Com salários atrasados, trabalhadores fazem greve e vigília no Seta Atacadista do Capão Redondo

Com salários atrasados, trabalhadores fazem greve e vigília no Seta Atacadista do Capão Redondo

em 30 jan

Funcionários e vizinhos se revezam nos portões para impedir que o patrão feche o supermercado na surdina. Por Passa Palavra

Trabalhadores do supermercado da rede Seta Atacadista do Capão Redondo, extremo sul de São Paulo, estão em greve desde a última terça-feira, 24 de janeiro. O movimento teve início após a empresa atrasar os pagamentos e anunciar a demissão de 30 funcionários — metade da equipe que trabalha na loja.

Na calada da noite de quinta-feira, moradores da região perceberam uma movimentação incomum de caminhões entrando no supermercado e avisaram os grevistas por WhatsApp. Era uma tentativa da empresa de esvaziar a loja para poder fechá-la na surdina, sem pagar os direitos dos funcionários. Mas rapidamente um grupo de trabalhadores e vizinhos se reuniu em frente ao portão e impediu que as mercadorias fossem levadas embora, só liberando a saída para os caminhões que estivessem vazios. Desde então, grevistas e moradores estão ocupando a entrada da loja para não deixar que a empresa tente um novo golpe.

Só este mês, o Seta Atacadista já fechou cerca de 10 unidades — é o caso de São Bernardo, Santo André, Americana e Cruzeiro — e tirou até o seu site oficial do ar. Portanto, a situação é de total incerteza para os trabalhadores, visto que a empresa não deu nenhum comunicado sobre o que vai acontecer com a loja do Capão Redondo, nem com as demais da rede. O risco é que o patrão desapareça sem pagar o que deve: a segunda parcela do 13º salário, que está atrasada desde dezembro, e o vale alimentação de janeiro, que venceu no último dia 20. Os 30 demitidos ainda não receberam o valor referente à rescisão contratual.

O golpe dos patrões

Em menos de 10 anos de existência o Seta Atacadista alcançou a incrível marca de 48 lojas, sendo 46 no estado de São Paulo e 2 em Manaus (para fins de comparação, o Makro, que é a maior rede atacadista do país, possui 75 lojas). A maior parte delas foi inaugurada ano passado — a própria unidade do Capão Redondo é recente, tendo sido aberta em maio de 2016.

A empresa tinha nas periferias dos grandes centros urbanos seu público-alvo. Em seu site, era possível ler que “em 2008 [o Grupo Seta] entrou no segmento atacarejo, com a inauguração da sua 1ª loja, direcionada para o atendimento da crescente demanda da classes C, D e E. A partir daí iniciou um bem sucedido projeto de rápido crescimento através da abertura de novas lojas”.

O desempenho excepcional do Grupo Seta num momento em que a economia passa por uma profunda recessão não demorou muito para se desmanchar. Segundo os trabalhadores, com menos de seis meses de funcionamento a loja já dava indícios de estar passando por dificuldades financeiras: começaram a faltar mercadorias nas prateleiras, os pagamentos começaram a atrasar, fornecedores encerraram contratos etc. No entanto, em nenhum momento os funcionários foram informados sobre a possibilidade de fechamento ou de falência da empresa.

Reforçando a estranheza da situação, sabe-se que na unidade do Capão Redondo jamais se estabeleceu uma ligação formal de luz e água — toda energia da loja era produzida por geradores. Seria uma tentativa da empresa não deixar vestígios de documentos, num golpe planejado desde o início?

Se os trabalhadores tudo produzem, aos trabalhadores tudo pertence

Com sua luta, os funcionários do Seta mostram que, mesmo num momento de crise, os trabalhadores não estão de mãos atadas diante dos abusos dos patrões. Quando a comunidade e os grevistas se uniram para impedir que o supermercado fosse esvaziado, deram um recado muito claro: quem manda aqui somos nós!

Eles também mostraram que, para resistir às injustiças, a maior força dos trabalhadores é a união com seus colegas. Foi a partir dessa união, conversando nos corredores e nos grupos de celular, que eles decidiram cruzar os braços. Só depois, quando a greve começou, que os trabalhadores procuraram o telefone do sindicato da categoria, o SECSP (Sindicato dos Comerciários de São Paulo, ligado à UGT), para pedir apoio. Mas a verdade é que em momento nenhum eles dependeram do sindicato para fazer alguma coisa. Até agora, o principal apoio para manter a vigília em frente a loja tem sido a solidariedade dos próprios moradores da região.

