O Exército Vermelho

O Exército Vermelho

em 21 dez

É preciso que a população sinta imediatamente que se trata de um Exército Vermelho e não de um exército russo. Por Mikhail Tukatchevsky

APRESENTAÇÃO

Mikhail Tukatchevsky, subtenente do exército tsarista russo a partir de 1914, decidiu desertá-lo em 1917 para integrar o exército revolucionário. Aderindo ao partido bolchevique em 1918, fez longa carreira no Exército Vermelho, tornando-se marechal em 1935. Sob seu comando, e seguindo ordens do Partido Comunista, deu-se o dramático e polêmico episódio em que o Exército Vermelho reprimiu violentamente a revolta dos marinheiros de Kronstadt, em 1921, poucos meses depois de escrito o texto que ora apresentamos, o qual, por sua vez, é parte de um debate realizado na Sociedade Militar Científica. Sob o comando de Tukatchevsky, também, o Exército Vermelho conheceu inúmeras e importantes vitórias contra os exércitos tsaristas.

A presente tradução foi feita a partir da publicação de “L’Armée Rouge”, em 1959, no número 86 da revista francófona IV Internationale (vinculada ao Comitê Francês da IV Internacional), em maio de 1959. Assim como consideravam os editores da Revista há quase cinco décadas, o texto de Tukatchevsky interessa ao leitor de hoje não por retomar anacronicamente um velho debate – qual seja, sobre o sistema militar mais adequado e suas tarefas na Rússia Soviética –, mas porque nos mostra “em que espírito foi constituído, no tempo de Lênin e Trotsky, o Exército Vermelho”. Esse espírito, tão distante de nós no presente, era o da possibilidade real e viva de que a Revolução Socialista se espalhasse por todo o planeta, era o espírito do internacionalismo (estava-se ainda alguns anos antes da tese de Bukharin e da política stalinista do “socialismo em um só país”). Era também o espírito da transitoriedade: o fim do Estado e do aparelho militar figuravam ainda no horizonte revolucionário.

Na ocasião de sua publicação na IV Internationale, o artigo de Tukatchevsky era precedido da introdução que segue abaixo. Ambos os textos-fonte foram fornecidos pelo site marxists.org.

Tukatchevsky, uma das mais eminentes vítimas das perseguições de Stalin no período de 1936-38, foi reabilitado e encontrou um lugar na Enciclopédia Soviética. Não voltaremos aqui ao caráter das “reabilitações” atuais, que entram no quadro da política de autodefesa da democracia soviética. Chegará o dia em que as reabilitações serão completas e francas.

Pensamos ser útil publicar uma exposição de Tukatchevsky que foi editada, na época, em uma série de brochuras da Internacional Comunista. Essa exposição foi apresentada durante uma discussão ocorrida na Sociedade Militar Científica, ligada à Academia Militar do Exército Vermelho. A discussão ocorreu sob a presidência de Leon Trotsky, à época Comissário do Povo no Exército Vermelho, que a abriu com alguns comentários que expunham o objetivo da discussão: após a guerra civil vitoriosa e considerando a previsão de novas agressões, as quais a União Soviética teria de enfrentar, era preciso estabelecer certo número de regras fundamentais de doutrina do jovem exército. Ao fim da discussão, Trotsky, em uma fala final, destacou os ensinamentos desse debate. Com relação ao discurso de Tukatchevsky, criticou apenas algumas “generalizações por demais apressadas”: Trotsky não pensava que se havia visto o fim da guerra de posições; e, definitivamente, não acreditava que seria preciso condenar absolutamente o sistema da milícia. Melhores condições existirão para os camponeses e para a classe trabalhadora, dizia ele, que permitirão uma transição para a milícia.

Nossa intenção ao publicar a brochura de Tukatchevsky não é a de retomar esses velhos debates. Quisemos mostrar em que espírito foi constituído, no tempo de Lênin e Trotsky, o Exército Vermelho. É o antigo tenente da guarda do tsar, conquistado pelo vigor da revolução proletária e que se tornou o mais eminente especialista militar da jovem República soviética, quem o diz claramente: trata-se de um exército vermelho, não de um exército russo, é um instrumento da revolução mundial. Mesmo depois que os trabalhadores haviam tomado o poder e conquistado, assim, uma pátria, não se tratava de forma alguma de uma questão de “grandeza nacional” ou de outros venenos chauvinistas que os stalinistas injetam atualmente nos militantes trabalhadores. O Estado soviético e seu exército se subordinavam aos imperativos da revolução proletária internacional. Os trabalhadores soviéticos, ao reconquistarem a democracia soviética, farão justiça não somente a todos os revolucionários que foram vítimas de Stalin, como também reestabelecerão as relações entre o movimento operário internacional e o Estado soviético, tal qual nos primeiros anos da Revolução de Outubro.

