De individual a coletivo: a paralisação da linha verde em Campinas

De individual a coletivo: a paralisação da linha verde em Campinas

em 14 nov

Como disse uma cobradora envolvida nos acontecimentos, “o importante foi que a gente mostrou união e barramos a demissão por justa causa, que seria muito pior”. Por Ronan

Quem tentou se locomover de ônibus pela manhã do centro de Campinas para a ilha de Barão Geraldo na segunda-feira, 7 de novembro de 2011, ficou impossibilitado. A VB Transportes, empresa que faz a linha centro/Barão Geraldo, centro/Unicamp/Hospital das Clínicas não teve ônibus circulando durante todo o horário comercial. Houve uma paralisação de motoristas e trabalhadores.

Moradores de outros bairros também foram afetados. Ante a inusitada paralisação, da qual não se sabia os motivos, desde o começo do dia, das 5h da manhã, se discutia nos pontos de ônibus a vida, os baixos salários, se trocavam mensagens e se falava da justeza da greve, tida como iniciada.

A finalidade real da paralisação, para surpresa geral, só viria no final do dia, com o retorno dos ônibus. Motoristas e cobradores não haviam parado reivindicando aumento nos salários e melhorias – não que não houvesse motivos. A paralisação se deu contra a decisão da empresa de demitir por justa causa alguns cobradores pegos [apanhados] por fiscais fazendo um dinheirinho extra. Alguns passageiros que desciam sem rodar a roleta entregavam o valor da passagem aos cobradores e estes o guardavam para si. Prática há muito conhecida no meio e que resulta em alguns trocados divididos entre cobradores e motoristas. Pegos em falta por fiscal, a empresa os demitiria punitivamente, por justa causa.

Como é de conhecimento, motoristas e cobradores de ônibus são obrigados a circular por longo período sem que lhes seja fornecido sanitários e até mesmo água. Há casos em que a própria refeição fica comprometida, ante número de viagens a serem cumpridas e movimento na linha. É ante tal situação que ocorre a prática generalizada de retenção do valor de algumas passagens. Com tal dinheiro compram o café para espantar o sono, água, comem alguma coisa.

Foi esta a linha de argumentação apresentada pelo conjunto de trabalhadores. A empresa não esperava uma reação coletiva. Na garagem quase todos os ônibus ficaram parados e ninguém partiu antes que a situação se resolvesse. A discussão foi acalorada, mas não evitaram toda a punição. Dois dos cobradores envolvidos acabaram pegando um mês de suspensão e multa, o terceiro foi demitido, mas não por justa causa. Entretanto, como disse uma cobradora envolvida nos acontecimentos, “o importante foi que a gente mostrou união e barramos a demissão por justa causa, que seria muito pior”. Pela terça-feira, os trabalhadores – não só os motoristas e cobradores – comentavam a respeito da inusitada força demonstrada.

Campinas1


Comentários 7

    • Giancarlo Sanguinetti

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      nov 14, 2011

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      Já fiz muito isto aqui em Manaus. A argumentação dos trabalhadores muito justa, bem como a sua prática. Lembrou-me uma cena de um filme sobre as maquiladoras no México: O trabalho é tão intenso e a jornada de trabalho longa, que os trabalhadores são obrigados a usar algumas drogas estimulantes. Quando ocorre algum acidente de trabalho a arguemntação é simples… morreu porque estava drogado. Enfim, o sistema cria regras para nunca perder… cabe aqueles descontentes, explorados e oprimidos, lutar para mudar as leis. Mesmo que a bandeira seja defensiva (não demitir…), a vitória foi importante para fortalecer o movimento!

    • Ronan

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      nov 14, 2011

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      Ia colocar como nota, já que se refere também a transporte.

      Campinas, hoje, não oferece meia passagem nem para estudante universitário nem para professores da rede pública, como é natural nas demais cidades.

      Isso com o PT no comando da prefeitura e o PC do B participando do governo. Gustavo Petta (PCdo B), ex-presidente da UNE, é secretário de esportes na cidade. Um ex- presidente da UNE secretário numa prefeitura que não fornece nem meia passagem…

      Para não faltar mais nada: antigos militantes de movimento estudantil, hoje professores, nada falam sobre a questão pois são comprometidos com o PC do B. A APEOESP, sindicato dos professores, também não fala nada de os professores não terem meia passagem.

    • Ronan

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      nov 14, 2011

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      – O tipo de luta desenvolvido pelos trabalhadores ai citados é do mesmo porte do que ocorreu na USP e ocorre em vários outros cantos, sem que recebam a publicidade dada à universidade. Mas não é porque não foi noticiada que não existiu.

      – Os trabalhadores demonstraram possuir a tal consciência de classe ao realizarem uma paralisação – prejuízo econômico – para fins políticos, defender parceiros demitidos. No entanto, sem o aspecto acadêmico e as teorizações presentes noutros cantos.

      – Uma tal união se desenvolve com o tempo, no decorrer dos dias, estabelecendo-se laços de confiança e amizade baseadas na relação dentro do trabalho

      – Existe uma boa relação dos motoristas e cobradores de ônibus com a população no geral. Permitem menores que passam por baixo, pessoas que pedem para entrar pelos fundos, vista grossa com quem usa carteirinhas indevidas, solidariedade com idosos e deficientes.

      – Embora a luta não tenha sido divulgada em blogs e outros, no boca a boca a notícia a paralisação foi sendo espalhada, impactando a memória e o âmbito do estabelecido.

      Enfim, indícios de combatividade, solidariedade e de autonomia que ficam ao largo por não seguirem um padrão mais divulgado.

    • Tales

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      nov 15, 2011

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      Talvez essa galera do PCdoB não luta pela meia passagem porquê não são eles a emitirem a carteirinha e a receber o dinheiro da confecção das mesmas.

    • André Luiz Vargas

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      nov 15, 2011

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      Muito bem dito, Ronan. Esse tipo de ação poderia ser mais propagada… As lutas pelas melhorias dos transportes públicos não são exclusividade do consumidor que paga caro: antes de agredir o bolso do usuário, é na exploração dos trabalhadores do transporte que se encontra a origem dos lucros dos empresários e sócios.
      E olha que a melhoria do transporte beneficiaria muito a própria dinâmica econômica – a esquerda ensinando a direita em como se gerenciar. Talvez aí entre a necessidade das lutas em se encontrarem…

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      nov 16, 2011

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      Muito bom ver este tipo de coisas sendo divulgado, porque mostra o quanto as pessoas ditas “comuns” compreendem, sim, o quanto são exploradas e oprimidas, o quanto solidarizam-se em suas resistências e o quanto tratam destes assuntos abertamente nos espaços e situações mais inusitados. Apesar de o artigo tratar de um fato específico, a situação não se dá apenas em Campinas, mas em todo o mundo, onde quer que haja exploração e opressão, conjugada ou isoladamente consideradas. Talvez um bom caminho para os acampantes de hoje esteja justamente em potencializar e intensificar este debate público difuso que os precede em sabe-se lá quantas gerações. Isto é percebido por eles? Como seria possível fazê-lo?

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      nov 18, 2011

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      Coisa bonita de se ver/ler.

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