A experiência dos Comitês de Fábrica na Revolução Russa (I)

A experiência dos Comitês de Fábrica na Revolução Russa (I)

em 12 abr

Este folheto conta a historia da luta dos trabalhadores russos, em particular os esforços dos comitês de fábrica. O êxito dos bolcheviques em derrotar a classe trabalhadora e esmagar toda a esperança de socialismo é o outro lado da história. Por M.R.Jones

Nota do tradutor: trata-se de um Panfleto do Comunismo de Conselhos, publicado pela Scorcher Publications, Cardiff, em 1984. Suas partes são:

Introdução
A Revolução de Fevereiro
O Estabelecimento dos Comitês de Fábrica
Os sovietes, os partidos e os sindicatos
Os camponeses tomam a terra
As Jornadas de Julho
Preparando o terreno para outubro
Os soldados, as Milícias e os Guardas Vermelhos
Outubro de 1917
O Manual Prático e o Contra Manual
Disciplinando os Trabalhadores
Os chefes bolcheviques
A Revolução Derrotada

Introdução

“Para o trabalhador russo viver significava simplesmente não morrer”. [1] Antes de Fevereiro de 1917, os trabalhadores russos tinham de suportar a disciplina militar no local de trabalho, com horas extras obrigatórias, uma alta taxa de mortalidade nos “acidentes” industriais e, uma vez que voltavam para casa, a fome. Em 1905 eles tinham tomado a monarquia czarista e criado algo inteiramente novo nesta luta – o soviete (ou conselho). Doze anos mais tarde, depois de mais de dois anos de guerra e uma crescente onda de greves, eles estavam prontos para derrubar o czarismo. Ao fazê-lo, mais uma vez eles criaram suas organizações – os sovietes e comitês de fábrica. Como destruíram a velha, eles tiveram que construir uma nova sociedade. Para os trabalhadores isso significaria mudar suas condições de vida, especialmente no trabalho. “Bem, não são máquinas, nem fábricas, mas as interações humanas, o que faz a essência do socialismo”. [2]

Junto com as tentativas dos trabalhadores russos de criar o socialismo – não como uma utopia isolada, abstrata em um programa de partido político, mas através de confrontar e mudar a realidade concreta de sua vida diária – estavam as atividades dos partidos socialistas, supostamente condescendentes com as aspirações da classe trabalhadora. Este folheto conta a história da luta dos trabalhadores russos, em particular dos esforços dos comitês de fábrica. O êxito dos bolcheviques em derrotar a classe trabalhadora e esmagar toda a esperança de socialismo é o outro lado da história. Os partidários de Lênin e Trotsky de hoje ainda avaliam seus escritos e sua política como algo relevante para a classe trabalhadora e para o socialismo. É todavia necessário expor quão fundamentalmente capitalistas eram suas doutrinas políticas quando se confrontaram com uma classe trabalhadora tomando poder ali onde lhe importava – no lugar de trabalho, por meio dos comitês de fábrica, e na comunidade, através dos sovietes locais. O negativo deste folheto é o bolchevismo; o lado positivo é o que alcançaram os trabalhadores, e trataram de conquistar, inclusive na derrota.

A Revolução de Fevereiro

Foram as mulheres da classe trabalhadora de Petrogrado que desencadearam a revolução em fevereiro. Depois de semanas de greves com ataques policiais às fábricas, a parte mais oprimida da classe trabalhadora, as mulheres trabalhadoras têxteis, tomaram a iniciativa. As demandas de pão e os ataques às padarias foram substituídos por uma manifestação enorme de mulheres trabalhadoras no Dia Internacional da Mulher. As mulheres haviam ignorado uma diretiva bolchevique local de esperar até o primeiro de maio! O primeiro slogan de “Pão!” foi rapidamente seguido por “Abaixo a autocracia! Abaixo a guerra!”. Em 24 de fevereiro, a metade de Petrogrado estava em greve. Os trabalhadores foram às suas fábricas, não para trabalhar, mas para manter reuniões, aprovar resoluções e logo sair para manifestar-se. O comitê bolchevique de Veborg se opôs às greves: “(…) Como o comitê pensava que o momento estava imaturo para a ação militante – o partido não era suficientemente forte e os trabalhadores haviam tido também poucos contatos com os soldados – optaram por não convocar greves se não por preparar-se para a ação revolucionária em algum momento indefinido no futuro.” [3]

