrumento de pressão sobre o governo. Mas além das consequências políticas, as ações diretas pareciam também surtir outros efeitos, tão importantes quanto, sobre as pessoas. Como disse uma outra companheira:

“O movimento, em si, faz bem… dá uma força assim… as passeatas que tem, dá uma melhorada na cabeça da gente. Não fica só naquela neura de preocupar com casa, filho, com o quê tá faltando… o movimento é muito bom. Se eu não tivesse cinco filhos, que dependessem de mim pra ir pra escola, eu entrava no movimento assim de cabeça, ia embora com o pessoal”. (Laura)

A companheira constatou, em si mesma, como “o movimento faz bem” e “dá uma força”. Além disso, percebeu o efeito terapêutico desencadeado por uma marcha, que nos faz esquecer por um instante os infindáveis problemas cotidianos, o aluguel atrasado, a falta de moradia – justamente o que este protesto tentava solucionar. Por um lado, como atesta a medicina, depois de alguns minutos de caminhada, o corpo começa a liberar substâncias, como as endorfinas, que nos trazem bem-estar físico e psicológico. Mas, acima de tudo, uma ação massiva de protesto proporciona a elevação da nossa auto-estima, pois nos sentimos parte de um coletivo poderoso, que se mostra capaz de desafiar à polícia e aos governos para fazer valer nossos direitos. Não são tantas as chances que o povo da periferia tem de fazer isso hoje em dia. Ainda são muito menos do que precisamos [4].

“A gente tem que mostrar pros ricos, que nós também não somos o que eles pensam, que nós não somos o lixo que eles pensam. Não somos desempregados, nem vagabundos, que nem eles dizem…Meter pau nos ricos faz bem à saúde, meu amigo!” (Lu)

Por outro lado, o “setor de formação” do movimento (composto pelos coletivos de cultura, educação e formação política) tinha a tarefa de propor, articular e executar uma série de atividades culturais e formativas no acampamento, algo em que apostávamos como forma de trazer diversão e alegria à ocupação, mas, sobretudo, como instrumento de formação política e de construção de uma identidade coletiva ligada ao território, ao movimento e à classe como um todo.

Graças aos contatos que tínhamos, éramos capazes de trazer inúmeros grupos de teatro adulto e infantil, bandas de hip hop, de forró e samba para se apresentarem, entre outras atrações. Também projetávamos inúmeros filmes à noite, reunindo, facilmente, dezenas, ou mesmo centenas de pessoas. Mas a nossa principal atração eram os saraus de sábado à noite, quando, em volta de uma enorme fogueira, todos tinham a chance de apresentar uma música, uma poesia ou uma cena de teatro, além de assistirem a projeções de filmes diversos e de vídeos das ações do próprio movimento, feitos pela Brigada de Guerrilha Cultural, nome do coletivo de cultura do movimento.

Um companheiro, certa vez, disse que “o sarau é a forma da arte da periferia”, porque é democrático, porque todos têm direito a serem artistas, mesmo os tímidos e os desafinados. Nesses dias, facilmente reuníamos mais de cem, às vezes duzentas pessoas. Outro companheiro percebeu que o sarau era uma espécie de “ensaio para a assembléia”, uma vez que permitia que as pessoas, aos poucos, perdessem a inibição de falar em público, algo da maior importância em um movimento de massa. E mais de uma vez, depois de um certo tempo de acampamento (cujo desgaste a longo prazo é inevitável), percebíamos que os saraus reuniam, às vezes, mais gente que as “assembléias gerais”. Sem contar a própria preparação dos acampados para os saraus (procurando poesias, ensaiando cenas de teatro ou uma apresentação musical etc.) que já instituía, por si mesma, um espaço de elaboração da experiência.

Esses momentos adquiriam então uma importância organizativa para a ocupação, pois também aí eram transmitidas as informações sobre as lutas. Só que serviam, sobretudo, para que os acampados elaborassem, das mais variadas formas, a sua própria experiência de luta e organização. Vez por outra, o clima de acolhimento produzido encorajava alguns dos participantes a pedirem o microfone para darem, espontaneamente, o seu “testemunho”. Contavam o que havia mudado na sua vida desde que haviam chegado ao acampamento e conhecido o movimento. Sempre um “antes” e um “depois”. Uma forma eficaz de consolidar uma identidade coletiva, pois servia aos ouvintes como espelho de sua própria experiência. Por isso, o “testemunho” é uma prática tão utilizada nos cultos das igrejas pentecostais.

Durante os poucos meses que em geral duravam as ocupações do MTST em São Paulo [5] , certamente aconteciam mais festas e apresentações artísticas do que o habitual num bairro da periferia da cidade. Tínhamos então a chance de saciar um pouco de nossa fome de beleza e de alegria, tão relevante como a “fome de pão”. O direito à beleza e à fruição estética – algo tão importante quanto a moradia, mas de difícil acesso para o povão – tem efeitos profundos sobre nossa subjetividade, inclusive terapêuticos. Sempre havia desculpa para realizarmos uma festa no acampamento. Podia ser o seu “aniversário mensal”, a comemoração de uma rodada de negociação favorável com o governo, ou a celebração de uma ação mais contundente, como as marchas massivas e “trancaços” de rodovias. Acreditávamos que estes momentos festivos e o contato com expressões artísticas, as mais variadas, ajudavam a fortalecer os vínculos entre todos que participávamos daquela luta, fortalecendo a própria luta.

Não à toa, uma das grandes funções que as igrejas sempre desempenharam para as classes populares, como nos lembra Frei Betto – ao tratar de alguns traços bem sucedidos do trabalho de base desenvolvido pelas Comunidades Eclesiais de Base nos anos 70 – é justamente o de saciar a necessidade de beleza, fantasia e utopia por meio da produção artística: as músicas, os cantos, as obras de arte, a dança e tudo aquilo que envolve um ritual religioso. Necessidades que as classes médias e a elite, em geral, podem satisfazer indo ao cinema, ao teatro, aos museus, lendo bons livros etc., ou seja, em espaços pouco acessíveis à maioria da classe trabalhadora [6].

Por isso mesmo, já nos anos 20, Trotsky alertava a militância revolucionária e atéia de que era preciso aprender com o exemplo da Igreja, defendendo, como uma das tarefas mais importantes da política cultural que deveria impulsionar a construção do socialismo na URSS, a constituição de espaços que pudessem ocupar a mesma função simbólica que os rituais religiosos desempenhavam para a classe trabalhadora até então, pois neles “o elemento de distração, de entretenimento, de passatempo, desempenha um papel enorme (…) Através da encenação, a igreja atua sobre os sentidos: a visão, a audição, o olfato (do incenso) e sobre a imaginação. A afeição dos homens pelo teatro – ver e ouvir algo novo, brilhante, que os tire do ordinário – é muito forte, indestrutível e insaciável desde a infância até uma idade avançada. Para que as amplas massas renunciem ao formalismo, ao ritual da vida diária, não basta a propaganda anti-religiosa”. [7] Diga-se de passagem, Trotsky apostava no cinema – que dava então os primeiros passos – como forma de concorrer com a igreja a favor dos socialistas. De forma muito mais intuitiva do que é o desejável numa organização política, o sucesso que as atividades artísticas tinham no acampamento nos ensinavam, na prática, as profundas verdades dos ensinamentos de Frei Betto e León Trotsky.

