O embrião de um exército anarquista. A história dos Comitês de Defesa da CNT

O embrião de um exército anarquista. A história dos Comitês de Defesa da CNT

em 27 jan

Augustín Guillamón escreveu um livro resgatando a história dos Comitês de Defesa da CNT, publicado na Espanha pela editora Aldarull. O título do livro é “Los Comités de Defensa de la CNT em Barcelona (1933-1938)”. Alasbarricadas.org entrevista Augustín Guillamón.

Augustín Guillamón escreveu um livro resgatando a história dos Comitês de Defesa da CNT, publicado na Espanha pela editora Aldarull. O título do livro é “Los Comités de Defensa de la CNT em Barcelona (1933-1938)”.

A clareza com a qual se expõem os acontecimentos nos auxilia a ter uma perspectiva apropriada das decisões que estiveram em pauta naqueles anos.

19-xulioApesar de serem frequentemente ignorados ou evitados pelas memórias e pela historiografia atual sobre a guerra civil e a revolução espanhola, tiveram um papel chave para a vitória do proletariado organizado (que se comemora em 19 de Julho), assim como para a formação das milícias e dos comitês de bairro de Barcelona. Acreditamos ser importante a iniciativa de se estudar como se organizaram no passado, nestas questões estratégicas, com vistas a tomarmos lições para o futuro.

É surpreendente a lucidez daquelas pessoas que organizaram um exército clandestino durante anos, decididos a fazer a Revolução assim que houvesse um entendimento nos organismos superiores de sua organização. Nesta entrevista se mesclam fragmentos do livro em questão com outras considerações do autor.

Alasbarricadas [ALB]: Pergunta obrigatória: O que era um Comitê de Defesa?

Augustín Guillamón [AG]: Os comitês de defesa eram a organização militar clandestina da CNT, financiada pelos sindicatos e sua ação estava subordinada a estes.

Em outubro de 1934 se abandonou a velha tática dos grupos de ação, em favor de uma séria e metódica preparação revolucionária. Afirmava o CNCD: “Não há revolução sem preparação. Há que acabar com o prejuízo das improvisações. Esse equívoco, de se confiar no instinto criador das massas, nos tem custado caro. Não se procuram, como por geração espontânea, os meios de guerra inevitáveis para combater um Estado que tem experiência, forte armamento e maior capacidade ofensiva e defensiva”.

O grupo de defesa básico deveria ser pouco numeroso para facilitar sua clandestinidade e agilidade, assim como um conhecimento profundo do caráter, conhecimentos e habilidades de cada militante. Deveria estar formado por seis militantes, com funções muito específicas:

1) Secretaria: contato com outros quadros, criação de novos grupos, informes.

2) Investigação pessoal: determinar a periculosidade dos inimigos.

3) Investigação de edifícios: desenvolver planos e elaborar estatísticas.

4) Estudo dos pontos estratégicos e táticos da luta de rua.

5) Análise dos serviços públicos.

6) Investigar onde obter armas, dinheiro e demais abastecimentos.

Considerava-se que este número de seis militantes era a cifra ideal para construir um quadro de defesa, sem deixar de considerar que, em algum caso, era possível somar algum outro membro a mais para cobrir tarefas de “grande relevo”. A clandestinidade deveria ser absoluta. Eram os núcleos de um exército revolucionário, capazes de mobilizar grupos secundários mais numerosos, e estes, por sua vez, a todo o povo.

O grupo de defesa era a célula básica dessa estrutura militar clandestina da CNT, constituída por seis militantes. Seu âmbito era uma demarcação muito precisa dentro de cada bairro. Em cada bairro se constituía um Comitê de Defesa local, que coordenava todos esses quadros de defesa, e que recebia um informe mensal de cada um dos secretários do grupo. O secretário-delegado de bairro realizava um informe que era entregue ao Comitê de Distrito; e este, por sua vez, era encaminhado ao Comitê Local de Defesa “e este ao Regional e ao Nacional, sucessivamente”.

O Comunicado do CNCD também esmiuçava a organização dos comitês de defesa em escala regional e nacional, enquadrando por sua vez aqueles setores de trabalhadores, como ferroviários, condutores de ônibus [autocarros], trabalhadores da telefonia e telégrafos, carteiros dentre outros que, pelas características de sua profissão ou organização, abarcavam um âmbito nacional, destacando a importância das comunicações em uma insurreição revolucionária. Uma seção especial foi dedicada ao trabalho de infiltração, propaganda e captação de simpatizantes nos quartéis.

As funções essenciais dos comitês de defesa eram duas:portada_comites

1) Obtenção, mantimento, custódia e aprendizagem do manuseio das armas.

2) Intendência no sentido mais amplo da palavra, desde provisão de mantimentos à população e sustentação de refeitórios populares até a criação e mantimento de hospitais, escolas, ateneus… inclusive, nos primeiros dias de recrutamento de milicianos, o abastecimento das colunas que partiram para a frente de batalha.

Os quadros de defesa já atuavam pouco tempo depois de proclamada a República e podiam ser considerados como a continuidade, reorganização e extensão dos grupos de ação e autodefesa armada dos anos do pistoleirismo (1917-1923).

ALB: Como se deu a evolução dos grupos de ação para os quadros de defesa?

AG: Em janeiro de 1935 os grupos anarquistas Indomables, Nervio, Nosotros, Tierra Libre e Germen, durante o Plenário da Federação de Grupos Anarquistas de Barcelona, apresentaram a fundação, em Barcelona, do Comitê Local de Preparação Revolucionária.

Frente a um panorama histórico realmente desolador; marcado pelo auge do fascismo na Itália, do nazismo na Alemanha, do estalinismo na União Soviética, da depressão econômica com um desemprego massivo e permanente nos Estados Unidos e na Europa; a apresentação feita nesse plenário opunha a esperança do proletariado revolucionário. Afirmava: “Em meio a quebra universal das idéias, partidos, sistemas, só resta em pé o proletariado revolucionário com seu programa de reorganização das bases de trabalho, da realidade econômica e social e da solidariedade.”

Fazia-se uma profunda crítica à pueril tática, já abandonada em outubro de 1934, da ginástica revolucionária e da improvisação: Afirmavam: “A Revolução Social não pode ser interpretada como um golpe de audácia, ao estilo dos golpes de Estado do jacobinismo, mas sim como a consequência e o resultado do desenlace de uma guerra civil inevitável e de duração impossível de se prever.”

