A cidade esteve na mão do povo, a polícia entregou a chave. Deixando de lado a questão da polícia e centrando-se no povo, isso seria bom ou ruim? Por Passa Palavra

Difícil, e seria em vão, tentar descrever tudo o que se passou na segunda-feira (17 de junho) em São Paulo — e no Brasil — com o 5º Grande Ato Contra o Aumento das tarifas. Qualquer leitura política que se faça será certamente parcial e imprecisa, apenas os desdobramentos dos fatos poderão fornecer elementos que ajudem a desnudar o sentido político da grande ebulição que está em curso.

Nesta segunda-feira, o ato — enorme — partiu do Largo da Batata (e todas as adjacências), na região de Pinheiros, e pouco depois dividiu-se (até onde temos conhecimento) em três grandes colunas: uma que desceu o final da avenida Rebouças e acessou a Marginal Pinheiros, caminhou longamente e tomou a ponte Estaiada, no bairro do Brooklin; outra que seguiu pela avenida Faria Lima, tomou a Juscelino Kubistech, a avenida Berrini e se encontrou com a primeira também na ponte Estaiada; e outros milhares que seguiram para a Avenida Paulista. E depois seguiu para o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo do estado, e depois teve bloco que tomou a 23 de Maio e foi para a Assembleia Legislativa, e outro que desceu a Consolação, e depois um que foi para a frente da Prefeitura, e depois… e depois… e depois… Até o momento em que escrevemos, milhares e milhares estão por aí.

Alguns institutos de pesquisas chegaram a falar em 65 mil pessoas nas ruas. Talvez tenha sido isso, mas talvez fosse melhor dizer 90, 100, 110 mil ou mais — tanto faz. A partir desse momento passamos a contabilizar numa escala em que essa quantificação se torna indiferente ou, pelo menos, secundária.

Hoje é possível dizer que a cidade esteve na mão do povo, a polícia entregou a chave. Deixando de lado a questão da polícia e centrando-se no povo, isso seria bom ou ruim?

Bom, porque o Movimento Passe Livre (MPL) conseguiu cravar no coração da cidade o debate sobre o transporte público e o projeto da tarifa zero de forma indiscutível. Bom, porque apesar de todas as manobras operadas tanto pela direita quanto pela esquerda do espectro político institucional — enxertando um sem-número de pautas na mobilização, de forma a canalizar a sua energia contra este ou aquele adversário político e esvaecer a reivindicação única e clara do movimento — está cada vez mais difícil e vexatório para Haddad e Alckimin sustentarem o reajuste da passagem.

Mas também ruim — e, acrescentamos, perigoso — porque o povo de que falamos aqui não é aquele eufemismo ou simplificação que usamos quando queremos genericamente nos referir à classe trabalhadora ou a uma composição favorável a ela. Povo aqui diz respeito àquela massa social sem forma definida. Se há algo que marca a manifestação de segunda-feira, sem dúvida esta marca é a polifonia.

A sensação é que vivemos um grandioso momento, decisivo, algo inédito. Uma dada leitura de conjuntura altera-se em pouquíssimas horas. Algo nos diz que estamos perto de uma vitória pontual — 20 centavos — mas extremamente significante, porque pode devolver às organizações de esquerda a percepção de que o caminho da luta aberta, na rua, é possível. É, como se diz, uma real possibilidade de alcançarmos um acúmulo de força. E mais: aprendermos lições sobre formas de mobilização, sobre a necessidade de ser ousado, de fazer enfrentamentos. Porém, é preciso dizer que esta sensação é incompleta, carrega também o seu quê de angústia. Sensações que variavam conforme fossem as faixa, os cartazes ou as palavras de ordem que iam sendo chamadas durante a noite desta segunda-feira. À parte algumas pautas que poderiam e devem ser articuladas à pauta específica da mobilização — destacam-se aqui a indignação com a Copa do Mundo, a situação da saúde, da habitação e, sobretudo, o rechaço pesado contra a Polícia Militar — tiveram lugar também manifestações nacionalistas, moralistas, espíritos cívicos que enauseariam qualquer militante anticapitalista. E é claro que isso não ocorreu espontaneamente. Como já dito, resultou de intervenções políticas sistematicamente operadas dos setores mais conservadores da sociedade como também do chamado campo progressista democrático-popular. A grande imprensa — outra que, apesar do xingamento que sofria pela maior parte dos manifestantes, pode sair fortalecida por este processo — não poupou esforços para retratar e induzir o acontecimento a uma verdadeira panaceia cara-pintada.