Como que íamos tateando o terreno, baseados somente na relativamente pequena experiência de alguns anos realizando trabalho de base na periferia e informados por um fragmentado conhecimento do imaginário popular. Mas nos faltava muito. Faltava sistematizar tais experiências e, sobretudo, estudo e reflexão coletiva em cima do que estávamos fazendo, além, claro, da garantia de continuidade deste tipo de ação, algo raríssimo num movimento pequeno e com poucos recursos como o nosso.

Seria certamente enriquecedor se pudéssemos contar com companheiros imbuídos de bagagem profissional e experiência teórica e prática, como artistas (além dos poucos com que contávamos), psicólogos e psicanalistas. Mas voltarei a isso adiante. O fato é que, apesar da nossa precariedade, experiências transformadoras eram produzidas cotidianamente, fossem a partir de ações propostas pela militância, ou, sobretudo, da infinidade de relações que eram estabelecidas nos espaços coletivos construídos e mantidos pelas famílias.

Certa vez, caminhando pelo acampamento, meio que procurando alguém para conversar, buscando um prato de comida na hora do almoço, encontrei Sara na cozinha de seu grupo. Depois dos habituais cumprimentos e de um ou outro comentário sobre a comida, de cheiro convidativo, Sara me confessava que há muito tempo não se sentia tão bem, que inclusive parara de tomar seus “remédios pros nervos”, que ela já tomava há meses.

“Fui ao médico essa semana, e ele disse que eu tava curada, que não precisava mais tomar remédio”, me contava empolgada. E continuou: “Eu contei pro doutor: ‘Dotô’, eu tô curada por que tô lá no sem teto, na invasão do Valo Velho. Conheci um monte de gente, tô lá na cozinha do grupo 4, faço comida pra uma pá de gente todo dia, converso muito, vou nas marchas, me divirto. Não preciso mais de remédio”.

E como se não bastasse contar a história, Sara me puxou até o seu barraco. “Eu só quero te mostrar uma coisinha, é só um segundo”. Ela nem precisou insistir, pois já me deixara curioso. E puxando uma caixinha de tarja preta, com cartelas cheias de comprimidos, me disse orgulhosa: “Tá aqui, ó! São 150 comprimidos. Eu tomava cinco desses por dia. Mas eu não tomo nenhum há 30 dias, desde o dia em que cheguei aqui. Agora você acredita?”

Relatos como esses, de curas de depressão, sobretudo de mulheres, eu ouvi aos montes nas várias ocupações de que participei. Fossem pessoalmente das “curadas”, ou através de relatos de outros militantes, eram inúmeras as histórias que nos eram contadas pelo povo. Havia ainda um caso extremo nesse sentido: uma companheira nossa, Luzia, que até hoje é muito próxima do movimento, uma vez me contou que antes da primeira ocupação em que ela se juntou a nós (a “Chico Mendes”, em setembro de 2005), encontrava-se com uma depressão profunda, tomando medicamento há meses.

Dias depois de começar a participar das atividades (marchas, reuniões, grandes assembléias) e de se engajar com entusiasmo em uma das cozinhas do acampamento e na “ciranda” [8], sentiu-se curada e parou de tomar os remédios. Foram 8 meses de acampamento. Veio o despejo e ela voltou à sua casa, continuando a comparecer às nossas assembléias em praças públicas e participando de todas as lutas que fazíamos. No entanto, dizia ela, sem o acampamento voltou a cair em depressão. Dez meses – intermináveis para Luzia – se passaram entre o despejo e uma nova ocupação do movimento (a “João Cândido”, em março de 2007). Neste período, contou: “eu ficava passando em frente ao terreno que agora tá vazio, e chegava a sonhar que a gente ocupava novamente”.

Ela esteve conosco desde a noite da nova ocupação e, já “experiente”, logo se meteu a contribuir com a organização de alguns dos grupos e suas respectivas cozinhas, além de ajudar a organizar atividades para as crianças. “Tô aqui pra ajudar, como me ajudaram antes! Nem quero saber de cadastro, nem de lista de presença, nem nada!” Dois meses se passaram no novo acampamento, mas o despejo veio mais rápido dessa vez. Ela me contou essa história uns três dias antes de sermos despejados da ocupação João Cândido. E sem conseguir conter as lágrimas que vertiam de seus olhos já vermelhos e marejados, ela suplicava:

“Quando é que vamos fazer outra ocupação? Porque eu sei que quando a gente sair daqui, vou voltar pra casa e vou ficar deprimida de novo”. Como diria Pichón-Rivière, tudo indica que a intensa experiência dos acampamentos representavam para Luzia um lugar, um “enquadre”, no qual ela podia “depositar a sua loucura” e superar sua depressão [9] . Talvez por isso, uns dez meses depois dessa súplica, lá estava ela conosco em mais uma ocupação na região onde ela morava. Provavelmente, o caso de Luzia é dos mais extremos, mas estou convencido de que, para muito mais gente (como igualmente para mim), o acampamento era um lugar propício para “depositar loucuras”.

Alguns dias antes dessa conversa com Luzia, já havia sido decretada a ordem de despejo para a qual não cabia mais nenhum recurso jurídico. Claro, a possibilidade de resistência estava descartada. O comando da Polícia Militar já havia se reunido conosco e anunciado a utilização de um efetivo de mais de mil policiais para cumprir a reintegração de posse. Qualquer resistência, nestas condições, seria suicida. Nossa tarefa na militância era agora ajudar nos preparativos para a nossa saída e propor a organização das famílias em núcleos nos seus bairros de origem a fim de nos mantermos unidos e organizados, pois ainda teríamos de realizar inúmeras outras marchas até a prefeitura e o palácio do governo do estado.

Dividimo-nos em duplas de militantes que ficaram responsáveis por conversar com todos os grupos do acampamento, pois era preciso mais do que uma assembléia geral para tratar das questões. Numa dessas conversas, testemunhei um diálogo surpreendente entre um companheiro e uma companheira acampados.

