Ao dizer que não vai haver Copa do Mundo, o que se está a afirmar é que não haverá consenso nacional algum. Por Eduardo Tomazine

Sei que ninguém perguntou a minha opinião a respeito, mas vou dizer o que entendo com o programa político revestido pelo bordão Não vai ter Copa. Afinal, quando eu disse em uma discussão que era necessário um pouco de sutileza intelectual para se comprendê-lo, argumentaram que esperar sutileza intelectual das “massas” era, no mínimo, pouco pedagógico. (O curioso é que foi justamente parte dessa mesma “massa” quem mais repercutiu a palavra de ordem…) Tendo em vista que agora até mesmo parte da esquerda de oposição ao governo resolveu adotar um slogan de conciliação, como ”Vai ter luta na Copa” (PSTU) – o qual já vem sendo compartilhado por militantes do partido do governo empenhado em organizar o evento –, creio ser importante discutir sobre essas diferenças que superam em muito as picuinhas semânticas.

Em primeiro lugar, o Não vai ter Copa é resultado de um acúmulo de debates e de ações de uma parte importante de movimentos organizados contra os abusos cometidos sob o alvará dos preparativos para a Copa: as remoções forçadas, a truculência da polícia, a criminalização dos movimentos, os gastos astronômicos do dinheiro público, os desmandos da Fifa, a imposição de uma legislação de exceção etc. No princípio, inclusive, defendeu-se o programa ”Por uma copa com direitos” (ou algo do gênero), mas os acontecimentos mostraram que a realização de um megaevento como a Copa do Mundo da Fifa com respeito aos direitos dos trabalhadores é uma contradição em termos, então o Não vai ter Copa acabou prevalecendo naquele que é o fórum mais adequado para se elegerem programas políticos: as ruas em luta. Lembrar disso é importante para que não se pense que o Não vai ter Copa teria sido cunhado sob as ordens de uma direção qualquer ou que teria resultado do diversionismo de uma ultraesquerda inconsequente.

Ora, pelo que eu saiba e tenha acompanhado nos protestos que se seguem desde muito tempo antes de junho de 2013, os manifestantes que exclamam “não vai ter copa” ainda não começaram a rasgar dinheiro ou acreditar que Elvis realmente não morreu. Todos sabemos que a Copa do Mundo, de um jeito ou de outro, protegida pelas Forças Armadas e caucionada por uma enxurrada ideológica da classe política e da grande mídia, irá acontecer. Nem mesmo o sequestro da delegação israelense nos Jogos Olímpicos de Munique foi capaz de interromper esse tipo de evento insensível às desgraças sociais, e seguramente não é bem isso o que os manifestantes daqui desejam. Àqueles que duvidam da sutileza intelectual alheia, uma tentativa de explicação: Não vai ter Copa significa a negação radical do que é a Copa do Mundo tal qual ela é no mundo realmente existente, e não na fantasia daqueles que reclamam o espírito esportivo, a união dos povos e essas coisas que constam no manual da Fifa ou nos álbuns de figurinhas. A Copa do Mundo sempre foi uma peça de legitimação política dos dirigentes que compram o direito de sediar tal evento em suas jurisdições, um instrumento poderoso da ideologia do consenso nacional, uma autorização para o desperdício do dinheiro público, uma concessão dada a empreiteiras para fazerem lucros excepcionais e um alvará para a despossessão da população pobre que tem o infortúnio de residir ali onde os organizadores rabiscam seus mapas da mina.

Ao dizer que não vai haver Copa do Mundo, o que se está a afirmar é que não haverá consenso nacional algum; que uma parte da população não é estúpida o suficiente para endossar sorridentemente a rapina; que as manchetes e videorreportagens das vitórias e derrotas das seleções em campo terão que dividir espaço com o noticiário das ruas apinhadas pela multidão em protesto, as bombas da polícia, a violência arbitrária do Estado e manifestantes presos e/ou feridos no país do futebol. Em acontecendo dessa maneira, não vai haver Copa – mesmo que no dia 13 de julho o capitão do time campeão erga bem alto a taça diante das câmeras de TV do mundo inteiro. O que teremos, afinal, não será aquela Copa do Mundo da montanha mágica da Fifa em seu paraíso fiscal da Suíça, mas a irrupção à cena pública das contradições e disputas que constituem a nossa sociedade até o caroço, além de um chamamento em grande estilo aos povos do mundo para que se revoltem contra essa mais nova modalidade de controle ideológico capitalista, que é o circo sem pão.

