como em inúmeros outros lugares da ilha, na entrada do banheiro deste restaurante em ciego de ávila está uma mulher sentada cobrando moedas dos que pretendem fazer suas necessidades. tento passar reto e ela me aborda. Por júlio delmanto


com a camisa antiquada aberta no peito e seus três ou quatro dentes restantes, evídio me abordou na calle 23 com o roteiro básico de-onde-você-é?-primeira-vez-em-cuba? que geralmente acaba em pedido de dinheiro ou oferecimento de serviço que você não precisa nem quer. ao saber que sou do brasil sorri, fala das novelas, do roberto carlos, do nelson ned e do seu irmão que trabalha por lá como médico em uma das missões que trazem considerável receita ao estado cubano, que repassa aos trabalhadores uma pequena parte do que recebe dos governos que os contratam. com o fim da união soviética e a crise econômica subsequente, evídio entrou em depressão, passou a beber e ter problemas de saúde mental. foi aposentado de seu emprego em um jornal, e recebe 137 pesos cubanos mensalmente, pouco mais de cinco dólares. eu não tive culpa, fiquei mal da cabeça, eu não tive culpa, repetiu algumas vezes antes de me agradecer pela moeda que dei pra ele: amanhã é meu aniversário, faço 61 anos e vou comemorar com minha namorada. parece que tem bem mais, pensei antes de dizer parece que tem bem menos e me despedir. se você for me mandar algo do brasil, uma roupa ou outra coisa, mande por algum amigo não pelo correio porque às vezes não chega, ele ainda me disse sem que tivéssemos falado nenhuma vez sobre eu mandar nada. claro, claro.

recém operado da vista, gabriel lê o jornal oficial granma com uma lupa na mesa do pátio interno da sua espaçosa e antiga casa na sempre tórrida santiago. diz que viu na tv os protestos contra dilma rousseff e pergunta se a presidenta de fato está envolvida com corrupção: aqui como nosso governo apoia fica difícil saber a verdade. pra ele, o melhor de cuba é a segurança: não temos drogas nem violência, todo está muy controlado.

na porta de um prédio cinza e antigo como havana, umas trinta pessoas estão reunidas atendendo ao chamado pra assembleia que escolheria o “delegado de circunscrição” do bairro (que deve ter umas cem famílias no mínimo). uma mesa fora colocada na porta principal do edifício, com uma bandeira de cuba a seu lado, e dois quadros pendurados nas paredes laterais, um do Fidel e outro del Che. um desavisado poderia achar que a entrada do prédio era uma repartição pública qualquer. cantou-se o hino à capela sem muito entusiasmo, e após o delegado cujo mandato se encerrava prestar rápidas e protocolares contas, uma senhora leu duas páginas que explicavam como a assembleia deveria proceder pra eleger o novo representante da zona, que além de intermediar por melhorias pra região junto ao “poder popular” poderá ser um dos eleitos nos pleitos legislativos que acontecerão em abril. após a leitura, questionou-se se alguém se propunha ao cargo: o longo e constrangedor silêncio foi quebrado por uma mulher negra, que indicou um senhor que não estava presente e sequer havia sido consultado. descartada essa proposta, um homem indicou outro a seu lado, destacando que este já ocupara o cargo e que era conhecido de todos por sua moral, por ser do partido e por ter sido do exército. não havendo nenhuma objeção, o novo delegado foi aclamado sem apresentar qualquer proposta e sem que houvesse nenhum tipo de debate. a assembleia foi encerrada, tendo durado menos de quinze minutos, e o novo delegado levou pra sua casa, no outro lado da rua, a bandeira e os quadros de Che e Fidel – a mesa voltou pro interior do prédio.

estou com boris e seus peixes de aquário assistindo uma aburridíssima partida de beisebol na sala de sua casa em holguín quando ele começa a falar das condições de vida em cuba e do que ele crê ser uma ditadura, na qual a propagandeada participação política seria uma farsa. mesmo sobre saúde e educação, pontos dificilmente criticados até pelos mais críticos, ele tem seus poréns, apontando que de fato há profissionais muito bons no país mas que eles não têm estrutura decente: relata o caso de seu sogro, que teve um problema anal e foi operado, tendo que se recuperar em um quarto com cinquenta ou mais pessoas dividindo apenas um banheiro. o jogo passava na telerebelde, canal estatal que agora é dedicado apenas a esportes e cujas transmissões são interrompidas após a meia-noite. pra marcar o encerramento, o canal toca o hino nacional, que boris acompanhou cantando com a naturalidade de quem o faz todos os dias.