Ignorantes de que o momento estivesse tão “imaturo”, os trabalhadores pressionaram com a greve até que 240.000 aderiram. Os grevistas e os manifestantes se enfrentaram ruidosamente com a polícia armada, e se aproximaram dos soldados para conseguir seu apoio, sobretudo pelas armas. O Comitê Central Bolchevique finalmente resolveu chamar uma greve geral justamente quando a greve já existente estava se tornando uma insurreição armada. Na tarde de 24 de fevereiro, o distrito Veborg de Petrogrado foi tomado pelos insurretos: as estações de polícia sucumbiram e os policiais foram expulsos a pontapés; os prisioneiros foram libertos e se fizeram contatos com distritos vizinhos. Na tarde seguinte a 4ª companhia do Regimento Pavlovsky se amotinou e começou a disparar contra a polícia. No dia 27 os trabalhadores “visitaram” todos os cárceres de Petrogrado e soltaram os prisioneiros políticos. Os soldados já haviam aderido à revolução quando uma solitária organização bolchevique produziu uma chamada ao exército, que sequer urgia os soldados a apoiar os trabalhadores.

A velocidade e o êxito desta revolução desde baixo tomou a todos os socialistas – que vinham fazendo propaganda para a revolução durante anos – de surpresa. “Os líderes vigiavam o movimento desde cima; vacilaram, ficaram atrás – em outras palavras, não dirigiram. Foram arrastados pela rabeira do movimento. Quanto mais perto se está das fábricas, maior é a decisão”. [4] Em vez de falar e escrever, os trabalhadores e os soldados foram em frente e fizeram. Começaram a criar suas próprias organizações adequadas a suas necessidades. Os socialistas agora encontraram os trabalhadores comportando-se de formas que não eram esperadas. “Os líderes da Revolução não entendiam que, uma vez que eles mesmos haviam convidado as pessoas a assumirem o controle dos assuntos locais, as pessoas, que já estavam fartas de serem dirigidas e regimentadas, ansiosamente responderam à ideia de autogoverno através de sovietes e de fim das batalhas; sonhariam com uma vida nova”. [5] Os trabalhadores agora só aceitariam decisões de cima se estivessem de acordo com elas de todas as formas. Confrontados com o “caos” dos trabalhadores atuando por si mesmos, ressoaram chamadas à “disciplina” desde o bolchevique Stálin, o socialista moderado Gorky e o anarquista patriótico Príncipe Kropotkin.

De modo semelhante, os socialistas não escutaram as demandas dos trabalhadores e os camponeses. Os trabalhadores pediam uma jornada de oito horas, o fim do trabalho por peça, a igualdade de salários, o fim do trabalho infantil, melhoras na seguridade laboral e melhores modos da direção! Estas primeiras demandas eram um reflexo do desejo de humanizar o trabalho e dar aos trabalhadores alguma dignidade. As mulheres trabalhadoras do mesmo modo pediram a igualdade dos salários e melhores condições e higiene no trabalho. O novo igualitarismo ficava também expresso de outra maneira pelos trabalhadores: só o presente tinha importância; ninguém poderia reclamar qualquer tipo de superioridade ou de prioridade em virtude do que havia feito no passado. A lousa devia ficar limpa de novo: quando Khrustalev-Nosav reclamou um assento na comissão diretiva do soviete de Petrogrado, com a base de que ele havia sido Presidente do soviete em 1905, foi rechaçado com vaias.

O estabelecimento dos Comitês de Fábrica

Um industrial chamado Auerbach se queixava de que “a revolução foi entendida pelas ordens mais baixas, como algo assim como um carnaval: os serventes, por exemplo, desapareceram durante dias inteiros, desfilavam com laços vermelhos, passeavam em automóveis, voltavam para casa pela manhã só para tomar banho e outra vez saíam para a diversão”. [6] Enquanto alguns se dispuseram a usar a nova liberdade para ver como a velha classe dominante passava seu tempo, outros se dedicavam a tarefas mais construtivas. Os comitês de fábrica fizeram sua aparição: um dos primeiros começou a andar em 2 de março, quando a companhia elétrica de Petrogrado elegeu um conselho de 24 membros (incluindo 10 bolcheviques). Para o final de março, existiam conselhos similares e comitês em quase cada planta de Petrogrado e Moscou: eram especialmente fortes os do ramo metalúrgico.