13 COMENTÁRIOS

  1. Eu acho “Não Vai ter Copa” um slogan bacana, saiu das ruas, capta um espírito, uma rebeldia, uma revolta. Em termos “comerciais”, é um slogan de “marketing” perfeito: ele mobiliza sentimentos latentes numa parcela da população ou da juventude. Essa é sua força. Eu mesmo me empolgo com ele, e já “compartilhei” por aí.

    Mas… por outro lado, a fraqueza do slogan está em ser vago. Pode servir a propósitos muito distintos. Ele é mobilizador, mas para onde? Ele não fixa a direção. Isso não seria muito problema se o contexto que nos encontramos não fosse diferente do de antes de junho de 2013.
    Vai haver disputa pelo significado das manifestações. A burguesia que quer o PT fora do governo vai disputar o sentido das manifestações, através da grande imprensa principalmente, mas também, como em junho, provavelmente inflando manifestações com a sua base (seja gente de partido de direita mesmo, seja com os coxinhas).
    Nesse contexto de disputa de significados o slogan é vago. Em termos informáticos, é uma senha fraca, fácil de ser quebrada.
    Eu to olhando de fora, mas luta de classes é jogo de xadrez. Se a multidão não tiver esquema tático corre risco de levar olé no meio do campo, até porque o capital joga em casa e com juiz a seu favor.
    Minha torcida é que se consiga construir organizações de referência, que pense as variáveis em jogo, a movimentação dos adversários (burguesia governista e de oposição), e que não esqueça que manifestação de rua é apenas uma tática, e não a luta sem si. A previsibilidade facilitada a marcação do adversário.

  2. Caro Leo Vinicius,

    Desde os grandes atos contra a Copa das Confederações que as manifestações contra a Copa têm se mostrado um campo menos vulnerável à apropriação pela direita do que as outras manifestações mais abstratas que ganharam rapidamente grandes proporções. Acredito que é preciso refletir sobre as razões disso para se entender por que, ao contrário do que você escreveu, a palavra de ordem Não vai ter Copa é uma “senha” difícil de ser quebrada e incomoda tanto desde governistas a opositores, de fascistas aos coxinhas.

    A resposta para isso, no meu entender, está no significado mais amplo do espetáculo-mercadoria-narrativa Copa do Mundo: o chamamento à unidade nacional, o trinfo do internacionalismo do capital e da racionalidade gestorial dos seus organizadores (“padrão Fifa”), entre outros. No caso brasileiro especificamente, em que o futebol logrou ser uma das únicas expressões coletivas a superar o “complexo de viralatas” da identidade nacional (ao menos em campo…) – e que portanto guarda uma perigosa semente nacionalista -, negar a copa representa negar algo que é há muito tempo caro à estima do brasileiro. É a negação do ufanismo nacionalista, mesmo que o alvo das críticas ainda se atenha à escala nacional.

    Mesmo um partido de oposição à esquerda como o PSTU, que faz da disputa da base social do governo um meio para dirigi-la, não ousou aderir à negação da Copa. Apesar de muy trotskistas, eles não se arriscariam a ferir o sentimento nacional dessa maneira. Por razões muito mais óbvias, os conservadores de direita não desejarão se imiscuir com esse bando de iconoclastas apátridas e vândalos…

  3. Engraçado que esse “slogan” parece representar muito bem o tipo de paradoxo que a “sociedade brasileira” vive. Por abaixo e pela esquerda o slogan (como o autor bem caracterizou) representa o rechaço às políticas voltadas aos megaeventos, como também esse “não” coloca-se acima da própria “identidade” de que o “Brasil é o país do futebol”. Portanto, trás a tona tudo o que a Copa tinha a função de esconder (tal como aconteceu em 70 no Brasil e 78 na Argentina), a inconformidade com os desmandos da classe dominante.
    Por outro lado, os partidos que fazem oposição (real, e não simbólica como é o caso do PSTU, rs) ao lulismo vislumbram na Copa a possibilidade de azedar o “moio” do PT, ao mesmo tempo em que temem também a entrada dos setores da classe trabalhadora que pode fazer a balança mudar de lado (qual será as ações dos operários, dos sem-tetos, desempregados, sem terras, nas diversas batalhas que ocorrerão este ano?). A direita pode até “apoiar” timidamente com esperanças de tirar algum proveito nas eleições, mas não o bastante pois o tiro pode sair pela culatra.