Reunimos as famílias de um dos grupos, numa reunião com cerca de 60 pessoas. Era a penúltima do dia que cabia a mim e Ana, minha dupla. Na conversa, resgatamos toda a trajetória daquele acampamento, das nossas dificuldades e das nossas conquistas, mostrando como já havíamos feito história, mas como a nossa luta pelo direito à moradia estava apenas começando. De repente, o Alemão, nitidamente emocionado, pediu a palavra. Era fim de tarde e um pôr do sol daqueles ajudou a produzir uma tocante mística em nossa pequena reunião. Alemão havia perdido um irmão há poucos dias e vários de nós havíamos ido ao enterro. O companheiro disse mais ou menos assim:

“Vocês sabem que perdi meu irmão e tá sendo muito duro pra mim. Depois do enterro, voltamos pra casa e meu pai pirou e ficou falando um monte de besteira pra minha mãe. Olha, eu quase saí na mão com ele, mas eu me segurei. Se fosse uns meses atrás, eu batia nele, mas achei melhor ir embora. Aí, pensei: vou pro acampamento esfriar a cabeça! Aí vim pra cá, fiquei dando umas voltas por aqui, conversei com um, conversei com outro. Sabe como é, aqui eu fiz muitos amigos… E fui esfriando a cabeça… Olha, esse lugar faz bem pra gente, e vai ser difícil ter que sair daqui”.

Uma jovem companheira, a Jéssica, que balançava a cabeça concordando com o Alemão, não se conteve e o interrompeu, dizendo:

É verdade, Alemão, é verdade! Isso aqui é uma terapia pra gente, né não?!”.

E o Alemão, de bate-pronto, arrematou genialmente:

“É isso mesmo! É uma terapia! E é melhor do que a [Igreja] Universal [do Reino de Deus], pois aqui a gente não tem que dar dinheiro pra aqueles pastores espertalhões”.

Caímos todos na gargalhada, plenos de cumplicidade.

A reunião estava encerrada. Muito bem encerrada. Saí de lá às pressas, pois eu e a companheira Ana tínhamos de fazer outra reunião antes da noite cair completamente sobre o acampamento, mas no caminho até o outro grupo não podia deixar de pensar naquilo que acabáramos de ouvir.

Não era a primeira vez que eu escutava algum acampado usar a palavra “terapia” para definir o acampamento. De fato, eu também ouvi isso inúmeras vezes. Muitos outros militantes relatam ter ouvido o mesmo. A palavra “terapia” está na boca do povo. Certa vez, cheguei a ouvir a hilariante frase de uma companheira no acampamento: “Isso aqui é como um spa de pobre”.

Penso que esse fenômeno nos revela um certo anseio popular e nos faz pensar que, ao que tudo indica, há uma enorme demanda por “terapia” no interior das classes populares (na verdade, parece tratar-se de uma demanda que atinge a todas as classes, mas é evidente que o calo aperta mais no andar de baixo da pirâmide social, justamente entre as pessoas que menos têm condições de ter acesso a um tratamento digno). Parece-me desnecessário esmiuçar, neste texto, que a precariedade das condições de vida das famílias de baixa renda numa sociedade periférica pós-neoliberal é a base material, e raiz última, dessa demanda por “terapia”.

De alguma maneira – que precisamos urgentemente entender melhor – parece que a experiência de um acampamento “sem teto”, e de muitas outras formas de organização e de lutas do proletariado, possuem o potencial de responder, em parte, a essa urgente demanda por terapia para as classes populares. Muitas das centenas, ou milhares, de pessoas que se juntaram à ocupação por uma necessidade básica, a casa, parecem ter encontrado algo além: um tipo de acolhimento e de suporte coletivos forjado nas experiências de lutas massivas e combativas, no trabalho coletivo para manter todas as estruturas coletivas funcionando, nas festas memoráveis e nas inúmeras atividades culturais. Forjado também nas incontáveis “assembléias dos grupos” e nas reuniões de grupos pequenos, ao redor da fogueira, acompanhados de um velho violão, as bebidas e as histórias compartilhadas, quando a escuridão da noite cobria o acampamento. Um conjunto que lhes permitiu restabelecer vínculos perdidos, resgatar sua auto-estima e reconstruir um projeto de futuro. Sem projeto de futuro, nós simplesmente adoecemos.

No entanto, a experiência de um acampamento é uma espécie de “estado de exceção”. Não dura muito, nem pode durar, pois, com o tempo, a precariedade das condições tende a reverter estes aspectos terapêuticos no seu contrário, podendo gerar ainda mais stress. Do mesmo modo, é humanamente impossível manter por muito tempo o nível de mobilização que os primeiro meses de uma ocupação exigem. Temos necessidade de luta e de conquistas materiais, pois sem elas, um movimento popular não sobrevive a longo prazo. Contudo, temos também a necessidade de festejar e de descansar.

Que fique bem claro uma coisa: não mencionei os milhares de conflitos gerados todos os dias no acampamento (que a militância deve sempre tentar mediar), nem as inúmeras privações e necessidades sentidas nos barracos, nem a tensão permanente que sofremos por conta das iminentes investidas policiais contra a ocupação, simplesmente, porque imagino que isto seja uma obviedade para quem conhece a dura realidade das periferias. Em nenhum momento, quis dar a entender que as ocupações são “ilhas de felicidade” em meio a um mar de barbárie. Elas também reproduzem o que há de perverso na sociabilidade individualista introjetada por muitos habitantes dos bairros populares. Mas penso que, para o objetivo deste texto, valia a pena lançar luz sobre estes lampejos de uma “outra sociabilidade”, que logramos sustentar precariamente nas ocupações.

E, principalmente, é preciso ressaltar que, se o movimento não consegue dar continuidade ao trabalho de organização nos bairros, como costuma acontecer com os movimentos populares urbanos nos tempos bicudos em que vivemos, tais efeitos tendem a ser esmagados nas engrenagens do cotidiano da periferia. É preciso que saibamos conciliar a dinâmica específica das lutas com atividades cotidianas, digamos, mais rotineiras, pois uma hora ou outra, temos de voltar ao ritmo de vida, filhos, trabalho etc. Se não formos capazes de intervir na vida cotidiana da classe, então estaremos fadados ao fracasso. Esse era o maior limite das experiências que acabei de relatar. A verdade é que praticamente nenhum movimento popular urbano tem hoje uma inserção nos bairros periféricos realmente enraizada, a ponto de se transformar na própria organização cotidiana da comunidade, em suas diversas esferas: o trabalho coletivo, o lazer, a formação, a saúde da comunidade etc.

Isso me parece fundamental se quisermos, de fato, construir um poder popular contra-hegemônico na sociedade, mas será preciso fazer muito mais do que ocupações para isso. Nem só de pão vive o homem. Nem só de acampamentos por moradia pode viver uma organização política que ambiciona transformar a sociedade. No entanto, creio que as experiências dos acampamentos nos ajudam a elaborar, no interior de nossas organizações, propostas e métodos de trabalho de base em espaços com atividades cotidianas, que precisam ser fomentados nos bairros onde vive a maioria da classe trabalhadora.