O soviete de Petrogrado, então controlado por socialistas moderados hostis ao controle dos trabalhadores, impuseram 5 de março como o dia para o regresso ao trabalho (sempre a coisa mais importante: ter os trabalhadores trabalhando), enquanto imediatamente tentavam orientar os novos comitês de fábrica a um papel “útil”. Em 7 de março declaravam: “Para o controle e administração da fábrica, para a correta organização do trabalho, deveriam formar-se de imediato comitês de fábrica e comitês centrais. Deveriam ocupar-se disso para que as forças laborais não fossem desperdiçadas e cuidar das condições de trabalho na planta”. [7] Os sovietes não lutaram pela jornada de oito horas até que os trabalhadores de Moscou e Petrogrado, depois de trabalhar oito horas, simplesmente paravam de trabalhar e iam embora. Em 10 de março a Associação de Proprietários de Petrogrado capitulava sobre a jornada de oito horas, e em um contrato com o soviete “permitia” a formação de comitês de fábrica, enquanto tratavam de limitá-los em todos os aspectos. Moscou teve uma luta mais longa: quando os sovietes locais pediram um regresso ao trabalho, os trabalhadores permaneceram de braços cruzados, obrigando o soviete a declarar que a jornada de oito horas entraria em vigor em 21 de março, ponto que os patrões concederam. Os trabalhadores russos haviam ganhado a primeira batalha por seus esforços, e não graças aos sovietes dominados pelos socialistas. Eles agora teriam mais tempo para se reunir, discutir, ler e – mais importante – para ter aulas práticas de tiro.

Os próprios comitês de fábrica puderam encontrar ocupação para este tempo livre recém-conquistado: se estabeleceram milícias de trabalhadores armados nas fábricas, começaram aulas de educação. Os comitês começaram a fazer todo tipo de tarefas sem esperar alguma “permissão” dos sovietes ou do Governo Provisório. Onde não existia nenhuma associação sindical, entraram em negociação salarial e abriram os livros de caixa da empresa. Os comitês supervisionaram o contrato e a demissão dos trabalhadores. Dada a sabotagem dos patrões, sendo que alguns deles simplesmente haviam abandonado suas empresas, os comitês provaram a princípio a manter a produção, conseguir os materiais, manter a maquinaria, a cumprir ordens: em uma atmosfera de crescente colapso econômico, foram os comitês que jogaram um papel construtivo, ainda quando eram até então uma forma muito parcial de controle dos trabalhadores. A distinção entre controle, que insinua a supervisão e inspeção de decisões alheias, e direção, que remete à tomada de decisões, não era algo estranho à consciência dos trabalhadores. O comitê da enorme fábrica Putilov de Petrogrado, elegido por 90 % da força laboral, disse em final de abril: “Enquanto os trabalhadores das empresas particulares se educam na autogestão, se preparam assim mesmo para o momento em que a propriedade privada das fábricas seja abolida e a forma de produção seja transferida para as mãos da classe trabalhadora. Esta grande e importante meta para a qual os trabalhadores estão se esforçando deve ser mantida firmemente em mente, mesmo se enquanto isso levamos a cabo apenas pequenos detalhes”. [8]

 

Os comitês de fábrica reconheciam a necessidade de coordenar suas atividades fora dos confins das plantas individuais. Os movimentos para centralizar começaram quando os representantes dos comitês das doze maiores empresas metalúrgicas se reuniram em Petrogrado em 13 de março, menos de três semanas depois da revolução. Ainda que esta reunião não tenha estabelecido uma organização permanente, uma conferência em começo de abril dos comitês de fábrica de Moscou, e similares de algumas províncias, estabeleceram centros de coordenação para criar vínculos entre cidades. Uma conferência de trabalhadores nas fábricas de Artilharia e Departamento Naval aprovou o papel dos comitês de contrato e demissão, de ver os livros de contas, etc. Os comitês radicais ignoravam a lei e iam por seu próprio caminho segundo as circunstâncias o exigiam. A conferência, ocorrida em 15 de abril, também planificava um Centro Primário para coordenar os comitês estatais das fábricas do setor. Ao final de abril, o comitê Putilov convocou uma conferência para ampliar a base. Em 29 de maio uma conferência dos comitês de fábrica em Kharkov aprovou uma resolução segundo a qual os comitês deveriam ser “órgãos de revolução” e que deveriam tomar as fábricas e gerir a produção. Claramente alguns trabalhadores iam mais adiantados e tinham uma noção mais clara do que necessitavam para que suas aspirações fossem satisfeitas.

