Entrevista com um refugiado em Berlim

Entrevista com um refugiado em Berlim

em 23 out

Entrevista com Darlinton, envolvido na Greve dos Refugiados de Berlim e com a Universidade Autônoma de Berlim. Por Passa Palavra

O Passa Palavra entrevistou Darlinton, participante do movimento de refugiados em Berlim. As mobilizações do grupo se iniciaram em protesto contra a lei “Residenzpflicht”, que limita a circulação dos refugiados no país e dificulta sua integração com a sociedade. Devido ao grande isolamento e à distância dos alojamentos provisórios, os refugiados organizaram um acampamento na Oranien Platz. Mesmo após o seu fim, as mobilizações continuam.

Passa Palavra (PP):De que países vem a maioria dos refugiados que estão no acampamento?

Darlinton (D): De vários países. Sudão, Chade, Nigéria, países do norte da África.

phpFIZZ7Y-300xPP: Quais foram as razões para ir para a Alemanha? A principal razão dos despejos foi econômica, política ou religiosa?

D:É uma questão individual, cada um teve uma razão diferente para vir. O principal motivo são as guerras e a corrupção na África. Está-nos esfacelando. Nossas terras têm sido destruídas, nossas sociedades estão em crise. Não tenho um lugar que possa chamar de lar. A Europa é responsável por essa situação. Desde a invasão da África, gerações e gerações têm apenas se deparado com crise e morte. A colonização e a exploração brutal trouxeram essa mentalidade para a África. Mas agora estamos aqui, nós viemos para a Europa. Aqui onde tudo começou. Aqui em Berlim é onde, 130 anos atrás, o mundo dividiu a África como pedaços de um bolo. É por isso que viemos para cá. Este é o melhor lugar para conduzirmos nossa luta.

PP: Como são as condições do Centro de Refugiados?

D: Há muitas palavras para dizer isso. Mas deixe-me dizer com apenas uma: Scheiße [merda em alemão]. Não é um tipo de vida que você deseja viver. Eles condicionam a sua mentalidade, eles destroem a sua razão ao manter-lhe ocupado num lugar chamado “Centro de Refugiados”, que fica muito distante, então você não tem contato com o restante da sociedade. Por quê? Porque eles não querem que você saiba a verdade. É uma situação crítica. Seus cães e gatos não poderiam viver lá, você não permitiria. Ninguém quer viver daquele jeito. Eles chegam a nos dar comida com validade expirada. Por quê? Por que não somos seres humanos? Não podemos escolher o que comemos. Eles nos descriminam porque somos refugiados. Não estamos ligados a nada, somos apartados da vida em comum. Onde estão meus direitos humanos?

php0VKIkS-350xPP:Como você organizaram o acampamento na praça?

D: Demo-nos conta de que não podíamos ficar no Centro de Refugiados por mais tempo. As pessoas organizaram uma marcha de Würzburg para Berlim e durante o trajeto houve muita fiscalização. Então chegamos a Berlim e ocupamos dois lugares, a Oranienplatz, uma praça pública, e uma antiga escola que estava abandonada. Berlim foi feita um centro e um símbolo da nossa resistência porque foi aqui que tudo começou. E aqui vai acabar.

Agora nós ocupamos muitos lugares, apesar de termos sido despejados da praça principal. Em Hamburgo, Hanover, Nuremberg, Bielefeld e muitos outros lugares. Nós estamos em toda parte.

PP: Como são tomadas as decisões no acampamento?

D: As decisões são tomadas coletivamente. Nós somos um movimento amplo. Todo mundo pode trazer suas ideias e contribuir para o processo. Nós ponderamos as vantagens e desvantagens e então tomamos as decisões. É um movimento político. Quando as pessoas tomarem consciência de que o poder pertence ao povo e não ao governo, então vão se levantar.

PP:Você trabalha? Como é o acesso ao mercado de trabalho?

D: Para início de conversa, não tenho qualquer possibilidade de participar do mercado de trabalho simplesmente porque nos chamam de refugiados. Somos completamente ignorados; nossas escolhas, nossas necessidades, mesmo o nosso direito à vida é um problema.

PP: Como vocês fazem para sobreviver?

D: Não é fácil. Na verdade, nós já éramos sobreviventes antes de chegarmos aqui, então nos adaptamos a qualquer situação que nos encontremos e tentamos tirar o melhor disso. Eu perdi tudo, mas eu preciso viver. Esse espírito me mantém vivo.

PP:Quais são as reivindicações do movimento de refugiados?

D: As principais reivindicações do movimento são a abolição da Residenzpflicht (a lei que restringe o movimento dos refugiados), a extinção dos Centros de Refugiados e o fim das deportações.

phpNRHsZT-300xPP: Como foi a demolição do acampamento de refugiados?

D: Por conta da nossa ocupação da Oranienplatz o governo se deu conta de que era hora de usar sua autoridade sem atender as nossas reivindicações. Eles usaram a força para se livrarem superficialmente do problema. Claro, você pode despejar as pessoas de um lugar, de um edifício, de um acampamento, mas você não pode desmantelar um movimento. Nós ainda estamos aqui e isso nos faz mais fortes. Todos os dias vemos deportação e morte. Mas aprendemos e fazemos o melhor que podemos. Nós só queremos ser livres como qualquer outra pessoa.

PP: Vocês têm contatos com outros movimentos na Alemanha?

D: É claro, nós temos contatos com outros movimentos que estão lutando por mudanças. Com o “Blockupy”, por exemplo, temos feito muitas coisas juntos. Também com o movimento dos inquilinos e com o grupo “Zwangsräumung verhindern”.

PP: Qual é forma de ação do movimento?

D: Nós somos um movimento pacífico. Tudo o que temos é a nossa voz. É pacífico e continuará sendo assim.

O Passa Palavra agradece a Daniel Mützel por ter intermediado a entrevista .

 

 


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