E se trata de um desafio ainda mais urgente se nos deparamos com um fenômeno central da vida cotidiana dos bairros da periferia, que também apareceu na fala dos companheiros que acabei de relembrar: o sucesso retumbante das igrejas pentecostais. Afinal, logo depois de concordar com a Jéssica, que afirmara que o acampamento era “uma terapia pra gente”, o Alemão respondeu com um comentário espontâneo, de uma profundidade sociológica surpreendente, lembrando que se tratava de uma “terapia melhor que a Universal”, pois ali – na ocupação – não precisavam pagar o dízimo.

Ora, sem nunca ter ouvido falar de Frantz Fanon, o Alemão acabara de atinar para a mesma relação estabelecida pelo nosso psiquiatra guerrilheiro: o caráter terapêutico presente nos rituais religiosos – principalmente em seus elementos catárticos – também pode ser encontrado em processos de organização e mobilização populares que lutam por melhorias, ou profundas transformações, da vida do povo. Afinal, a luta é uma catarse. As festas e as atividades culturais que realizávamos no acampamento também geravam efeitos catárticos. Mas se a terapia religiosa cumpre, em geral, a função de manter a estrutura social como está, a “terapia da luta” tenta curar o indivíduo atacando a origem última de sua doença: as injustas e opressivas condições de vida.

Como venho sugerindo, me parece que o fenômeno da ascensão avassaladora do pentecostalismo no interior das classes populares no Brasil é mais um sintoma que nos revela o quão urgente tem sido a demanda do nosso povo por espaços e práticas terapêuticas. Penso que grande parte do sucesso destas igrejas e de seus pastores se explica pela capacidade que estes vêm demonstrando em dar algum tipo de resposta para as angústias profundas que o povo pobre da periferia vive em seu cotidiano. De forma breve, gostaria de tecer alguns comentários sobre essa questão.

Continua…

Notas:

[2] As narrativas a seguir são fruto de vivências em acampamentos urbanos durante os anos em que militei no MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), entre começo de 2005 e fim de 2008. Depois disso, me afastei do movimento, junto a muitos outros companheiros, por divergências políticas. Não saberia dizer como o movimento tem organizado suas ocupações hoje em dia. Fica, de todo modo, um registro histórico. Depois disso, me aproximei do MST e hoje sou militante deste movimento, atuando na Regional Grande São Paulo, a primeira regional do Movimento Sem Terra com experiências de lutas propriamente urbanas, como o caso da “Comuna Urbana”, em Jandira, na periferia oeste da região metropolitana. Este é o primeiro projeto de assentamento urbano do movimento no país, onde estamos construindo 128 casas, em regime parcial de mutirão.
[3] A fala desta companheira, bem como as próximas frases citadas em destaque neste trecho do texto, estão registradas no documentário “2 meses e 23 minutos”, de Rogério Pixote e Fábio Ranzani, feito a partir de entrevistas com mulheres e crianças nas cozinhas do acampamento. Disponível no aqui.
[4] O vídeo que fizemos sobre a marcha também está disponível aqui.
[5] Em São Paulo, nos últimos anos, tem sido muito difícil, quase impossível, permanecer em grandes terrenos por muito tempo. Os juízes chegam a emitir ordens de despejo em menos de 2 dias, e somente com muita pressão das mobilizações é que conseguimos permanecer por alguns meses. Assim, ganhamos tempo para tentar negociar com o estado uma solução para as famílias sem teto. Contudo, depois do despejo, propúnhamos continuar nos reunindo em núcleos nos bairros, pois muitas pessoas voltavam à casa onde moravam (de aluguel, de favor em casa de parente, em área de risco etc.).
[6] Cf. Frei Betto. O que é Comunidade Eclesial de Base. São Paulo, Brasiliense, 1981.
[7] Cf. León Trotsky. “Iglesia, cine y alcohol” IN: Problemas de la vida cotidiana / El nuevo curso. Buenos Aires, Antídoto, 2005.
[8] “Ciranda” é como chamamos, no MST e também no MTST, aos espaços de formação infantil, em acampamentos ou assentamentos. Neste caso, o coletivo de educação do MTST desenvolvia atividades formativas e de lazer com as crianças do acampamento, no qual elas podiam elaborar a sua própria experiência, do porquê estarem ali junto com seus pais, o que é o movimento etc., além, claro, de se divertirem.
[9] Devo esse conceito de Pichón-Rivière a uma conversa com a psicanalista Eliane Berger, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientae (São Paulo), um dos principais centros de formação de psicanalistas do país e que foi, também, um espaço fundamental para a formação dos movimentos populares de São Paulo em fins dos 70, bem como da formação do PT.

11 COMENTÁRIOS

  1. Não sei nem por onde começar a comentar, já que esta parte do artigo trouxe inúmeras reflexões. Para sintetizar, creio que a base de tudo é o processo de humanização (processo de desalienação) que os indivíduos passam durante o processo de luta. O individualismo burguês (onde você vai morar, qual o seu emprego, você é bom o bastante? você aquilo…) se dilui nos questionamentos coletivos: Onde moraremos? O que comeremos? Etc. Quanto menos burocratizado (a burocracia aqui é entendida como um retorno ao isolamento e ao frio mundo dos átomos humanos) mais vida, mais trabalho objetivado. Concordo com o autor que não se trata somente de coisas boas, mas dependendo da estrutura da organização até as experiências ruins (violência contra mulher, racismo, etc…) são refletidos e superados, ou ao menos se caminha para isto. A grande questão é como fazer para este movimento, que é o movimento comunista (“O comunismo é o movimento real que abole o atual estado das coisas”), consiga se ampliar, sempre sob novas bases, sempre maiores, e destruir o modo de produção capitalista em uma conjuntura de refluxo (não reparem as questões abrangentes e abstrtatas, é que este tema me é por demais complexo).
    Uma ocupação de terra ou de um imóvel acelera o processo ( “Sempre tive a sensação de que viver um mês numa ocupação equivale a viver um ano de uma “vida normal”, tamanha é a intensidade (e mesmo a quantidade) das nossas vivências”)
    no sentido em que une estas pessoas. Organizar um bairro já é mais difícil porque os problemas coletivos são colocados em questões pontuais (iluminação, segurança, etc…) e não no dia a dia como uma ocupação de terra, onde é debatido até a ordem dos móveis, quando existem, em um ambiente.
    Enfim, me formei enquanto ser humano em um movimento social, e percebo cada vez que me afasto de um que o ar fica menos respirável, as relações sociais ficam mais anti-sociais, o mundo fica mais frio, minha vida mais alienada.
    Só nos resta lutar, e refletir sobre a luta!
    OBS: Não sei se esta foi uma contribuição ao debate ou se foi um processo de catarse, de desabafo!