miel diz que su papá es muy agradecido a la revolución: era ascensorista antes dela, hoje é doutor honoris causa em economia. le quitaran la n, era ascensorista hoje é assessorista de parlamentares, relata expirando orgulho.

carlos é licenciado em ciências do esporte, mas vive hoje de pesca submarina – nem sempre lícita -, de um restaurante na varanda de sua casa e de esporádicas corridas de táxi. careca e troncudo, lembra bastante o personagem hank da série estadunidense breaking bad, inclusive por seu falar lento e pelas pausas dramáticas que faz ao criticar veementemente o regime, um de seus assuntos preferidos junto com esportes e longas piadas sem a mínima graça. “a educação é boa, mas e depois o que faço com ela? você vai ver muito médico vendendo fruta de porta em porta. os doentes aqui estão bem, mas e o que acontece com os sãos?”, reclama apontando pras dezenas de pessoas esperando no sol da longa fila pra traseira de caminhão que os levará amontoados até seus trabalhos e escolas. venceremos, resmunga teatralmente.

numa cafeteria 24h de havana escuto três jovens se esforçarem pra se fazerem entender com seu portunhol de sotaque nordestino enquanto tento engolir a horrorosa pizza com o refrigerante local ciego montero sabor limão, que até que nem é tão ruim. puxo papo e descubro que são estudantes de medicina fazendo intercâmbio de um mês em cuba antes de voltarem pra concluir seus cursos no brasil. contam impressionados que o governo subsidia livros que lá não se encontra por menos de 200 reais e que aqui saem por menos de um dólar, mas lembram também das dificuldades que observam no dia a dia de seus colegas: como manter um hospital funcionando bem quando não se tem acesso nem a sabonetes?

há um tempo vi uma peça feminista que comentava o machismo da linguagem nossa de cada dia: vagabundo é o cara que não trabalha, vagabunda é puta; o galinha é o cara que pega todas, a galinha, puta; vadio é o cara folgado, vadia, puta; cachorro é o sujeito mal caráter, cadela, puta. pois bem, em cuba jineteros são os tipos que abordam os turistas tentando vender absolutamente de tudo e se possível dar algum tipo de golpe que lhes renda alguns trocados – as jineteras são putas. não qualquer puta, mas aquelas que se relacionam com estrangeiros, muitas vezes agenciadas por seus próprios companheiros. a prática é coibida e dizem que pode custar três, quatro anos de prisão: é bastante comum ver policiais ou militares pedindo documentos a cubanas acompanhadas de estrangeiros, coisa que não acontece quando se trata de um cubano com uma estrangeira. anotam o nome das garotas e, caso elas sejam outra vez flagradas com um turista, isso pode lhes custar muito caro mesmo que o acompanhar não tenha custado nada. revolução é palavra feminina no espanhol, mas em cuba parece que ainda se conjuga no masculino.

calvo me ofereceu uma carona em seu lada azul escuro tão conservado que parecia peça de museu, e no caminho me explicou a origem dos pesos convertíveis, defendeu o fim da existência de duas moedas, contou do tempo em que era autoridade responsável pela produção agrícola e reclamou do alto preço da gasolina, o que explica o incrível número de pessoas andando de bicicleta e cavalo e pedindo carona nas ruas de todas as cidades, além da superlotação permanente das guaguas, os fumaçentos e baratíssimos ônibus deles (40 centavos de peso cubano é a passagem – 25 pesos dão um dólar, não sei nem como fazer a conta pra saber o valor em real mas deve ser uns 5 centavos). contou com saudade dos tempos antes da queda do muro de berlim: o pessoal falava mal das livretas, mas naquela época uma pessoa recebia do estado todo o básico que precisava pra viver em troca de quase nada – arroz do vietnam, conserva da tchecoslováquia, sabonete da rússia… y ojo!, era só produto de qualidade!, buzinou entre relembradas.

frases atribuídas a raul castro pintadas em paredes e outdoors pela ilha:
– la policía es la fuerza revolucionária en la calle
– todo está dicho: ahora a trabajar duro
– la revolución es invencible.

joan tem vinte e bem poucos anos e trabalha com construção civil em baracoa, ganhando cerca de um dólar por dia de labuta. como cada vez mais cubanos, é fanático pelo futebol europeu e torcedor do real madrid. conta das discussões messi versus cristiano ronaldo quase diárias em seu bairro e também de como às vezes jogam com água esses jogos em que o perdedor tem que beber álcool, já que o dinheiro nem sempre alcança pro rum. pergunto se ele não quer bater uma bola no fim de tarde no estranho estádio que fica na praia da cidade, cada vez mais perto do mar, e ele recusa: se me machuco posso perder um dia de trabalho, não dá pra arriscar.