Considerando os acontecimentos em outras 11 capitais brasileiras, presenciamos nesta segunda-feira um dos maiores eventos políticos do último período, isto é certo. A jornada de lutas contra o aumento avançou enormemente, disso não restam dúvidas. E abre caminhos para coisas até há uma semana inimagináveis no campo da luta de classes. No entanto, o que marchou nesta segunda-feira por toda a cidade foi um espectro político cujo conteúdo, para além da luta contra o aumento, está em ferrenho processo de disputa. Isso coloca um seríssimo desafio para as forças de esquerda, em São Paulo e no Brasil: não deixar que a energia social que esta luta ajudou a liberar, e que agora começa a transbordar da engenharia política de pacificação e cooptação armada pela era petista, redunde num mar de pautas etéreas, ou pior, descambe para um projeto de moralização da política de matiz populista, nacionalista, ou pior… como já aconteceu em outros momentos da história. Para já, no caso de São Paulo, isso significa intervir em conjunto e com habilidade e bolar táticas de depuração política que nos permitam gritar a uma só voz, sem desvios: pela revogação do aumento da tarifa!

Assista a vídeos desta manifestação aqui.

Os leitores portugueses que não percebam certos termos usados no Brasil
e os leitores brasileiros que não entendam outros termos usados em Portugal
encontrarão aqui um glossário de gíria e de expressões idiomáticas.

15 COMENTÁRIOS

  1. Quando a Polícia Militar carregou sobre os manifestantes ouviu-se por muitos lados o comentário de que o Brasil não é uma democracia porque uma democracia não tem polícias assim. Mas as polícias têm precisamente por ofício ser truculentas e nenhuma democracia, incluindo as que possuem diplomas e atestados, deixa de usar essa truculência quando lhe convém. O que caracteriza as democracias é outra coisa — é a capacidade de recuperar os conflitos. Por isso considero o artigo «Estado e movimentos sociais» (http://passapalavra.info/2012/02/52448 ) um dos mais importantes publicados pelo Passa Palavra. Ora, é o tema da absorção dos conflitos pelo aparelho político e económico capitalista que está subjacente agora a este artigo sobre o Ato de ontem, como ao artigo de Guilherme Riscali, «Por um vintém» (http://passapalavra.info/2013/06/79281 ). Nos comentários ao artigo de Riscali, Leo Vinicius indicou o link (http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/sp/2013-06-17/comandante-geral-da-pm-sugere-politizacao-de-protestos-em-sao-paulo.html ) para uma notícia que todos nós deveríamos ler atentamente e que diz, em suma, que «o comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo, Benedito Roberto Meira, sugeriu aos representantes do Movimento Passe Livre (MPL) que incluíssem na pauta de protestos pedido de prisão dos condenados do processo de Mensalão». Se ontem a Polícia Militar, como escreve o Passa Palavra, «entregou a chave», pôde fazê-lo porque esperava que a manifestação ficasse inundada por forças sociais conservadoras, que lhe diluíssem os objectivos. Penso que este é, nos próximos dias, o grande perigo. Aquela esquerda que imagina que os capitalistas só sabem dar pauladas atribui aos outros a miopia que a caracteriza a ela.

  2. Me parece que agora é a hora da unidade da extrema esquerda. Se ela não for capaz de dar forma a esta unidade e se perder em disputas a única coluna mais organizada que esteve convocando as manifestações se dissolve e a história que sobrará para ser contada será a do passeio pela Paulista/Av Rio Branco contra os políticos. Isso ao menos no Eixo Rio-SP.
    Em BH temos que ver os efeitos da repressão que praticamente não houve em RJ e SP. Será interessante também analisar a capacidade de capitalização das organizações de esquerda nas outras capitais e nas cidades médias, não ficou claro para mim o quanto nestes outros lugares o conservadorismo também invadiu os atos.