  2. Caros,

    Gostaria de dizer que estou gostando bastante deste debate levantado por este texto do Marco Fernandes. Estava ansioso pela segunda parte deste artigo, pois acho que o autor levanta um problema fundamental que é o quanto as “demandas subjetivas e psíquicas” são tão importantes para se mudar a realidade quanto a discussão e a reflexão sobre elas é desprezada nos meios de esquerda.

    Só acabei ficando um pouco frustado com a análise e com as propostas do autor nesta segunda parte do texto, pois acho que diferente de muitos comentários na primeira parte (do Eduardo, D.Caribé, Allan e Manolo), o autor foi muito pouco crítico em relação ao quadro de burocratização, mistificação, autoritarismo e depressão dentro dos próprios espaços de muitos dos nossos movimentos. Achei que o Marco fosse avançar nessa área nesta segunda parte, porém ele só fez uma crítica no início (a falta de atenção ao tema) para depois fazer um elogio meio idealista aos espaços e práticas dos movimentos. Como se eles tivessem em si “lampejos de uma mística terapêutica”.

    Assim fiquei com a impressão que o autor ao invés de querer superar as falsas místicas e as falsas terapias tão presentes no cotidiano capitalista (nas igrejas carismáticas e pentecostais, nos programas de tevê, nos livros de auto-ajuda, nas torcidas de futebol, nas baladas drogadas de jovens etc), propõe que elas se renovem e se multipliquem de outras maneiras dentro dos espaços das ocupações e dos movimentos sociais. E se eu entendi errado peço ao autor que me corrija, por favor.

    Acho esse caminho muito perigoso, clamar por mais místicas e por um suposto resultado terapêutico delas, ainda mais quando o que temos visto na prática em muitos espaços de nossas organizações e movimentos é exatamente a reprodução de burocratizações mistificadoras, catarses personalistas, autoritarismos, e consequentes frustrações coletivas ou individuais semelhantes as que tanto se multiplicam na sociedade. Depressão, alcoolismo, disputas violentas, suicídio…

    Apesar de alguns momentos de euforia – geralmente no início das lutas -, a brutalidade do mundo e a repetição dos erros de nossas organizações tratam rapidinho de acabar com qualquer “mística” ou qualquer “efeito terapêutico”, gerando logo o seu contrário. Afinal Guias Geniais e seus milagres não existem, logo se revelam; e o Ministério da Revolução deveria sempre advertir: “burocracia faz mal à saúde coletiva”. Os métodos de catarse e euforia não seriam os mesmos que depois geram as frustrações e esvaziamentos, pois as promessas milagrosas jamais podem ser cumpridas?

    É nesse sentido que eu ainda estou matutando e muito sobre uma mensagem que circulou há cerca de uns três meses na lista da Consulta Popular, organização da qual faço parte, que falava exatamente sobre os perigos das místicas e das terapias deformadoras, foras de hora e de contexto, nos movimentos sociais. Tomo a liberdade de reproduzir esta longa mensagem abaixo (preservando a identidade do companheiro que a enviou) para tentarmos refletir juntos sobre outros aspectos dessas importantes questões que o Marco nos trouxe:

    “Grandes e respeitáveis camaradas e [email protected] da Consulta Popular,

    volto à carga com o assunto da Mística, que tratei (provoquei) na mensagem anterior.

    1. Entendo que cada militante pode ou não ter sua religião, e outros podem ser igualmente ateus militantes. Isto não é, e nunca foi problema. Isto não é problema. Este não é o problema.

    2. Entendo, no entanto, que o espaço das místicas são os espaços das religiões – e cada uma cuida desses espaços e de suas místicas à sua maneira. E quando lá estamos em uma cerimônia, sejamos de qualquer religião ou ateus, devemos todos respeitar os rituais. Aliás, na condição de ateu militante, tenho participado de diversas cerimônias religiosas (das mais diversas matrizes), e procuro sempre me manifestar com profundo respeito com relação aos meus anfitriões e ao que ali se passa. E não haveria porque ser diferente.

    3. A mística cuida do universo da irracionalidade – que todos trazemos conosco, enquanto a política deve ser colocada no terreno da razão – o que não significa em nenhuma hipótese o universo do racionalismo, ou da Deusa da Razão que, encarnada por uma conhecida prostituta parisiense do final do século 18, foi entronizada no altar-mor da Catedral de Paris, durante a Revolução Francesa (Revolução burguesa) de 1789. Essa mística do racionalismo, por exemplo, nos tem levado aos mais diversos desastres.

    4. A política, no entanto, se quisermos ser de fato transformadores (revolucionários ou reformadores), não pode se fundar em qualquer tipo de mística. Na política, a mística só conduz ao sectarismo, ao seguidismo, ao não acúmulo de massa crítica. E um revolucionário ou um reformador incapaz da crítica, marcha irremediavelmente para o culto à/s personalidade/s, à estigmatização dos divergentes, aos desastres, cujo momento maior no século passado foi o Cambodja de Pol Pot. A política é o terreno da racionalidade.

    5. Isto não implica – é bom que fique claro – que para ser um reformador ou um revolucionário, os religiosos necessitem abandonar sua fé. Assim como os ateus militantes que fazem terapias, não podem nem devem misturar terapia e política, os religiosos não podem transformar um núcleo político, num local de práticas místicas. Ou seja, um núcleo político, do mesmo modo que não pode ser um espaço de prática religiosa, não pode igualmente ser tratado como um espaço para terapia de grupo.

    6. Não se trata de qualquer esquizofrenia, de partir homens e mulheres ao meio em porções irreconciliáveis. Explico ainda que o exemplo possa ser considerado um tanto tosco: como numa casa que, apesar de ser uma unidade, nós, homens e mulheres, destinamos espaços específicos para cada atividade – cozinha, banheiros, quartos, salas, área de serviço, etc. – devemos igualmente pensar os espaços da política e da mística (ou das terapias). Ou seja, não é aconselhável dormir na área de serviço; defecar na cozinha; receber as visitas no banheiro; cozinhar no telhado, etc. etc. Considero igualmente desastrosa (e, aqui, muitas vezes com conseqüências das mais terríveis) a utilização da mística na política.

    7. Mais perigoso ainda é fazer preceder assembléias e/ou encontros que devem tomar posições políticas, por qualquer tipo de ritual místico; mexer com o lado irracional das pessoas (indivíduos ou coletivos) para induzi-las a conclusões, tomadas de posição, ações, etc. Este é um terreno fértil para a manipulação (no caso) política das consciências, da racionalidade coletiva, através das emoções e desejos exacerbados.

