Crônica estudantil

Crônica estudantil

em 30 out

Até hoje ninguém entende muito bem por que é que a faculdade parece estar morta. Por Estudante

“São uns burocratas mornos. Nunca votam nada importante”. A assembleia ia começar, ocupava o hall do terceiro andar, para circular havia que ter cuidado para pisar entre as pequenas rodinhas de estudantes, mochilas, lixo. Ainda assim, estava longe de ser uma assembleia grande em comparação com o que aquela faculdade já tinha visto nos últimos anos. Perguntei para ele o que é que ele esperava então, o que é que deveria ser votado. “Ocupação da faculdade. Eles sempre estão contra!”. Mas por que é que você quer ocupar a faculdade? “Numa ocupação a vida muda, as pessoas se veem na quebra do cotidiano, tem que pensar diferente do que todos os dias quando vêm à faculdade só para estudar”.

Uma das pautas era a luta pelo passe estudantil no transporte público. Os quadros partidários bradavam energicamente que o passe estudantil seria uma luta contra as medidas de ajuste econômico do governo. Nisso estavam unidos populistas e o resto das tendências de esquerda, tradicionalmente opostos (além daquela e de outra organização já caricatas por seus pedidos de unidade entre ambos setores, que incluía o desafio metafísico de fazer os estudantes estarem em duas marchas diferentes ao mesmo tempo). Combati a vergonha e fiz uma fala contra o passe estudantil, dizendo que este não combate o ajuste pois o preço da gratuidade recairia sobre outros setores populares, que os estudantes deveriam lutar pela gratuidade universal do transporte. Talvez a ideia tenha feito eco na cabeça de alguns poucos. Os dirigentes estudantis devem ter achado bonitinho até, mas como a aprovação do passe estudantil é já realidade em alguns estados a partir de projetos feitos por parlamentares de seus partidos, o mais interessante mesmo é fazer com que a massa de estudantes apoie as iniciativas parlamentaristas de seus partidos e nada além disso.

Um par de meses depois a faculdade está ocupada. O contexto da mudança de governo e de ajuste econômico forte gera o boato-informe de que corre o risco de fechar-se a universidade por falta de verba antes do fim do ano. Lá está ele, no quartinho das comissões de base, tomando vinho, dando risada e discutindo com alguns poucos companheiros e companheiras como será o panfleto virtual que farão, adiantando também um pouco da arte da revista que sua comissão fará ao final do mês. Música de fundo, cigarros, risadas, quase um notebook por pessoa, todos logados no Facebook. Na cozinha algumas pessoas vão preparando a janta, passam pelos demais espaços para arrecadar dinheiro para o sopão. Na porta da faculdade, montanhas de cadeiras apilhadas, um grupo de umas seis pessoas conversa tranquilo: os seguranças privados “especializados em direitos humanos” da “cooperativa” não estão fazendo a segurança da instituição, nem do lado de fora. De fato, a diretora progressista da faculdade quase comemorou a ocupação. Era uma prova de que a força política agora no poder era incapaz de manter a educação pública em condições mínimas, como o havia feito o setor que antes tinha o mando e do qual ela mesma fazia parte como quadro acadêmico feminista. Tudo duraria até o dia da grande marcha, depois voltariam ao regime de aulas públicas. Foi a decisão da assembleia.

O governo federal terminou dando uma verba extra e já então a universidade poderia sobreviver (ao menos era o que tinham dito os sindicatos dos trabalhadores e dos docentes). Os professores, dos quais muitos trabalham grátis ou recebem valores quase simbólicos, começaram então a negociação salarial. A direção do sindicato “combativo” estava prestes a assinar um acordo bem abaixo da inflação quando desce à assembleia dos estudantes (que já nesse ponto era quase explicitamente um simples apoio à negociação dos seus pares burocráticos sindicais) um docente do sindicato populista, base do governo federal anterior, para escrachar publicamente o sindicato “combativo”, que estaria assinando um acordo absurdo com perdas salariais e sem disposição para ir para a luta com unidade e resistência etc. Ocorre um bate-boca entre este professor e o presidente do centro de estudantes, solidário com seus colegas de partido. No dia seguinte recebemos a notícia de que o sindicato populista havia assinado o acordo e que o combativo havia recuado e decidiu lutar por um acordo melhor. Não houve mais assembleias estudantis por ao menos dois meses, incluída uma tentativa que foi abortada pela baixíssima convocatória. Até hoje ninguém entende muito bem por que é que a faculdade parece estar morta. Talvez os populistas ganhem o centro de estudantes este ano. Será algo histórico: há menos de cinco anos atrás eles quase nem apareciam nas assembleias, tal era o peso da extrema-esquerda entre os estudantes desta faculdade. O que continua igual é que sempre há gente tomando cerveja no pátio central a partir das seis.

A imagem que ilustra a crônica é parte da obra “Nuestra Imagen Actual” de David Alfaro Siqueiros.


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