O trem das onze já não sai mais

O trem das onze já não sai mais

em 24 fev

Ao colocar o cotidiano em suas letras, Adoniran evidencia a dependência do transporte que não é estruturado para as pessoas terem acesso à cidade. Por Legume Lucas

Não posso ficar
nem mais um minuto com você
sinto muito amor
mas não pode ser
Moro em Jaçanã
se eu perder esse trem
que sai agora às onze hora
só amanhã de manhã

Trem das onze – Adoniran Barbosa

Os versos de Adoniran são, provavelmente, dos mais conhecidos da música paulistana. Neles transparecem — sem mediações — as dificuldades práticas de deslocamento em grandes cidades; o rapaz não pode namorar pois o sistema de transporte não o permite. Ao colocar o cotidiano em suas letras, Adoniran evidencia a dependência de um sistema de transporte que não é estruturado para as pessoas terem acesso à cidade. O convívio com aqueles que não são seus vizinhos é restrito, o estabelecimento de relações diretas, planos, ações, namoros, amizades são frustrados por um sistema de transporte voltado para o deslocamento exclusivo da força de trabalho.

Há em São Paulo uma política de segregação espacial das diversões noturnas, não há ônibus para que os pobres venham para as festas, shows e eventos no centro. Poucas são as linhas que continuam a circular depois da 1h e os trens [comboios] e metrôs param completamente à meia-noite; além de excluir de atividades recreativas, isto é um problema mais sério para os garçons [empregados de mesa], seguranças, funcionários da limpeza, que saem do serviço à noite e não têm condução [transporte] para voltar para casa. As pessoas dão seu jeito, dormem no terminal esperando o ônibus, passam a noite em pensões, cortiços, dormem na rua; é comum em São Paulo encontrar aqueles que só vão para casa aos finais de semana por conta do preço e dos horários dos transportes; o bairro da Luz é um dos lugares onde as pessoas ficam “hospedadas”.

Podemos ver uma perspectiva diferente sobre o tema na crônica de Lurdez da Luz sobre a ferrovia: o meio de deslocamento para grandes distâncias marcando a cidade e envolto pela exclusão. Lurdez escreve sob a perspectiva de alguém criada na região da Luz, um espaço de sociabilidade da população de baixa renda. Este espaço de entroncamento das ferrovias serve como pólo aglutinador de trabalhadores vindos de toda Grande São Paulo. Um lugar de deslocamento para o trabalho é ao mesmo tempo um espaço de convívio da população pobre, com comércio, moradias, prostituição e drogas voltadas para a população de baixa renda.

“Fizeram uma política para poder expulsar traficantes, trombadinhas [grupos de crianças que praticam assaltos], travestis da área / pra qualquer outro pico de São Paulo vão migrar”. A música antecipa a operação Centro legal, inserida no projeto Nova Luz, evidenciando que um espaço central com uma ampla malha de transportes não é espaço para a sociabilidade de baixa renda. Parte do projeto é de ampliação do espaço de cultura camerística onde esta população é indesejada; a alternativa é espalhar-se para regiões mais periféricas da cidade. Rompem-se os laços estabelecidos naquela localidade, utilizando-se da atmosfera do medo e condenação moral ao uso de drogas, especificamente do crack. Vale destacar que a droga que é mal vista pela sociedade paulistana é a consumida pela população de baixa renda. Não vemos campanhas contra o uso de Rivotril ou ainda batidas em redações de jornais e administrações de empresa para controlar o uso de cocaína.

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Voltando para Adoniran, agora com a música, menos conhecida, Praça da Sé, podemos ouvir uma modernização dos espaços centrais da cidade que ressignifica as experiências das classes populares possíveis naquele local. O camelô [vendedor ambulante] e o engraxate [engraxador] não podem mais ser vistos no cotidiano do marco zero paulistano. O progresso impera no local. Ao tornar-se uma moderna estação de metrô, não existe mais lugar para convivência das pessoas, só resta espaço para o trânsito constante e acelerado de mão-de-obra. A função do trem [comboio] como meio de chegar ao trabalho é explicitada em Pincharam a Estação no Chão. Trabalhando no Jaçanã não precisa mais pegar cotidianamente o trem; porém, com a estação destruída sua possibilidade de aproveitar a cidade está restrita novamente.

Praça da Sé é uma crítica precisa da retirada da população pobre do centro, e é na região central que se concentram as oportunidades de emprego, os equipamentos sociais de saúde e cultura, as bibliotecas públicas, as escolas; a partir da instalação da “madame estação Sé” o acesso a todos estes bens passa a ser mediado pelo transporte. A modernização do centro serve como valorização destes espaços, onde concentram-se imóveis desocupados, voltados para a especulação imobiliária, tão bem descrita em Saudosa Maloca. Ao ouvirmos esta música nos vêm imediatamente as imagens de desocupações das diversas ocupações no centro de São Paulo, como a Plínio Ramos, a Ouvidor e a São João, entre outras.

O movimento de valorização pela instalação de meios de transporte modernos, como o Expresso Tiradentes, não ocorre apenas em áreas centrais. Nas perferias, as moradias mais próximas às estações de trem e metrô são mais caras e é comum que a população que reinvindicou melhorias no transporte por anos seja expulsa da região pouco depois (ou mesmo no processo de instalação) da melhoria do transporte. “Dentro de dez dias / quero a favela vazia / barracos todos no chão”, o Despejo na Favela  pode ter diversas motivações, as mais recentes são as chamadas adequações aos grandes eventos e as causas ambientais. Porém, as consequências são muito similares, a população é levada para áreas mais distantes, com pior infraestrutura urbana e de transportes, menos equipamentos sociais, e compromete uma parte ainda maior do seu orçamento com deslocamentos. Também rompe com a existência daquela comunidade e dos vínculos de luta por ela estabelecidos.