    Não sei se vocês conhecem, mas a palavra ASSASSINATO provém da palavra HAXIXE. E o motivo é simples: houve no Oriente uma seita político-religiosa que, em suas reuniões, se utilizavam do haxixe para induzir seus membros a assassinar adversários, inimigos, ou apenas desafetos. O papel das drogas, para dar “coragem” aos soldados nas frentes de batalha, também é um bom exemplo – neste caso, sugiro que assistam ao filme “Apocalypse, now”, do Francis Coppola, sobre a guerra no Vietnã. Com isto, não pretendo cair no lugar comum de que “a religião é o ópio do povo”. De modo algum. O que tento explicar é que (pelo menos na política), qualquer iniciativa que exacerbe o nosso irracional, de modo a fazê-lo se impor e até substituir a nossa razão; de modo a levar o indivíduo a catarses; sempre foi e sempre será uma atitude manipuladora.

    8. A exploração do irracional, das emoções, das catarses, etc., sempre foi instrumento da propaganda fascista. Sugiro que leiam Bertold Brecht a este respeito. Por exemplo, no cinema: quando estruturamos um filme onde a cada 10 ou 15 minutos colocamos uma cena de violência, tortura, crueldade, de modo a derrubar a platéia em sucessivos prantos, sofrimentos e catarses, retirando-lhe, assim, sua condição de avaliação crítica e racional das historinhas que contamos entre uma e outra catarse, podemos convencer os espectadores que uma messalina é uma vestal; que um bandido é um herói; que um pusilânime é um revolucionário, e assim por diante.

    Ou seja, podemos manipular o espectador para o lado que quisermos. E isto sempre foi, é e será um método fascista de nos dirigirmos às pessoas, de convencermos as pessoas.

    9. Por essas e outras fiz (intencionalmente) a provocação sobre a questão da MÍSTICA em minha mensagem anterior. Uma provocação capaz de gerar uma preocupação e uma discussão dirigida à capacidade crítica de cada um desses combativos jovens camaradas da Consulta Popular.

    NÃO LHES OFERECI HAXIXE – E JAMAIS O FARIA.
    OFEREÇO-LHES A CRÍTICA.

    Não convido meus jovens camaradas para uma sessão de hipnose, mas para uma discussão entre iguais.”

    Foi uma provocação que deu pano pra manga na nossa lista – porém não tanto quanto poderia dar… E eu aproveito a deixa dessa discussão pra compartilhar também com os leitores do Passa Palavra. Será que a luta “cura” mesmo? Será esse o caminho correto, da “cura”?

  3. Caro Militante Encafifado,

    muito pertinentes os teus comentários! Penso que nos ajudam a aprofundar um debate que me parece estratégico. Já me desculpo por talvez não dar as respostas que vc esperava, mas, sinceramente, também não as tenho, e nem as terei individualmente, porque tenho certeza de que só chegaremos a respostas – e a outras perguntas – num esforço coletivo, sobretudo num tema em que temos tão pouco acúmulo na esquerda contemporânea. Bom, é meio estranho responder algumas críticas antes do artigo ser integralmente publicado, e eu pensava em esperar mais um pouco para responder a algumas das críticas que foram feitas já na primeira parte (todas também muito importantes e certeiras), mas como vc fez inúmeras críticas, achei que valia a pena começar por aí.
    Bom, também já me desculpo pela extensão dos comentários abaixo. Talvez só interesse ao “militante encafifado”…Mas vamos lá!
    Não desconheço o quadro altamente problemático do modelo hegemônico de nossas organizações. Aliás, acho que ele já foi bem discutido em outros artigos e listas de debates do Passa Palavra. Muito menos desconheço os danos psíquicos que tal “burocratização” tem gerado em nossa militância – e posso me incluir certamente entre aqueles que sofreram e sofrem na pele e na alma com isso. Mas não creio que uma lista aberta de internet seja o espaço para expor e aprofundar questões internas das organizações, ainda que com as “melhores intenções”, por motivos óbvios – aliás, acho que vc concorda com isso, ao menos em parte, pois certamente vc não se chama “militante encafifado”, né?…De certa forma, também me preocupa aquilo que, em outro artigo, o Rugai chamou de “fetiche da burocratização”, porque vejo muita gente boa reduzir a nossa atual incapacidade de organização e mobilização da classe à “maldade” de dirigentes burocratas que não largam o osso da direção de suas organizações. Não acho que esteja errado, mas não creio que seja o nosso maior problema. Se bem lembro o que dizia o Rugai, parece que o problema passa muito mais pela falência de nossos métodos de trabalho de base, que fazem com que o espaço das organizações (instâncias) não faça sentido ou não sejam atrativos pra maioria das pessoas que delas se aproximam, e aí sim o movimento se esvazia e seus espaços de poder são controlados por meia dúzia de pessoas.
    Também não acho que fui “idealista” ao narrar algumas das experiências que estão no texto. Primeiro, porque elas, de fato, acontecem em muitos processos de luta (não necessariamente todos), e, segundo, porque penso que talvez interesse à militância dos movimentos populares refletir sobre alguns desses processos, sobre suas “verdades” e sobre como podemos avançar nisso, sobretudo em tempos tão difíceis e com tão poucas mobilizações em nossos movimentos populares. No final das contas, como anuncio no subtítulo do artigo, trata-se de pautar alguns dos desafios para repensarmos as formas do nosso trabalho de base – que, aliás, temos feito pouco…Mas também posso estar enganado, talvez eu esteja dizendo uma obviedade para quem é militante…Contudo, sabendo do quão pouco espaço temos em nossas organizações para aprofundar debates sobre a dimensão subjetiva das lutas sociais, achei que talvez valesse a pena fomentar tais debates neste artigo e neste espaço.
    E não acho que nesses processo de luta ocorram “em si, lampejos de uma mística terapêutica”. Não mesmo! É preciso muito trabalho, reflexão e organização para que isso ocorra! Um pouco disso, fomos capazes de realizar nestas experiências, mas de forma muito precária e ainda é preciso avançar muito. Ou vc acha ruim transformar uma ocupação por moradia num espaço onde as pessoas tenham a chance de se expressar e elaborar sua própria experiência (como nos saraus de sábado à noite)? onde se possa ter acesso à beleza e ao entretenimento (como nas festas e apresentações de grupos de artistas convidados)? onde @s compas possam se organizar e trabalhar coletivamente (como nas cozinhas dos grupos e nos espaços da coordenação do acampamento)?
    Agora, nem toda ocupação passa por esse processo. Sei bem disso! E aquelas que eu relato no texto também deixaram muito a desejar nestes aspectos. Mas foi uma tentativa, que não me parece que devamos desqualificar, como se toda experiência nesse sentido fosse fruto da “manipulação de dirigentes autoritários”, tentando enganar o povo e a militância.
    Do contrário, o que vc propõe? Que não façamos nada? Que a ocupação se reduza a um par de assembléias frias e marchas enfadonhas ao palácio do governo? Creio que, se dependesse destes mesmos burocratas que vc critica com toda a razão, uma ocupação deveria mesmo se reduzir a isso…
    Também discordo quando vc põe no mesmo pacote de “falsas místicas” e “falsas terapias” as igrejas, a TV, os livros de auto-ajuda, o futebol, as baladas. Sobretudo em se tratando das religiões populares, penso ser um enorme preconceito da classe média ilustrada (e atéia) desqualificar, por exemplo, toda e qualquer igreja pentecostal, como se muitas das experiências e “curas” que ali ocorrem para milhares e milhares de pessoas fossem simplesmente “falsas” ou “mentirosas” (curas, aliás, fartamente relatadas em recentes trabalhos de pesquisadores universitários não-religiosos que vêm se multiplicando no Brasil. e a “cura” não vem de nenhuma “mágica”, mas de eficientes métodos terapêuticos). Ora, me parece que pensar assim é pensar que o povo é trouxa, que cai na conversa fiada de qualquer pastor, que não sabe diferenciar uma igreja oportunista de uma que, de fato, traz algum sentido pra sua vida cotidiana (outro grande equívoco é pensar que o universo pentecostal é “tudo a mesma coisa”, como se não houvessem inúmeras correntes com diferentes métodos). Do contrário, como explicar o fenômeno quase inacreditável da massificação dessas igrejas? Enfim, não acho que o povo seja trouxa. Acho que ali tem “verdades”, que não são as nossas apostas políticas, mas me parece que é preciso extrair lições de tal fenômeno. Mas tem mais sobre isso na terceira e última parte do texto…
    Quanto ao que vc critica em relação ao “vazio da mística” na prática das organizações (“reprodução de burocratizações mistificadoras, catarses personalistas, autoritarismos, e consequentes frustrações coletivas ou individuais semelhantes as que tanto se multiplicam na sociedade. Depressão, alcoolismo, disputas violentas, suicídio…”), estou de pleno acordo contigo. Aliás, na próxima parte, falo um pouco sobre os problemas psíquicos da militância.
    Mas, como vc mesmo diz, num contexto interno de uma organização como o que vc pinta, a “mística” deixa de ser “mística” e se torna, no máximo, uma mera encenação, um simulacro que não gera mais efeito na militância (ou ao menos na militância crítica) que percebe a manipulação que está por trás daquilo.
    Mas aí, meu caro, não é um problema da “mística” (ou, em outras palavras, do uso de uma produção estética ou de uma possível prática terapêutica popular), mas do grupo – em geral, reduzidíssimo – que tem o poder de ditar os rumos da direção da organização, sabendo como alijar a maior parte da militância do processo. E pra isso, vc sabe, não é nem preciso se utilizar instrumentalmente da “mística”, pois há inúmeros outros artifícios, como o uso de contatos privilegiados no estado, as reuniões secretas com meia dúzia que se articulam para impor suas propostas, a “queimação” de militantes nos “corredores” sem direito de defesa etc., etc.
    Em suma, não gostaria de me alongar ainda mais porque o artigo ainda não terminou e talvez algumas coisas da última parte ajudem a avançarmos no debate, mas veja que o foco do artigo não é a “mística” – bom, também intuo que estamos reduzindo um pouco o conceito de “mística” para aquelas encenações teatrais que muitos movimentos fazem antes de alguma atividade, e me parece que não se trata somente disso, creio que é muito mais do que isso.
    Mas voltando, o que desconfio é que há uma enorme e urgente demanda do nosso povo por espaços e práticas terapêuticas, e creio que isso deveria ser uma pauta importante para as organizações populares, mas no momento não é. Além disso, como tento sugerir com as contribuições de Frei Betto e Trotsky, a maioria dos aspectos que fazem o sucesso das religiões populares não têm nada de “místico” ou de “sobrenatural”, mas são aspectos bem “mundanos”, como a produção estética, a formação de comunidades, as práticas terapêuticas etc., ou seja, aspectos que fazem parte da cultura popular, das necessidades subjetivas do nosso povo (demandas que a classe média preenche de outras formas). Nada que nós, nas organizações populares de esquerda, não possamos debater e produzir.
    Quanto ao email da Consulta Popular que vc publicou, prefiro comentar depois que a última parte do artigo sair…
    E sigamos com o bom debate!

