Navegando no cenário econômico e em acordos políticos, a pipa voa entre interesses dos gestores e a pressão das bases. Por Primo Jonas

Antecedentes

Dia 6 de Abril, quinta-feira passada, foi dia de paralisação nacional na Argentina convocada pela CGT (Confederación General del Trabajo), a central sindical “oficial” do país. Seus precedentes mais imediatos e relevantes no contexto político neste ano de 2017 foram:

* Dia 07 de Março – em uma marcha convocada pela CGT onde a expectativa geral dos setores mobilizados era a definição de uma data de paralisação nacional, a cúpula da central adiantou o horário das intervenções no palco e se retirou rapidamente. A manobra foi tomada como uma grande afronta por boa parte dos mobilizados, que terminaram irrompendo com violência e invadiram o palco, com gritos contra a burocracia e pela determinação de uma data. (Um bom relato dos ânimos e dos eventos pode ser lido em espanhol aqui, do mesmo autor do Sessentaço ).

* Dia 08 de Março – Marcha do Dia da Mulher, multitudinária e com conteúdo radicalizado – reflexo da grande mobilização e organização das mulheres na Argentina (seu encontro nacional de mulheres já vai pela 32ª edição) – é reprimida no centro da cidade. A polícia adota a tática de prender mulheres pela zona para aterrorizar e desmobilizar sem critérios. Para entender isso é necessário ter em mente que o governo atual embora tenha uma linha ideológica neoliberal, costura suas alianças com alguns setores da extrema-direita, especialmente o catolicismo organizado que polariza com grandes tensões contra o movimento de organização das mulheres.


* Greve docente, 22 de Março – As práticas estatais-sindicais tradicionais do peronismo foram retomadas com os governos kirchneristas, com isso o retorno do mecanismo das paritárias: negociações salariais com representações do governo, dos patrões e dos trabalhadores. Cada categoria tem uma “data-base” particular, e os trabalhadores são representados pelo seu sindicato “oficial” (em alguns casos particulares a correlação de forças obriga a uma representação mais plural de sindicatos). A paritária dos professores é a primeira do ano e costuma ter um grande peso político pois as paritárias seguintes sempre são debatidas fazendo-se referência às anteriores (estamos em um país onde a inflação está acima dos 20% há quase um década, com uma possível exceção de 2009). Este ano a luta está encarnada, pois a base kirchnerista está mobilizada para “combater Macri”; o governo está oferecendo míseros 19% de aumento, quando a inflação de 2016 foi calculada em 40% (sem contar o que já foi perdido nas últimas paritárias). No dia 22 de Março foi realizada uma mobilização massiva na cidade de Buenos Aires, que reuniu entre 200 e 400 mil pessoas na Plaza de Maio.

A CGT

A CGT é a principal central sindical do país, congregando sindicatos de peso como o de Caminhoneiros (talvez a maior máfia do país, poderosos por seu poder de travar todo o transporte e acessos viários do território), a UTA (transportes como trens, ônibus, metrô), a UOCRA (construção civil), UOM (metalúrgicos), SMATA (automotrizes), UTHGRA (gastronômicos e hotelarias), UATRE (trabalhadores rurais e estivadores), La Bancaria (bancários), entre outros. A condução da CGT é sempre resultado de uma grande negociação dos grupos de poder. Hugo Moyano, principal figura do sindicato de Caminhoneiros, atual presidente do clube de futebol da primeira divisão Independiente, esteve na cabeça da central de 2000 até 2016. Durante os governos da Cristina Kirchner (2007-2015) foram um total de 5 paralisações nacionais convocadas pela CGT, todas contra o Imposto sobre o Salário, um imposto que é cobrado sobre os salários médios e altos – que afetam principalmente os setores da classe trabalhadora que mais estão representados nas entidades sindicais clássicas.

Atualmente a CGT é conduzida por um “triunvirato” – forma que foi encontrada de agradar os distintos setores do poder sindical (a divisão da CGT em linhas como “oficial x disidente” ou “Azopardo x Balcarce” [ruas das sedes] é bastante frequente na sua história – para não falar da criação recente de outras centrais, como a CTA). Encabeçam o triunvirato gestores advindos dos sindicatos de trabalhadores da Saúde, Postos de Gasolina e Zeladoria. O começo do mandato Macri no governo federal foi de aliança tácita com a CGT, em uma postura de “dar chance” ao novo presidente, poupando qualquer tipo de crítica às primeiras medidas. Mas com o rápido desgaste econômico, o agravamento da inflação (que seria combatida com prioridade, dizia a campanha) e os enormes aumentos das tarifas de serviços essenciais, somado aos inúmeros conflitos em locais de trabalho, fechamento de inúmeras empresas e fábricas, demissões generalizadas pelo país; o triunvirato não pode mais sustentar a estratégia de realizar reuniões com o Ministro do Trabalho, com as tradicionais fotos em que a equipe do governo aparece sorrindo para demonstrar predisposição e diálogo, enquanto os sindicalistas aparecem sisudos para demonstrar sua combatividade – e começa o ano de 2017 rompendo publicamente com o governo Macri, criticando suas medidas e ameaçando com uma paralisação nacional.