O EXÉRCITO VERMELHO Mikhail Tukatchevsky
14 de janeiro de 1921

Outrora parecia perfeitamente natural e justo conferir ao Estado socialista a capacidade de defesa necessária com a ajuda de uma milícia. Hoje, esse ponto de vista é considerado de maneira cada vez mais crítica, e até mesmo rejeitado depois de uma análise profunda. Nessa questão, o passado está longe de ter o menor o papel, mas a crença na infalibilidade do conhecimento adquirido só desaparece lentamente. Essa crença conduziu muitas pessoas a não retomarem o problema em seus fundamentos, mas a considerá-lo do ponto de vista desta ou daquela generalização de um sistema insensato no seio dos dados reais de um Estado socialista. Mas há também pessoas que não apenas consideram supérfluo reexaminar esse problema, como ainda reivindicam – atendo-se à ideia uma vez concebida claramente – a aplicação imediata do sistema de milícias na Rússia Soviética.

Este artigo tem por objetivo examinar esse problema. Para isso, é necessário não apenas examinar em que medida o sistema de milícias é válido para a ditadura do proletariado, mas também a natureza do sistema de milícias e, enfim, também o sistema de exército socialista que deve responder às exigências de uma força militar realmente socialista e às suas tarefas.

DEFESA E ATAQUE

Na época da II Internacional, predominava na cabeça dos socialistas a ideia da “defesa da pátria”. As agressões armadas eram condenadas sem distinção quanto a seus motivos, objetivos ou causas. Nisso se revelava a forma especifica da luta de II Internacional contra o imperialismo. E é precisamente em razão disso que nosso problema foi esclarecido de forma um tanto unilateral. Essa luta, ou mais exatamente, essa meia-luta exclusivamente passiva contra o imperialismo raptou do proletariado a ideia da atividade, a ideia de uma ofensiva do proletariado contra a burguesia, e tornou para ele muito mais difícil a clara compreensão das consequências possíveis de tal ofensiva.

A situação militar atual da Rússia Soviética enquanto propagadora da revolução no mundo todo não é levada em consideração. Contudo, essa situação não pode jamais se apresentar do ponto de vista militar entre Estados imperialistas.

Mas os detalhes da questão não mostram somente as falhas de tal estado de espírito passivo. Todo fundamento da ideia da ofensiva militar da classe proletária contra a burguesia é, do ponto de vista militar, injustamente limitada. A II Internacional inculcou em todos a ideia de que um tal combate ofensivo não seria admissível senão no quadro restrito de um Estado. Naturalmente, em sua ampla diversidade, a vida e a revolução socialistas não se deixam reduzir a nenhum quadro. Irresistivelmente, elas se estendem pelo mundo inteiro, e sua forma de expansão durará enquanto houver burguesia.

Por qual via poderá ela atingir seu objetivo? Pela via de levantes armados no interior de cada Estado ou pela via de levantes armados de Estados socialistas contra Estados burgueses, ou mesmo pelas duas vias juntas? Isso não pode ser previsto, o desenrolar da revolução nos mostrará. Uma coisa é certa: se em alguma parte uma revolução socialista chegou ao poder, ela tem o direito indiscutível de se expandir, e tenderá, por seu poder elementar, graças a uma influência imediata sobre todos os países vizinhos, a abraçar o mundo inteiro. Seu principal instrumento será, naturalmente, seu poder militar.

Vemos, portanto, que a revolução socialista requer de seu exército a capacidade de realizar operações ativas, ofensivas no interior das suas próprias fronteiras e, se o curso das coisas obrigar, também no exterior.

O SISTEMA DE RECRUTAMENTO

A estrutura de um exército é condicionada, por um lado, pelos objetivos políticos que ele deve perseguir; por outro, pelo sistema de recrutamento em vigor. Estes são dois dados decisivos para o sistema de edificação de um exército.

No período que antecedeu à Revolução Francesa, quando os objetivos políticos, particularmente ativos, eram fixados pelos monarcas e suas cortes sem nenhuma participação popular, e quando o exército recrutava mercenários, toda a estrutura do exército – aliás, relativamente pequeno – possuía rara regularidade. A importância do exército dependia dos meios de que dispunha a corte, mais ele deveria, contudo, ser regular, pois exércitos mercenários exigem um longo e duro período de treinamento e não podem ser adquiridos rapidamente.

A grande Revolução Francesa trouxe uma virada decisiva no domínio militar.

Os objetivos políticos que, de acordo com sua natureza, eram sempre ativos iam agora ao coração das massas populares. O sistema de recrutamento sofreu a modificação mais fundamental: transformou-se em um sistema nacional e obrigatório. Ele envolveu, na Revolução Francesa, massas militares enormes, desconhecidas até então, e modificou igualmente toda a estratégia trazendo-lhe métodos que correspondiam às novas formas de exército.

Esse sistema constituiu a base de todos os exércitos europeus dos séculos XIX e XX.

Os alemães foram os primeiros a conceber teoricamente essas normas formas e a fazer desse princípio o fundamento de seu “povo armado”.

Esse sistema desenvolveu-se de maneira ininterrupta. A importância dos exércitos em tempos de paz modificou-se pouco; por outro lado, o tempo do serviço diminuiu pouco a pouco, o que tinha por consequência que camadas cada vez maiores da população tornavam-se úteis ao militarismo. Em caso de guerra, convocavam-se essas massas de reservistas treinados e, assim, uma fração enorme da população, contando vários milhões de homens, podia imediatamente partir em campanha.

