Medianeras – o amor solitário e a segregação urbana

Com tanta conexão, por que os indivíduos se sentem isolados no mundo contemporâneo? Por Felipe Andrade

O filme argentino Medianeras: Buenos Aires na Era do Amor Virtual, lançado em 2011, do diretor Gustavo Taretto retrata a solidão nos espaços urbanos cada vez mais segregados e [hiper] individualizados no capitalismo contemporâneo. O filme argentino antecipa temas de filmes como Aquarius, 2016, sobre o problema da especulação imobiliária nas grandes capitais em proveito dos grandes empresários e do lucro; e Her, de 2013, filme sensível sobre o amor na era digital, sem que haja necessariamente a proximidade de um contato físico. Medianeras é a expressão dupla do paradoxo dos meios de comunicação e do crescimento populacional das capitais em grandes centros urbanos, que permite uma proximidade maior das pessoas em espaços menores, mas que, pelo contrário, faz as mesmas também se distanciarem de uma intimidade emocional e física. Quando Marx advertia sobre o desenvolvimento das forças produtivas e do intercâmbio cada vez maior e internacional, como um dos pressupostos da realização do comunismo enquanto movimento verdadeiramente internacional, que pudesse romper com as fronteiras nacionais e estreitas entre a classe trabalhadora, não pôde prever tal paradoxo que ao invés de ampliar as relações dela, consegue limitá-las.

Assim, o filme retrata Buenos Aires, mas serve como espaço para pensar a maior parte das grandes metrópoles nas maiores cidades do mundo. Percebemos que os espaços urbanos crescem cada vez mais, em edifícios irregulares, esteticamente diversificados e que servem como distinção entre classes sociais. Esses são os elementos que dão a pincelada dos problemas no cenário urbano atual. Em cada residência uma miríade de moradores, pessoas que nunca se encontram; ao mesmo tempo próximas e indiferentes umas às outras. É o fenômeno da solidão que os dois personagens centrais (Mariana e Martín) vivenciam durante a trama – até o momento final, o desfecho em que finalmente se encontram. Logo no início os problemas psicológicos desse caos urbano são narrados pelo personagem Martín:

“Estou convencido de que as separações, os divórcios, a violência familiar, o excesso de canais a cabo, a falta de comunicação, a falta de desejo, a apatia, a depressão, o suicídio, as neuroses, os ataques de pânico, a obesidade, as contraturas, a insegurança, a hipocondria, o estresse e o sedentarismo são responsabilidade dos arquitetos e da construção civil. Destes males, salvo o suicídio, padeço de todos.”

A narrativa coloca que a tecnologia cada vez mais avançada, o avanço da fibra ótica, a internet e toda essa chamada “cultura digital” têm levado a problemas psíquicos que cada vez estão mais presentes no cotidiano das pessoas que moram nos centros urbanos. A rotina, o cotidiano, os afazeres diários e, principalmente, o desemprego em um centro urbano suscita questões primordiais sobre a condição humana. Se os dois personagens estão isolados dentro de seu espaço, a sua moradia, e tem conexão com o mundo, como nunca houve antes, por que os indivíduos se sentem isolados no mundo contemporâneo e sofrem com tantos transtornos psíquicos?

Está posto o problema central da trama que envolve os dois personagens: a solidão. Frente a uma história de vida em que os dois acabaram recentemente um relacionamento, a busca se faz em encontrar um novo amor que preencha o vazio existencial. A própria memória dessas relações passadas parece se esvair nas memórias digitais que a apenas um clique se esvanecem. É assim que Mariana exclui todas as fotos compartilhadas de seu relacionamento de quatro anos. O “amor” tão logo desaparece à indiferença virtual, mas o sentimento não deixa de estar presente no íntimo de cada um dos personagens. Procede disso a busca por novos parceiros (as) que possam preencher o vazio de uma conexão que permita ser real. A conexão na internet (virtual) e o desenvolvimento dos meios de comunicação nos aproximaram e reduziram as fronteiras do mundo, mas nós deixamos de viver (e conviver) com outras pessoas na realidade não virtual (a intimidade pessoal). Essa questão nos leva a diversos questionamentos sobre a angústia, a fobia, o suicídio, os remédios antidepressivos, e toda uma gama de problemas novos decorrentes de um novo período no capitalismo contemporâneo. Assim, o filme argentino é o retrato de sua época, colocando reflexões atuais do nosso mundo e, a partir dele, nos colocando frente a frente com esses problemas cada vez mais presentes em nosso cotidiano.