Para maio, as esperanças de fevereiro diminuíam: o novo governo era um fracasso no que dizia respeito aos trabalhadores, e as greves estavam sendo respondidas com demissões temporárias. Os trabalhadores e os comitês de fábrica se viram forçados a tomar as fábricas pelas ações da direção, em vez de por um compromisso com o socialismo ou com a autogestão. A “Primeira Conferência dos Comitês de Fábrica de Petrogrado e seus Arredores” foi convocada pelos trabalhadores da Putilov, e se reuniram de 30 de maio a 5 de junho. Teve delegados de 367 comitês de fábrica representando a 337.464 trabalhadores em Petrogrado (de um total de cerca de 400.000). O debate principal foi sobre quem ia gerir a indústria: os socialistas moderados queriam um controle estatal pelo governo; os trabalhadores queriam o controle dos trabalhadores, e nisso foram apoiados pelos anarco-sindicalistas e pelos bolcheviques recentemente convertidos à ideia. Mas enquanto os trabalhadores tinham uma tendência a imaginar que “controle operário” queria dizer que eles iriam gerir as coisas, a concepção “bolchevique” era muito distinta. Lênin (ninguém lhe perguntou em qual comitê de fábrica ele estava) falou na conferência, e disse isto: “(…) uma maioria dos trabalhadores deveria entrar em todas as instituições responsáveis e (…) a administração deveria prestar contas de suas ações a todas as organizações autorizadas dos trabalhadores” [9] Claramente aqui está a administração por um lado, e os trabalhadores por outro: a divisão de qualquer sociedade de classes. Na resolução bolchevique que foi aprovada, os comitês de fábrica eram “permitidos a participar” no controle juntamente com os sovietes, os sindicatos e representantes de partidos políticos!

Um Conselho Central de Comitês de Fábrica de Petrogrado foi formado com 25 membros. Seus trabalhos incluíam obter combustível, materiais e maquinaria, distribuir a informação e estabelecer um comitê para organizar ajuda para os camponeses. Pôde ajudar aos comitês mais débeis em suas lutas, e desde então esteve mais ou menos em sessão permanente. O Conselho Central de Petrogrado também enviou delegados a outras cidades. Para o final de junho havia 25 Comitês Centrais de Fábrica similares em outras cidades e distritos; para outubro existiam 65 desses centros e haviam ocorrido mais de cem conferências abordando os problemas enfrentados pelos comitês de fábrica. O informe da conferência de Petrogrado dizia isto “(…) por enquanto, os comitês se veem forçados a intervir no funcionamento econômico dos negócios, de outro modo haveriam parado de funcionar”[10]

Ao final de junho o comitê da fábrica Brenner declarava implicitamente “em vista da negativa da direção em continuar a produção, o comitê de trabalhadores decidiu, em assembleia geral, cumprir as ordens e levar adiante o trabalho”. [11] A hostilidade extrema dos patrões frente aos comitês animava o colapso econômico, que só pôde ser superado com o estabelecimento de vínculos entre comitês locais, regional e nacionalmente. O Governo Provisório, os sindicatos e os sovietes (sob o controle de socialistas moderados) definitivamente não tinham simpatias pelos comitês de fábrica. Os trabalhadores inicialmente haviam se identificado com o soviete de Petrogrado: sua debilidade e sua incapacidade ou sua negativa em assumir as demandas dos trabalhadores reforçou os comitês. Conforme os comitês se coordenavam até um nível nacional, entraram em conflito com os sindicatos; como começavam a atuar politicamente, se topavam com os sovietes “socialistas”. Os comitês tiveram aliados nos comitês distritais, instalados em toda Petrogrado, em parte para defender a cidade. Sua autoridade e sua efetividade foram tais que as pessoas recorriam a eles para fazer as coisas. Estabeleceram cantinas, viveiros, centros culturais; lutaram contra o alcoolismo e as apostas; ocuparam casas vazias, e trataram de organizar o fornecimento de comida.