O desenvolvimento desse sistema de exército nacional deu-se paralelamente ao desenvolvimento da indústria, da técnica, dos transportes, etc. O manejo desse exército colossal implicava uma rede ferroviária amplamente implantada e planos elaborados nos menores detalhes.

Entretanto, os núcleos propriamente ditos do exército não eram mais tão capazes de fazer a guerra, nem eram tão resistentes quanto antes. Com a diminuição da duração do serviço, a qualidade da instrução do exército e seu valor também haviam diminuído. Tudo isso levou a um rápido aperfeiçoamento dos meios militares, técnicas para reforçar o moral da tropa ou, mais exatamente, para compensá-lo. Nos últimos tempos, a técnica militar conheceu sucessos inesperados.

Esse estado de coisas levou igualmente ao uso de meios técnicos cada vez maiores para as necessidades de mobilização e, por outro lado, a não colocar à disposição do núcleo do exército senão meios insignificantes. De fato, se pensarmos um instante na importância que têm os automóveis, os aviões, etc, é evidente que esses meios técnicos, que são da maior importância para o Estado, não podem ser retirados da vida de modo permanente e não podem ser atribuídos ao domínio militar senão no início da mobilização.

Assim também, tornou-se impossível, ao longo tempo, ocupar o setor produzido com a produção de equipamentos militares. Teria sido necessária, para isso, a metade de toda a indústria. Também não se empregava, por exemplo, a indústria para a produção de armas de fogo individuais em uma escala conveniente senão a partir da mobilização. O mesmo valendo para todos os outros domínios do equipamento militar.

A nação investia cada vez mais suas forças na vida econômica do país. Mas, desde o decreto de mobilização, ela organizava-se em função da guerra. Qualificou-se muito justamente esse sistema de sistema do “povo armado”.

Em geral, proporcionalmente ao crescimento da população e à elevação do nível da técnica e da indústria, desenvolvia-se também o exército. Este, insignificante em tempos de paz, dilatava-se nos dias da mobilização, até tomar proporções gigantescas. A estratégia também teve que se adaptar a esse sistema. Em sua forte dependência dos caminhos de ferro, ela tornou-se muito menos livre e cada vez mais ligada às dimensões do exército e da técnica. A instrução do exército foi cada vez mais negligenciada, ao passo que a do Estado-maior passava ao primeiro plano; a tática dependia quase que inteiramente da exatidão dos cálculos e do grau de precisão com que as tropas podiam ser deslocadas pelos caminhos de ferro. Os enormes e pesados exércitos de massa tornavam sempre mais difícil a condução ativa da guerra, sobretudo quando não se tinha à disposição uma técnica de primeira ordem e uma rede ferroviária adequada e amplamente ramificada.

Essas condições fixavam os limites do crescimento do exército, que devia ajustar-se ao desenvolvimento industrial do país. Com o crescimento da indústria podia-se, então, elevar a forma numérica das forças armadas. Com um desenvolvimento extremo da técnica e da indústria, devia-se também, portanto, poder elevar o exército a uma grandiosidade máxima; com uma técnica militar extremamente aperfeiçoada, a qualidade de um exército poderia, quase que inteiramente, ser substituída por sua quantidade. Com uma rede ferroviária ideal, um exército tão gigantesco, mesmo se ele considerando as dificuldades de manobra, poderia, com o auxílio de uma direção militar bem instruída, executar os movimentos mais complicados. Tal exército, compreendendo, em tempos de guerra, toda a população masculina, não a desviaria, contudo, do trabalho produtivo em tempos de paz. Se tal organização devia levar a uma frágil instrução das tropas, ela devia, todavia, graça aos aperfeiçoamentos técnicos, poder resolver apropriadamente as tarefas ativas e reduzir o adversário por seu número e sua técnica.

Que limite impõe-se, então, ao desenvolvimento da ideia de um exército burguês baseado no alistamento geral, nacional?

Esse limite, ao qual se chamava “sistema de milícias”, fora reconhecido inconscientemente.

Produziu-se, contudo, um mal-entendido. A ideia de um exército de milícias não surgiu como a sequência lógica do pensamento militar anterior, mas emergiu por acaso e de modo inesperado no campo socialista, e foi aí que ela se implantou – nesse mesmo campo em que se havia combatido os adeptos do “povo armado”.

A reivindicação da milícia estava já inscrita nos programas democráticos de 1848. A ideologia democrática ignora as classes: ele não conhece senão o “povo” unido, cujos direitos foram usurpados pelos “tiranos”, pelo “Estado”, etc. A defesa das “liberdades populares” requer um “exército popular”.

A ideia do “povo armado” e a ideia da milícia – esta não sendo, a bem dizer, senão o desenvolvimento lógico daquela, mas não tendo sido conhecida como tal por nenhum de seus adversários – essas ideias foram, durante muito tempo, extremamente opostas.