A preparação revolucionária para uma longa guerra civil exigia novos desafios que não estavam previstos na velha tática dos grupos de choque. Afirmava: “Levando em conta que não é possível disponibilizar de antemão estoques de armas necessários para uma luta sustentável, é preciso que o Comitê de preparação estude o modo de transformar em determinadas zonas estratégicas as indústrias […], em indústrias provedoras de material de combate para a revolução”. Nesta afirmação está a origem da comissão de indústrias de guerra, constituída em 7 de agosto de 1936, que na Catalunha produziu do zero uma potente indústria bélica graças ao esforço dos trabalhadores, coordenados pelos cenetistas Eugenio Valleja Isla, metalúrgico, Manuel Martí Pallarés, do sindicato de Químicas, e Mariano Martín Izquierdo; mais tarde esta grande experiência foi instrumentalizada pelos políticos burgueses (Josep Tarradellas), que ainda que tenham contribuído, seu êxito “pertence integralmente aos trabalhadores das fábricas, aos técnicos, aos delegados responsáveis que a CNT inseriu desde o início da guerra nos cargos de direção”.

Dos grupos de ação e de choque para a prática da ginástica revolucionária, anteriores ao ano de 1934, havia-se passado para a formação de quadros de informação e combate, considerados como células básicas de um exército revolucionário.

ALB: Uma pergunta muito frequente é se os anarquistas tinham a possibilidade de tomar o poder?

AG: Durante o primeiro semestre de 1936 o grupo Nosotros travou uma luta política com o restante dos grupos da FAI, na Catalunha, em intensos debates sobre duas concepções fundamentais, em um momento em que se conheciam com certeza os preparativos militares para um violento golpe de Estado. Essas duas concepções eram a “tomada do poder” e o “exército revolucionário”. O pragmatismo do grupo Nosotros, muito mais preocupado com as técnicas insurrecionais do que com os tabus, chocava-se frontalmente com as resistências ideológicas de outros grupos faístas, ou seja, com o rechaço ao que denominavam “ditadura anarquista” e um profundo antimilitarismo, que confiava tudo à espontaneidade criativa dos trabalhadores.

Este duro ataque às práticas “anarco-bolcheviques” do grupo Nosotros se expressou amplamente na revista Más Lejos, dirigida por Eusebio C. Carbó, e onde figuravam redatores como Jaime Balius e Mariano Viñuales. Logo depois foram publicadas as respostas a uma enquete que havia problematizado em sua primeira edição, de abril de 1936, que consistia em duas perguntas sobre a aceitação ou rechaço do abstencionismo eleitoral, e uma terceira sobre a tomada do poder, que dizia assim: Podem os anarquistas, em virtude de tais ou quais circunstâncias, e VENCENDO TODOS OS ESCRÚPULOS, disponibilizar-se à tomada do Poder, independente de sua forma, como meio para se acelerar o ritmo de sua marcha à realização da Anarquia?”

Quase todos responderam negativamente. Mas nenhuma resposta oferecia uma alternativa prática a essa negação generalizada à tomada do poder. Teoria e prática anarquistas pareciam divorciadas, às vésperas do golpe de Estado militar.

14a1-milicianocntNa Plenária de Grupos Anarquistas de Barcelona, reunida em junho de 1936, García Oliver expôs que a organização dos quadros de defesa, coordenados em comitês de defesa de bairro, na cidade de Barcelona, era o modelo a ser seguido, estendendo-os a toda Espanha, e coordenando essa estrutura em nível regional e nacional, para se construir um exército revolucionário do proletariado. Esse exército deveria se complementar com a criação de unidades guerrilheiras de cem homens. Muitos militantes se opunham às concepções de García Oliver, confiando mais na espontaneidade dos trabalhadores do que na disciplinada organização revolucionária. As convicções antimilitaristas de muitos grupos de afinidade produziram um rechaço quase unanime às teses do grupo Nosotros, e especialmente de García Oliver.

ALB: Como se transformaram esses Comitês de Defesa em Milícias Populares e comitês revolucionários de bairro?

AG: Em dezessete de julho o exército havia se sublevado em Melilla. No dia seguinte a rebelião militar havia se estendido a todo Marrocos, Canarias e Sevilla.

A guarnição militar de Barcelona contava com algo próximo de seis mil homens, frente aos quase dois mil da guarda de assalto e aos duzentos da “mossos d´esquadra” [1]. A guarda civil, a qual ninguém fazia idéia de que partido iria tomar, contava com uns três mil. A CNT-FAI disponibilizava de cerca de vinte mil militantes, organizados em comitês de bairros, dispostos a empunhar armas. Estava comprometida, na comissão de relações da CNT com a Generalidad e dos militares leais, a frear os golpistas com somente mil militantes armados.

Em 19 e 20 de julho de 1936, em plena luta nas ruas de Barcelona, enquanto se derrotava os militares sublevados, os membros dos comitês de defesa começaram a se chamar e serem conhecidos como “os milicianos”. Sem transição alguma, os quadros de defesa se transformaram em Milícias Populares. A estrutura primária dos quadros de defesa havia previsto sua ampliação e crescimento, mediante a incorporação de quadros secundários. Assim que eram capacitados, os milhares de trabalhadores voluntários, que se somaram à luta contra o fascismo, seguiam rumo às terras de Aragão. As milícias confederais se converteram na vanguarda de todas as unidades armadas, que seguiam por todos os cantos em busca do inimigo fascista para abatê-lo. Eram a organização armada do proletariado revolucionário. Seu exemplo foi seguido pelas demais colunas, inclusive as de conotação burguesa/liberal. Ante a ausência de um exército proletário único, os distintos partidos e organizações criaram suas próprias milícias de partido ou sindicato, sem um mando centralizado e com uma coordenação muito precária.

Houve uma dupla TRANSFORMAÇÃO destes quadros de defesa. As Milícias Populares, que definiram nos primeiros dias a frente de Aragão, instaurando a coletivização das terras nos povoados aragoneses liberados; e a dos comitês revolucionários que, em cada bairro de Barcelona, e em cada povoado da Catalunha, impuseram uma “nova ordem revolucionária”. Sua origem comum nos quadros de defesa fez com que as milícias confederais e comitês revolucionários estivessem sempre muito unidos e inter-relacionados.

Estes comitês revolucionários exerceram, em cada bairro ou localidade, sobretudo nas nove semanas posteriores ao 19 de Julho, as seguintes funções:

1. Tomaram edifícios para instalar a sede do comitê, de um armazém de abastecimentos, de um ateneu ou de uma escola racionalista. Ocuparam e sustentaram hospitais e jornais.

