Um olhar sobre a onda de greves no setor de logística na Itália (parte I)

Um olhar sobre a onda de greves no setor de logística na Itália (parte I)

em 1 ago

Num cenário defensivo das lutas da classe na Europa contra os cortes e a “austeridade”, os trabalhadores de galpões da Itália conseguiram virar o jogo contra os patrões e avançar para enfrentamentos ofensivos. Por Angry Workers of the World

Em maio de 2015, alguns de nós do Angry Workers of the World estivemos em Bolonha para conhecer os trabalhadores envolvidos na recente série de enfrentamentos no setor de logística. Lá ocorreram lutas importantes contra gigantes como a TNT, DHL e IKEA e em muitos casos (ainda que não em todos) eles conquistaram melhorias substanciais, como maiores salários, turnos fixos, pagamento em caso de doenças e maior dignidade no trabalho. Queríamos ter uma ideia de como era a organização deles, a dinâmica do movimento e a atmosfera social em geral. A gente vem tentando se organizar com nossos colegas de trabalho nos galpões do Oeste de Londres, então temos um interesse imediato e prático, afinal queremos aprender com outras experiências – mas, além disso, nós também queríamos ver se as formas de luta e organização teriam aberto novos caminhos em direção à auto-emancipação dos trabalhadores.

Ainda que tenhamos ficado lá por só 6 dias e tido alguns problemas na tradução, temos algumas questões importantes, e por isso decidimos escrevê-las. Nós também destacamos o contexto mais amplo no qual essas lutas aconteceram e sua relevância aos trabalhadores no Reino Unido. Se alguém falar italiano e conhecer mais sobre a situação na Itália, nós adoraríamos ouvir suas reflexões, então entre em contato – com nosso italiano tosco, é possível que tenhamos entendido errado algumas coisas! Vamos resumir este artigo na próxima edição do jornal operário que temos aqui, o WorkersWildWest [1], por isso é ainda mais importante que os fatos e a perspectiva estejam corretos. Por favor comentem!

Ditching the Fear é um filme recente sobre essas lutas na Itália [2]. Se você perdeu o filme durante a “temporada” que a gente organizou há alguns meses, não perca as próximas exibições que faremos no outono – ou entre em contato se você quiser organizar uma exibição na sua cidade. Há também uma entrevista com militantes do SI Cobas na internet [3]. As citações usadas no artigo foram tiradas de lá. Nós também usamos como referência o artigo de Ana Curcio, Revolution in Logistics [4].

1. Significado político

Por que achamos que essas lutas merecem atenção?

a) Num cenário amplamente defensivo das lutas da classe na Europa contra os cortes e a “austeridade”, os trabalhadores de galpões da Itália conseguiram virar o jogo contra os patrões e avançar para enfrentamentos mais ofensivos – num setor novo (logística) cujo desenvolvimento está ele próprio intimamente ligado aos ataques do capital contra as antigas fortalezas operárias através da dispersão da produção. Numa conjuntura em que “para o resto dos trabalhadores na Itália, um aumento de 7 euros mensais em um acordo coletivo comum é uma grande vitória”, alguns grupos de trabalhadores chegaram a ter aumentos de 400 euros por mês. Não é pouca coisa!

b) Os trabalhadores envolvidos foram, em sua maioria, homens imigrantes, em geral da Índia e das regiões norte, leste e subsaariana da África. É comum que os imigrantes sejam culpados pela tendência de queda dos salários e, como tal, tornem-se facilmente um bode expiatório contra mazelas da crise capitalista. Mas aqui eles foram os principais protagonistas contra os maus pagamentos e pioras das condições de trabalho – que eles estão tentando impor contra todos nós. A divisão entre trabalhadores “italianos” e imigrantes foi posta em questão pela base.

