«Em 2004, o Brasil foi considerado o segundo maior mercado de Botox e Viagra e o quarto de Roacutan, uma droga antiacne famosa. Em 2000, o Brasil possuía o maior número per capita de cirurgias plásticas no mundo, com 207 operações por cada 100.000 habitantes, comparado com 40 em 1990; ao passo que havia 185 cirurgias plásticas para cada 100.000 pessoas nos Estados Unidos. Enquanto que 80% das cirurgias plásticas no Reino Unido eram reconstrutivas, no Brasil 80% das cirurgias plásticas eram cosméticas» (Ricardo Reisen de Pinho, Gigantes Brasileiros: Multinacionais Emergentes e Competição Global, tese de doutorado apresentada na Fundação Getúlio Vargas, São Paulo, 2008, pág. 165). Passa Palavra

5 COMENTÁRIOS

  1. Outro dia, quando os jornais portugueses andavam entusiasmados com os sessenta anos da Bossa Nova, eu compus mentalmente um artigo que teria escrito se ainda escrevesse. Chamar-se-ia «João Gilberto e o Dr. Bumbum», e seria uma análise da sociedade brasileira articulada (a análise, não a sociedade) entre dois pólos. De um lado, João Gilberto, que ninguém sabe onde está, senão que está na miséria, e disputado por três abutres, ou abutras. Do outro lado, o Dr. Bumbum, recordando que o Brasil ocupa um dos primeiros lugares na cirurgia plástica realizada para fins, como dizer?, meramente decorativos e não para a reconstituição de rostos depois de acidentes. Juntaria as duas coisas e partiria de uma ideia que me surgiu quando aí cheguei, há quase trinta e cinco anos, a de que foi o facto de a elite brasileira viver de costas voltadas para o povo que permitiu que o povo criasse e sustentasse uma música popular verdadeiramente música, e verdadeiramente original. Depois, recentemente, isso mudou, e a indústria cultural de massas liquidou a última ilha de resistência de uma música popular, que era o Brasil. O Dr. Bumbum subiu aos céus, enquanto João Gilberto foi remetido ao limbo.

    Mas, afinal, lembrei-me de que podia colocar isto como comentário, e é o que estou a fazer.

  2. Caro João Bernardo,

    Seu comentário me remeteu a um artigo seu que coloca o conflito de gerações nos seus devidos termos:

    “Pela passagem do proletariado de produto a produtor explicar-se-iam os fatos mais correntes da vida quotidiana. O proletário adulto que sofre processo de desvalorização da sua força de trabalho, que se desespera ou que contra ela luta, oscila entre o paraíso prometido da revolução e a idade de ouro da sua juventude. O jovem proletário em formação, consciente da superioridade da capacidade de trabalho que adquire relativamente à dos adultos, seus contemporâneos, mas sofrendo a situação de dependência que se encontra ainda enquanto produto, dirige contra os adultos seu desprezo, sem deles, porém, conseguir libertar-se. E são ainda jovens proletários em formação que tentam sabotar a instrução e a aprendizagem de que são objeto, recusando a escola e os ensinamentos; pretende nesses casos o proletário output limitar a mais-valia de que o capitalista se apropriará, mas no mesmo gesto sacrifica mais ainda o seu valor futuro. É uma auto-imolação, elitista como todos os atos românticos, afinal, inútil. O conflito de gerações e a recusa da escola, a raiva, o sonho, a nostalgia não são aspectos periféricos nem exteriores à luta de classes. (…)” (BERNARDO, João. O proletariado como produtor e como produto. Revista de Economia Política, v. 5, n. 3, p. 83-100, 1985. Disponível em https://pensamentosnomadas.blogs.sapo.pt/livros-de-joao-bernardo-em-portugues-e-146503).

