No momento em que faltam as palavras

No momento em que faltam as palavras

em 24 maio

Cortando o silêncio, somente meu grito impotente que até hoje ecoa pelo Norte e Nordeste de Amaralina. Por Franciel Cruz

Escreva bêbado, edite sóbrio.

ACM

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Feliz ou infelizmente, a segunda e sábia parte deste conselho do menino Hemingway não poderá ser cumprida na integra agora, nesta madruga do inconsequente mês de maio, porque o tempo, aquele que nunca cessa seu voo, urge e ruge. Ficaremos, então, apenas com a embriaguez. (Beijinho no ombro, Baudelaire).

Entonces. Nas gloriosas CNTPs, teria solicitado logo ajuda aos universitários, no caso a minha amiga Sora Maia, que se auto intitula vice-médica. Porém, tal e qual um Frank Sinatra do sertão, fiz ao meu jeito.

Alguns incautos dirão que a opção foi fruto de vergonha, covardia ou autossuficiência. Porém, lamento desapontá-los: a decisão se deu por outro motivo: chuva. Ou melhor, a falta dela.

Era preciso aproveitar aquele raro momento de sol nesta província lambuzada de dendê, negligências e exclusão para resolver as pendências – até porque não saberia quando novamente poderia usufruir da rua com céu azul e suas dores e delícias. Sim, minha comadre, aqui, quando chove, fudeu maria preá.

Contudo, derivo. O fato é que resolvi adiantar meu lado, sem dar ouvidos à maldade ou à bondade alheia. E lasquei logo um alô, sim, quanto é?, pois não, tudo certo.

– Boa tarde. O que lhe traz aqui?

– A idade, doutor.

– Muito bem. São raras as pessoas que têm esta consciência. O senhor está bem informado. Em que trabalha?

(Poderia, tranquilamente, mentir. E dizer: labuto com mecatrônica. E todo o assunto estaria encerrado. Afinal, quem porra vai querer puxar conversa com alguém desta área? Porém, pensei: meus longos e antiquados cabelos não combinam com o biotipo da referida e moderna atividade. E a mentira, como sabem todos os canalhas, deve ter algum limite, senão fica feio até para o mentiroso).

Como o cabelo deste quase mulato não negava, confessei, meio que envergonhado: “sou jornalista”.

– Oh, que bom. Trabalha onde?

A prudência, esta menina traquina, recomendaria a clássica resposta: “Sou jornalista, mas não pratico”. Todavia, talvez por vaidade ou qualquer coisa assim, dei mais um passo em direção ao abismo. “Sou editor do Diário Oficial da Assembleia (grandes merdas) e, de modo bissexto, faço uns freelancers.

– Onde? (perguntou de modo seco, mas sem disfarçar a curiosidade).

– Na Revista Muito, do Jornal A Tarde, por exemplo.

Um tanto quanto desapontado, Doutor Strangelove (sim, ele tinha uma aura do personagem de Kubrick) lamentou: “Pensei que trabalhasse no jornal do HOMEM”.

– Não, nunca. (respondi com certo orgulho).

– Mas ELE (a caixa alta é por conta da ênfase que Doutor Strangelove deu) faz muita, muita falta, né não? (Perguntou, de modo retórico, querendo apenas minha aquiescência).

Putaquepariu o constrangimento!!! O cidadão me apertou sem me abraçar. É vero que poderia gritar: ‘FAZ FALTA PORRA NENHUMA”. Afinal, sempre estive na trincheira oposta à de Cabeça Branca [1]. Contudo, as circunstâncias do momento não eram compatíveis com tamanha valentia, não rimavam com coerência. Pensei, atabalhoadamente: como contrariar um médico carlista [2] que vai ser o responsável pelo meu primeiro exame de próstata? O carlismo, que sempre tentou botar pra me fuder, mais do que nunca, poderia transformar isso numa realidade, digamos assim, palpável. Entretanto, por outro lado, não poderia mandar minhas convicções às favas só por causa de um dedo indicador. Assim, busquei uma saída honrosa.

– Sim, faz falta. É salutar que se tenha pessoas com pensamentos e temperamentos fortes e divergentes até para que se possa ter um contraponto.

– Como assim? Perguntou um tanto quanto ríspido Doutor Strangelove.

E, antes que eu tentasse argumentar novamente, ele me mandou deitar na maca, tirar a calça e a cueca, levantar os joelhos. E bradou: “VAMOS AO EXAME”.

Nada mais foi dito, nem perguntado. Cortando o silêncio, somente meu grito impotente que até hoje ecoa pelo Norte e Nordeste de Amaralina.

É isso. O carlismo nunca morre na Bahia.

Doutor Strangelove

Notas:

[1] Apelido atribuído à Antônio Carlos Magalhães.

[2] Carlismo é o termo utilizado para designar o grupo formado no estado brasileiro da Bahia em torno da liderança de Antônio Carlos Magalhães (1927-2007), que durante quatro décadas foi o político mais importante do estado e um dos mais influentes do Brasil.


Comentários 4

    • ulisses

      |

      maio 24, 2015

      |

      ARAÇÁ AZUL fica sendo:
      “…as circunstâncias do momento não eram compatíveis com tamanha valentia, não rimavam com coerência…”
      “Ni cet excès d’honneur, ni cette indignité.” Jean Racine – Britannicus (1669)

    • Chico

      |

      maio 24, 2015

      |

      Contribuição sanitária aos pudores políticos. Estudos demonstram que o intervencionismo no câncer de próstata não diminuem o sofrimento e a mortalidade. Mas, em compensação, aumentam o faturamento da indústria da doença.

    • ulisses

      |

      maio 26, 2015

      |

      AUDÁCIASSEGURAUDÁCIAS ou DALE NO MÁS
      Ôxe! Desmascarada(?) a falácia da eficácia da inclusão proctodigital…

    • Padaqui

      |

      maio 26, 2015

      |

      Puxa, que alívio!

      Então quer dizer que estes mais de vinte anos de Tucanistão no qual eu vivo não passaram de um perene exame de próstata?

      É isso (ou apesar disso…): o Tucanismo nunca morrerá em SP. (?)

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