Se os trabalhadores vão conseguir fazer a empresa pagar o que deve, isso vai depender dos próximos passos da mobilização. Para já, parece importante a tentativa de se articular com os funcionários de outras unidades — afinal, as demissões e cortes estão acontecendo em todas elas. Se o movimento ficar só no Capão, corre o risco de ficar isolado. Se outras lojas aderirem, ele pode ganhar ainda mais força. Outro ponto importante é ficar de olho no sindicato para garantir que eles não tentem, às escondidas, fazer uma negociação com o patrão.

Além disso, alguns exemplos de lutas recentes podem servir de inspiração para os trabalhadores do Seta. Há um ano, os operários da Mabe — metalúrgica que faz geladeiras e fogões — viveram uma situação bem parecida em Campinas e Hortolândia. Quando a empresa atrasou os salários e ameaçou fechar as portas, os trabalhadores também montaram um acampamento do lado de fora para garantir que as máquinas não fossem retiradas. Sem respostas, eles deram um passo além: entraram na fábricas e ficaram lá dentro, ocupando, até que a situação se resolvesse.

O destino dos trabalhadores do Seta depende, agora, da sua própria luta. E, por isso, toda solidariedade é importante.

Apoie os grevistas em luta! A vigília está acontecendo todos os dias na Rua Comendador Sant’Anna, 561 – próximo ao Metrô Capão Redondo, extremo sul de São Paulo.

Acompanhe a luta dos funcionários pela página: O SETA vai ter que pagar

As fotos são de Luta Zona Show e Capão News


Comentários 4

    • Primo Jonas

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      jan 30, 2017

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      Em 2015 houve um par de casos semelhantes aqui em Buenos Aires, em locais da rede DIA%:
      http://www.rnma.org.ar/noticias/18-nacionales/2825-trabajadores-del-supermercado-dia-toman-local-en-defensa-de-sus-fuentes-laborales
      Sobre a solidariedade dos vizinhos na ocupação, um trabalhador diz:
      “é simplesmente a consequência do nosso acionar que nós todos temos com o bairro quando trabalhamos, nós prestamos um serviço, e o fazemos da melhor maneira possível, com nossos erros mas com muita franqueza e por isso o bairro entendeu a situação. O apoio que nos estão dando não é somente intelectual senão também até econômico, ajudando alguns dos rapazes para que tenham alguma saída laboral mínima nestes dias para poder fazer alguns bicos e ganhar algo de dinheiro, porque nós estamos sem receber [salário], não somos empresários nem gente com dinheiro como para dizer que temos um sustento a longo prazo”.

    • Patricia

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      jan 30, 2017

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      Verdade sou funcionaria da loja seta do itaim esta dessa forma hoje foi pago o vale adiantamento mas estamos com esse mesmo problema sem resposta sem fundo de garantia depositado desde junho de 2016 entre outros problemas concordo q precisamos nos unir e o sindicato deveria esta mas presente ja q pagamos todo ano .

    • Arara

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      fev 1, 2017

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      Conheço o cara do Seta, ele é arara. Ele compra o CNPJ de empresas inativas e põe muito dinheiro, cresce rápido, faz um nome. Aí mistura umas notas frias, começa a desovar carga roubada. Esvazia tudo na calada da noite. Vai embora voando.
      Sempre tem uns galpões grandes que é mais fácil esvaziar com empilhadeira na madrugada.

    • Wagner galvani

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      fev 23, 2017

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      Aqui em Americana nas duas lojas não e diferente, mas aqui os funcionários são todos burros nada fizeram, eu solicitei minha demissão em novembro porque eu vi que este canalhas estavam querendo dar o golpe, ainda eles me deve, mas eu mais uns ainda conseguimos homologar nossas rescisões no MTE de Suzano, mas os outros colaboradores só acreditarão quando viram os Caminhões aparecer para levar as mercadorias embora, e fechar as lojas, o Seta não passava de uma lavagem de Dinheiro, mas na Diretoria do Seta ai em São Paulo tinha muitos Ratos Grandes, quando os donos acordarão já era tarde, Agora eles quer da o Golpe nos coitados dos Funcionários, o Seta me deve pouco mais e meu já entrei na Justiça pode ter certeza vou receber, se todos os funcionários das lojas que fecharão tivesse coragem não deixava sair nada das lojas nem os Caminhões vazio , enquanto pagasse os direitos trabalhista, sabe porque e tudo Patrimônio do Seta.

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