Por que o sistema da milícia foi combatido tão violenta e obstinadamente pelos dirigentes do exército regular? Será, sobretudo, porque um exército gigante, com sua frágil disciplina, assustava os especialistas militares? Tal suposição não pode ser fruto senão de um julgamento primário. O que se temia era muito mais que o exército de milícia não pudesse cumprir a pé movimentos de alguma importância; de fato, o nível da técnica não havia permitido até aqui, em nenhum país, o uso do enorme exército de milícia como uma força móvel capaz de ação, pois, para isso, os caminhos de ferro, automóveis e outros meios de transporte eram ainda insuficientemente desenvolvidos. O corpo dos oficiais, educado em seu conjunto com convicções imperialistas, não podia aceitar o exército de milícia, que é, por natureza, passivo e destinado unicamente a missões defensivas. Os comandantes não tinham o que fazer com tal exército. Eles sonhavam com conquistas e campanhas vitoriosas.

Também a II Internacional defendeu naturalmente o sistema da milícia em sua luta contra o imperialismo. Esse sistema tornou-se uma tradição para os socialistas. Pouco a pouco, esqueceu-se completamente do verdadeiro objetivo de um exército: não se pensava em uma guerra socialista ativa e considerava-se como principal tarefa do exército estar o mínimo possível a cargo da economia.

Dessa forma, resultou dessas questões importantes um mal-entendido permanente. Uma das partes não quis reconhecer que o sistema da milícia era o sistema militar mais consequente, o mais poderoso do Estado burguês na etapa máxima de seu desenvolvimento capitalista, ao passo que a parte adversa, em seu combate às ambições capitalistas, tentava valorizar o sistema da milícia, o qual, devido ao nível relativamente baixo da indústria, não era utilizável senão para fins defensivos. Nesse combate, perdeu-se a compreensão do verdadeiro papel de todo exército, e sucumbiu-se à crença fanática de pertencimento do exército de milícia à ordem social socialista.

Hoje, à época da edificação socialista, restam ainda muito partidários dessa velha ideia, dessa velha superstição. Esses adoradores da milícia não fazem nem mesmo o esforço de examinar por uma análise o significado desse problema para o país e para a classe. Obstinadamente e sem reflexão, eles exigem a introdução imediata do sistema de milícia na Rússia soviética. Não admitem que toda nova ordem social, e em particular quando esta sucede a poderosas convulsões revolucionárias, torna também necessário um novo sistema militar.

Tentemos examinar de mais perto o problema das forças armadas de um Estado fundado sobre a ditadura do proletariado.

É evidente que o proletariado saído vitorioso da luta de classes não pode recrutar seu exército pelo serviço militar obrigatório e nacional. Seu recrutamento não pode ser fundado no alistamento obrigatório senão das classes trabalhadoras. Tal sistema se distinguiria do sistema burguês e nacional também de outro ponto de vista. Como o sistema de recrutamento do exército repousa essencialmente na classe trabalhadora, esse sistema torna-se, ele mesmo, internacional. O campesinato pobre que é admitido no Exército Vermelho em nada altera esse princípio.

Vemos agora, portanto, que a revolução socialista criou um novo sistema de recrutamento – o exército de classe internacional – por oposição ao sistema burguês que produziu o exército nacional e democrático.

Sabemos que o sistema de recrutamento influi sobre a composição das forças armadas de um Estado e mesmo sobre a ciência militar. E nossa revolução efetivamente virou do avesso o conjunto da arte militar.

Esse dado extremamente característico de nossas guerras socialistas modifica toda a técnica da conduta da guerra; é ele que, acima de tudo, confere ao exército socialista e a seu sistema de recrutamento seu caráter internacional. Ele oferece ao Exército Vermelho a possibilidade de um recrutamento quase ilimitado e autoriza a estratégia proletária de seguir tarefas e objetivos que permanecem inacessíveis para todas as outras estratégias.

ORGANIZAÇÃO DAS FORÇAS ARMADAS

Antes que possamos resolver o problema da estrutura de um exército socialista, é preciso esclarecer melhor alguns dados das forças armadas em geral e as condições da guerra nas diferentes circunstâncias.

Consideremos, primeiro, as condições de utilização do sistema da milícia. O sistema da milícia exige, assim como o sistema do exército regular permanente, um trabalho preparatório complicado e extremamente preciso para poder colocar de pé, em caso de guerra, a força militar necessária. Isso supõe um aparelho administrativo militar concebido à perfeição. Um plano de mobilização elaborado até os seus menores detalhes é absolutamente indispensável, a instrução deve ser perfeita, e o mesmo vale para muitas outras coisas. O exército de milícia, assim como exército moderno permanente, deve ser organizado segundo o princípio territorial. As diferentes circunscrições devem formar unidades fixas e autônomas. O aparelho técnico administrativo deve trabalhar com precisão absoluta, todo esse trabalho preparatório exige um tempo bastante longo, que não se mede em meses, mas em anos. É preciso, enfim, acrescentar que, como o exército permanente, o exército de milícia supõe uma população homogênea – em todo caso, a população não deve ser fragmentada pela luta de classes.

Reunidas todas as condições, o aparelho de um exército de milícia pode, depois de um trabalho preparatório sistemático de vários anos, constituir, imediatamente após a publicação do decreto de mobilização, um exército de massa enorme pronto para o combate.

Vejamos agora como se constitui um exército revolucionário socialista.