c) Os trabalhadores estão atacando dois elementos importantes do atual regime capitalista: uma rede multinacional (ex. IKEA, DHL, TNT) que faz tanto uso da tecnologia moderna (cadeia logística GPS) e estratégias de localização (a “Walmartização”) quanto de estruturas informais, coercitivas e semi-legais como os pools de cooperativas e mercados informais de dias de trabalho. Hoje em dia muita gente vive essa combinação de “tecnologia eletrônica inteligente” e superexploração: por trás dos aplicativos amigáveis ao usuário e lojas online se esconde um universo de precários motoristas de Uber, peões da Amazon e operadores de call centers. As lutas proletárias podem fazer essa contradição entre o potencial tecnológico e a realidade de miséria explodir.

d) Até um certo ponto, essas lutas recompuseram a esquerda na Itália (junto a outras, como o movimento No TAV [movimento contra a construção de um trem de alta velocidade entre Itália e França], as lutas contra despejos etc). O sectarismo usual dos grupos de esquerda, que existe em todo lugar, teve de ser superado quando eles se ligaram a um enfrentamento real em curso. Grupos envolvidos em diferentes centros sociais, diferentes cidades e tradições políticas entenderam a importância de apoiar aqueles trabalhadores e trouxeram diferentes experiências e estratégias aos piquetes e ao debate político em geral. Formou-se uma “comunidade da luta”, o que ajudou a superar barreiras entre as diferentes “comunidades de origem”.

e) O papel do sindicato de base [no original, rank-and-file] SI Cobas – como a principal ferramenta organizativa através da qual essas lutas ocorreram – é algo que merece maior atenção. Com o apoio aos grandes sindicatos diminuindo na maioria dos países da Europa, muito tem se falado sobre a ascensão desses sindicatos menores, de base, que serviriam mais aos interesses dos trabalhadores, bem como seriam mais dirigidos pelos próprios trabalhadores. O recente surto de crescimento nas filiações da IWW [Industrial Workers of the World] no Reino Unido é um exemplo desse apetite renovado em encontrar formas de organização que sejam mais basistas e controladas pelos trabalhadores. Ao longo dos últimos oito anos, o SI Cobas conseguiu crescer de 0 a 10 mil membros apesar da repressão estatal e da intensa pressão sobre os trabalhadores para que ou bem lutassem, ou então que se calassem. Nos últimos meses, foram abertas várias novas sedes sindicais – em Modena, Ferrara, Pavia e outros lugares. Como, e de que maneira, podemos nos relacionar com essas estruturas de organização dentro de nossas próprias estratégias organizativas e perspectivas políticas?

Vamos aprofundar essas discussões a seguir, mas antes, um pouco de conjuntura:

2. Conjuntura geral da Itália

As lutas de trabalhadores de logística nos últimos anos aconteceram em Milão, Piacenza e Bolonha, e Verona e Pádua no nordeste do país. Esses centros de circulação de mercadorias são também diretamente conectados ao porto de Gênova (no litoral leste do país) e Veneza (no oeste). Muitos produtos do Oriente Médio e do Norte da África são distribuídos através desses portos, por exemplo frutas, vegetais, roupas. IKEA, Amazon e outras grandes companhias estabeleceram galpões nessa região do Vale do Pó. Durante os anos 1990, pagava-se em média 2 mil euros ao trabalho nos galpões, hoje o salário caiu para 800 euros.

Condições de trabalho

As condições de trabalho nos galpões nessa região eram/são ruins: pessoas chegam a passar mais de cinco horas nos portões esperando para saber se vão ser necessárias ou não; alguns trabalhadores têm que fazer interrupções de quatro horas (não pagas) dentro de um galpão antes de serem chamados para trabalhar de novo; horas extras são compulsórias e turnos são cancelados abertamente como forma de punição para quem não quer trabalhar nos finais de semana; grandes companhias de propriedade cooperativa cortaram 35% dos salários “por causa da crise”; algumas pessoas trabalham 12 horas e são pagas por 4; o trabalho é pesado e lesões nas costas são um lugar-comum; assédio sexual (às trabalhadoras mulheres); o assédio moral é generalizado; erram as contas nos holerites.

