Presos à UNIESP

Presos à UNIESP

em 19 nov

Os estudantes tem a clareza de que a via judicial não basta: é preciso fazer uma luta contra a empresa. Por Passa Palavra

Na manhã de sexta-feira, 18 de novembro, um grupo de alunos e ex-alunos do ensino superior privado UNIESP se acorrentaram ao prédio da Faculdade Centro Velho em protesto.

Eles estão entre os milhares de trabalhadores que, desde 2011, foram atraídos a se matricular pelo programa “A UNIESP Paga”, no qual a faculdade promete pagar os cursos dos alunos que cumprirem 10 horas semanais de “trabalho social” em determinadas ONGs e Associações. A propaganda encobre, porém, que se trata de uma dívida do FIES, linha de financiamento estudantil do Governo Federal. Só um ano depois de se formarem, sem garantias de que a UNIESP vá cumprir sua parte do acordo, é que os alunos começam a receber dos bancos cobranças de até cem mil reais. Isso depois de passarem anos trabalhando de graça – sendo que o “trabalho social” é, muitas vezes, divulgar nos bairros de periferia os mesmos programas da UNIESP.

uniesp5Numa breve pesquisa na internet, não faltam denúncias da UNIESP – “a faculdade que é caso de polícia” –, não só pelo golpe no FIES, mas por falsificar diplomas, impedir alunos de fazerem provas, suspeita de incêndios criminosos e aumentos abusivos nas mensalidades. São inúmeros os casos de estudantes que, depois de se formarem, entraram com processos na justiça contra a faculdade.

É isso que está acontecendo agora: mais de 200 pessoas que foram enganadas e endividadas pelo programa “A UNIESP Paga” se juntaram para entrar com uma ação coletiva em São Paulo. A novidade é que, desta vez, existe a clareza de que a via judicial não basta por si só: é preciso fazer uma luta contra a empresa.

Com o lema “A UNIESP vai ter que pagar”, alunos e ex-alunos vem articulando panfletagens e atos em todas as unidades da Grande São Paulo para expor a fraude do “UNIESP Paga” e mobilizar os colegas. Não são raros os casos de diretores que tentam proibir a distribuição de panfletos e ameaçam quem está no movimento.

Com a ação de sexta-feira, o movimento mostrou a que veio. Presos à portaria de manhã até à noite, os acorrentados criaram um incômodo à diretoria da principal unidade do grupo, chamaram atenção dos estudantes e funcionários de todos os turnos e atraíram a imprensa. A pressão culminou com a vinda de um diretor da UNIESP para marcar uma reunião com o dono do grupo empresarial, o magnata Fernando Pinto da Costa.

FIES, uma bomba-relógio

Num contexto geral de lutas na educação, com uma onda inédita de ocupações de escolas e universidades públicas em todo país, a resistência da UNIESP aponta para um campo de batalha ainda pouco desbravado: as faculdades particulares.

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Detalhe em panfleto publicitário do programa “A UNIESP Paga”

Na última década, o ensino superior privado viveu uma expansão sem precedentes, com a formação de megaempresas como a Kroton Anhanguera – a maior do mundo no setor, que em 2016 firmou-se como gigante após comprar a Estácio, segunda maior do país. Esse processo só pode ser entendido à luz do crescimento econômico do último período, que moveu uma nova camada de jovens proletários a procurar o ensino superior para qualificar sua força de trabalho. As políticas públicas dos governos petistas, como o ProUni e o Novo FIES, foram o motor decisivo dessa expansão, abrindo as portas das faculdades aos trabalhadores e do mercado aos capitalistas.

Se os programas trouxeram segurança aos empresários, para os estudantes o que aconteceu foi uma transferência de custos. No fim das contas, o custo da qualificação do nível superior cai de volta nas costas do trabalhador: o FIES é uma dívida. E, por vezes, uma dívida que vai bem além do que o diploma dá condições de ter para pagar.