Antes de tudo, é preciso notar que a forma mesma com qual ele se constitui é diametralmente oposta àquela de um exército de milícia. Esta se constitui através de um longo trabalho de preparação do aparelho administrativo, ao passo que o exército socialista começa a se formar imediatamente após a revolução de modo elementar; com efeito, não há autoridades administrativas e não se as organiza. Pouco a pouco a organização se desenvolve por si mesma. O exército cresce e se fortalece. Impregnado de uma forte consciência de classe e pelo desejo revolucionário de vencer, ele se torna rapidamente um exército regular, capaz de combater. Os órgãos administrativos militares estão longe de se desenvolver com o mesmo sucesso. Como eles se compõem essencialmente de especialistas que pertençam à classe derrubada, permanecem, por muito tempo, inviáveis e presos pelo cordão umbilical ao exército ativo.

Já se disse que a organização do Exército Vermelho edifica-se sobre o princípio da luta de classes. A aplicação desse sistema impõe grandes dificuldades. Num primeiro momento, o Exército Vermelho se constitui de voluntários vindos das classes trabalhadoras. Estas formam precisamente o núcleo de ação do Exército Vermelho, defendendo conscientemente interesses de classe, que, em seguida, possam também englobar, educar e levar à consciência política necessária elementos que dela são desprovidos.

Mas, mesmo supondo que poderosos núcleos proletários que tenham uma consciência de classe existam, o recrutamento encontra grandes dificuldades nas regiões de população rural majoritariamente burguesa e não ocorre sempre sem riscos. Todos conhecem a enorme importância do trabalho de esclarecimento político entre nossas tropas e o quanto as massas de camponeses recém-chegados e indiferentes são difíceis de serem integradas. Não é senão com a condição de fortes núcleos, politicamente bem educados, contando com numerosos comunistas bem distribuídos, que massas de camponeses inconscientes se deixam fácil e rapidamente trabalhar.

Não se pode absolutamente compreender como um exército de milícia, que praticamente seria composto de uma grande maioria de camponeses, poderia ter, imediatamente após a mobilização, uma alta qualificação política e se colocar em campanha, com bandeiras comunistas, certo da vitória. É bastante claro que tal suposição é um tanto estúpida.

Basta observar o chefe de bando Makhno[1], que atua na Ucrânia e que não vive senão à custa do campesinato ucraniano rico, que lhe fornece o material humano necessário, provê-lhe os cavalos, suprimentos, etc, para compreender que com a introdução das milícias em nosso país daríamos ao adversário as armas para nos combater.

AS TAREFAS E DURAÇÃO DE UMA GUERRA

As tarefas de um exército socialista podem ser diversas.

O Exército Vermelho pode combater formações contrarrevolucionárias interiores com o objetivo de reduzi-las completamente; pode lutar contra a burguesia dos Estados vizinhos se seus governantes quiserem sufocar o Estado socialista; nesse caso, também, o combate não cessará antes que um dos adversários seja esmagado. De maneira geral, a guerra, mesmo com interrupções, durará até que o Estado socialista seja completamente destruído e deixe de existir enquanto tal, ou até que a revolução tenha incendiado todo o globo.

Impossível e indefensável é o ponto de vista de que esse mundo, abalado em suas bases, se dividiria subitamente e tranquilamente em duas metades: uma socialista e outra capitalista, que poderiam, doravante, viver lado a lado, pacificamente e como boas vizinhas. É de uma clareza ofuscante que tal situação não poderá jamais existir e que a guerra socialista durará até a vitória final de um ou outro campo.

Vemos, por consequência, que, até a decisão final desse combate, não chegará o momento em que o Estado proletário poderá dissolver o Exército Vermelho que ele possui hoje para se voltar para a longa organização do exército de milícia.

É verdade que se poderia introduzir o sistema da milícia depois da vitória definitiva da revolução proletária, depois, portanto, da introdução, no mundo todo, de uma ordem social comunista única. Mas quem, então, ainda teria necessidade dele? De todo modo, o organismo estatal em vias de desaparecimento tornaria esse sistema impossível, não obstante todas as imprecações dos camponeses do exército de milícia.

Vê-se, portanto, que o sistema da milícia não é compatível com a revolução socialista desde seu nascimento até sua expansão máxima que abraçará o mundo inteiro.

PARTICULARIDADES ESTRATÉGICAS DOS EXÉRCITOS E RECURSOS AUXILIARES DO PAÍS

Os traços e características do exército de milícia são as dimensões enormes desse exército, sua capacidade militar relativamente fraca e um excelente equipamento com o material mais moderno da técnica militar. Todas essas características encontram-se em estreita relação umas com a outras.

Os enormes exércitos que se veem chamados à mobilização, que não tem núcleos permanentes e, por isso, não puderam receber, em tempos de paz, instrução aprofundada nas formações militares regulares, esses exércitos não terão, evidentemente, senão uma disciplina e um valor militar medíocres. Sua fraqueza mostra-se particularmente no domínio das manobras e da tática. Suas insuficiências devem ser absolutamente compensadas de uma forma ou de outra por um meio qualquer, e a técnica da guerra é precisamente o meio que convém. Tender-se-á a desenvolvê-la em toda sua potência para desmoralizar o adversário e para proteger suas próprias tropas. Dadas essas circunstâncias, o exército de milícia convém melhor à defesa do que ao ataque.