2. Registros nos domicílios privados para requerer armas, alimentos, dinheiro ou objetos de valor.

3. Inspeção armada em qualquer edifício suspeito, com o objetivo de deter “tiras”, franco-atiradores, padres, direitistas e quinta-colunistas. (Recordemos que a ação dos franco-atiradores, na cidade de Barcelona, durou uma semana inteira).

4. Instalaram em cada bairro centros de recrutamento para as Milícias, que armaram, financiaram, abasteceram e pagaram (até meados de setembro) com seus próprios meios, mantendo até depois de maio de 1937 uma intensa e contínua relação de cada bairro com os seus milicianos na frente, acolhendo-os durante suas folgas.

5. À custódia das armas, na sede do comitê de defesa, se somava em um local o armazém, no qual se instalava o comitê de abastecimento do bairro, que se abastecia com a requisição de alimentos, realizados nas zonas rurais, mediante a coação armada, e intercâmbio, ou a compra mediante vales.

6. Imposição e arrecadação do imposto revolucionário em cada bairro ou localidade.

Os comitês revolucionários exerciam uma importante tarefa administrativa, muito variada, que ia desde a emissão de vales, bônus de comida, emissão de salvo-condutos, passes, celebração de casamentos, abastecimento e mantimento de hospitais, até a tomada de alimentos, móveis e edifícios, financiamento de escolas racionalistas e ateneus gestionados pelas Juventudes Libertarias, pagamentos a milicianos, aos seus familiares, etc.

A coordenação dos comitês revolucionários de bairros era feita na sede do Comitê Regional, onde circulavam os secretários de cada um dos comitês de defesa de bairros. Por sua vez, também havia o Comitê de Defesa Confederal, instalado na Casa CNT-FAI.

Para os aspectos relacionados com a arrecadação de importantes quantidades de dinheiro e objetos de valor, ou todas as demais tarefas de detenção, informação e investigação, que excediam por sua importância nas tarefas do comitê revolucionário de bairro, participava o Serviço de Investigação da CNT-FAI, dirigido por Escorza na Casa CNT-FAI.

ALB: Houve um vazio de poder? Os Comitês de bairros que se formaram eram provenientes dos Comitês de Defesa? E os de abastecimento?

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AG: O autêntico poder de execução e resolução estava nas ruas, era o poder do povo em armas, e era exercido nos comitês locais, de defesa e de controle operário, expropriando espontaneamente fábricas, oficinas, edifícios, propriedades; organizando, armando e transportando para a frente de batalha os grupos de milicianos vonluntários que previamente haviam recrutado; queimando igrejas ou convertendo-as em escolas ou armazéns; formando patrulhas para estender a guerra social; dando guarda às barricadas, neste momento verdadeiras fronteiras de classe, que controlavam o desenvolvimento e manifestavam o poder dos comitês; colocando em funcionamento as fábricas, sem patrões nem capatazes, ou reconvertendo-as para a produção bélica; requisitando carros e caminhões, ou alimentos para o comitê de abastecimento; justiçando burgueses, fascistas e padres; substituindo as ineficazes câmaras municipais republicanas, impondo em cada localidade sua absoluta autoridade em todos os domínios, sem atender às ordens da Generalidad, nem do Comitê Central de Milícias Antifascistas (CCMA). A situação revolucionária se caracterizava por uma atomização do poder.

Na noite do dia 19 não havia outro poder real que não fosse o da “federação de barricadas”, o qual tinha como principal objetivo a derrota dos golpistas. O exército e a polícia, dissolvidos ou aquartelados, desapareceram das ruas depois do 20 de julho. Haviam sido substituídos por Milícias Populares formadas por operários armados, que confraternizavam com soldados licenciados e guardas desuniformizados em um único bloco vitorioso, que lhes haviam convertido na vanguarda da insurreição revolucionária.

Em Barcelona os comitês de defesa, transformados em comitês revolucionários de bairro, na ausência de consignas de qualquer organização e sem outra organização além das iniciativas revolucionárias que cada momento demandava, organizaram os hospitais, requisitaram carros, caminhões, armamento, fábricas e edifícios, registraram domicílios privados, detiveram suspeitos e criaram uma rede de Comitês de abastecimento em cada bairro, que se coordenavam no Comitê Central de Abastecimento da cidade, no qual adquiriu notável presença o Sindicato da Alimentação. O contágio revolucionário afetava a todos os setores sociais e a todas as organizações, que se lançavam sinceramente a favor da nova situação revolucionária. Essa era a única força real do CCMA, que aparecia frente ao povo em armas como organismo antifascista que devia dirigir a guerra e impor a nova ordem revolucionária.

Em 21 de julho, uma Plenária de Regionais e Localidades havia renunciado a tomada do poder, entendida como uma forma de ditadura dos líderes anarquistas, e não como imposição, coordenação e extensão do poder que os comitês revolucionários já exerciam nas ruas. No dia 23 uma plenária conjunta, e secreta, dos comitês superiores da CNT e da FAI se unificou em torno da decisão de se colaborar com o CCMA e de preparar a Plenária do dia 26 para vencer a resistência da militância.

No dia 24 haviam partido as duas primeiras colunas anarquistas, sob o comando de Durruti e Ortiz. Durruti fez um discurso pelo rádio no qual alertava a necessidade da militância se manter vigilante frente a uma possível intentona contra-revolucionária. Era preciso consolidar a situação revolucionária em Barcelona, para “aprofundar o processo” depois de tomar Zaragoza.

Em 25 de julho Companys se apresentou na Escola Náutica para recriminar os membros do CCMA e sua ineficiência no controle da ordem pública frente a indiferença de García Oliver que o despediu hostilmente.

Em 26 de julho foi ratificada, pela manhã, na Plenária Regional, a colaboração definitiva da CNT-FAI no CCMA, acordada pelos comitês superiores da CNT-FAI em seu debate do dia 23 e na anterior Plenária Regional reunida no dia 21.

A Plenária do dia 26 confirmou, por unanimidade, que a CNT seguiria sustentando a mesma posição, aprovada em 21 de julho, de participar deste novo organismo de colaboração de classes denominado CCMA. Essa mesma plenária do dia 26 criou uma Comissão de Abastecimento, dependente do CCMA, a qual deveriam submeter-se os distintos comitês de abastecimento surgidos em toda parte, e ordenava ao mesmo tempo uma trégua parcial da greve geral. O resumo dos principais acordos alcançados nessa Plenária foram editados para sua ampla difusão e acatamento.

O CC de Abastecimento era uma instituição fundamental que garantia um requisito indispensável para alguns operários voluntários que abandonavam seus postos de trabalho para combater o fascismo em Aragão: assegurar, mediante sua ausência, a alimentação de seus familiares que deixariam de receber seus respectivos pagamentos semanais com os quais viviam.