A pipa e a paralisação

A CGT funciona como uma pipa (barrilete em espanhol), voa para qualquer direção segundo o vento. A estratégia dos partidos da esquerda marxista, os mais importantes sendo trotskistas, é disputar o sindicalismo e portanto denunciar a burocracia para “recuperar os sindicatos para a luta operária”. Essa concepção estratégica, somada ao enquadramento corporativista do mundo sindical e da herança peronista, faz com que as principais ações de boa parte da esquerda seja pressionar a CGT para que ela se coloque ao lado dos trabalhadores. Isso a nível discursivo e público, pois todos os militantes e a maioria dos trabalhadores sabe que se trata de uma máfia – perigosa – que tem interesses completamente diversos dos da maioria da população. Navegando sempre no cenário econômico e nos acordos políticos, a pipa voa entre os interesses do mundo dos gestores e a pressão das bases. Mas não de qualquer base, como se as massas estivessem nas ruas prontas para derrocar a “camarilha sindical”. Se tratam das próprias bases da CGT, das oposições nas diferentes seccionais da central – sejam elas compostas por partidos e organizações de esquerda, seja por uma camada alternativa de burocratas tradicionais. Esta é a base que realmente comove a CGT e por isso ela as vezes se vê obrigada a “responder às bases”.

Por um lado uma grande parte da população está já acostumada com as paralisações nacionais convocadas pela cúpula da CGT – este do dia 06 foi o quadragésimo (40ª) desde o fim da ditadura civil-militar (1983) –, como disse na TV um dos dirigentes, “só a CGT para o país”. De fato, principalmente através da paralisação nacional dos transportes, a central consegue impor uma taxa de adesão bastante grande, mesmo sem assembleias nem nenhum tipo de discussão de base: os trabalhadores simplesmente não conseguem chegar aos seus postos de trabalho. Como de costume, o 6A foi uma paralisação “passiva”, “domingueira”, na qual a central não convoca nem sequer a uma mobilização no “manifestódromo” porteño, da praça do Congresso à Plaza de Mayo (ou vice-versa). A tradição dos partidos de esquerda marxista e movimentos sociais é transformarem a paralisação de passiva em ativa, realizando piquetes nas principais vias de acesso à capital. Mas para isso é necessário contar com ônibus contratados que levam os militantes aos pontos de concentração, já que não há nenhum transporte público disponível. Assim, ainda que a CGT seja uma pipa, é uma pipa que consegue travar o país, e é bastante claro que o efeito da paralisação dos transportes é muito mais efetivo do que os piquetes realizados pela esquerda. A maior parte dos trabalhadores, no entanto, fica alheia ao que é considerado uma disputa de poder das cúpulas gestoriais e de realizações heroicas de pequenos setores militantes e partidos que tentam ganhar visibilidade na brecha aberta pela CGT ao paralisar e não convocar à mobilização. Embora a grande maioria da população já perceba a deterioração da economia – em oposição ao discurso do governo –, a paralisação nacional de cúpula continua a não convencer como forma de lutar por melhores condições de vida. Talvez uma diferença relevante com o Brasil seja a ausência de ataques tão estruturais como o são as reformas legislativas. Também a fragmentação sindical brasileira talvez tenha como efeito colateral a despersonalização das iniciativas de cúpula, que na Argentina ficam muito associadas a personagens específicos (e portanto se tornam alvos mais fáceis das imprensa de tal ou qual grupo burguês-gestorial).

Fica escancarada, mais uma vez, a dependência dos aparelhos sindicais para realizar grandes jornadas de disrupção na marcha normal da exploração do trabalho, os mesmos aparelhos que também ajudam a garantir essa normalidade. Às esquerdas, o caminho tortuoso da intervenção no movimento sindical.

2 COMENTÁRIOS

  1. A pipa aqui não voa, mas faz vento!
    A Pipa é assim, para onde o vento soprar, ela “avoa”. Aqui não é assim também? A diferença é que, a CUT e seus acessórios, embora não tenham capacidade/vontade alguma de dirigir a direção da pipa, produzem seu próprio vento. A pipa aqui não voa, mas faz vento!

  2. NA PANCADA DO GANZÁ
    Mais um texto – informativo e enérgico, no melhor sentido – do competente e performativo PJ.

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