Contudo, essa propriedade da milícia, sua enorme potência numérica, pode prestar, no teatro das operações, bons serviços. Para esse fim, é preciso somente ter uma excelente rede de transportes para levar os homens através de caminhos de ferro, veículos e vias aquáticas. Nessas condições, mesmo pesadas tropas com capacidade militar reduzida podem desfazer o adversário com suas massas bem concentradas. Mas essa vantagem da milícia não se dá senão com excelentes meios de transporte e um equipamento técnico perfeito. Além do mais, se temos em mente as quantidades necessárias inevitáveis de equipamento, de provisões, de material equestre, etc, que isso implica, é preciso reconhecer que tal exército de milícia não pode cumprir sua tarefa senão em um país com indústria altamente desenvolvida. Seria insensato pensar que, em tempos de paz, um exército de milícia não implique despesas. Não se deve esquecer que os fuzis, os canhões e, em geral, todo o armamento deve já existir antes da guerra e ser mantido em perfeito estado.

Assim, o sistema da milícia seria uma força enorme, mais somente com a condição de que o Estado fosse extremamente instruído para isso, dispusesse de uma indústria altamente desenvolvida e pudesse arcar com grandes despesas. Esses grandes meios são particularmente necessários no curso da guerra. Basta pensarmos nos milhões de fuzis, nas centenas de milhares de metralhadoras, nas dezenas de milhares de canhões, nas centenas de milhões de granadas, nos bilhões de balas, etc, isso sem contar as perdas humanas. Lembremo-nos, simplesmente, das dimensões da recente guerra dos “povos armados”, que não pode ser considerada senão como uma etapa preparatória em relação às dimensões de um combate dos exércitos de milícia. Um Estado socialista qualquer pode, em seu período de transição, arcar com tais despesas? Sem essas enormes massas humanas e sem essa técnica militar levada à perfeição, um exército de milícia de nada vale.

Se examinarmos agora de mais perto a que o sistema da milícia conduziria nossa República, constataremos o seguinte: em primeiro lugar, não chegaríamos a construir o aparelho militar administrativo antes do começo da próxima guerra. Assim, em segundo lugar, em toda uma série de regiões do nosso país, não faríamos nada além de armar nossos próprios inimigos contrarrevolucionários. Em terceiro lugar, não poderíamos vestir nem equipar milhões de mobilizados. Em quarto, não poderíamos levar, no tempo pretendido, essa enorme massa militar até a fronteira ameaçada e os poloneses, por exemplo, teriam já ocupado Moscou antes que o nosso exército de milícia tivesse tido tempo de se concentrar na região do Volga. Em quinto lugar, nossos meios de transporte não bastariam para deslocar o exército de milícia à vontade sobre o terreno das operações, e um adversário sensivelmente mais fraco mas, ao mesmo tempo, bem equipado com meios técnicos poderia vencer facilmente frações de tropas isoladas. Enfim, nós mesmos condenaríamos nosso imenso exército à morte, pois não poderíamos provê-lo de suprimentos suficientes nem de todos os outros equipamentos.

Ouvi, da parte dos adoradores do sistema da milícia, declarações que mostram que eles se consideram representantes consequentes da ideia de uma República Soviética militarmente potente. Pessoalmente, eu não teria nada a dizer sobre o sistema da milícia se ele nos permitisse efetivamente atingir nosso objetivo. Contudo, infelizmente, esse sistema não teria como consequência senão derrotas comunistas. Entre nós, a introdução do sistema da milícia significaria uma crucificação da República dos Sovietes.

Há também certos generais muito zelosos que, é fácil compreender, veem na introdução do sistema da milícia a última esperança e que, por essa razão, intervêm com entusiasmo em favor desse sistema.

Nos últimos tempos, quando há já muitos camaradas do Partido que repelem fortemente o sistema da milícia, escutamos partidários deste último declararem que pensam em uma milícia diferente daquela da II Internacional, que a milícia deve ser organizada de forma bem diversa, etc.

Tais argumentos provam somente que esses camaradas não refletiram seriamente sobre o problema. Sem examinar mais de perto a questão das forças armadas do Estado proletário, voltaram a essa coisa conhecida desde há muito tempo, a milícia. Mas quando perceberam que tal sistema era irrealista, imaginaram novas formas que, com obstinação, chamam pelo velho nome. A noção do “sistema de milícia” é claramente definida; não se pode transpô-la à vontade para outros sistemas.

Passemos agora à questão das condições que os recursos da nossa República, assim como toda República de conselhos, oferecem aos exércitos que lhe são necessários durante o período transitório.

Não há muito a dizer sobre o assunto. Todos compreenderão sem dificuldade que um país empobrecido necessita, antes de tudo, de um pequeno exército, cuja quantidade suficiente deve ser obrigatoriamente compensada pela qualidade, pois sua primeira tarefa é garantir eficazmente a existência da República dos Sovietes.

O SISTEMA DO EXÉRCITO SOCIALISTA

A qualidade de um exército reside, acima de tudo, em suas aptidões para o combate desenvolvidas o máximo possível e de uma mobilidade correta e astuta. Não é fácil corresponder a essas exigências, e é por isso que elas implicam um longo e duro período preparatório. Só um exército regular pode receber tal formação. Constatamos, portanto, que, hoje, um Exército Vermelho não pode ser senão um exército regular.