ALB: Quem foram as Patrulhas de Controle?

AG: Em 11 de agosto de 1936 se formaram as patrulhas de controle, como polícia revolucionária dependente do Comitê Central de Milícias Antifascistas (CCMA).

Só aproximadamente a metade dos patrulheiros tinha a caderneta da CNT ou era da FAI; a outra metade estava filiada às demais organizações componentes do CCMA: POUM, Esquerda Republicana Catalã (ERC) e o PSUC, fundamentalmente. Só quatro delegados de seção, dentre os onze existentes, eram da CNT: os de Pueblo Nuevo, Sants, San Andrés (Armonía) e Clot; outros quatros eram da ERC, três do PSUC e nenhum do POUM.

As Patrulhas de Controle dependiam do Comitê de Investigação do CCMA, dirigido por Aurelio Fernández (FAI) e Salvador González (PSUC), que substituiu Vidiella. Sua seção Central encontrava-se no número 617 da Gran Vía, dirigida pelos dois delegados de Patrulhas, ou seja, José Asens (FAI) e Tomás Fábregas (Acció Catalana). A remuneração dos patrulheiros, de dez pesetas diárias, era paga pelo governo da Generalidad. Ainda que em todas as seções se promovessem detenções, e alguns detidos fossem interrogados na antiga Casa Cambó, a prisão central ficava no antigo convento de freiras clarisas de San Elías.

ALB: Qual foi o balanço do Comitê Central de Milícias Antifascitas?

AG: Em 26 de setembro se formou um governo da Generalidad com a presença de conselheiros anarquistas. Em 1 de outubro se oficializou a dissolução do CCMA.

images1O decreto de 9 de outubro, complementado com o publicado no dia 12, declarava dissolvidos todos os comitês locais que haviam surgido em 19 de julho, que seriam substituídos pelas novas câmaras municipais. Em que pese a resistência de muitos comitês locais à sua dissolução, e o atraso de vários meses na constituição das novas câmaras, tratava-se de um golpe fatal do qual não se recuperariam. A resistência da militância cenetista, que se desentendia das consignas dos comitês superiores ou das ordens do governo da Generalidad, ameaçava o pacto antifascista. Os dirigentes anarco-sindicalistas estavam submetidos a uma dupla pressão: por um lado a militância que resistia a suas ordens e por outro a acusação por parte das demais forças antifascistas de que era necessário cumprir a risca os decretos do governo, enquadrando os “incontrolados”.

Esse era o real balanço deixado pelo CCMA em suas nove semanas de existência: de alguns comitês locais revolucionários, que exerciam todo o poder nas ruas e fábricas, à sua dissolução em benefício exclusivo do pleno restabelecimento do poder na Generalidad. Da mesma forma, os decretos assinados em 24 de outubro sobre a militarização das Milícias a partir de 1 de Novembro e a promulgação do decreto de Coletivizações completavam o desastroso balanço do CCMA, ou seja, a transformação de Milícias operárias de voluntários revolucionários em um exército burguês clássico, submetido ao código da justiça militar monárquico, dirigido pela Generalidad; a transformação das expropriações e o controle operário das fábricas em uma economia centralizada, controlada e dirigida pela Generalidad.

A demora na execução dos decretos, provocada pela silenciosa mas contundente resistência da militância confederal, que permanecia armada, fez com que o governo da Generalidad pautasse como objetivo prioritário o desarmamento da retaguarda, impulsionando uma campanha de propaganda contra os chamados “incontrolados”, que derivou no objetivo secundário, que se expressava no slogan: “armas para a frente”.

A forte resistência da base anarco-sindicalista à militarização das milícias, ao controle da economia e das empresas coletivizadas pela Generalidad, ao desarmamento da retaguarda e a dissolução dos comitês locais, se manifestou em um atraso de vários meses no cumprimento real dos decretos de governo da Generalidad sobre todos estes temas. Resistência que, na primavera de 1937, cristalizou-se em um grande mal-estar, ao que se somou o descontentamento pelos desdobramentos da guerra, a inflação e a penúria de produtos de primeira necessidade, para desembocar então em uma crítica generalizada da militância de base cenetista à participação nos comitês superiores da CNT-FAI no governo, e a política antifascista e colaboracionista de seus dirigentes, os quais eram acusados pela perda das “conquistas revolucionárias do 19 de julho”.

Em outubro de 1936 o decreto de militarização das Milícias Populares produziu um grande descontentamento entre os milicianos anarquistas da Coluna Durruti, na Frente de Aragão. Após longas e intensas discussões, em março de 1937, centenas de milicianos voluntários, estabelecidos no setor de Gelsa, decidiram abandonar a frente e retornar à retaguarda. Foi acordado que os rumos dos milicianos opostos à militarização se estabeleceria no transcurso de 15 dias. Abandonaram a frente, levando suas armas.

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Já em Barcelona, junto a outros anarquistas (defensores da continuidade e aprofundamento da revolução de julho e opostos aocolaboracionismo confederal com o governo), os milicianos de Gelsa decidiram constituir uma organização anarquista, distinta da FAI, da CNT ou das Juventudes Libertárias, que tivesse como missão encaminhar o movimento ácrata à via revolucionária. Dessa forma, uma nova Agrupação se constituiu formalmente em março de 1937, após um longo período de gestação de vários meses, iniciado em outubro de 1936. A Junta diretiva foi quem decidiu nomeá-la de “Agrupação dos Amigos de Durruti”, nome que por uma parte aludia à origem comum dos ex-milicianos da Coluna Durruti, e que como bem dizia Balius, não tomou por referência alguma o pensamento de Durruti, mas sim sua mitificação popular.

Esta oposição revolucionária à militarização das Milícias Populares se manifestou também, com maior ou menor respaldo, em todas as colunas confederais, destacando-se o caso da Coluna de Ferro, que decidiu em diversas ocasiões “rumar à Valência” para impulsionar a revolução e enfrentar-se com os elementos contra-revolucionários da retaguarda.

Em fevereiro de 1937 foi celebrada uma assembléia de colunas confederais que tratou a questão militar. As ameaças de não fornecimento de armas, alimentos, nem soldados, às colunas que não aceitaram a militarização, somada ao convencimento de que os milicianos seriam interrogados em outras unidades, já militarizadas, sofreram efeito. A muitos parecia melhor aceitar a militarização e adaptá-la flexivelmente à própria coluna. Finalmente, a ideologia de unidade antifascista e a colaboração da CNT-FAI nas tarefas governamentais, em defesa do Estado republicano, triunfaram contra a resistência à militarização, que foi finalmente aceita até pela recalcitrante Coluna de Ferro.

