«Deve ser isto a crise. Direitos que são considerados privilégios e privilégios que são considerados direitos». Por Passa Palavra

Sexta-feira, dia 27 de Setembro, dezenas de pessoas compareceram na Livraria Bulhosa, em Entrecampos (Lisboa), respondendo assim à convocatória das Edições Antipáticas. Face à dívida de cerca de 400 euros contraída pela empresa livreira junto da editora sem fins lucrativos, esta propôs a ocupação da Bulhosa para um debate público em torno do tema “A propriedade é um roubo” (veja aqui).

Esta iniciativa decorre após uma primeira aproximação, realizada no mês de Junho, junto da loja de Campo de Ourique (Lisboa). Depois de duas horas de conversa com trabalhadores, chefias intermédias, agentes da Polícia de Segurança Pública (PSP) e de uma conversa ao telefone com o administrador Pedro Gil Mata, a partir do Porto, foi-lhes prometido que a situação seria normalizada e que o pagamento acabaria por acontecer. Volvidos mais de dois meses, a dívida continua por pagar.

Tal prática parece constituir uma marca da empresa, estendida aos seus trabalhadores. Os salários em atraso mantêm-se já desde o ano passado, tendo originado uma greve dos trabalhadores de sete livrarias do Grupo LMB (Bulhosa, Leitura e editora Civilização) de Lisboa e Porto, em Outubro de 2012. Em Abril deste ano a administração da Bulhosa Livreiros suspendeu um dos seus trabalhadores, Rui Roque, por ter denunciado esta situação junto dos meios de comunicação social, no âmbito da ação de protesto que decorreu durante a abertura da Feira do Livro de Lisboa. De acordo com a empresa, a presença do trabalhador no seu posto de trabalho durante as “diligências de apuramento” dos “factos gravosos” que lhe são atribuídos é inconveniente, decidindo por isso “a sua suspensão imediata sem perda de retribuição”.

Tanto a dívida contraída junto de pequenas editoras — como é o caso das Edições Antipáticas — como junto dos trabalhadores estiveram no centro do debate realizado na sexta-feira. Dezenas de pessoas dirigiram-se ao auditório do estabelecimento, sentaram-se e começaram a conversar, sem qualquer intervenção ou comentário por parte de funcionários e gerentes. O diálogo foi delegado nas forças da PSP que, cedo, se dirigiram ao local, informando os presentes da impossibilidade de permanecerem no auditório. Contudo, e uma vez que se trata de um espaço privado com acesso ao público, os «ocupantes» não se retiraram: uns continuaram a conversar nos sofás, outros dedicaram-se a organizar uma aula de kung-fu, outros ainda optaram por escrever as conclusões da conversa no livro de reclamações. Enquanto a livraria era transformada num espaço de convívio, o administrador do grupo percorria quilómetros para trás e para a frente, ao telemóvel ou em construtivos diálogos com a polícia. As tentativas de esclarecimento realizadas por algumas pessoas junto dele revelaram-se infrutíferas, pois não só se recusou a comentar a política de não pagamento de salários como declarou a inexistência de qualquer dívida contraída junto das Edições Antipáticas.

Perante a ausência de páginas livres no livro de reclamações, e após o lançamento de pombos dentro do estabelecimento, os «ocupantes» decidiram abandonar a livraria. À saída, agindo com base em informações prestadas pela administração, a polícia agarrou, de forma violenta, algumas pessoas, identificando-as por se encontrarem a filmar e a fotografar e por, alegadamente, constituírem os cabecilhas da iniciativa.

Ao que parece, como afirmam as Edições Antipáticas, “Deve ser isto a crise. Direitos que são considerados privilégios e privilégios que são considerados direitos. A polícia que dispara e espanca e persegue e é chamada para garantir que a violação da lei decorre com toda a tranquilidade. Trabalhadores assalariados que trabalham sem receber o seu salário. Livrarias geridas por pessoas que nunca leram um livro”.

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