“Todo mundo era pressionado a trabalhar mais rápido. Tinha um supervisor que, dia e noite, gritava: ‘vamos, vamos, vamos’, igual um disco riscado! Duzentas pessoas faziam o trabalho de quinhentas, então eles economizavam os gastos que teriam com trezentas pessoas. Durante cinco anos, a TNT gozou dos melhores níveis de produtividade da Itália, mas ninguém foi lá ver sob quais condições. Os chefes tiravam um lucro alto e os trabalhadores eram maltratados e ficavam doentes. É uma forma de escravidão. Quando eu sugeri às pessoas que nós deveríamos dizer não, eles diziam que não podiam por medo de perder seus empregos” (Mohamed, trabalhador da TNT)[5]

“Um dos supervisores, um cara mais velho, passava pelas meninas que tinham a minha idade… meninas de vinte, vinte e um anos. E ele falava pra elas, especialmente para às do Marrocos: ‘eu gosto das mulheres marroquinas. Vocês são todas tão vadias’. Se você não conseguia colocar as coisas no lugar certo, ele dizia: ‘ou você coloca no lugar certo ou eu meto na sua bunda!’. Ele falou a uma colega de trabalho: ‘Você é a próxima que vai chupar meu pau’”. (Trabalhadora da Yook)

Cooperativas

Um quarto do total da força de trabalho de logística na Itália está empregada sob o regime de “cooperativas”, muitas das quais hoje têm um funcionamento muito parecido com uma agência de trabalho temporário. Elas foram originalmente formadas no fim do século XIX na Itália por trabalhadores como uma forma de autodefesa para escapar tanto das piores formas de exploração quanto de ter que emigrar do país. Devi Sacchetto escreveu que, no início dos anos 1920, o sistema de cooperativas estava estabelecido tão firme, particularmente no Nordeste e Centro da Itália, que nem mesmo o regime fascista ousou destruí-lo. Nas últimas décadas, porém, as cooperativas se proliferaram e, conforme expandiram sua participação em novas atividades, elas passaram a servir como subcontratadoras para grandes empresas nacionais e multinacionais. Com essa mudança, as condições de trabalho nas cooperativas piorou muito – tanto para trabalhadores-associados quanto para não-sócios. [6]

3. SI Cobas

O SI Cobas, que é um sindicato de base, tomou a decisão estratégica de fazer contatos com trabalhadores nesse setor. Eles são um sindicato que defende a auto-organização para além de categorias ou setores.

“A história do Cobas remete às lutas da década de 1970. Nós tivemos experiências de lutas em fábricas de Milão, algumas das maiores da Itália. Nós tivemos experiências de lutas operárias massivas.” (Aldo, militante do SI Cobas)

“Nosso sindicato Cobas foi formado nos anos 1990 na planta da Alfa Romeo. À época, chamava-se SLAI Cobas. O SLAI Cobas cresceu principalmente no setor metalúrgico. Mas não tinha uma perspectiva clara de luta de classe. Nenhuma perspectiva de uma forma mais abrangente para se organizar, nem de mesmo uma forma setorial. O sindicato não cresceu fora da Alfa Romeo. Agora nós começamos a espalhar essa ideia entre os trabalhadores, o conceito de luta de classes, de solidariedade de classe e de ampliar o máximo possível a organização da luta,” (Daniele, condutora de ônibus e militante do SI Cobas)

Trabalhadores de logística foram atraídos a esse sindicato porque:

a) Eles apoiaram ativamente a minoria de trabalhadores que auto-organizou greves (primeiramente reunindo apoiadores externos para bloquear os portões do lado de fora como uma forma de construir apoio dentro das fábricas);
b) Eles ofereceram apoio jurídico, que é algo que interessa particularmente os trabalhadores imigrantes.
c) Sua atitude combativa era marcadamente diferente do histórico dos demais sindicatos já presentes no setor.

No filme, dois trabalhadores dizem:

“Eu fui membro do CGIL durante dez anos. Eles só se importavam com taxas de filiação e recebiam suborno.” (Trabalhador da Sole Montagna)

“Eu fui duas vezes ao CGIL em Bolonha e eles me disseram: ‘É melhor você mudar de emprego. O problema é muito grande, nós não conseguiríamos fazer nada lá’. Até que encontramos um sindicato que disse: ‘Nós podemos resolver isso’.”