ALB: Houve conflitos entre os comitês de defesa e os comitês superiores?

AG: Em finais de novembro e início de dezembro de 1936, a CNT debateu o papel que deveriam assumir os comitês de defesa em Barcelona. Com uma visão estritamente sindical, que não via com bons olhos a importância adquirida, nos bairros, pelos comitês de defesa e os comitês de abastecimento. Consideravam que suas funções, superada a insurreição revolucionária e sua etapa posterior, de caráter excepcional, eram provisórias e, em todo caso, deveriam ser assumidas, já, pelos sindicatos.

Entre novembro e dezembro de 1936, os comitês de defesa eram um estorvo para a política governista dos comitês superiores cenetistas; se impunha, portanto, sua hibernação e submissão aos sindicatos, como meros anexos armados, um tanto incômodos e inúteis.

O que se discutia era o grau de autonomia dos comitês de defesa dos bairros em relação aos sindicatos. As propostas iam desde o reconhecimento de uma personalidade própria de Comitês de Defesa Local e sua total independência, reconhecendo-os como A MILÍCIA DA CNT, até a plena e absoluta submissão aos ditames da Federação Local de Sindicatos, que não só deveriam discutir as situações e decidir as ações, mas além disso deveriam fazer a custódia das armas, controlar os homens e financiar os Comitês de Defesa.

O problema fundamental, segundo o Comitê Regional, era a desobediência generalizada às consignas de desarmamento: “temos os bairros como nossos piores inimigos”.

Em outubro de 1936, a entrada da CNT no governo da Generalidad resultou na criação de uma Junta de Segurança Interior, caracterizada por um conflituosa dualidade de mando das forças da ordem púbica, entre CNT e governo da Generalidad. As Patrulhas de Controle foram perdendo autonomia e capacidade de decisão, enquanto a Comissão de Ordem Pública, controlada pelo PSUC e ERC, ia incrementando seu poder coercitivo, revitalizando os corpos de Guardas de assalto e a Guarda Nacional Republicana (antiga Guarda civil). Em finais de janeiro de 1937 os milicianos do PSUC-UGT abandonaram as Patrulhas de Controle, sendo substituídos por integrantes da CNT, ERC e POUM. A perspectiva de desaparição das Patrulhas de Controle, absorvidas no seio de um novo Corpo único de Segurança, decretado em 4 de março de 1937, supunha a perda da hegemonia dos cenetistas nos trabalhos policiais e repressivos na retaguarda.

Com o frágil equilíbrio político e armado existente na primavera de 1936 na retaguarda barcelonesa, o incremento e ameaça das forças repressivas burguesas, que tendiam ao monopólio da violência, revitalizou a reorganização e preparação dos comitês de defesa nos bairros para um enfrentamento que parecia já inevitável.

ALB: Por que se perdeu o controle dos abastecimentos? O que foi “a guerra do pão”?

AG: Em 20 de dezembro de 1936, Joan Comorera (PSUC), conselheiro de Abastecimento, pronunciou um importante discurso, em catalão, na sala do Gran Price de Barcelona.

Comorera argumentou sobre a necessidade de um governo forte, de plenos poderes, capaz de fazer com que os decretos não se tornassem “palavra morta”, como havia sucedido com o primeiro governo Tarradellas, no qual participou Nin pelo POUM. Um governo forte, capaz de levar a cabo uma política militar eficiente, que agrupasse todas as forças existentes na frente de batalha.

sant-pereComorera atribuía a carência e o aumento no preço de alimentos à existência dos comitês de defesa, não ao açambarcamento e especulação dos varejistas. Era o discurso que justificava e explicava o slogan das faixas e panfletos das manifestações de mulheres ao final de 1936 e começo de 1937: “mais pão e menos comitês”, promovidas e manipuladas pelo PSUC. Era evidente o enfrentamento entre duas políticas de Abastecimento opostas: a do PSUC e a do Sindicato da Alimentação da CNT. O Sindicato da Alimentação, através dos treze armazéns de abastecimento dos bairros, custodiados pelos comitês revolucionários de bairro (ou, melhor dizendo, por suas seções de defesa), distribuía gratuitamente alimentos aos refeitórios populares, onde, entre outros, frequentavam os desempregados e seus familiares, e, inclusive, sustentavam centros de atenção aos refugiados que, em abril de 1937, em Barcelona, aumentaram para 220.000 pessoas. Era uma rede de abastecimento que rivalizava com os varejistas, que somente obedeciam a lei da oferta e procura, e que buscava, sobretudo, evitar o aumento no preço dos produtos, já que o aumento de preços os tornava inviáveis aos trabalhadores, e, lógico, aos desempregados e refugiados. O mercado negro era o grande negócio dos varejistas, que atingiam excelentes lucros graças à fome (literalmente) da maioria. A guerra do pão de Comorera contra os comitês de abastecimento dos bairros não tinha outro objetivo que o de arrebatar dos comitês de defesa qualquer parcela de poder, ainda que essa guerra implicasse no desabastecimento de Barcelona e a penúria alimentícia.

Comorera finalizou seu discurso com um chamado à responsabilidade de todas as organizações, em prol de forjar uma férrea unidade antifascista. Para compreender o discurso de Comorera é necessário levar em conta a estratégia defendida por Gerö, de efetuar uma política SELETIVA frente ao movimento anarquista, que consistia em integrar os dirigentes ao aparato de Estado, ao mesmo tempo que se praticava uma bestial repressão aos setores revolucionários, qualificados injuriosamente como incontrolados, gangsters, assassinos, agentes provocadores e irresponsáveis, que Comorera identificava muito claramente nos comitês de defesa.

Os armazéns de abastecimento dos comitês de bairro controlavam o que, como, quanto e a que preço de venda ao público se provia aos varejistas, uma vez satisfeitas as necessidades “revolucionárias” do bairro, isto é, de doentes, crianças, desempregados refeitórios populares, etc. Comorera defendia o desaparecimento destes comitês revolucionários de bairro e o livre mercado. Sabia, além do mais, que uma coisa implicava outra, e que, sem a supressão dos comitês de defesa, o livre mercado seria uma quimera.