Nas maiores fábricas o comitê de fábrica estava subdividido em comissões para uma e outra atividade produtiva da planta. Por exemplo, os trabalhos de metal Mednoprokatne tinham nove comissões, cobrindo a compra de combustível, as ordens, as condições de trabalho, o emprego e a despedida, uma biblioteca, desmobilização (a mudança da produção em tempo de guerra à produção em tempo de paz), a recuperação de metal, coordenação e controle. Indubitavelmente eram os trabalhadores qualificados os que tinham uma tendência a dominar no movimento o comitê como um todo, e nos lugares de trabalho individuais. Sabiam como fazer funcionar as plantas, eram mais cultos e estavam mais acostumados a se organizar através dos largos anos de repressão czarista. De qualquer forma isto não deve tirar a importância do papel dos menos qualificados. A população em idade laboral de Petrogrado se havia dobrado durante a guerra, e os camponeses que haviam chegado recentemente eram muitas vezes mais radicais, sendo anti-czaristas e imediatamente anticapitalistas. Foram estes trabalhadores os que pressionaram pela igualdade de salários – e muitos militantes qualificados responderam ao chamado.

Os comitês estavam inclinados até os bolcheviques porque eram muito mais radicais que os mencheviques, socialistas moderados, e porque “apoiavam” os comitês de fábrica. De fato foram os comitês de fábrica, na dura luta com os patrões, as primeiras organizações trabalhadoras a “tornarem-se bolcheviques”. Uma resolução bolchevique na conferência de junho ganhou por 335 a 421 votos. Não obstante, foram os trabalhadores e não os políticos que ficaram para sortear os problemas reais, práticos, tais como reagir aos lock-outs patronais. Um trabalhador, farto das picuinhas intermináveis dos militantes políticos, se referiu aos bolcheviques e mencheviques do seguinte modo, em uma conferência: “Já tive bastante de seu falatório. Vocês nunca respondem a nossas perguntas – o que devemos fazer se um patrão ameaça fechar a fábrica? Vocês estão sempre prontos com proclamações e palavras, mas ninguém nos dirá alguma vez o que fazer em um caso real (…) o que fazemos se a fábrica se fecha? Estamos aqui para decidir isso, e viemos aqui para isso, e se vocês não nos respondem, então seguiremos adiante por nós mesmos” [12]

10

Os sovietes, os partidos e os sindicatos

Os bolcheviques e os mencheviques lutavam pela liderança da classe trabalhadora, não para solucionar os problemas dos trabalhadores. Os mesmos trabalhadores prestavam pouca atenção às diferenças entre os diversos grupos e partidos de esquerda, diferenças que importavam muito mais aos socialistas que a eles mesmos. As bases bolcheviques e mencheviques muitas vezes haviam se unido nos dias seguintes da revolução de fevereiro: conforme os socialistas moderados se desprestigiavam, os bolcheviques puderam ganhar mais apoio como partido inflexível. Fevereiro havia dado aos trabalhadores a liberdade, e puderam lograr concessões dos patrões e do governo na jornada de oito horas, melhores condições de trabalho, o seguro social, etc. Quando, pela necessidade, começou o movimento para a autogestão, não foi algo estranho apenas às demandas originais dos trabalhadores, mas também para cada organização socialista, e para cada sindicato. Em maio havia cerca de 2.000 sindicatos com 1,5 milhões de membros; para outubro, tinham dois milhões de membros. Alguns dos sindicatos existiam tão somente no nome, com afiliação no papel; outros não faziam nada. As associações sindicais ativas queriam que os comitês de fábrica fossem pouco mais que agências locais dos sindicatos.

De seu lado, os comitês, que haviam sido muito mais rápidos em se organizar e reivindicar, estavam dispostos a cooperar com os sindicatos, mas seguramente não de estar subordinados a eles.

Os sindicatos estavam dominados politicamente pelos mencheviques. Para eles, a revolução era algo democrático-burguês, inaugurando um período de franco capitalismo: assim a tarefa era a de estabelecer sindicatos organizados como os da Europa Ocidental e defender assim aos trabalhadores. Eles queriam o controle estatal sobre a economia, o que não deixava lugar para os comitês de fábrica ou o controle dos trabalhadores. Como o Menchevique Dalin disse: “Os comitês de fábrica devem servir só para que a produção continue, mas não deveriam tomar a produção nem as fábricas passar a suas mãos (…) Se o dono abandona a empresa, esta não deve passar para as mãos dos trabalhadores, mas à jurisdição da cidade ou do governo central” [13] Ou os capitalistas ou o Estado burguês iriam gerir a indústria, nunca os trabalhadores.