  4. Compa Encafifado, faltou te fazer um pergunta: quando vc fala em “superar as falsas místicas e falsas terapias tão presentes no cotidiano capitalista”, vc tem alguma coisa em mente? Já pensou sobre isso em termos de propostas? O artigo é, no fundo, um chamado a este debate e a tais propostas.
    Com profunda sinceridade, gostaria muito de te ouvir…

  5. Algumas vezes já deparei, seja em meio a militantes seja em meio acadêmico, com uma generalização que se faz da idéia de “mística”, colocando todo e qualquer objetivo ou motivação imaterial sob esse signo. Acho que o comentário do “militante encafifado” é um bom exemplo.

    Como a esquerda trabalha pouco o tema, não chegando a formular conceitos precisos, então é feita a confusão, colocando fenômenos completamente diferentes num mesmo saco da “mística”, ou da “estética”.

    O comentário do encafifado a mim pareceu que chega quase a misturar busca de relações, de satisfação, de alegria, com messianismo.

    Por duas vezes, uma em meio a pessoas que militavam comigo, e outra em meio acadêmico, afirmei que os jovens com os quais lidávamos se impulsionavam mais a se engajar por objetivos imateriais do que pela bandeira ou objetivo material do movimento, no sentido de que o objetivo imaterial sobredeterminava a bandeira e objetivo explícito do movimento. Nas duas oportunidades interlocutores apontaram o que eu disse como se fosse a tal “mística”. Ora, mística é aquilo que os movimentos fazem para dar coesão, ritos, canções etc.

  6. Para completar, algo que acabei esquecendo de escrever.

    A princípio não há nada mais ou menos racional ou irracional em um objetivo ou motivação material ou imaterial.

    Confundir imaterialidade com irracionalismo é por deveras irracional.

  7. Caros Marco Fernandes e Leo Vinicius,

    Primeiro obrigado Marco por suas observações cuidadosas, e aparentemente muito francas, sinceras: o bom debate, como você disse!

    Eu queria mesmo entender melhor o que você vem chamando por “mística”, se é o mesmo quê muitas de nossas organizações chamam. E, se não, por que a insistência em chamar de “mística” outros processos que não são misteriosos, ocultos e, portanto, de acesso restrito? Mas sim fruto de muito esforço, organização, desmistificação das relações de dominação, e ação concreta.