Um abastecimento racional, capaz de prover o suficiente à Barcelona e à Catalunha, exigia ceder às pretenções do Conselheiro de Economia cenetista, Joan P. Fábregas, que de outubro a dezembro de 1936 travou uma luta inglória, nas reuniões do Conselho da Generalidad, para conseguir o monopólio do comércio exterior, ante a oposição das demais forças políticas. Enquanto isso, no mercado de cereais de Paris, dez ou doze comerciantes catalães competiam entre si, encarecendo os produtos. Mas esse monopólio do comércio exterior, que sequer era uma medida de caráter revolucionário, mas apenas apropriada à uma situação bélica de emergência, atentava contra a filosofia do livre mercado, propugnada por Comorera.

Havia uma ligação entre as filas para se adquirir pão em Barcelona com a irracional concorrência no mercado atacadista de grãos em Paris. Essa conexão Barcelona-Paris teria sido quebrada com o monopólio do comércio exterior. Com a política de livre mercado de Comorera, essa conexão foi consolidada. Além disso, o PSUC encorajou a especulação por parte dos comerciantes, que implantaram uma autêntica ditadura sobre o preço de todos os alimentos, enriquecendo-se com a fome dos trabalhadores.

ALB: Como e por que esses Comitês de Defesa voltaram a se reorganizar?

AG: No domingo, 11 de abril, durante o comício na praça de los toros, La Monumental, foram avistados cartazes que exigiam a liberdade de Maroto e dos inúmeros presos antifascistas, em sua grande maioria cenetistas. Federica Montseny foi vaiada. Os gritos favoráveis à liberdade dos presos se intensificaram, uma e outra vez. Os comitês superiores culparam a Agrupação Amigos de Durruti pela “sabotagem”. Federica, muito incomodada, ameaçou de não tornar a falar em um comício em Barcelona.

O grupo 12, de Gracia, apresentou por escrito:

“Na segunda-feira, 12 de abril de 1937, aconteceu, na Casa CNT-FAI, uma seção da plenária local de Grupos Anarquistas de Barcelona, com participação dos grupos de Defesa confederal e das Juventudes Libertárias.

A Plenária, levando em consideração, após uma longa discussão, os resultados de nove meses de política ministerial, constatando a impossibilidade de ganhar a luta armada nas frentes contra o fascismo sem subordinar todos os interesses particulares, econômicos, políticos e sociais ao supremo objetivo da guerra; considerando que somente com a socialização total da indústria, do comércio e da agricultura, é possível derrotar o fascismo; considerando que toda forma de governo é, por essência, reacionária e, todavia, contrária à toda revolução social; delibera:

1º.- Retirar todos os homens que atualmente ocupam postos nos níveis antifascistas de governo.

2º.- Construir um Comitê revolucionário antifascista para coordenar a luta armada contra o fascismo.

3º.- Socializar imediatamente a indústria, o comércio e a agricultura.

4º.- Implantar a licença do produtor. Colocar em prática a mobilização geral de todos os homens capacitados para o manejo das armas e das ferramentas de trabalho para a frente de batalha e a retaguarda.

5º.- E, por fim, evidenciar a todos e a cada um o peso inflexível da disciplina revolucionária, como garantia de que os interesses da revolução social não podem ser tratados em vão”.

Esta reunião havia fugido do controle da burocracia, tendo a intervenção dos Comitês de Defesa de Barcelona, ou o que é o mesmo, da delegação dos comitês revolucionários de bairros, e também das Juventudes Libertárias, radicalizando, sem sombras de dúvidas, os acordos estabelecidos.

A FAI de Barcelona, junto às seções de defesa dos comitês revolucionários de bairro e as Juventudes Libertárias, em que pese o escândalo e a histérica oposição de alguns burocratas, havia decidido encerrar o colaboracionismo, retirar os conselheiros (ministros) anarquistas do governo da Generalidad e constituir um Comitê revolucionário que dirigisse a guerra contra o fascismo. Era um passo decisivo para a insurreição revolucionária, que irrompeu em 3 de maio.

Na Plenária constava, por outra parte, uma brecha ideológica, não tanto entre a CNT e a FAI, mas sim entre revolucionários e colaboracionistas, que apontava para uma cisão organizativa do movimento libertário, em Barcelona, que se manifestava na crescente oposição e na abissal diferença de objetivos entre as seções de defesa dos comitês de bairro e as Juventudes Libertárias, de um lado, e os comitês superiores, do outro.

Essa radicalização era fruto de uma situação cada vez mais insustentável nas ruas. Em 14 de abril, uma manifestação de mulheres, que desta vez não estava manipulada pelo PSUC, partiu de La Torrasa para recorrer aos distintos mercados de Collblanc, Sants e Hostafrancs, protestando contra o preço do pão e dos produtos alimentícios. Dirigiram-se ao Comitê Revolucionário da praça de Espanha para que interviessem no problema, mas o Comitê lhe afirmou que o assunto não era de sua incumbência. As manifestações e protestos se estenderam a quase todos os mercados da cidade. Nos dias posteriores ocorreram, com menor virulência, tumultos e manifestações em diversos mercados. Algumas tendas e padarias foram assaltadas. A fome nos bairros operários de Barcelona havia tomado as ruas para manifestar a sua indignação e exigir soluções.

ALB: Que papel exerceram os Comitês de Defesa em maio de 1937?

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AG: Na segunda-feira, 3 de maio de 1937, por volta das 2h45, três caminhões de guardas de assalto, fortemente armados, foramdetidos na sede da Telefônica na praça da Catalunha. Eram dirigidos por Eusebio Rodrigues Salas, militante da UGT e estalinista convicto, responsável oficial da delegacia de ordem pública. O edifício da Telefônica estava tomado pela CNT desde 19 de julho. A supervisão das comunicações telefônicas, a vigilância das fronteiras e as patrulhas de controle eram o campo de batalha que desde janeiro havia provocado diversos incidentes entre o governo republicano, a Generalidad e a massa confederal. Era uma luta inevitável entre o aparato estatal republicano, que reclamava o domínio absoluto sobre todas as competências que lhe eram “próprias”, e a defesa das “conquistas” do 19 de julho por parte dos cenetistas. Rodriguez Salas pretendeu tomar posse do edifício da Telefônica. Os militantes cenetistas dos pisos inferiores, pegos de surpresa, foram desarmados; mas nos pisos superiores se organizou uma dura resistência, graças a uma metralhadora instalada estrategicamente. A notícia se espalhou rapidamente. Imediatamente se levantaram barricadas em toda a cidade. Não se deve falar de reação espontânea da classe operária barcelonesa, porque a greve geral, os enfrentamentos armados com as forças de polícia e as barricadas foram fruto da iniciativa tomada pelos comitês de defesa, rapidamente copiada graças à existência de um enorme descontentamento generalizado, as crescentes dificuldades econômicas na vida cotidiana causadas pela carestia de vida, as filas e o racionamento, assim como a tensão existente na base militante confederal entre colaboracionistas e revolucionários. A luta nas ruas foi impulsionada e realizada a partir dos comitês de defesa dos bairros (e só parcial e secundariamente por algum setor das patrulhas de controle). Embora não existisse uma ordem dos comitês superiores da CNT, que exerciam o posto de ministros em Valência e Barcelona, ou de qualquer outra organização, para mobilizar-se, levantando barricadas por toda a cidade, não significava que estas fossem puramente espontâneas, mas sim que foram o resultado das consignas lançadas pelos comitês de defesa.