Vejamos agora como o sistema de recrutamento socialista influi sobre o exército e sobre todo o aparelho militar. Chegamos já, previamente, à conclusão de que esse sistema repousa sobre um princípio de classe e é um sistema internacional. Isso mostra que, para a mobilização do Estado, deve-se proceder ao recrutamento da população de acordo com o pertencimento de classe. Assim também, toda a formação militar da juventude, antes de ser convocada, deve levar em conta esse princípio. É evidente que esse princípio se estende a todos os domínios da realidade militar, inclusive à formação dos dirigentes.

A estrutura mesma do exército não apresentaria em definitivo nada de fundamentalmente novo. Todas as unidades devem mostrar constantemente sua força móvel, exceções a essa regra não podem ser toleradas senão no interior do país.

Mas as regiões distantes, que exigem a maior quantidade de material humano, permitem, em tempos de calma, a redução dos efetivos a seu mínimo. As unidades ativas poderão geralmente ser entretidas pelas autoridades civis.

Tal exército, sem depender do processo complexo da mobilização, pode ser imediatamente lançado a um determinado fronte: durante esse tempo, executa-se a mobilização, organizam-se as concentrações necessárias e completam-se as reservas do exército.

Além do mais, no caso de perigo exterior, podem-se organizar unidades de reserva. Isso depende de estoques disponíveis de armas, de equipamentos, etc.

O fato de que o Exército Vermelho edificado dessa forma está muito longe de requerer o conjunto do material humano do Estado mostra que, nas regiões industriais mais importantes, podem-se dispensar completamente mobilizações militares. Por outro lado, uma militarização do trabalho seria muito útil para ampliar seus resultados.

Os partidários da milícia atacarão furiosamente tal sistema: dirão que ele é economicamente insustentável, que ele torna impossível a edificação da economia socialista, etc.

Essas objeções, contudo, não têm fundamento. Em primeiro lugar, jamais se pretendeu que um sistema militar, qualquer que seja sua natureza – e, por consequência, também o sistema da milícia –, fosse útil à vida econômica do Estado. Que isso agrade ou não, o Estado deve, para sua defesa, possuir uma força armada que corresponda à sua situação militar.

A garantia da existência do Estado Soviético é a tarefa principal; todo o resto – mesmo as exigências econômicas – apaga-se diante dela. Em segundo lugar, se é verdade que o exército de milícia exige menor custo de manutenção em tempos de paz, ele exige, todavia, quantidade de vestimenta e equipamentos bem mais importantes, sem falar dos estoques monstruosos de armamentos que devem estar à sua disposição. Seriamos forçados a criar, especialmente para a milícia, uma indústria de guerra colossal. Em terceiro lugar, não se deve esquecer que não é o exército dos tempos de paz, mas o exército dos tempos de guerra que arruína um país. Durante a guerra, todas as vantagens econômicas estão do lado do exército permanente, pois alguns milhares de canhões, que se poderia, em outras circunstâncias, dispensar, custam somas enormes. E essas somas aumentam progressivamente com o crescimento do exército.

Temos um exemplo expressivo disso na grande pauperização que a guerra dos “povos armados” custou ao mundo todo. A história fornece exemplos que provam que mesmo os povos mais pobres puderam, com exércitos pequenos, mas bem instruídos, levar longas guerras contra adversários muito mais poderosos, cujos exércitos eram muito mais numerosos. É claro que, para se armar tendo em vista novas guerras que não deixarão de lhe serem impostas, a Rússia Soviética não pode introduzir um sistema militar que, em caso de guerra, arruíne completamente o país.

Estudamos, então, o tipo de exército que corresponde a todo Estado baseado na ditadura do proletariado e, portanto, também à Rússia Soviética. Resta-nos, agora, estudar esse sistema em sua utilização com relação à política internacional que deve ser realizada na revolução socialista.

Assinalamos anteriormente que essa revolução havia produzido uma convulsão total da estratégia. E, de fato, nosso Exército Vermelho jamais lutou sozinho contra seus inimigos. Ele sempre teve o apoio esperado da classe operária do país para lutar contra a burguesia. Esse apoio não se limita às explosões revolucionárias nas costas desta última; consiste, sobretudo, na possibilidade de fortalecer o Exército Vermelho com a classe operária dos territórios ocupados. Esse afluxo não se produz somente à custa da população local, mas também dos exércitos capitalistas que os operários e os camponeses abandonam voluntariamente para entrar no Exército Vermelho.

Esse afluxo de forças combatentes internacionais é precisamente a marca característica do Exército Vermelho.

Em todos os frontes das diferentes nacionalidades, observamos o mesmo fenômeno. Este é particularmente notável quando o exército burguês sofre uma derrota. À época de nossa penetração no território polonês, começaram a passar para o nosso lado soldados poloneses, embora o exército da Polônia capitalista tenha mantido intacta sua capacidade de combate. Esse foi, particularmente, o caso em Bialostok, onde os operários acolheram nosso exército com entusiasmo e queriam integrar-se em nossas fileiras. Somente nossa rápida retirada impediu a realização dessa intenção.