    Se conseguirmos incorporar ao “Não vai ter copa” (ou seja, a negativa do projeto de conciliação de classes) os setores organizados da classe trabalhadora/explorada, acho que poderá ser conquistado um terreno que até junho parecia ser impossível: romper o pacto liberal em que a esquerda parece estar presa desde que o PT se tornou hegemônico na organização da classe trabalhadora e explorada.

  4. Discordo Eduardo,

    O segundo parágrafo do seu comentário é o significado que você, talvez eu, e mais uma galera de esquerda atribui a ele.

    Se até em manifestações que tinham pautas tão concretas quando a redução da tarifa do transporte público eles conseguiram inflar, diluir e em certa medida ressignificar, o que dirá da possibilidade de isso acontecer com algo em torno de um slogan e não de UMA reivindicação concreta?

    Os conservadores de direita não precisam necessariamente estar no meio de iconoclastas. O patrão não precisa estar no meio dos operários no chão de fábrica. Oras, a ressignificação é exatamente limpar o significado iconoclasta em parte, ou usar a iconoclastia para alguns interesses pontuais e pragmáticos. Mas evidentemente esse é um movimento perigos feito pela direita e cheio de contradições para eles, como ficou exposto ano passado.

    Não sou contra o movimento, evidentemente. Só estou colocando em campo a nova tática na luta de classes que a esquerda libertária tem que ter aprendido do ano passado, para defender seu gol.

  5. Eu tenho para mim que, com os últimos acontecimentos, o Não Vai Ter Copa se converterá em protestos contra a repressão policial e, se assim o for, duvido que a direita tente tão decididamente quanto poderiam, converter a luta das ruas para seus ganhos nas urnas. De outro lado, se o Não Vai Ter Copa der espaço para protestos que emplaquem um enfrentamento à PM e sua ação e organicidade, creio que muito mais sangue rolará e que as manifestações não contarão com números avassaladores de integrantes, como as jornadas do ano passado.
    Mas também estou aqui só especulando, não sei o que as ruas irão dizer.

  6. Também acho o slogan “não vai ter copa” fraco. Já disseram aí, ele é genérico por ter muitos focos, e não genérico por não ter um foco, como é comum para lemas tão amplos. Isso, porém, fica claro só para quem participou das discussões anteriores e viu ou fez as articulações para se chegar no ponto atual. Até os militantes de esquerda um pouco mais desinformados – eu mesmo demorei pra sacar o que estava acontecendo – podem ter alguns problemas na interpretação disso. Pode ser que seja difícil sequestrar o movimento, mas esvaziar politicamente pode se tornar muito fácil.

    Lembremos de junho passado. Bicho pegando em São Paulo, MPL ganhando força, Arnaldo Jabor faz aquele pronunciamento lamentável. Pegou mal pra cacete até com muita gente que nem estava ligada na pauta do passe livre. Tanto pegou mal que ele fez aquela retratação. Nesse pedido de desculpa ele joga todas as pautas coxinhas, a classe média abraça e, dias depois, tem gente com bandeira de partido apanhando em ato.

    É fácil para os canais de televisão levar uma grande quantidade de pessoas pra rua com fim de diluir as pautas sérias, principalmente se tratando de futebol – demonizado cegamente por direitistas e apolíticos pretensamente inteligentes e que mesmo na esquerda às vezes tem tratamento equivocado -, quando o slogan tem tantos significados possíveis. Não acho difícil que, novamente, o hino nacional sufoque as palavras de ordem como aconteceu em diversos lugares no ano passado. Basta que os atos sejam apresentados como uma válvula de escape para o ódio cego (ou pelo menos pelos motivos errados) que o coxinha médio tem do PT. Infelizmente eu não consigo contar nos dedos de uma mão a quantidade de placas pedindo intervenção militar para tirar a Dilma de Brasília naquela época.

    Pra mim, o que vai definir isso é a existência ou não de uma maneira da cobertura dos canais não ficar, ou pelo menos não aparentar estar, editorialmente esquizofrênica, exaltando o evento num programa e estimulando as pessoas a se voltarem contra ele em outro, por exemplo. Intuitivamente, eu acredito que essa maneira exista. Espero estar errado.

  7. Fernando,

    De qual direita que você fala? A que está no governo ou a que está na oposição?

    Mas para não nos perdermos em discussão sobre o que é esquerda e direita eleitorais, a pergunta que tem que ser feita é a seguinte: A FIFA, o Itaú, a Coca-Cola, e as transnacionais em geral riem ou choram com a Copa do Mundo? Riem ou choram, quando vêem que as pessoas se levantam contra seus interesses? Riem ou choram quando vêem que as Forças Armadas estarão a seu serviço?