músico na noite de havana, berti metaforiza quando falamos sobre a dificuldade de um jovem cubano como ele poder sair do país e conhecer o mundo: nós apoiamos a revolução e vemos os pontos positivos, mas tem coisas que são como espinhos na garganta, tentamos engolir mas incomodam o tempo todo.

como dizem os argentinos, wildy é desses que se cree mascherano – o jogador que faz de tudo em campo e pode te mandar um whatsapp de um telefone público ou trocar os pneus de um carro em movimento. trabalha em um paladar e atende os turistas não só em espanhol e inglês fluentes mas também em francês e alemão. num dia chuvoso e de pouco movimento, sacou um violão sabe-se lá de onde e tocou e cantou de let it be a joaquin sabina, passando por sucessos do reggaeton e da música romântica cubana. ao final se desculpou por isso atrasar a chegada da conta na minha mesa: o restaurante fechava às 22h mas só saímos depois da meia-noite e da chuva.

sentada em uma cadeira de balanço nos fundos da casa em que aluga um quarto pra turistas em morón, a abuelita xiomara recorda do primeiro brasileiro que conheceu. sujeito pobre e morador da periferia de são paulo, ele economizou dinheiro por anos até poder vir a cuba encontrar a garota com quem se relacionara pela internet usada de uma lan house. ao chegar, percebeu que a ilha é muito mais cara do que de longe se poderia supor e que pagando a hospedagem pelas semanas que tinha até sua passagem de volta “não lhe sobraria nem pra um refresco”. sua intenção era conhecê-la pessoalmente e levá-la pro brasil, mas os planos teriam sido frustrados quando ela percebeu sua condição financeira, relata xiomara, que lhe deu comida e ouvidos compreensivos durante os vinte e tantos dias que ele se hospedou em sua casa: ele foi embora de trem chorando, e até hoje vez em quando liga dizendo que não esqueceu da gente e que um dia volta. fala bem rápido e desliga dizendo que o cartão tá cabando.

mercedes é aparentemente a encarnação do estereótipo da mãe cubana: está sempre falando de seus filhos, frequenta as reuniões e acompanha a política do bairro, se dá bem com todos os vizinhos, te chama de mi vida ou mi amor, liga pra deus e o mundo pra buscar qualquer informação que você precise, coloca sempre outra porção no seu prato mesmo que você não tenha pedido pois tem certeza que saúde e gordura são sinônimos. muito atenciosa e preocupada, me alertou sobre as ruas do centro da cidade que eu ainda não conhecia: aqui não há violência mas tome cuidado com sua mochila porque habana vieja está cheia de negros.

como em inúmeros outros lugares da ilha, na entrada do banheiro deste restaurante em ciego de ávila está uma mulher sentada cobrando moedas dos que pretendem fazer suas necessidades. tento passar reto e ela me aborda:
– o banheiro é um peso, señor.
– já estou pagando a comida, tengo que pagar pa’ mear tambien?
– é que eu limpo os baños…
– e o restaurante não te paga pra isso?
– estás em cuba, muchacho, aqui nada é fácil…

mais um profissão faz-tudo, luís diz que sua família passou por uma grande injustiça depois da revolução: mesmo tendo ajudado os rebeldes com comida e abrigo durante os anos de combate, a reforma agrária posterior teria lhes tirado as terras de sua fazenda na região de santiago. meu avô morreu muito triste com isso, mas fazer o que né, as coisas mudam e há que se adaptar. pra ele, o caminho de mudanças que o país vem passando nos últimos anos é inevitável e positivo, e a normalização das relações com os estados unidos significará adaptações importantes na alimentação e nas comunicações do país. pergunto se isso fortalecerá a oposição e ele responde que não, tão convicto que parece óbvio.

como acontece em quase todas as regiões turísticas de cuba, um sujeito de boné se aproxima de mim em trinidad e me oferece em voz baixa charutos contrabandeados. digo que só fumo maconha e fico esperando sua reação, que pra minha surpresa é bastante natural, e engatamos uma conversa sobre drogas na terra dos castro. ele chama um amigo que chama seu irmão que me oferece cocaína por 60 dólares o grama: é pura colombiana e você pode provar antes de comprar, estufa o peito pra dizer. insisto no verde e ele continua tentando me empurrar a branca, que segundo ele é muito mais consumida na ilha do que a canábis. agradeço e digo que isso talvez explique o sucesso da salsa e o porquê deles falarem tão rápido – numa última tentativa ele agora me oferece dois gramas por 50 dólares e ainda me pergunta quanto estou disposto a pagar: a marihuana aqui é muito ruim, compay, não vale a pena.