  3. Realmente, foi emocionante a sensação de estar dentro de algo tão gigante e histórico, me sinto orgulhoso de ter participado e de ter acompanhado nos últimos anos o amadurecimento e o crescimento do MPL. Fico com dúvidas só em relação a esta parte:

    “À parte algumas pautas que poderiam e devem ser articuladas à pauta específica da mobilização — destacam-se aqui a indignação com a Copa do Mundo, a situação da saúde, da habitação e, sobretudo, o rechaço pesado contra a Polícia Militar — tiveram lugar também manifestações nacionalistas, moralistas, espíritos cívicos que enauseariam qualquer militante anticapitalista. E é claro que isso não ocorreu espontaneamente”.

    Por que é claro que não? Concordo que muito provavelmente houve essa infiltração premeditada por alguns interesses escusos, mas po, tínhamos centenas de milhares de pessoas nas ruas, dá pra imaginar que parte dela não seria nacionalista e moralista e etc? O Datafolha fala inclusive em 71% de pessoas, entre os entrevistados, que nunca haviam ido a um protesto – não é “nossa” turma de sempre, felizmente, e é preciso lidar com isso. Se a massiva indignação contra a violência policial e a mobilização nas redes sociais são capazes de levar tanta gente nova pra rua, acho que elas são capazes de carregar também compreensões políticas diferentes do que tradicionalmente se vê nos atos. Certo que há interesses, mas não me parece ser tão simples, nos lembremos que sempre dissemos que o povo brasileiro é em boa parte conservador. Pois bem, esses mesmos conservadores hoje acordaram de alguma forma animados com a mudança, simpáticos a ela, ao povo nas ruas, isso também é muito louco.

    Mas gosto do que o fim levanta, “Para já, no caso de São Paulo, isso significa intervir em conjunto e com habilidade e bolar táticas de depuração política que nos permitam gritar a uma só voz, sem desvios: pela revogação do aumento da tarifa!”. De todo modo, saia o que sair dessas mobilizações (e a revogação da tarifa já parece favas contadas), o principal me parece ser o próprio levante, e tudo que isso indica pro futuro próximo das lutas autônomas, sobretudo por ele ser causado também pela indignação com a Copa do Mundo – que sinceramente eu acho melhor eles desistirem, porque vai ser contestada a ferro e fogo!

  4. Excelente artigo de análise. E também o comentário do João Bernardo.
    Encontrei hoje outros artigos com análises convergentes pela internet. E claro, penso que é a visão que está prevalecendo dentre anticapitalistas ou pessoas que participam de movimentos sociais de esquerda..
    As táticas de depuração política a que se refere o artigo devem ser pensadas evidentemente por quem faz parte do movimento, no caso o MPL.
    Se manter como interlocutor legítimo é importante nesse momento, pois é provável que a mídia, procurando inchar as pautas e torna-las etéreas, comece a descartar a questão da tarifa para segundo plano…
    Enfim, temos uma novidade no tabuleiro: a tentativa da mídia e da direita de aparelhar as manifestações.. e pelo que foi visto ontem, com mais sucesso do que eu apostaria.

    Em termos de conquista do MPL e de movimentos anticapitalistas em geral, creio que a importância no momento se dá na luta em São Paulo, sendo o resto do país, na dimensão que tem ganho, uma reverberação do apelo da mídia, constituindo massa para um movimento que é direcionado por ela para “federalizar um descontentamento”.

    Como li em outro lugar, agora é momento de uma batalha simbólica pelo conteúdo e direcionamento das manifestações, e isso talvez traga a necessidade de posicionamentos políticos e ideológicos mais firmes e quem sabe ousados daqueles que tem tido legitimidade enquanto interlocutores.
    Ou talvez não, como estou falando de fora, quem está dentro é que tem melhores condições de análise… faço apenas digressões.

  5. Ontem eu vi o perigoso fato de setores anticapitalistas estarem a mobilizar a juventude conservadora da classe média e ensinando a ela como se luta. Foi uma aula bastante perigosa.

    Mas isso também ocorre por conta da falta de raízes populares do movimento. Assim, apenas com ligações no meio universitário público, o que resta é o chamado geral no Facebook. Mas aí a festa pode ser invadida por estranhas pessoas.