Fosse qual fosse a importância do papel desempenhado por alguns dirigentes antes de maio, todos eles foram rapidamente superados e ultrapassados. Os comitês de bairro desencadearam e protagonizaram a insurreição de 3 a 7 de maio em Barcelona. Não cabe confundir os comitês de defesa dos bairros com uma ambígua e imprecisa “espontaneidade das massas”, propugnada pela historiografia oficial.

Assim descrevera Nin, secretário político do POUM, em 19 de maio de 1937: “As jornadas de maio em Barcelona fizeram reviver certos organismos que, durante estes últimos meses, haviam jogado um certo papel na capital catalã e em algumas localidades importantes: os Comitês de Defesa. Tratam-se de organismos principalmente de tipo técnico-militar, formados pelos sindicatos da CNT. São estes, em realidade, que estiveram dirigindo a luta, e que constituíam, em cada bairro, o centro de atração e organização dos operários revolucionários”.

Os Amigos de Durruti não iniciaram a insurreição, mas foram os combatentes mais ativos nas barricadas. Distribuíram um panfleto onde exigiam a substituição do Governo da Generalidad por uma Junta Revolucionária.

Os trabalhadores confederados, desorientados pelo chamado de seus dirigentes – os mesmos do 19 de julho! – haviam optado, por fim, abandonar a luta, ainda que a princípio houvessem burlado os chamados da direção da CNT à harmonia e ao abandono da luta em prol da unidade antifascista.

ALB: Como se dissolveram os Comitês de Defesa?

AG: A força militar dos comitês de defesa na cidade de Barcelona havia permanecido intacta, ainda que os Atos de Maio tenham sido uma terrível derrota política dos revolucionários, que iria se materializar a partir de 16 de junho de 1937 com a detenção do Comitê executivo do POUM e a ilegalização deste partido.

A partir deste momento também se desencadeou uma repressão seletiva contra a CNT, iniciando-se uma ofensiva judicial em várias frentes:

1.- contra os comitês revolucionários locais criados durante as jornadas de 19 e 20 de julho;

2.- contra aqueles que haviam participado na rebelião de maio de 1937;

3.- contra delitos de opinião, leitura de imprensa clandestina, derrotismo ou portar armas sem permissão;

4.- contra alguns destacados líderes cenetistas, como Aurelio Fernández, Barriobero, Eroles, Devesa, etc.

Mas, a fins de maio de 1937, os comitês de defesa ainda eram bastante fortes para organizar várias campanhas armadas, dependentes dos comitês de defesa de bairros.

Os comitês revolucionários de bairro, em Barcelona, surgiram entre 19 e 20 de julho e duraram, no mínimo, até 7 de junho, quando as restauradas forças da ordem pública da Generalidad dissolveram e ocuparam os distintos centros de Patrulhas de Controle, e, em seguida, algumas sedes dos comitês de defesa, como no bairro de Les Costs. Em que pese o decreto que exigia a desaparição de todos os grupos armados, a maioria resistiu até setembro de 1937, quando foram sistematicamente dissolvidos e assaltados, um a um, os edifícios que ocupavam. A última a ser ocupada, a mais forte e importante, foi a sede do comitê de defesa do Centro, localizada nos Escolapios de San Antonio, que foi tomada de assalto em 21 de setembro de 1937 por forças da ordem pública, que utilizaram todo um arsenal de metralhadoras, tanques e granadas. Por outro lado, a resistência de Los Escolapios não cedeu ao fogo das armas, mas sim às ordens de desocupação, dadas pelo Comitê Regional.

A partir de então os comitês de defesa se ocultaram sob o nome de Seções de coordenação e informação da CNT, dedicados exclusivamente a tarefas clandestinas de investigação informativas, como antes de 19 de julho; mas agora (1938) em uma situação nitidamente contra-revolucionária.

Todavia, ainda foram bastante fortes e combativos o suficiente para publicar um informativo clandestino, intitulado Alerta…!, que editaram sete números entre outubro e dezembro de 1937. O número 1 saiu em 23 de outubro de 1937. As pautas recorrentes deste periódico eram a solidariedade com os “presos revolucionários”, exigindo sua libertação e denunciando a ocorrência de abusos no Cárcere Modelo; a crítica do colaboracionismo e da politização da FAI; a denúncia da desastrosa política de guerra do governo Negrín-Prieto e do predomínio estalinista no exército e no Estado. Enviou saudações de confraternização às Juventudes Libertárias e a Agrupação Amigos de Durruti. Uma característica indelével da publicação foram suas constantes chamadas à “fazer a revolução” e o abandono de todos os cargos por parte dos comitês superiores: “A Revolução não pode ser feita A PARTIR DO ESTADO, mas sim CONTRA O ESTADO”. No último número, fechado em 4 de dezembro de 1937, denunciou as checas estalinistas e a brutal perseguição dos cenetistas na Cerdaña.

Em 1938 os revolucionários já estavam mortos, no cárcere, ou na mais absoluta clandestinidade. Não foi a ditadura de Franco, mas sim a República de Negrín quem sepultou a Revolução.

Nota:

[1] “(…) é a corporação policial autonôma, de estatuto civil, fundada em 1719 e a mais antiga da Europa, responsável pela segurança pública e prestação do serviço de polícia na Região Autônoma da Catalunha, Espanha.” Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Pol%C3%ADcia_da_Catalunha. (N.T.)

Tradução: Daniel Augusto de Almeida Alves

Publicado originalmente em: http://www.alasbarricadas.org/noticias/?q=node/18191


Comentários 5

    • Carolino Golden

      |

      jan 27, 2012

      |

      Gostaria de chamar a atenção para o facto de os camaradas espanhóis terem censurado a parte final da entrevista.

      A parte em falta pode ser encontrada aqui, http://claudeguillon.internetdown.org/article.php3?id_article=332 , juntamente com uma nota explicativa pedida pelo tradutor francês.