    Por que chamar de “mística” levantes coletivos desmistificadores? Rupturas do cotidiano automático por meio da organização e ação? Produção estética coletiva? Expressão e elaboração coletiva da própria experiência, por meio de outras linguagens? Práticas terapêuticas populares? Momentos de consciência coletiva do poder da classe, da maioria? Alegria e elevação da auto-estima pela sensação concreta de poder ser senhor do próprio destino, de romper uma cerca de forma organizada e começar a construir outra vida? Etc

    E eu chamei atenção disso porque sempre me encafifou essa estória da persistência da “mística”, que afinal tem a mesma origem das idéias de “mistério”, “mistificação”, “missa”. Cada uma delas com seus respectivos montes de problemas… Sempre me pareceu um eterno dízimo, um onipresente tributo que nós dos movimentos sociais populares – com muitas origens na Igreja Católica – deveríamos e devemos seguir pagando aos mistérios de nossos pastores imortais, os quais com suas “místicas” abrem os nossos caminhos e, no fundo, apontam o sentido para onde devemos seguir.

    Por que não chamar de “trabalho coletivo” ou “arte coletiva” aquilo que muitos de nós fazemos antes de tantas reuniões? Mas não, é a “hora da mística”, do dízimo, e depois voltamos à realidade.

    E meu incômodo não pára nessa idéia do dízimo, todas as manhãs antes de qualquer atividade militante. Passa também por algo que decorre disso, afinal a existência de um momento específico “da mística” (da “subjetividade”, em seu melhor sentido), a separa dos demais momentos de disciplina, subserviência e sacrifício “objetivo”, que acabam reinando absoluto em todos os outros momentos. Se é algo tão amplo e importante, relacionado às questões “subjetivas, psíquicas e imateriais” sempre presentes, por que então restringí-lo a um momento específico, domesticado?

    As propostas que você me pede, Marco, no seu segundo comentário, talvez devam começar a ser pensadas a partir daí. Por que a necessidade de “momentos místicos”, de lutas e ações espetaculares, em detrimento de um trabalho cotidiano, silencioso, constante e generoso, coletivamente. Fortalecendo espaços coletivos, ao invés de mistificá-los em cascas sem conteúdo, para fins pessoais.

    E o incômodo passa também pelo caráter funcional que tem o cultivo desse “lado místico” das coisas, este lado “misterioso”, “complexo” e “superior”, que apenas alguns iluminados conseguem e podem atingir – frente ao resto dos mortais. Geralmente os pastores, as estrelas de televisão, os mestres do comportamento empresarial vitorioso, os torcedores mais apaixonados, os baladeiros mais ousados etc. Este Outro é sempre mais místico do que nós! E estes mecanismos místicos, embora gerem catarses em alguns momentos de exceção, tem como regra a frustração – sempre que falta a catarse.

    Um método que também acaba sendo reproduzido na “forte mística” gerada por alguns dirigentes dentro de nossos movimentos, mística que é mais forte quanto maior é a “instância”, e o “quadro” militante. E então estes companheiros vão cada vez mais “desencarnando”, e nós por nossa vez vamos ficando carne osso e frustração demais, encolhidos, subservientes, deprimidos, sem acesso às decisões sobre a nossa vida e a vida de nossos coletivos. A não ser que sigamos os exemplos deles, bem obedientes, e assim o Céu nos é prometido.

    Eis o caráter instrumental e funcional do “lance místico”, que me parece ser cultivado toda vez que alimentamos mistérios ao invés de buscar enfrentá-los e superá-los, coletivamente. E nisso você tem muita razão, Marco: o poder destes mistérios, burocráticos, só perdura e se cristaliza devido à falta de mobilização, organização coletiva e trabalho crítico da base para questionar suas falsas místicas, seus superiores (mera aparência de poder), e substituí-las por coletivos realmente fortes. Será que é impossível mesmo fortalecer ocupações e assentamentos por mais tempo do que querem nos fazer crer? Isso depende de “fatores místicos” ou de outras formas de organização coletiva, com as bases mais fortalecidas para criar e recriar seus próprios espaços?

    Se não tenho respostas prontas às perguntas e propostas que você pede, Caro Marco, pelo menos espero ter trazido novas questões para encafifar a todos nós. Agora, encafifar sem paralisar, porque de paralisia já basta a academia. Que a gente siga discutindo e praticando em nossos movimentos!

    E finalmente, por falar em meios militantes e meios acadêmicos: realmente não entendi o seu comentário, Caro Leo Vinicius. Ou eu não tinha me feito entender e/ou você me interpretou de maneira completamente equivocada.

    Mas para resumir o quê teria a falar para você, Leo: se “mística é aquilo que os movimentos fazem para dar coesão, ritos, canções etc”, é “busca de relações, de satisfação, de alegria”, por que não chamar essas coisas todas pelos seus nomes específicos? Como o próprio Marco chamou em seu texto: elementos de uma “outra sociabilidade”?

    Quem corre o risco de misturar coisas é você… A persistência da idéia e da palavra “mística” não pode estar ligada a práticas mistificadoras – inclusive sobre a (des)importância da dimensão “imaterial” da luta concreta?

  8. Encafifado,

    eu troquei um “dois pontos” por “vírgula”. Para mim, mística é “aquilo que os movimentos fazem para dar coesão: ritos, canções etc”. Assim acho que estou sendo claro. Colocar toda a imensidão de objetivos e motivação subjetivas e imateriais sob o signo da “mística” só pode dar confusão. Achei que seu comentário misturava coisas muito diferentes, apresentadas no texto do Marco, com a “mística” propriamente dita, na definição que tentei dar a ela.
    É verdade que o Marco também recorre a palavras como “mística” e “estética” para nomear fenômenos que acho muito distintos, mas de forma tão problemática quanto achei em seu comentário.

  9. corrigindo o final daúltima frase: “mas não de forma tão problemática quanto achei em seu comentário”.

  10. Caro Leo,

    Como creio que já expliquei o bastante nos comentários anteriores: um dos meus maiores incômodos com a idéia de “mística” nos nossos movimentos sociais, mesmo com a pura palavra – quando se refere a outra coisa, é justamente o quanto ela está presente em diversas ocasiões. Distintas situações que, na verdade, deveriam fortalecer realmente a “coesão social”, e não mistificá-la. Sejam práticas, ritos e/ou expressões artísticas coletivas – como algumas relatadas pelo Marco; seja no campo das palavras, idéias e teoria.

    Acredito que as formas como este “signo da mística” tem aparecido e sido cultivado, em nossos movimentos, mais atrapalham do que ajudam uma real emancipação popular.

    Luto, portanto, para fortalecer aquelas práticas concretas, objetivas e subjetivas, que contribuam para desmistificar as relações de dominação e, ao mesmo tempo, construir nelas mesmas outras formas de organização da vida coletiva, sem novas hierarquias nem renovados mistérios.

  11. “Um povo deve racionalizar na sua vida tudo que é suscetível de racionalização e deixar ao idealismo e mesmo ao misticismo aquilo que não se pode enquadrar nos limites estreitos da razão.”
    Recomendação de M. Manoïlescu sobre a coesão nacional.

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