    Daquele monte de gente branca, bem vestida, óculos escuros, maquiagem, ouvi todo tipo de coisa:

    -Dilma caralhuda
    -Contra o mensalão
    -PSTU, vai tomar no cú
    -Lula, analfabeto
    -Cantos nacionalistas
    -Contra a corrupção
    -Práticas de moralização, higienalização e fiscalização de todo o ato

    Como alguém disse, é um Cansei 2.0.

    O baile conservador foi tal que os políticos aplaudiram vastamente. Há possibilidade clara de um “golpe de pauta” e tudo virar num sentido conservador explícito.

    Ontem, os que lutavam tinham a polícia e outros inimigos externos. De agora por diante há um grande inimigo interno. A presença de meios populares precarizados poderia ser um bom antídoto, mas para isso seria necessário ter maiores ligações com tais setores e a esquerda presente nos atos não tem.

  6. aqui em Londrina a coisa também anda complicada. O evento de ontem, 17/06, foi em boa parte resultado de um evento criado no facebook por estudantes sem qualquer histórico de militância. Não houve nenhuma reunião do MPL de Londrina, pelo que sei, para discutir como seria a participação no evento. Hoje haverá reunião do MPL e cedo ou tarde ela é necessária.
    Aqui a coisa virou uma bagunça que tinha até cartaz pedindo a diminuição da exploração da classe média.
    Na página do evento de ontem estão rechaçando o levante de qualquer bandeira, mesmo que está seja apenas uma bandeira vermelha.
    Chegam a dizer que os comunistas estão querendo se aproveitar e terão que ser retirados à força das manifestações.
    Tem até empresário no meio criando enquete para expulsar os comunistas.
    A coisa tá feia. Londrina é uma cidade demasiadamente provinciana e reacionária.
    Tá complicado.

  7. Pelo que pude testemunhar (e o que já era um tanto previsto) estas manifestações têm tudo para caminhar ao nada. Ou pior. Na eleição de um Aécio da vida. A juventude condenando tudo que estaria relacionado à política, como se o ato das manifestações não fosse político. A tristeza é que se hoje se levantasse um capitão Nascimento como salvador, sem dúvida, haveria sublevação para colocá-lo no poder. É mais que urgente uma organização das pessoas que sabem que as coisas não são bem por aí.

    Não sou de partido algum, nem (infelizmente) tenho militado em nenhum tipo de organização. Estava ao lado dos meus amigos do PSTU (nunca fui do partido, sequer participei de reunião) que tiverem sua bandeira tomada a força por uma pessoa, muito bem identificada. Esta tomou coragem após gritos de estudantes contrários ao hasteamento da bandeira. Em nenhum momento o prefeito ruralista que fazia parte da marcha fora vaiado ou ofendido. Isso tudo caminha para uma campanha de moralização e está dando voz a quem defende as ideias mais fascistas possíveis. Como, por exemplo, a contrariedade a união civil homoafetiva.

    Cabe a todos que se julgam de esquerda debater o tema e buscar união. Minha bandeira é bem clara. Sou pelo fim da propriedade privada, pelo fim das fronteiras, pelo fim do patriarcado e do sistema patronal, assim como fim da polícia. Não vou oferecer rosa pra ninguém que não esteja do meu lado. E sei que os que defendem bandeiras contrárias não estão do meu lado.

    Ao caralho com essa pataquada de gigante levantando ou povo brasileiro acordando. Quem caminha pra acordar são os que estão a cantar o hino nacional. Mas ainda não acordaram, estão meio cegos com os olhos cheios de ramela

  8. Acabo de assistir ao comentário televisivo de um certo famoso professor universitário de história contemporânea brasileiro alertando as autoridades brasileiras do fato de que a dinâmica das ruas está ultrapassando a capacidade de ação do Estado e de que é necessário que as autoridades coloquem-se à frente dos acontecimentos, tendo em vista restabelecer a ordem. E que o façam em escala nacional, já que os protestos contra os aumentos das passagens atingiram uma tal dimensão. Na mesma transmissão, como era de se esperar, o mesmo professor, um outro professor universitário de sociologia, um cientista político e os âncoras do jornal rechaçaram o “vandalismo” e exaltaram os manifestantes que apelaram para o pacifismo, para a não-violência e para a “negociação” (os anarquistas foram particularmente atacados). Gosto de dar nome aos bois. Os “respeitáveis” acadêmicos que vão em defesa do pacifismo, do compromisso, da ordem e do Estado são Francisco Carlos Teixeira (UFRJ), Ricardo Ismael (PUC-RJ) e Fernando Abrúcio (USP). Poderiam ser outros, claro. Os dois primeiros parecem privilegiar o estudo da desigualdade social, mas, curiosamente, parecem se sentir compelidos a defender o Estado… O mesmo Estado que, associado aos capitalistas, funciona como sustentáculo ou como reforço do poder dos capitalistas, causador da desigualdade social que tomam como objeto, mas que, por outro lado, é o mesmo Estado que incentiva e financia as pesquisas acadêmicas. Eis aí os intelectuais orgânicos das classes capitalistas cumprindo o seu papel.