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Esta intersecção dos problemas encontrados na cidade está presente também na expressão musical dos movimentos sociais. O samba de 2010 da Unidos da Lona Preta faz uma clara proposta de articulação destas demandas urbanas, criticando as remoções de favelas, as catracas [torniquetes fiscalizadores de entrada] dos transportes, a exploração dos trabalhadores e a concentração de terras. Passados dois anos do Carnaval de 2010, será que avançamos na articulação destas lutas? Os diagnósticos já estão feitos de uma maneira muito mais propositiva e certeira do que a maioria dos programas de partidos e movimentos. O que nos falta?


Comentários 1

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      mar 2, 2016

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      >>Samba contra o corte de ônibus e a tarifa R$3,80, em Olaria
      https://www.facebook.com/events/181962628845608/

      Boa análise no texto do companheiro da luta pelo transporte em São Paulo, Legume Lucas. Diante dos sambas de Adoniran Barbosa, revelam denuncias sobre o veto do direito ao transporte e segregação da população de baixa renda, além da dificuldade de acesso de trabalhadores ao transporte noturno. A Estação da Luz, lotada durante o dia e tarde por receber a circulação de muitos trabalhadores, à noite se hospedam ali nos arredores por perder o retorno para suas casas.

      Assim como a estação da Luz, a Central do Brasil no Rio de Janeiro, o coração que pulsa a classe trabalhadora pela cidade, também passou (ainda passa) por um processo de elitização e perseguição policial dos mesmos setores no trecho do samba de Adoniram: “Fizeram uma política para poder expulsar traficantes, trombadinhas [grupos de crianças que praticam assaltos], travestis da área / pra qualquer outro pico de São Paulo vão migrar”. O filme “Central do Brasil”, de Walter Salles, já mostra essa “outra” Central que existia há pouco mais de 20 anos: ambulantes, camelôs, crianças, se estabelecendo ali.

      A condenação moral do tráfico de drogas, enquanto a repressão policial cai somente sobre os mais pobres e negros, caminha junto com o mercado imobiliário e empreiteiras na região. Vizinho da Central, o Morro da Providência já foi vítima de outras ocupações militares antes da UPP(unidade policial pacificadora), em 2008, quando membros do exército torturaram, sequestraram e venderam para uma facção criminosa 3 jovens trabalhadores, que voltavam de seu lazer. Hoje inúmeras remoções ocorreram no morro, muitas alegando a instalação do Teleférico, instalado sem nenhum diálogo com os moradores. Outras remoções foram impedidas pela resistência popular local.

      Apesar da Central ser um coração que pulsa trabalhadores com transporte para outras regiões, não longe dali, na Zona Portuária, está acontecendo um processo de elitização e especulação. Já denunciado e alvo de protestos de moradores, bairros do Santo Cristo, Saúde e Gamboa estão sofrendo com o CORTE DE LINHAS DE ÔNIBUS, parte do projeto de corte de 111 linhas pela prefeitura Eduardo Paes. Moradores locais estão passando mais de 1 hora nos pontos, esperando a única linha que passa nas suas ruas.

      Como parte disso, a Zona Portuária passa pela implementação do Porto Maravilha, que vem com o Museu do Amanhã e a “nova” Praça Mauá. Com expulsão de camelôs e perseguição de moradores de rua, tentam fazer dali um cartão postal da cidade. Ali tem a região conhecida como “Pequena África”, pela maioria de seus moradores serem negros, muitos descendentes da formação de habitações de ex-escravos, com suas produções culturais preservadas, desde terreiros de candomblé, rodas de samba, capoeira, até a luta pelo reconhecimento do Morro da Conceição como remanescente de quilombo.

      Apesar da persistência do Samba da Pedra do Sal, no pé do Morro da Conceição, ao lado da Praça Mauá, a “Pequena África” ainda vive as cicatrizes da segregação e elitismo, que nos lembra a perseguição à organização e autonomia dos trabalhadores negros nos tempos pós-abolição. Perto dali, a prefeitura Eduardo Paes despejou a Ocupação Zumbi dos Palmares e de outras ao redor, que continuam fora de uso. No primeiro semestre de 2009, 50 sobrados, depósitos de camelôs, ocupações e imóveis antigos sofreram incêndios criminosos. Hoje a “Pequena África” é apresentada como um produto de mercado no turismo, enquanto essas violações aos seus moradores são silenciadas.

      O camelódromo da Central também sofreu incêndio, em 2010. Exatamente quando o prefeito propagava o Porto Maravilha na grande mídia. Hoje, não existem mais a maioria das moradias populares no local e tal região está sendo tomada por altos prédios e novas construções. A população de trabalhadores com maioria negra, que dava vida ao local, está sendo expulsa por diversas táticas do poder público e privado. Para onde ela vai e o que fará? Vai continuar dando vida para os projetos imobiliários e financeiros que estão se instalando ali, só que pela exploração seu trabalho, cujo valor gerado financia os grandes empreendimentos. O problema é se essas pessoas vão usufruir desse ganho para os empresários, que já dão a resposta negativa com o veto do seu direito à habitação e transporte. Somente a luta e resistência popular vai poder dizer, que também usa sambas, performances e outros meios de criação.

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