Quando procurado por um trabalhador ou um grupo de trabalhadores que querem fazer alguma luta, o SI Cobas fala para eles próprios organizarem uma greve, e o sindicato vai apoiá-los levando militantes para os portões e colocando-os em contato com outros trabalhadores de galpões. Eles também cuidam dos procedimentos legais da greve.

“As pessoas dos grandes galpões foram até as que trabalham nos pequenos galpões e disseram que tinham tido vitórias na luta por seus direitos, e que elas não estavam sozinhas. Se precisassem de apoio de outros galpões, todos eles viriam para ajudar. Foi assim que aconteceu em Piacenza, na IKEA. Pouca gente tinha protestado e aderido à greve, só dez dos trezentos trabalhadores de lá. Mas vieram pessoas de outros galpões para apoiar a luta!” (Karim)

Quando a greve/piquete começa, o SI Cobas manda seus delegados, que, até onde conseguimos ver, cumprem um papel de coordenação, fazendo falas para inflar o moral e espalhar uma mensagem mais “política”, bem como negociar com os patrões etc.

A gerência tenta contornar as táticas de piquete mas, até agora, o SI Cobas vem fazendo um trabalho bastante bom em adaptar suas estratégias conforme o necessário – embora já possamos ver que quando precisam se expandir para um galpão associado mais distante, torna-se mais importante que os trabalhadores “de dentro” estejam envolvidos e que os os piquetes feitos por militantes “de fora” acabam ficando forçados.

“Tome o exemplo da DHL na Itália: quando essas lutas começaram, nós tivemos alguns problemas. Quando os trabalhadores bloquearam um galpão em Milão, a DHL o fechou e transferiu as mercadorias para outros galpões em Bolonha, Nápoles, ou qualquer outro lugar. Eles fecharam o galpão de Milão temporariamente até que os trabalhadores se cansassem e voltassem pra casa. Mas os trabalhadores não esperaram até que os portões fossem reabertos, eles se dirigiram até os galpões de outras cidades e distribuíram panfletos. Eles incentivaram os trabalhadores da DHL em outras cidades a entrarem na luta. E imediatamente, em menos de um mês, tinha cartazes em todo lugar e toda a região estava em greve.” (Karim)

Até o momento, há cerca de cinquenta trabalhadores que foram demitidos por serem membros do SI Cobas. Eles são em parte sustentados pela “caixa de resistência”, que é um fundo da luta para qual os membros contribuem. Os principais enfrentamentos são para melhoria dos salários e condições – particularmente em relação a conseguir que um acordo nacional, que os principais sindicatos assinaram com os patrões do setor, seja implementado. O reconhecimento do SI Cobas é algo que também entra em disputa, pois os empregadores não reconhecem o sindicato como interlocutor para assinar contratos até serem forçados a fazê-lo (graças aos piquetes).

Traduzido por Passa Palavra a partir do original inglês publicado pelo grupo Angry Workers of the World em julho de 2015. Este artigo será publicado semanalmente em três partes:
Parte I: Introdução
Parte II: Semelhanças e diferenças entre a Itália e Inglaterra
Parte III: Reflexões críticas e cronologia das lutas

Notas
[1] WorkersWildWest.
[2] O filme está disponível online em italiano com legendas em inglês em Labour Net (em setembro de 2015). O trailer pode ser visto aqui.
[3] The cycle of struggles in the logistics sector in Italy, entrevista com o SI Cobas no Labour Net.
[4] The Revolution in Logistics, Anna Curcio.
[5] The Revolution in Logistics, entrevista com Mohamed Arafat.
[6] Strinking against cooperatives: migrants lead the way.


Comentários 2

    • Marco Túlio

      |

      ago 1, 2017

      |

      Ditching the Fear é um filme recente sobre essas lutas na Itália [2]
      O filme está nesse link aqui http://en.labournet.tv/ditching-fear-0
      E não mais no que está nas notas do artigo

    • |

      ago 2, 2017

      |

      Caro Marco Túlio,

      Agradecemos pela indicação da falha no link. Já corrigimos.

      Cordialmente,
      Coletivo Passa Palavra

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