  8. Chamem-me derrotista, mas…

    Acho improvável uma multidão na rua contra a copa. Mesmo que fosse o caso, de pouco adiantaria, como vimos no caso de junho: de que vale “o gigante” na rua, quando a grande narrativa daquilo foi dada pela “grande mídia”?

    Que amarga vitória, não? A esquerda libertária inicia os protestos; no entanto, neste momento o que fazemos é observar quais setores do centro ou da direita vão dar o tom da narrativa nas próximas eleições.

    Aliás, falando no gigante – um bocado assustador, não? Pois bem, aquela é a cara “do povo”. Conservador, reacionário, “coxinha”. Não é que as massas não entendam as sutilezas ou estejam alienadas – alienado é sempre o outro, aliás – mas me parece que o discurso da extrema-esquerda está mais preso à utopia do papel (textolatria) do que ao o mundo tal qual ele é, “realmente existente” (um termo deveras questionável, diga-se de passagem).

    Pois se na copa criada pela publicidade estão ocultos os despejos, os lucros astronômicos das empreiteiras, os mandos e desmandos, os jogos de interesse, etc., seria de uma burrice extrema simplesmente negar o enorme papel simbólico da copa, mera “fantasia”. É em cima desses símbolos que estão calcados a enorme maioria das questões do inconsciente coletivo do “povo”. Sim, vai haver copa. A copa é divertida, esteticamente excitante- e a extrema-esquerda não parece oferecer nada melhor do que isso.

  9. Parabéns pelo texto! As massas criaram a consigna #naovaitercopa e é irresponsável (pra não dizer capitulação ou mesmo traição) abandonar essa consigna para “dizer algo que as massas entendam”. Dilma quer usar nossa paixão pelo futebol para nos enfiar goela abaixo os lucros da FIFA. E nós estamos dizendo não! Isso é lindo! Os únicos que saem ganhando com esse recuo do pstu são os governistas…

  10. Lidar
    com uma indignação social multifacetada, tornou-se insuportável para
    quem estava apenas acostumado a lidar com o lado de cá e o lado de lá.
    Mais do que a direita não governista e a ultra esquerda(?), são hoje, as

    partes interessadas, que buscam desesperadamente nominar de
    #naovaitercopa, aquilo que antes sequer se dignaram a pensar. Nem que
    seja para poder lidar, entender (a seu modo), sufocar, reprimir.

  11. Belo texto. Nao penso que os comentarios devam ser preenchidos por elogios ou criticas literarias aos textos apresentados. Entretanto, assim o faço pois ha tempos nao lia por aqui algo claro, preciso e suficientemente conciso para se adequar a este tipo de midia. Foi exatamente este tipo de agitaçao (conjugada evidentemente à qualidade de textos analiticos de folego) que trouxe muita gente para o site.
    Com relaçao ao problema tratado, gostaria apenas de ressaltar a importância desta consignia (nao vai ter copa) pelo simples fato de ir de encontro aos interesses do capital. Nao se trata de uma palavra de ordem exclusivamente “politica”: assim como os atos contra a tarifa, o que (pode vir a) sobra(r) das manifestaçoes é justamente a critica ao padrao de acumulaçao capitalista (proprio nao so a estes grandes eventos) e sua articulaçao com o programa politico-economico do Estado; assim como os atos contra a tarifa, o que parte da classe trabalhadora (via de regra precarizada) esta questionando é porque ao capital tudo e ao trabalho so as dores, as bombas, as remoçoes.

    P.S.: Peço desculpas pelos erros ortograficos. O teclado nao aceita uma série de acentos.

  12. contra a diluição dos protestos faz pauta PAUTAS para além de uma consigna:
    http://comitepopularsp.wordpress.com/nossas-pautas/

    isso oferece uma porta de saída para o governo poder desinflar os protestos. Representará uma vitória e um avanço para a organização popular, independente se o Brasil ganhe o campeonato mundial de Bocha ou criquete. Os protestos tem que tencionar o governo à esquerda, e não efetuar um golpe revolucionário, creio que esta é a leitura mais óbvia da situação, especialmente quando o inverso é justamente a pauta da direita que busca tão somente a desestabilização pois eles mesmos estariam fazendo a Copa se pudessem.

    de qualquer forma, que o povo na rua impeça a realização de um evento como a Copa do Mundo sem dúvidas é já uma vitória libertária, sejam os responsáveis mais pendentes para o capitalismo ou para o socialismo.

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