  9. De fato, a luta de classes está sendo disputada palmo a palmo, centímetro a centímetro de rua percorrida pelos protestos em todas as cidades (e não são poucas…). O que foi considerado no artigo, mas que não tenho visto com profundidade, é a discussão de como avançar na pauta à esquerda para conquistas mais duradouras, uma vez que no capitalismo elas nunca são permanentes. O MPL cumpre um papel que não é secundário, e, no entanto, se nega a expandir a pauta, insistindo na redução da tarifa. Não se trata de sucumbir à pauta dos partidos de esquerda, ou à manipulação da mídia e partidos burgueses, mas de enfrentar a necessidade urgente de uma frente de movimentos e partidos que possam consolidar com os ativistas um caminho a percorrer, com várias formas de luta, de preferência de ação direta, se as condições permitirem. Não seria um bom momento para colocar a criminalização dos movimentos e o fim da militarização das polícias no centro da pauta? Uma pauta como essa afasta reacionários e une um campo de lutadores bastante amplo. Infelizmente, não tenho visto esse movimento de nenhuma parte dos movimentos populares, ativistas e, por que não dizer, de partidos comprometidos com a luta anticapitalista.

  10. Oi gente,

    gostei do artigo.

    Existem muitas coisas para refletirmos. Os quatro primeiros atos já estavam grandes do ponto de vista quantitativo. Muito maiores do que qualquer ato do MPL desde 2005 (aqui em SP).

    Depois da repressão da polícia no 4° ato, as coisas mudaram bastante perante a chamada opinião pública. A mídia passou a dizer que sempre esteve a favor das manifestações, personalidades passaram a apoiar a causa, partidos conservadores passaram a apoiar a “juventude”. E claro, estão tentando alargar as pautas, torná-las fluidas.

    Ontem e hoje tinha de tudo. Pessoas “indignadas” com a corrupção e os políticos. Cartazes defendendo a moralização da política, a redução da maioridade penal. Tinha universitários, secundaristas, sindicalistas, torcidas organizadas, professores da rede pública e privada, profissionais liberais, funcionários públicos etc.

    Porque citar e tentar caracterizar o movimento? Porque é necessário começarmos a dar rosto para o tal “setor conservador” que os comentaristas estão falando.

    O que é isso? A classe média paulistana brutalizada que os intelectuais falam nas épocas de eleições? Ou a classe C (nova classe média), que foi integrada via consumo nos últimos anos?

    Ali a discussão estava no nível eleitoral. E agora que as pessoas foram para as ruas? Vamos enquadrá-la novamente nesse jogo. Dizer se tal passeata é favorável ao PT ou ao PSDB?

    A atual situação política permite identificarmos as CLASSES EM MOVIMENTO. E não classes como categorias sociológicas que só podem ser detectadas por dados estatísticos.

    A primeira coisa para uma análise anticapitalista é não cairmos nessa confusão. E por fim, não devolvermos os conflitos, as diferenças e as disputas para o enquadramento eleitoral. O conflito está nas ruas.

  11. Débora, é claro que é importante expandir a pauta. Independente das nossas vontades e, principalmente das nossas escolhas, a pauta será ampliada. Disputar nas ruas como se dará esta ampliação é o que devemos pensar agora. Mas, e ainda mais importante do que isto, é preciso primeiro vencermos esta primeira batalha. Revogar o aumento no Rio e em São Paulo será algo extraordinário que mostrará para os militantes sociais e para as classes dominantes o poder que podemos ter.