Os anarco-sindicalistas tinham uma visão completamente contrária, para eles os comitês de fábrica eram o início da futura sociedade socialista. Maksimov e o grupo “Golos Truda” (A voz do trabalho) requereram “o total controle dos trabalhadores” sobre o processo de produção. Sua atitude crítica em face dos sindicatos e o apoio bem fundado aos comitês deu aos anarcosindicalistas alguma influência nos trabalhadores, particularmente em Veborg e Kronstadt. De qualquer forma, sua antipatia à centralização os deixou com uma postura vaga acerca de como os comitês de fábrica deveriam vincular-se a nível nacional.

Os bolcheviques ocuparam o que pareceu ser uma posição ambígua, desviando sua ênfase dos comitês para os sindicatos, do controle operário para o controle estatal. Esta foi em parte uma reflexão das diferenças entre a liderança do partido, o qual (com a exceção de Lênin) estava inseguro no que queria a princípio, e os membros ordinários da organização [no original rank-and-file members], muitos dos quais, sendo trabalhadores, estavam ativos nos comitês de fábrica. As Teses de Abril de Lênin ajustavam o tom da sua linha de pensamento: “Não é a introdução do socialismo nossa tarefa imediata, mas a transição simplesmente para que os delegados trabalhadores do soviete tenham o controle sobre a produção social e a distribuição dos produtos”. No Pravda de 4 de junho Lênin repetiu que o controle dos trabalhadores seria efetuado pelos sovietes: os comitês de fábrica sequer foram mencionados. Para Lênin, o controle dos trabalhadores era uma forma de contabilidade, e o socialismo simplesmente o controle estatal da produção. Muitos militantes do partido pensavam que a transformação decisiva da sociedade estava em perigo. Navimov, um trabalhador bolchevique no Conselho Central de Comitês de Fábrica, disse na primeira conferência de comitês de fábrica de Petrogrado: “O controle deve ser criado desde baixo e não desde cima, criado democraticamente e não burocraticamente, e faço um chamado a vocês para que tomem essa missão vocês mesmos. Somente nós, os trabalhadores, podemos lograr o que é necessário para nossa existência futura”. [14]

Os bolcheviques haviam ajudado a estabelecer o Conselho Central de Comitês de Fábrica, mas estavam usando os comitês na luta para ganhar o controle das associações sindicais dos mencheviques. Na Conferência Sindical Panrussa em junho, Milyutin, o representante bolchevique, disse que os comitês deveriam ser células sindicais, e o controle de trabalhadores seria exercido pelos sindicatos e os sovietes. É preciso dizer que antes de fevereiro nenhum bolchevique havia dedicado um só pensamento para o controle dos trabalhadores e aos problemas relacionados: de qualquer forma, suas suposições políticas básicas já começavam a conduzir-se em contra do movimento real dos trabalhadores. Como os comitês mesmos não estavam sempre unidos, e estavam pouco claras suas relações com outras instituições e organizações de trabalhadores, o conflito não assumiu uma forma concreta até depois de outubro.

Em 1905 uma greve geral havia feito erigir-se o Soviete de Delegados Trabalhadores. Em 1917 essa criação foi ressuscitada, mas com uma diferença: os socialistas estabeleceram um Provisório Comitê Executivo do Soviete com independência de e por cima dos trabalhadores. Criou-se uma liderança que não era composta de trabalhadores. Estes primeiros líderes dos sovietes eram socialistas moderados, que esperavam de fato fazer dos sovietes o aparato de uma república democrática burguesa. Algumas eleições menores dos sovietes ocorreram já em 24 de fevereiro; os comícios para toda a cidade foram levados a cabo no dia 28 em Petrogrado, o dia seguinte à formação do Comitê Executivo Provisório. Estes comícios acordaram conceder um delegado por cada mil eleitores, ou um por fábrica pequena, ou um por cada companhia de soldados (usualmente 250 homens). Assim as grandes fábricas contendo 87% dos trabalhadores tiveram 424 delegados, as fábricas pequenas com os 13% restante tiveram 422, e os soldados tiveram cerca de 2.000, em meados de março. Não só os soldados tinham uma influência excessiva no soviete, mas também os delegados dos trabalhadores eram frequentemente não trabalhadores, mas os radicais de classe média de um tipo ou outro.