O espaço urbano cada vez parece mais segregado, e a reformulação deste parece apontar para uma individualização maior entre as classes sociais inseridas nele. Não é por acaso que o filme indica o problema dos espaços pequenos, isolados e separados dentro de uma cidade grande, e propõe através do seu título, uma abertura. Também aponta que os engenheiros e arquitetos, que constituem o ramo lucrativo da construção civil consolidam esses espaços sem preocupar com o seu uso – o lucro dessa fração da burguesia tem sido cada vez mais exorbitante. Prédios disformes, espaços inutilizados e completamente inúteis podem ser vistos nos cantos das cidades nessa época da arquitetura “pós-moderna”. As classes privilegiadas habitam os enormes edifícios luxuosos, ao mesmo tempo em que compartilham com os/as empregados/as domésticos/as uma parte dele. A estética predomina em detrimento da ocupação e interação entre os indivíduos, distanciando bairros ricos dos mais afastados, o centro da periferia, os locais turísticos ao lado dos interesses comerciais. O contato com o outro, mostrado pelo filme, só pode ser aproximado por meio de uma mudança deste próprio espaço, fragmentado, que separa indivíduos da sua socialização com os mais próximos. Por isso, a ideia do “amor” é sugerida, mas ao longo do filme, vemos as barreiras que transpõem a sua realização. Quantas pessoas deixaram de conhecer umas às outras por causa de lugares que nunca se encontram, isolados em seu mundo próprio e cercados por concreto, sem que haja espaço para a única realidade que nos importa, aquela vivenciada por pessoas que, no dia a dia, procuram apenas uma saída, uma pequena chance, para conhecerem alguém diferente, e assim, concretizar um novo amor. Nesse momento, o amor é solitário, pois se defronta com uma idealização dentro de fronteiras unidas por cabos ópticos, que nunca realizada, se isola em momentos individuais, que permitem assistir a uma série, comprar comida, consumir sexo online, conversar com pessoas, sem nunca precisar sair de seu espaço individual.

Para que o individualismo não se concretize plenamente, o filme sugere certo romantismo. A mudança, social e individual, deve ocorrer apenas mediante o amor ou a bondade, o que é característico de um filme romântico. Assim, apreendemos que ainda há chances de construir sua “medianera” e procurar novos espaços para encontrar o seu lugar no mundo, caso encontremos a pessoa certa. Se isso não ocorrer, continuaremos vivendo nesse mundo isolado, pois a transformação se opera apenas no ideal metafísico do amor. Porém, indo adiante à mensagem repassada pelo filme, condensado pelo desfecho individualizado que o filme se propõe a criticar, precisamos ir além dele. Observar que o fenômeno da ocupação dos espaços urbanos, das instituições através das lutas sociais é parte de uma ruptura com o planejamento segregado das cidades. É nisso que devemos pensar e repensar sobre o fenômeno da solidão e dos encontros passageiros. A integração das relações sociais, a ampliação da intimidade entre as pessoas, não pode ficar restrita aos meios virtuais de comunicação. A ocupação dos espaços e a instauração de novas relações sociais são também uma ruptura, uma maneira de pensar em aproximar pessoas distantes, que, ainda sem possibilidades de se encontrarem, estão próximas em objetivos, ideias, sentimentos e um ideal em comum, que é a transformação dessa realidade existente e seus problemas consequentes.

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