    Creio que entre as cotidianidades da vida proletária, onde o bumbum ganha direito a doutores, está a fragmentação do trabalhador, não apenas em sua classe, mas em seu próprio corpo. Antes havia concursos de Miss, e também de Mister, que, apesar dos pesares, visiva premiar o corpo integral da candidata ou candidato a tal título. Hoje há, além de outros concursos do gênero, os concursos de Miss Bumbum, de onde surgem figuras do tipo Mulher Melancia e tantas outras quantas são as frutas da quitanda. E as candidatas e os candidatos a tais concursos, se eu não estiver enganado, não costumam vir das famílias tradicionais paulistanas… Chegamos ao ponto de até as companhias de seguros se prestarem a fazer seguros de partes determinadas do corpo…
    Neste sentido, algo aparentemente banal, “Dr. Bumbum”, parece revelar algo mais sutil, porém de uma perversidade profunda. Por isso, caro João Bernardo, faço-lhe algumas perguntas. Será que estaríamos a presenciar uma transposição da estética fascista da arte para o próprio corpo humano? A “ameaça de decadência civilizacional e um anti-humanismo de carácter irracionalista se juntaram a uma estética rigorosamente objectiva”? (João Bernardo – Labirintos do Fascismo- 3ª Versão, p. 220). Esta estética corporal (e digo aqui estética corporal num sentido mais amplo, como o conjunto de hábitos esportivos, alimentares – tal como o veganismo -, religiosos e afins – tal como yoga -, tatuagens, etc) se somaria à acumulação do conjunto qualificações que na produção do proletariado como produtor e produto? Haveria nesta produção produção do proletariado como produtor e produto um “quê” de futurismo? (Engraçado o quanto os ditos estilos de vida veganos, ecológicos, etc, estão sempre a viver no futuro…)

    Por fim, sua lembrança ao bom e velho João Gilberto me lembrou uma triste contradição dos movimentos identitários e culturais e mesmo nas esquerdas ditas anti-capitalistas. Nenhum deles, que eu saiba, levantam bandeiras pelos seres humanos idosos, especialmente os seres humanos trabalhadores idosos. Até mesmo aqui no Passa Palavra não consegui encontrar nenhum artigo sobre os idosos (se houver, peço que me desculpem e que me indiquem o artigo ou artigos). Por isso eu achei revelador seu artigo “O proletário como produtor e como produto”, pois serve como chave interpretativa desta inversão da perspectiva de classe para a perspectiva de identidades e culturas, não como movimento anticapitalista, mas, ao contrário, como aprofundamento destas relações de exploração no modo de produção capitalista, ou, nas suas palavras, “uma auto-imolação”.

    Agradeço desde já sua atenção!

    Rodrigues.

    PS: Tenho já algumas décadas de vida e resolvi cursar uma segunda graduação. Há uma militância enorme onde estudo pelas causas feministas, raciais, vegetarianas (fiquei sabendo até que houve a fundação de um partido vegano!), dos animais, etc. Porém, eu e mais dois ou três colegas da quase terceira idade somos praticamente invisíveis na turma… não porque não tentemos nos colocar… mas o tratamento é de puro pouco caso. Aliás, os colegas mais jovens evitam, além de conversar, até mesmo de sentar próximo a nós. Até mesmo os professores muitas vezes nos ignoram… É triste saber que certos “pets” tem mais atenção do que nós…
    PS 2: João, sua escrita faz uma falta danada…!

  3. Caro Rodrigues,

    O modelo que eu expus pela primeira vez no artigo que você citou, publicado na Revista de Economia Política, tem certas inadequações internas que procurei superar num curso dado na FaE da UFMG e publicado em forma de artigo numa revista dessa Faculdade, e este ainda não me satisfez e tentei limar as arestas em sucessivos cursos e capítulos de livros, até que lhe dei a forma definitiva — definitiva para mim — num dos capítulos do Economia dos Conflitos Sociais. Definitiva mas não completa, porque teria sido necessário analisar não só o modo como os jovens são formados enquanto futuros trabalhadores mediante a acção de trabalhadores, mas igualmente a acção de trabalhadores na transformação de trabalhadores aposentados em trabalhadores defuntos. Faltou-me não sei se a paciência se a coragem para estudar esta última fase do ciclo, embora o tivesse prometido no segundo dos artigos mencionados, onde escrevi:

    «Para que o modelo apresentado fosse efetivamente completo e a integração econômica fosse total seria preciso referir, não só a procriação, mas também a morte. Tive oportunidade há pouco de ouvir, já em Belo Horizonte, na rádio, o slogan publicitário de um cemitério. E dizia esse slogan: “o cemitério mais moderno na cidade”. Isso impressionou-me, que se pudesse fazer publicidade a um cemitério fazendo apelo à sua qualidade de moderno. Porque, parece-me, não há nada de mais antigo, de definitivamente antigo, do que um morto. Então a palavra “moderno” não parece ter referência ao campo dos mortos, mas parece pertencer àquela constelação de termos que usualmente está em torno da idéia de produtividade. Isso levou-me a pensar que se poderia conceber, no capitalismo, uma produção da morte e um consumo dos mortos. No entanto, deixemos isso para depois […]» («A Produção de Si Mesmo», Educação em Revista, vol. 9, 1989, págs. 14-15 https://archive.org/stream/jb-apdsm/BERNARDO%2C%20Jo%C3%A3o.%20A%20produ%C3%A7%C3%A3o%20de%20si%20mesmo#page/n0 ).