O Comitê Executivo Provisório de Petrogrado começou com 42 membros: este inicialmente incluía sete trabalhadores e oito soldados que foram rapidamente expulsos. O bolchevique Shlyapnikov havia proposto com êxito que cada partido socialista deveria ter automaticamente dois assentos no Executivo. Nesse momento, todos os partidos, os sindicatos grandes e as cooperativas tiveram permissão para enviar dois delegados. Assim Stálin e Kamenev dos bolcheviques, ambos trabalhadores conhecidos em Petrogrado, foram ao comitê sem serem eleitos. No Primeiro Congresso dos Sovietes houve 57 funcionários executivos, incluindo somente quatro trabalhadores, um marinheiro e um soldado. Durante todos os procedimentos nenhum soldado ou trabalhador falou: todos os discursos foram feitos por membros dos partidos, nenhum deles era da classe trabalhadora.

O papel dominante dos Mencheviques e dos Social-revolucionários, outro partido socialista moderado, estava refletido quando os sovietes de Petrogrado urgiram a regressar ao trabalho em março, antes que o Governo Provisório concedesse a jornada de oito horas ou fizera qualquer movimento voltado para a paz e um acordo quanto à questão da terra. Foi a ação de massas e a ameaça de uma greve geral o que ganhou para os trabalhadores a jornada de trabalho reduzida. Os sovietes de modo semelhante tentaram limitar o controle dos trabalhadores pela instalação de “Juntas de Mediação Laboral” para resolver as disputas. Trataram de restringir as manifestações de oposição à guerra. Os socialistas moderados estavam, depois de tudo, buscando que a burguesia instituísse um capitalismo de estilo ocidental, não para que os trabalhadores criassem o socialismo. Apesar disso, a Comissão Executiva Provisória se encontrou sob a intensa pressão dos trabalhadores. Viu-se forçada a tomar o Banco do Estado, o Ministério da Fazenda, a Casa da Moeda; as oficinas dos correios e telégrafos, as estações de trem e outras imprensas também foram tomadas. Já em 6 de março, as reuniões dos trabalhadores militantes exigiam que os sovietes tomassem o poder. De todo modo estas primeiras demandas de “todo o poder para os sovietes” tinham a oposição de muitos operários, soldados e sobretudo dos líderes socialistas do próprio Soviete. A essas alturas os bolcheviques apoiavam a ideia do soviete apoiando o Governo Provisório.

Em junho havia 519 sovietes, somente 28 dos quais eram de classe trabalhadora, 101 eram de trabalhadores e soldados, 305 eram de trabalhadores, de soldados e camponeses, o restante era de todas as classes. A maior parte desses sovietes foi dirigida por ativistas de classe não trabalhadora do partido. Uma vez que os militantes do partido chegavam a estes sovietes mais altos, controlavam os outros postos. Para ilustrar, Anisimov, o presidente do soviete de comitês do distrito não foi de modo algum eleito por nenhum comitê distrital – ele havia sido selecionado por seus colegas mencheviques. Na visão destes socialistas, claramente uns estavam destinados a dominar, outros a serem dominados. Os bolcheviques também estavam felizes em conquistar maiorias para eles mesmos por métodos similares. Para os trabalhadores ainda que estes sovietes de cidade tivessem a tendência a ser demasiado lentos ajudavam a resolver seus problemas mais urgentes. Os sovietes locais e os comitês de fábrica atuaram por sua conta sem aprovação de cima para fazer as coisas. Algumas vezes se fundiram ao nível local do distrito. Aqui os trabalhadores podiam dirigir seus assuntos, deixando aos intelectuais a confecção dos discursos nos sovietes da cidade. Os sovietes locais resolveram problemas econômicos, políticos e sociais: a comida, a moradia, a justiça e a cultura, tudo estava dentro de sua órbita. Mantinham sua autonomia local, mas estavam preparados para se unir – por baixo – e se manteve uma conferência interdistrital em Petrogrado. Isto os fez entrar em conflito com o comitê executivo do soviete da cidade. De modo semelhante, em Moscou, os sovietes locais eram muito mais radicais que o soviete da cidade – dirigido por mencheviques.