no começo de março fez dois anos da morte do compañero Hugo Chávez, ou melhor, de sua “desaparição física”, como dizem os meios de comunicação oficiais cubanos, que são os únicos meios de comunicação. por dois ou três dias não se falou em outra coisa na tv e no rádio, uma overdose del mejor amigo de cuba e seu sucessor maduro, mais um aluno exemplar da escola Fidel de discursos infinitos. ponderando entre jogar uma pedra na tv ou bater continência pro novo comandante, respirei quando cubavisión começou a passar um filme de jim jamursch de 2014 – legendado e com longo comentário introdutório. a televisão cubana é um bueno retrato do país, uma mistura de indisfarçável baixo orçamento, evidente manipulação e risível doutrinação com conteúdos bem interessantes, tudo isso com aquele indefectível tom de guerra fria que comemora sovieticamente o cumprimento das metas no plantio de açúcar com trombetas retumbando ao fundo.

lídia limpava a casa y bailava ouvindo a onipresente banda gente de zona no último volume. sua filha vive na itália há doze anos, mas pra ela o país da pizza e do calccio é só pra passar vacaciones: não há lugar no mundo como cuba. aguarda ansiosa, no entanto, que sua filha envie as passagens pra sua próxima visita: meu neto leonardo não gostou de cuba da última vez que veio, disse que a gente aqui não sabe parlare, lamenta sorrindo.

numa sombra de varadero, um jovem cubano com uma camisa falsificada do bayern de munique saluda meu amigo argentino, um personagem que faz as perguntas mais indiscretas com tanta naturalidade que não resta outra a não ser responder e que tem um talento nato pra tirar fotos das pessoas nas situações mais inusitadas. oiê, no te acuerdas de mi, socio? você me pediu uma informação ontem no posto de gasolina e perguntou se sou comunista!

pras viagens intermunicipais em cuba há duas empresas de ônibus, uma péssima pros cubanos e outra apenas ruim pros turistas, ambas com kafkianas filas. na teoria é proibido que uns utilizem o serviço exclusivo pros outros, mas sempre se puede dar um jeito “pela esquerda”, como diz a esquisita e talvez significativa expressão local. nos ônibus turísticos os locais pagam menos, mas também têm menos “direitos”, invariavelmente viajando sentados nos degraus ou de pé, como foi o caso de um senhora que encarou cinco horas entre santiago e baracoa assim após o transporte nacional ter quebrado no meio do caminho. nesse mesmo trajeto, um argentino se indignou por ter comprado a passagem com quatro dias de antecedência e ainda assim não ter lugar pra sentar e começou a brigar com os impassíveis funcionários super públicos. com boné rosa de aba reta, calça apertada e blusa regata larga, uma garota cubana lhe cedeu o lugar e se sentou calmamente no chão, felizmente longe do mijo que escorria por baixo da porta do banheiro: esas cosas pasan, papy, no hay problema.

diosvany trabalha como vigia numa antena de rádio no alto de uma montanha de trinidad. faz turnos de 24h e depois descansa por dois dias, período que aproveita pra guiar turistas em passeios a cavalo pela região. enquanto tentamos sobreviver aos mosquitos do fim de tarde, ele relativiza as críticas de um alemão de chapéu panamá aos baixos salários cubanos e diz ter certeza de que, com o fim do bloqueio e com as recentes medidas de abertura da economia, cuba em poucos anos se tornará uma potência econômica: somos educados pra enfrentar qualquer situação e as coisas logo vão melhorar. o alemão se foi logo em seguida – não aguentou os mosquitos e perdeu o sol se pondo laranja sobre o mar.

cuba, março de 2015

3 COMENTÁRIOS

  1. OBAMA NAS ALTURAS ou “O que querem os guerrilheiros cubanos? (*)
    Respondendo a um jornalista estadunidense, que o entrevistava, logo após Batista ter sido defenestrado, Fidel Castro pontificou: (*) “Nosotros, cubanos, queremos una Cuba libre sin coca-cola”.

  2. Queria ver as fotos. Pena não estarem mais disponíveis

  3. Prezada pessoa, tempos atrás passamos por um grave problema técnico no site que ocasionou a perda das imagens na maior parte de nossas postagens. Aos poucos temos recuperado essas imagens, como acabamos de fazer com o presente artigo.

    Fique à vontade de indicar o mesmo problema em outras postagens antigas.

    Cordialmente,
    Coletivo Passa Palavra.

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