    Só que o «depois» nunca mais veio. Mas chegou agora, como um fantasma, trazido pela mão de Rodrigues naquele seu comentário, quando mostra os jovens futuros trabalhadores a considerarem os «seres humanos trabalhadores idosos» como mortos antecipados. Você não quer ser trabalhador idoso? Chame o Dr. Bumbum, estique a pele, faça uma plástica.

    Ora, Rodrigues abordou a possibilidade de que a fragmentação dos trabalhadores enquanto classe dê lugar à fragmentação do próprio corpo do trabalhador, quando a Miss Bumbum emparelha com o Mister Bíceps, por exemplo. E se, como Rodrigues observou, «chegamos ao ponto de até as companhias de seguros se prestarem a fazer seguros de partes determinadas do corpo», então é porque as coisas são assim mesmo, já que as companhias de seguros têm os pés bem assentes na terra. Mas estaremos realmente, como pergunta Rodrigues, «a presenciar uma transposição da estética fascista da arte para o próprio corpo humano»? Eu tenho receio de esticar demasiado os conceitos e os quadros de análise, porque isso lhes retira a acuidade e, portanto, a utilidade enquanto instrumentos. Mas ocorrem-me outros exemplos, que permeiam as assumidas identidades a que hoje se reduz o quotidiano da política. Vejamos.

    No caudal de letras (dizem @s [email protected]s que o LGBT agora já é LGBTQQIP2SAA) é à primeira vista a fachada decorativa que serve para definir a assumida identidade. Por exemplo, quando um homem assume o género feminino pode implantar silicone nos peitos, tomar hormonas para adquirir certas configurações e fazer-se castrar, mas nem por isso fica com ovários nem dá de mamar a criancinhas. E é nestas brincadeiras culturais, neste jogo de encenações, que passam o tempo e ditam a agenda política. Mas, como observei noutro lugar (http://www2.marilia.unesp.br/revistas/index.php/novosrumos/article/view/2122 ), dançam ora num pé ora noutro e assim como afirmam a supremacia do cultural, entendido como modificação da aparência física consoante as fantasias, logo recordam, se lhes convém, a presença do biológico. Isto sucede, por exemplo, quando os movimentos de lésbicas atacam como violadores os transgénero que vivem com mulheres, invocando o facto de terem pénis.

    Este é o ambiente que explica o Dr. Bumbum e os seus numerosos colegas, uma cultura que transforma o corpo em cenário e as parte do corpo em componentes amovíveis e renováveis desse cenário. E, como sempre, ao mesmo tempo que apresenta o que quer deixar ver, um cenário serve para fazer esquecer aquilo de que não se quer lembrar. No meio disto tudo, onde fica o João Gilberto, e a Bossa Nova com ele?

    Ficam onde já estão, a sua música silenciada pelo barulho da indústria cultural de massas, a Morena Boca de Ouro junta com a Garota de Ipanema e com não sei quantas mais apresentadas como prova de assédio nos tribunais, perdão, nas linchagens do politicamente correcto.

  4. Caro João Bernardo e demais leitores, peço a licença de todos para mais um comentário:

    Estas diferentes gerações de trabalhadores competem entre si de maneira, obviamente, desigual. Creio que uma analogia entre o trabalhador como produtor e como produto se assemelha a um sistema operacional. Uma das versões mais famosas do Windows foi o XP. Ele não foi um sistema começado do zero, mas uma espécie de upgrade em relação à versão que o antecedeu. Da mesma forma a versão que o sucedeu, não começava do zero, mas era também um upgrade em cima do próprio XP. De forma análoga, sou o acúmulo de mais valia de meus pais mais a minha própria mais valia, assim como meu filho será o acúmulo de mais valia minha, de meus pais e dele mesmo. Mas aí que reside, penso eu, o maior drama. Por um determinado tempo, o windowns XP foi constantemente atualizado até chegar o momento em que o Windowns simplesmente parou de fornecer as atualizações, forçando a troca do sistema para outros posteriores. Chegamos então no trabalhador como produtor e produto: por mais cursos de qualificação, requalificação, etc, que ele faça, chega uma hora que ele não vai mais “rodar no sistema”. Nem o Dr. Bumbum vai conseguir dar jeito… pois o próprio “hardware” humano, não comporta mais o “software”. (Aliás, penso eu, que os upgrades humanos nada mais são que a acumulação de capital nos bolsos do capitalistas, pois hoje em dia os investimentos dos trabalhadores com a própria educação não conseguem o retorno do capital investido, conforme já vi em alguns estudos, embora eu sabia que sem estes investimentos os salários dos trabalhadores tendem a ser proporcionalmente ainda menores)