      É esta a parte:
      Les révolutions sociales, les tentatives de réorganisation de la production et de la société sur de nouvelles bases, sont extrêmement rares dans l’histoire. Au-delà des circonstances dans lesquelles elles ont surgi, elles nous apportent toujours une expérience irremplaçable, tant par leur succès que par leur échec. Le grand enseignement de la révolution de 1936 a été le besoin incontournable de détruire l’État et de réprimer la contre-révolution. En reprenant la terminologie des Amis de Durruti : « les révolutions sont totalitaires* ou sont défaites ».

      E a nota a propósito do uso do termo totalitário, que levou, imagino, os espanhóis a censurar essa parte:

      En français au moins, le terme « totalitaire » sonne désagréablement à l’oreille. J’ai fait part à Agustin Guillamon de ma perpeplexité ; il m’a fourni les explications suivantes, que j’ai traduites et résumées :

      Au moment historique où les Amis de Durruti affirment que « las revoluciónes debían ser totalitarias o derrotadas », ils veulent dire que pour être victorieuse la révolution doit :

      embrasser tous les champs (social, économique, politique, etc.) et ne pas se limiter à la collectivisation des entreprises comme cela s’est produit en juillet 1936 ;

      être autoritaire, c’est-à-dire construire une junte (un conseil) révolutionnaire, qui rassemble toutes les forces qui ont combattu les fascistes dans la rue le 19 juillet (à l’exclusion des staliniens du PSUC, fondé le 24 juillet 36). Elle doit réprimer les tentatives** de contre-révolution menées par la bourgeoisie.

      (**Intentonas : littéralt. « tentatives téméraires »)

      Autrement dit, et je reprends ici la parole, les Amis de Durruti ont proposé, dans la pratique révolutionnaire et la lutte armée, une autre réponse anarchiste à la question du pouvoir, récusée par la majorité du mouvement anarchiste, au nom d’une vision idéaliste et morale du pouvoir (qu’il suffirait de nier ou de refuser, comme on s’abstient de boire ou de manger de la viande). Doit-on considérer avec Guillamon que les anarchistes des Amis de Durruti ont accompli « un pas de géant » par rapport à la vulgate anarchiste ? Une chose est hélas certaine : dans le même temps, les anarchistes « classiques », CNT et FAI, ont ridiculisé leur pureté doctrinale dans la collaboration ministérielle et gaspillé une large supériorité, à la fois numérique et d’implantation historique en Espagne.

      C. G.

    • João Bernardo

      |

      jan 27, 2012

      |

      A correcção feita por Carolino Golden é de enorme importância e penso que todos a devem ler com atenção. Mas como o texto está citado em francês, achei melhor traduzi-lo, para que todos os leitores entendam. Segue a tradução:
      As revoluções sociais, as tentativas de reorganização da produção e da sociedade sobre bases novas, são muitíssimo raras na história. Para além das circunstâncias em que surgiram, elas trazem-nos sempre experiências insubstituíveis, tanto pelos êxitos como pelas derrotas. A grande lição da revolução de 1936 foi a necessidade incontornável de destruir o Estado e de reprimir a contra-revolução. Retomando a terminologia dos Amigos de Durruti: «as revoluções ou são totalitárias ou são derrotadas».
      Pelo menos em francês, o termo «totalitário» tem um eco desagradável. Transmiti a Agustin Guillamon a minha perplexidade, e ele deu-me as explicações seguintes, que traduzi e resumi.
      No momento histórico em que o Amigos de Durruti afirmam que «as revoluções devem ser totalitárias ou derrotadas», queriam dizer que para ser vitoriosa a revolução deve:
      abarcar todos os campos (social, económico, político, etc.) e não se limitar à colectivização das empresas, como sucedeu em Julho de 1936;
      ser autoritária, quer dizer, constituir uma junta (um conselho) revolucionária, que una todas as forças que no 19 de Julho combateram os fascistas na rua (excluindo os stalinianos do PSUC, fundado em 24 de Julho de 1936). Ela deve reprimir as tentativas de contra-revolução prosseguidas pela burguesia.
      (Intentonas: literalmente, tentativas temerárias)
      Ou seja, e retomo aqui a palavra, os Amigos de Durruti propuseram, na prática revolucionária e na luta armada, uma solução anarquista diferente para a questão do poder, recusada pela maioria do movimento anarquista em nome de uma visão idealista e moral do poder (que bastaria negar ou recusar, como nos podemos abster de beber bebidas alcoólicas ou de comer carne). Será que devemos considerar, tal como o faz Guillamon, que os anarquistas dos Amigos de Durruti executaram «um passo gigantesco» relativamente à vulgata anarquista? Infelizmente, uma coisa é certa: ao mesmo tempo, os anarquistas «clássicos», CNT e FAI, ridicularizaram a sua pureza doutrinária na colaboração ministerial e desperdiçaram a enorme superioridade que tinham em Espanha, tanto sob o ponto de vista numérico como de implantação histórica.

    • Daniel Augusto

      |

      jan 28, 2012

      |

      Olá Carolino,

      grato por tua contribuição. Até então não tinha tido acesso à essa entrevista publicada em francês no site referido, cujo conteúdo é de suma importância para o aprofundamento do debate.

      Faço uma observação de que a entrevista foi originalmente publicada no portal Alasbarricadas.org no mês de julho de 2011. Já no site em francês ela foi publicada em dezembro de 2011. Isso pode sinalizar que a mesma foi editada pelo site francês, incluindo maiores observações por parte de Augustin Guillamon.

      Por outro lado, também há a grave possibilidade de censura por parte do portal A las Barricadas que é a tua acusação, não sem fundamento, pois realmente parece estranho que a entrevista fosse “encorpada” no site francês apenas na parte relativa a conclusão.

      Vou tentar estabelecer contato com Guillamon e/ou o site que você indicou para indaga-los a esse respeito. Caso se confirme que a entrevista realmente foi censurada em seu final estaremos incluindo a parte censurada e acrescentando uma nota explicativa…

      Agradeço também ao JB pela tradução do trecho em francês.

      Daniel Augusto

    • Carolino Golden

      |

      jan 28, 2012

      |

      A minha acusação pode realmente ser leviana e precipitada. Li primeiro o texto em francês e só depois procurei pelo original para poder partilhá-lo com mais pessoas. Foi aí que verifiquei a ausência dessa parte final.

    • Francis Rocha

      |

      fev 7, 2017

      |

      Excelente e esclarecedor, existe um grupo de estudos ou de pesquisa no qual possa tem um maior contato com outros interessados ? Por favor aguardo a resposta, e desde já obrigado.

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