Assim, nossos Exércitos Vermelhos podem ser considerados, para além das fronteiras da República dos Sovietes, como uma formação de quadros internacionais.

Devemos ter clara consciência desse sistema de exército vermelho mundial.

É possível que só vejamos nossas tarefas no interior das fronteiras da República? Naturalmente, não, pois, dentro da República, não nos esperam tarefas militares realmente sérias, ao passo que as tarefas exteriores não dependem tanto de nós quanto do mundo exterior, quer dizer, em primeiro lugar, do desenvolvimento da Revolução mundial.

A esse respeito, cada uma das tarefas da nossa Revolução deve estar intimamente ligada à tarefa da Revolução mundial. Naturalmente, isso é particularmente válido para a questão da organização de nosso Exército Vermelho, primeiro núcleo de Exército Vermelho mundial.

Se estivermos conscientes dessa tarefa, a questão do sistema do Exército Vermelho nos parece mais séria. Esse exército deve ser exemplar em todos os sentidos, inclusive no sentido político. Esse exército deve esquecer a nacionalidade de que é majoritariamente composto. Ele deve saber que é o exército do proletariado internacional, e isso é tudo. Onde quer que ele possa chegar, é preciso que a população sinta imediatamente que se trata de um Exército Vermelho e não de um exército russo. Apenas um tal exército, formado por revolucionários conscientes, pode ser o instrumento da propagação da revolução mundial e da destruição do capitalismo.

CONCLUSÃO

Depois de ter esclarecido todas as faces do problema da utilização do sistema da milícia por um Estado de ditadura proletária, devemos reconhecer que ele é completamente inutilizável.

Vimos que o sistema da milícia pode ser uma arma perigosa nas mãos do Estado capitalista extremamente desenvolvido. Vimos que uma sociedade socialista que se estenda por todo o globo poderia introduzir esse sistema. Mas vimos também que, no período de transição, esse sistema seria fatal para o Estado Socialista, pois ele nem mesmo pode ser utilizado para fins defensivos. Vimos que o Exército Vermelho é construído de forma diametralmente oposta à da milícia. Mas, como o Estado socialista deve contar com uma luta ininterrupta contra o mundo capitalista, a possibilidade técnica de organização de um exército de milícia desaparece automaticamente para sempre. Vimos que, em toda uma série de regiões, o sistema da milícia não poderia ser introduzido, dada sua composição de classe inadequada. Tais são as razões que excluem, por princípio, a introdução do sistema da milícia no Estado Soviético.

Além do mais, vimos também os traços gerais que deve possuir o Exército Vermelho de um Estado Soviético. Reconhecemos que esse exército deve ser permanente e que deve repousar sobre o princípio da luta de classes e do recrutamento internacional.

Quais devem ser suas ações, essa questão não entra no quadro de nossas considerações.

Parece-me que a introdução, entre nós, da milícia contradiria de tal forma os dados da situação e que ela é rejeitada por tantos comunistas, que, no fundo, não valeria a pena discutir esse problema, o qual, no entanto, não poderia ser resolvido de outro modo. Isto é verdade, mas é sempre necessário estudar novamente uma questão quando esta é posta mais uma vez à ordem do dia.

A esterilidade da II Internacional se manifestou no fetichismo do exército de milícia assim como na ideia da Assembleia Nacional. E, como esta última, o exército de milícia também desaparecerá em breve de nosso horizonte.

A Internacional Comunista, guia da revolução mundial, não pode apoiar-se nessa milícia. O Exército Vermelho tomará nova forma sob a direção da Internacional Comunista, a forma das forças armadas internacionais do proletariado mundial.

Nota
[1] Nestor Makhno (1889-1934), anarquista e líder camponês ucraniano. Em 1919, os grupos de guerrilha ucranianos transformam-se, sob sua liderança, em um verdadeiro exército – o Exército Revolucionário Insurrecional Ucraniano, mais conhecido como a Makhnovtchina – que contava com cerca de 50.000 homens. Nesse ano, a Makhnovtchina combate os exércitos tsaristas junto ao Exército Vermelho bolchevique, o qual, todavia, se volta contra ela em 1920 e a vence em 1921. Expulso da Rússia e de diversos países europeus, Makhno se instala em Paris em 1925.

Traduzido, apresentado e anotado por Maria Teresa Mhereb e revisado pelo Passa Palavra a partir do original disponível neste link. Este artigo faz parte do esforço coletivo de traduções do centenário da Revolução Russa mobilizado pelo Passa Palavra. Veja aqui a lista de textos e o chamado para participação.


Comentários 1

    • Rogerio D Maestri

      |

      dez 23, 2017

      |

      Este texto foi escrito em 1921 sob a sombra da primeira grande guerra e pela revolução. Pós 1945 e mais recentemente os conceitos militares se mostram perfeitamente desatualizados e se algum país socialista ou numa guerra de defesa ou mesmo num contexto de revolução permanente pensando na expansão do socialismo é válido somente para o estudo da Revolução Russa e da luta contra os invasores.
      Porém os conceitos de organização de um exército vermelho baseado nisto levou o mesmo a derrota contra os Poloneses sendo que o exército vermelho na luta Soviética-Polaca foi chefiado exatamente por Leon Trotsky e Mikhail Tukatchevsky.

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