    Enquanto isto não acontece, e espero que esteja próximo, estamos já todos disputando a próxima pauta. Entre nós e contra o bloco conservador que ganha coesão. As pessoas não vão sair das ruas com a revogação do aumento. Pelo menos não imediatamente. Isto é fato. Talvez saíssem uma semana atrás, mas agora já não vão mais. Por outro lado, se não tivermos sensibilidade de, aos ouvirmos o que vem das ruas, tirarmos a pauta que consiga de fato unificar as demandas, sem inventar algo que não esteja colocado e incorporando o maior número possível de militantes que estejam se formando muito rapidamente e, principalmente, respeitando as estruturas organizativas que emergem, não sei o que pode acontecer.

    O outro problema é que, hoje, dos grupos da esquerda, somente um tem caráter de vanguarda, queira ele ou não, que é o MPL. Somente nele as pessoas confiam. Somente um militante do MPL pode pegar um microfone e falar: “sou do MPL e defendo isso ou aquilo” e ainda sair aplaudido. Mas o MPL é um movimento social, e não um partido, e é exatamente por isso que tem esta legitimidade toda. Não cabe a ele pautar outras coisas e, quando a vitória da revogação da tarifa vier, se vier, se as ruas não aprenderem a se auto-organizar, não será o MPL, muito menos um dos partidos existentes, que fará.

    Não sou do MPL, não falo pelo MPL, mas não sei se o caminho é este: o de exigir que o MPL seja aquilo que ninguém neste momento pode ser.

  12. Danilo, se me permitir, gostaria de seguir na mesma linha de raciocínio sua, ao meu modo.

    Em primeiro lugar, um certo pavor: agora se vê bem que por enquanto não há controle, por um qualquer agrupamento, dessa movimentação de classes que extrapola e ressignifica os primeiros atos que a engendraram.

    Penso que esse é um dos riscos implicados no abandono do “control freak” – em minha opinião, foi este abandono que conseguiu a proeza política da participação popular em larga escala -, e talvez devamos enfrentá-lo com aquela dignidade de agir sem apelar retrogradamente à “necessidade de direção”, “de liderança” nos moldes mais antigos e tradicionais nos quais compreendemos a direção e a liderança – pois, como qualquer um nas manifestações pôde notar, as agremiações partidárias, por exemplo, presentes nas maiores manifestações (dias 17 e 18 de junho) não foram lá muito comemoradas não… (o que assusta bastante, por sinal: há uma espécie – fascistinha? – de força restritiva, bem antidemocrática nisso aí; ela é compreensível: a horrorosa indistinção que se comprova entre PT e PSDB, por exemplo, vem sendo dolorosamente assimilada por muitos, e o resultado desse rechaço aos partidos políticos tradicionalmente concebidos parece encontrar algum fundamento aí; as rixas – com consequências – entre os “partidos de esquerda” também são observadas por todos e se fazem sentir de modo deletério, tal como suas manobras todas; mas o rechaço à participação partidária, tal como pôde ser observado nessas duas últimas manifestações, não é justificável: os partidos têm o mesmo direito de se apresentar nas manifestações que quaisquer outros agrupamentos políticos – e esse direito deveria ser respeitado).

    Nisso, um dos fatores que tornam mais intelígivel, talvez, a força do chamado do MPL às ruas: ele se distingue pacas de um partido (sua alcunha de movimento é realmente fiel à diferença), e tem – e deve ter – todo nosso apoio durante essa incrível jornada: é ele que organiza o convite à população, e é a ele que a gente recorre para saber quando e onde a próxima manifestação virá – e não, não se trata de associar aquele certo pavor a uma crise de confiança popular nas “pessoas tão jovens” que compõem o MPL (tal como alguns muito estúpidos o têm dito por aí); pelo contrário: esse pessoal é muitíssimo preparado, tal como se vê, por exemplo e apenas para citar a dimensão menor de uma exposição em programas de TV, na TV Folha e no Roda Viva. Qualquer um que se proponha a acompanhá-los pode observar isso.

    A população (brasileira – e não apenas a paulistana, como temos visto) tem atendido ao convite do MPL. Mas o faz do seu jeito – portanto, não exatamente do jeito que cada um à parte gostaria que ela atendesse; se isso é algo bem óbvio, não o são suas consequências, vide as últimas conversas todas… É esse jeito de responder ao convite que estamos procurando interpretar melhor e mais acuradamente, no meio da “experimentação quente” que estamos atravessando.

