Reluzentes três

Ouça: o cinismo impede-te de encantar-te com histórias. Por Poeta em Buenos Aires

Luz

O movimento parte de uma experiência psíquica, de uma vivência mágica preliminar: o contato com a pintura moderna. O ponto de partida não é literário. O fogo divino não veio de leituras, mas de uma experiência direta entre o jovem brasileiro ingênuo, bárbaro, e os poderes mágicos de expressão, de agressão das formas pictóricas até então ignoradas. – Mario Pedrosa, “Semana de Arte Moderna”

assopro uma chama
para conhecer seu pavio
cera e derrama
lufada que arde – e que mata –
segundo o risco que desata:
afasto a luz e verei.

tal faço eu e me aparto
sob o manto das veladas esperas
são raios astrais
precisos os quais apreendo

no buraco do olho
que a luz cega.

me pergunto
(na noite nublada desfaiscada)
que fazem com seus celulares?
que buscam aí?
a luz que aos meus olhos adentra
é mais fria e vil – ai, pedra! –
que a que de mim escapa.

* * *

Cinismo

Ouça: o cinismo impede-te de encantar-te com histórias.
A Bíblia, por exemplo.
A canção, o saber. Tantos se deixam tocar por elas,
enquanto universitários cínicos são incapazes de ler com paixão
a história da classe trabalhadora.
Se imergem em buscas por sua propriaidade: identidade,
cada um com sua falta de prepúcio, corte que autoriza x falx.
A revolução precisa de livros: pergunta, razão, revelação.
A revolução precisa de paixão: sangue, bala, desencanto.

                                               Elói, Elói, lamá sabachtáni?

* * *

Seios

De minhas lembranças tuas
habita-me a de teus seios banhados nas águas do mar.
Teus seios tão livres…
E são tantas as canções e os filmes
a ensinar nostalgia,
conduzindo a pensar com quantos mais
e já quantas vezes essa visão deixou de fazer-me único.

Nas sendas monstruosas da verdadeira dúvida
essa angústia é fichinha.
Insurge como alvorada em mata fechada
que tudo possa ser diferente.

A fotografia que ilustra este texto é um registro de parte da obra  “You Who Are Getting Obliterated in the Dancing Swarm of Fireflies” de Yayoi Kusama

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