Reflexões sobre uma experiência no ensino privado

Há diversas formas de resistência à exploração no chamado pós-fordismo. Por Um Trabalhador

As coisas vão acontecendo e você vai percebendo e refletindo sobre elas, mas às vezes não se dá conta de que elas também podem ser do interesse de outras pessoas, e podem ajudar a refletir coletivamente sobre as contradições sociais. Venho fazer um relato da minha experiência recente numa escola, que pode ser útil para outras pessoas.

A situação é a seguinte: a coordenadora anterior teve de sair da escola, para o desagrado da diretora e proprietária da escola, que é muito autoritária e gostava do autoritarismo e do “pulso firme” dessa coordenadora. Entrou uma nova coordenadora. Essa nova coordenadora veio com um discurso, muito comum em empresas, de trabalho em equipe. Eu, que já fui funcionário de call center, ouvia coisas do tipo a toda hora, mas nessa escola acabei percebendo como o mesmo discurso acabou, talvez contra a vontade da nova coordenadora, servindo para desafiar a empresa.

Como a nova coordenadora, que tem uma postura mais democrática, e sempre consulta os professores sobre como eles preferem que seu trabalho seja gerido, está sob pressão constante da diretora e proprietária da escola, e como ela não aceita ser autoritária como a coordenadora anterior, que chegava a humilhar professores que não trabalhavam como a escola queria, entre outras coisas, o tal trabalho em equipe evoluiu de um trabalho em equipe em favor da empresa para um trabalho em equipe, até certo ponto, em favor dos trabalhadores. Os professores gostam dessa coordenadora (que foi colocada nessa posição, devemos lembrar, para gerir o trabalho deles) porque ela é maleável e os consulta sobre tudo, além de acatar as decisões coletivas; por outro lado, ela encontrou nessa aprovação coletiva um reforço da sua posição, diante dos comentários da diretora e proprietária de que a coordenadora anterior trabalhava melhor; por outro lado ainda, acaba que tanto a coordenadora quanto os professores conseguem, assim, resistir de certa maneira às imposições que vêm do alto e, ao mesmo tempo, organizar à sua maneira o processo de trabalho.

Não há, provavelmente, nada de revolucionário aí, mas ficamos sabendo, porém, que quando o trabalhador encarregado de funções gestoriais fica sob pressão, tendo sua competência questionada, ele pode acabar encontrando nas ideologias empresariais, que defendem o trabalho de equipe em prol da produtividade, uma brecha para desenvolver relações solidárias com os demais trabalhadores, contra seus superiores. Isso é importante, e nos mostra que a prática predomina sempre sobre a ideologia, se se materializam novas práticas sob uma roupagem ideológica contraditória, que parece deslocada.

E ficamos sabendo também que os trabalhadores podem acabar fazendo uso dessa noção de trabalho em equipe para tentar, também à sua maneira, resistir às imposições que vêm do alto, não de seus superiores imediatos mas daqueles que estão mais acima. Existem, portanto, diversas possibilidades de resistência à exploração, nos quadros do que se convencionou chamar pós-fordismo. Tais resistências não são, por si só, revolucionárias, nem necessariamente apontam para a revolução, mas podem ir cimentando lentamente a solidariedade necessária para que a luta de classes se desenvolva em estabelecimentos privados, e que além de privados pretendem introduzir técnicas de controle da força de trabalho pós-fordistas. É claro, porém, que tudo isso tem um outro lado, pois é preciso questionar: em que medida a atuação da nova coordenadora aumentou a produtividade dos professores, mesmo que a contragosto e contra a ineptidão da diretora e proprietária da escola?

E, por último, nos deparamos com mais um caso em que as relações de classe se sobrepõem às identidades, porque nos deparamos com uma mulher pressionando outra mulher, para que essa outra mulher tenha “pulso firme” com os trabalhadores (muitos deles mulheres, mas muitos também homens), como uma outra mulher tinha. Acaba que tanto homens e mulheres, interessados num processo de trabalho menos opressivo, se solidarizam e enfrentam juntos a exploração, como deve ser. E aqui termina meu relato, que espero ter sido útil. Fui vivendo essa realidade com outras pessoas e refletindo sozinho, mas agora passo para a frente a reflexão, ou seja, passo a palavra.

As fotografias que ilustram o texto são de Julian Germain.

Uma resposta para “Reflexões sobre uma experiência no ensino privado”

  1. – As Fábulas de Esopo –

    A Formiga e a Cigarra

    No Inverno, a Formiga tirava os grãos de trigo fora de sua cova para os secar, quando surgiu a Cigarra que implorava que repartisse aquela comida com ela, porque temia morrer de fome. A Formiga perguntou a ela o que havia feito durante a Primavera e o Verão, já que não guardara alimento para se manter. A Cigarra respondeu: – A Primavera e o Verão gastei cantando e brincando pelos campos. A Formiga então, continuando a recolher seu trigo, lhe disse: – Companheira, se aqueles seis meses gastaste em cantar e bailar, como se fosse comida saborosa e a seu gosto, que agora cante e dance.

    Moral da história: Enquanto houver formigas, haverá formigueiros…

    PS: Segundo Heródoto, Esopo foi escravo do filósofo Janto (Xanto), um cidadão de Samos, juntamente com uma outra escrava chamada Ródope…

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