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A luta da UNIESP, ainda que pontual, concentra essas contradições acumuladas. Ainda se tratando de um grupo “nanico” frente à gigante Kroton Anhanguera, a UNIESP é um exemplo de empresa que soube expandir os lucros a partir das políticas federais: hoje conta com instituições de ensino em 11 estados e mais de 100 municípios. As sucessivas denúncias de fraudes no FIES parecem não abalar os negócios do grupo – até porque a dívida dos estudantes, uma vez formados, é com o banco; e a faculdade, por sua vez, já recebeu o dinheiro do governo. E, no caso da UNIESP, a transferência de custos ao aluno é ainda mais cruel: não se trata apenas de uma dívida inflada, mas também da exploração do trabalho.

No contexto de ajuste e austeridade, não foi mais de uma vez que o governo atrasou ou suspendeu o repasse do FIES, causando problemas na vida de milhares de alunos e rebuliço entre as empresas. Até agora os tubarões da educação tiveram seus lucros garantidos, mas quando a bomba explodir, o que será dos estudantes? É cedo para dizer, mas não podemos perder de vista que várias análises identificaram exatamente essa juventude proletária do ensino superior privado como um dos setores mais importantes nas ruas em junho de 2013.

 

Leia também no Passa Palavra: A luta da UNIESP e os cortes do FIES, por Maria e Verônica


Comentários 1

    • Primo Jonas

      |

      nov 19, 2016

      |

      Essa intervenção na porta da faculdade me lembrou muito da luta que acompanhei aqui em Buenos Aires por suspensões e demissões em um call center (possivelmente o local de trabalho de muitos estudantes da UNIESP). Eu reproduzo abaixo parte da entrevista que fiz, pois a confluência da luta legal, necessária, e da luta por meio de ações diretas como a que aparece no video, costuma ser uma disputa por quem aguenta mais tempo. O desgaste é sempre uma das principais armas das patronais e dos empresários, por isso os e as companheiras despedidas e suspendidas da GFK faziam um esquema de ir toda segunda, quarta e sexta na porta da empresa na hora do almoço vender comida para gerar vínculos com os demais trabalhadores, um momento para trocar um papo sobre o que ocorria, além de juntar dinheiro para impressões de panfletos, faixas, o fundo de luta — e o principal era a presença territorial deles lá, o que por si já incomoda a patronal. Fazer isso por semanas, meses, desgasta, por isso é importante lutar em frentes diferentes, ser criativo e buscar laços de solidariedade:

      “Trabalhadora: Quando me despediram houve três dias de paralisação e os companheiros assinaram um petição em que me reconheciam como uma delegada de fato na empresa. 87% dos companheiros assinaram, ou seja, confirmam essa opinião. Nós entramos com o processo por discriminação [sindical] no âmbito jurídico e, fora isso, mantivemos atividades gremiais de todo tipo – por exemplo houve uma mobilização até a porta da empresa onde vieram músicos do Teatro Colón, tiveram mobilizações até o tribunal, tiveram mobilizações até a porta da empresa, que contou com a companheira Elia Espen das Madres de Plaza de Mayo, que encabeçou a luta esse dia; e bom, junto com diferentes ativistas de diferentes agremiações que vieram apoiar, junto com a Rede de Trabalhadores e outros companheiros de diferentes organizações gremiais, políticas, culturais. A luta foi mantida durante um ano e conseguimos a reincorporação, sempre na porta da empresa ou no tribunal, quando tínhamos que mobilizar até lá – com muita pouca gente conseguimos fazer muito [barulho!]. Essa é a luta, vamos seguir mantendo ela até que possamos acabar com a tal lista de trabalhadores, que é completamente discriminatória, até que consigamos também reincorporar os trabalhadores despedidos e os que estão suspendidos. Convocamos todas as organizações que queiram aproximar-se para colaborar com os companheiros, tudo ajuda: panfletos, contribuições para o fundo de luta, bandeiras, o que quer que tenham.
      http://www.passapalavra.info/2016/05/108313

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