    Os conflitos de gerações tendem a ser mais graves e com maior violência justamente pelo fato de o conflito de gerações acontecer não em virtude da geração biológica, mas da geração tecnológica. E, com o desenvolvimento cada vez mais rápido destas forças produtivas, a própria violência deste conflito tende a um crescimento geométrico. Coincidentemente ou não, os identitarismos estão crescendo, na minha opinião, na mesma medida geométrica do crescimento do desenvolvimento das forças produtiva, e, embora se digam anticapitalistas, na verdade aprofundam a exploração e retroalimentam o capitalismo, especialmente pelo fato de usarem de uma violência cada vez mais crescente para ocuparem os espaços das gerações antecedentes.

    A sala de aula a que me referi é, por isso, uma amostra interessante. Como eu disse, há uma militância fervorosa sobre questões de gênero e raça (não sou eu que denomino questões de raça, mas os próprios militantes…). Quando me calo, simplesmente me ignoram (as vezes nem a lista de presença me passam para eu assinar…). Mas se falo… Em certa ocasião o professor, de “esquerda”, propôs um trabalho na favela. Disse eu que era importante um trabalho na favela, mas que tão importante quanto, era um trabalho numa região nobre posto que lá é onde vai parar o fruto dos trabalhadores, inclusive dos trabalhadores negros, mulheres, etc. Impuseram-me, então, a pecha de “branco”, “machista”, “privilegiado”, etc… um trabalhador, sim, mas privilegiado por ser branco e homem… Privilegiado? O mais engraçado é que eles defendiam que os meus “privilégios” (?) deveriam ser para “todos”… E aí reside a pegadinha… Pois ainda que o “privilégio” seja para todos, uns tem mais direito que outros e por qual razão? Pela razão de uma reparação a um prejuízo pretérito o qual, eu, um trabalhador branco e homem dos tempos atuais, sou um dos responsáveis… Eu, responsável? Já não me bastasse a judicialização do Eros (posto que não só a política está sob um processo cada vez mais judicializado), pois embora “a obra de arte” dos doutores bumbum para deixar os bumbuns cada vez mais “sexy” me proiba de ver sensualidade nestes mesmos bumbuns, sou também responsabilizado e devo ser punido pela escravização, pela exploração da mulher, etc…

    Quanto ao João Gilberto, nestes tempos dos valores morais de dos bons costumes identitários, ele provocaria arrepios:

    Lobo Bobo
    João Gilberto

    Era uma vez um Lobo Mau
    Que resolveu jantar alguém
    Estava sem vintém
    Mas arriscou
    E logo se estrepou…

    Um chapeuzinho de maiô
    Ouviu buzina e não parou
    Mas Lobo Mau insiste
    E faz cara de triste
    Mas chapeuzinho ouviu
    Os conselhos da vovó
    Dizer que não prá lobo
    Que com lobo não sai só…

    Lobo canta, pede
    Promete tudo, até amor
    E diz que fraco de lobo
    É ver um chapeuzinho de maiô…

    Mas chapeuzinho percebeu
    Que o Lobo Mau se derreteu
    Prá ver você que lobo
    Também faz papel de bobo…

    Só posso lhe dizer
    Chapeuzinho agora traz
    O Lobo na coleira
    Que não janta nunca mais…

    Lobo Bobo…Huuuumm!

  5. Morte, é morte… Mas é interessante a possibilidade que o Dr. Bumbum deu para dela falar. No sistema capitalista, a morte comporta afirmações e negações. As negações se manifestam, além dos aspetos cirúrgicos estéticos, acessível a uma parcela muito pequena da sociedade, os tratamentos estéticos, como cremes que se denominam de antienvelhecimento, além de uma série de fármacos, com o mesmo objetivo. Portanto, contra o envelhecimento e a morte , uma verdadeira guerra ideológica e comercial é travada. Mas a afirmação da morte também não deixa de ser uma oportunidade de negócios para os capitalistas, como no exemplo do João Bernardo, inclusive dentro do capitalismo sindical, pois muitas associações e sindicatos de trabalhadores vendem “auxílio funeral”, quando não “dão” como “brinde ” para atrair e manter filiados…

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