Os rastros do atraso

Os rastros do atraso

em 22 nov

O rangido intenso da madeira compete com o rasgar das cordas vocais. Mas, tudo parece bem. Por Tomé Moraes

2 dias de salário atrasado!

As portas se fecham para o espetáculo em uma faculdade privada na zona oeste de São Paulo. A barafunda toma conta no interior da instituição cuja luz direta aparece um tanto sem foco. As cobranças para o fechamento de notas e a resolução das provas iluminam o celular que teima em vibrar no meu bolso a cada email da coordenação recebido. “Caro professor, favor preencher as notas e as faltas no sistema em até 24 horas. Contamos com a sua colaboração. A Faculdade agradece seu empenho.” São mais de 400 estudantes, mas tudo parece bem…

5 dias de salário atrasado!

Gizes e uma pilha de diários de classe dividem uma mesa. Assim como a conjugação entre o Estado Amplo e o Estado Restrito ocorre por entre o Fundo de Financiamento Estudantil (FIES) e os inúmeros “incentivos” proporcionados pelos administradores deste negócio. Entre salário, preço e lucro, tudo parece bem…

7 dias de salário atrasado!

Logo, não é de se estranhar a participação dos gestores ao juntar diferentes semestres e cursos em uma mesma sala de aula. Força de trabalho organizada e aumento da produtividade garantido. Muitos estudantes sentados (quase uma centena por sala) e uma pessoa de pé no alto do tablado. O rangido intenso da madeira compete com o rasgar das cordas vocais. Mas, tudo parece bem.

10 dias de salário atrasado!

Um breve aceno de cabeça a outro companheiro de profissão. A resposta imediata se dá com o polegar para cima, seguido por um brusco movimento no sentido inverso. O dedo vai do céu ao inferno. Alguns profissionais receberam, outros tantos não. Júlio César, Napoleão e companhia devem estar orgulhosos de seus ensinamentos: dividir para conquistar! Mas, tudo parece bem.

12 dias de salário atrasado!

Ao sair da aula, um grupo de estudantes se aproxima para pedir orientação de TCC. Não há pagamento para tal atividade – realizada fora do horário de aula. Enquanto a mais-valia corre solta, a porta do elevador se abre. Dentre as pessoas, está uma professora. Seguro a porta do elevador antes de seu fechamento e, por entre o vão, pergunto se caiu o pagamento. Murmurando, responde que ainda não. Sua boca se movimenta e ainda consigo enxergar o movimento de um “É foda!”. Ela sobe, eu fico no mesmo andar. Mas, tudo parece bem.

15 dias de salário atrasado!

Fui tentar conversar com outros professores. Alguns rapidamente desviaram o olhar quando citei a palavra “pagamento” e rapidamente afirmaram que esse mês já haviam recebido. Sem qualquer tipo de explicação dos motivos do atraso, resolvi fazer uma tímida visita ao DP. Calma! Não fui ao Distrito Policial, mas ao Departamento Pessoal. O responsável informou que não há previsão de pagamento e tudo dependerá das mensalidades que irão entrar na receita da instituição. Nada mais óbvio, dentro deste tipo de racionalidade do que jogar a culpa no alto índice de inadimplentes. Como diz Brecht, “apague os rastros!”. Mas, tudo parece bem.

… dias de salário atrasado!

… dias de salário atrasado!

… dias de salário atrasado!

Sobre o autor:
Tomé Moraes é trabalhador da educação, hoje empregado no ensino privado. Já escreveu, neste mesmo site, uma análise sobre o Escola Sem Partido e outra sobre a compra de algumas escolas.


Comentários 1

    • GEROLOMO, A. C.

      |

      nov 25, 2017

      |

      Bom artigo professor. Porém, acredito que faltou no nome da instituição (escola). Com o estado restrito todo mundo mete a cara. Já com o estado amplo, falamos com meias palavras, temos medo dos empresários. Segundo J. Bernardo o estado amplo faz as leis, executa e condena. Com as devidas desculpa, talvez é por este motivo que o nome da escola não foi citado. Podemos entender.

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