    Em segundo lugar, a diversidade que explode na sua aparição: há propostas, multivariadas, acerca de “como fazer as coisas daqui por diante”; elas foram apresentadas aos milhares durante as manifestações de 17 e 18 de junho, e tudo leva a crer que ainda o serão nas próximas, caso a estupidez da indistinção (local: cito o caso paulista apenas) entre PT e PSDB persista (e sim, tudo leva a crer que persistirá, pois, afinal, essa indistinção não pertence apenas aos dois grandes partidos poderosos de São Paulo, mas às suas condições): muitos, muitos mesmo que se debatem tb com outros problemas além daquele do direito ao transporte (direito à cidade e suas possibilidades, direito de ir e vir) têm, pouco a pouco, exposto sua indignação – vejam este exemplo, apenas, dentre tantos outros (o tomo pois foi um dos que mais me chamou a atenção): havia gente diante da Prefeitura hj (18 de junho) protestando, e com muito vigor – inclusive incitando à depredação da Prefeitura “dos petralhas” [sic] -, pela redução generalizada de impostos; talvez se trate dos responsáveis por aquele “impostômetro” em frente ao Páteo do Colégio, adjacentíssimo à Bovespa… coisa que o Warren Buffet não desaprovaria, nem o Soros, nem fulano ou beltrano do mesmo naipe poderoso dos que desejam – e alcançam! – esse laissez faire mercadológico hediondo…)

    Em terceiro lugar, a complementaridade e oposicionalidade: a diversidade de “propostas para a cidade” (ou “para o país”) não pode apenas ser pensada na sua faceta benéfica e democrática. De fato há benefício aí (houve tempo em que isso não seria possível); e é notório que na diversidade há possibilidade de complementaridade nas propostas (quando umas podem ser pensadas e aprofundadas conjuntamente com outras, pois que partilham os mesmos valores, os mesmos princípios). Mas há tb oposicionalidade e incompatibilidades radicais. Aí o bicho pega (e é aí que se coloca aquele certo pavor… não?).

    Destes três pontos, todos merecedores de nossa atenção, o terceiro me parece aquele com o qual não só temos nos deparado ao longo de nossa (falsa) experiência democrática brasileira como também com o qual nos depararemos mais contundentemente durante nossa jornada ainda conjunta de revolta popular.

    Daí a necessidade imperiosa, a meu ver, de “reunião dos preocupados” em torno de uma plataforma – apartidária e igulatitária; ou seja: advertida sobre o revés daquele velho desejo de hegemonização por parte de alguma parte de um coletivo que se compõe – capaz de oferecer à sociedade uma racionalidade mais ampla, e certamente mais justa e mais capaz de lidar com os problemas que já enfrentamos desde há muito tempo e com os novos que se apresentam agora.

    Abraços aos compas todos e todo apoio ao MPL!
    Caio.

  13. Caio,

    concordo contigo.

    Também tenho essa preocupação em torno da plataforma a partidária e igualitária. E, nesse sentido, que a luta não seja enquadrada em disputas eleitorais.

    Se há setores conservadores organizados ou atomizados nas ruas, precisamos pensar e agir sobre isso. Sem hierarquizações, mas de uma forma bastante organizada.

    Se existe (e acho que existe) é preciso identificá-los de verdade e não criar teoria da conspiração de forma prévia.

    Mas é preciso entender que parte do que a “esquerda” está chamando de conservador é também pessoas simples que nunca saíram as ruas e cantam “sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”. Pessoas honestas estão aderindo ao movimento e achando que aquilo é um vale tudo (contra a corrupção, contra o condomínio do prédio, rs!)

    Precisamos novamente pensar e entender isso. De forma igualitária e não hierarquica deixar claro que temos uma pauta que é a revogação do aumento.

    Abraços e apoio ao MPL também,

    Danilo Chaves Nakamura

  14. Quem com fera fere, não confere; será conferido. Tudo isso é racket, a começar pela hipermediação espetacular da bronca.
    Dále no más.

    “A vitória será de quem souber fazer a desordem, sem a amar.” Guy Debord

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