(continua…)

Notas

[1] A Revolução Russa de Fevereiro de 1917, Marc Ferro, p.112.
[2] O Enigma russo, Ante Ciliga, p.13.
[3] História da Revolução Russa, Leon Trotsky, p.121.
[4] Trotsky, p.131.
[5] Outubro de 1917 – Uma História Social da Revolução Russa, Marc Ferro, p.3.
[6] citado por Trotsky, p.256.
[7] citado em Democracia Socialista e Controle dos Trabalhadores: a experiência do soviete, Carmen Sirianni, p.16.
[8] citado por Sirianni, p.26.
[9] citado em A Revolução Bolchevique, Volume 2, E.H.Carr, p.67-8
[10] citado por Ferro (Outubro), p.153.
[11] citado por Ferro (Outubro), p.151.
[12] citado por Ferro (Outubro), p.166.
[13] citado por Sirianni, p.50.
[14] citado por Sirianni, p.55 (da Revolução Russa e os Comitês de Fábrica, Paul Avrich, p.69-70).

O texto A experiência dos Comitês de Fábrica na Revolução Russa foi publicado em três partes. A segunda pode ser lida aqui e a terceira, aqui.
O Panfleto pode ser lido em inglês aqui.
Tradução de Pablo Polese.


Comentários 5

    • ulisses

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      abr 13, 2016

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      Em meio a tantas conjecturas sobre a conjuntura, fomos agraciados com esse biscoito fino.
      As massas agradecem.
      Valeu, Pablo!

      Saúde & Alegria

    • Caio

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      abr 13, 2016

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      Oi Pablo. Quem é esse autor? Vi num fórum que o texto é do Solidarity, tá correto?

    • Pablo

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      abr 13, 2016

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      ulisses, tens tua parte no guisado. :-)

      Caio, o autor se chama Rod Jones, imagino que seja um pseudônimo. Quando estava traduzindo pesquisei para tentar descobrir e não vi nada sobre Solidarity, mas de fato o estilo dele e, por exemplo, o do Maurice Brinton, é bem parecido, com crítica aguda que por vezes cede lugar para sarcasmo onde talvez cairia melhor uma análise mais séria. Ainda assim é um panfleto muito bom, muito bem fundamentado e muito lúcido. Biscoito fino mesmo. É o número 2 da Scorcher publications, sendo que o número 1 é sobre a revolução húngara (https://libcom.org/library/hungarian-revolution-1956-scorcher-publications). Se alguém quiser traduzir este outro, cairia bem.
      Outro texto que precisa ser traduzido para fazer par com este sobre os comitês de fábrica é o “Soviets and Factory Committees in the Russian Revolution”, de Peter Rachleff (https://libcom.org/library/soviets-factory-committees-russian-revolution-peter-rachleff). Estou vendo se traduzo ele junto a um camarada de Niteroi, mas mesmo assim ajudas são bem-vindas e aceleram o processo (além de aliviar dores nas costas e cabeça).
      Por fim, espero que esta tradução sirva de subsídio teórico-historiográfico para o debate sobre tática e estratégia que tem rolado por aí e por aqui (http://www.passapalavra.info/2016/01/107317, http://www.passapalavra.info/2016/01/107453, etc) e que tem tendido a se polarizar entre amantes e odiosos do bolchevismo e do autonomismo, quando me parece que temos que pegar esse legado, que é nosso, para ver o que dele é vivo e o que é morto, ou como preferiu falar a Soraia (http://www.passapalavra.info/2016/04/107930), o que é novo e tem potência e o que é velho e anacrônico.

    • mizraji

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      abr 14, 2016

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      Um achado importante esse texto que revela, entre muitas outras coisas, a concepção desmascarada do bolchevismo sobre os soviets e sua mudança radical de postura após a intensa auto-organização dos comitês, e a ação política contrária à decisões burocráticas que vinham de cima. No entanto, o texto deixa em segundo plano, a importância do movimento anarquista no processo revolucionário, primeiro e em grande medida, pela defesa da autogestão social dos meios de produção através da organização federativa, pelos conselhos de fábrica, mas não de forma vaga e sim organizada. Em segundo lugar, de importância e apreensão da realidade da época, que as regiões de Guliai-Pole e Kronstadt demonstraram claramente a natureza autoritária dos soviets já bolchevizados e da política ideológica do partido. Na Ucrânia (que fora oferecida como moeda de troca, espólios, entre a Rússia e Alemanha no pacto de Brest-Litovsk) já tinham os camponeses e os operários realizado uma rota de troca e suprimentos, entre as indústrias e o campo, além do fornecimento de armas. Tudo isso foi bloqueado e impedido pela burocracia e regimento dos bolcheviques. A segunda parte deve ser mais interessante. Parabens

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