Duas traduções para Santiago Maldonado

Duas traduções para Santiago Maldonado

em 11 jan

Santiago Maldonado morreu afogado no rio fugindo dos gendarmes que invadiam as terras mapuches sem mandado. Seguem aqui dois poemas para não esquecermos, traduzidos pelo Poeta em Buenos Aires

Tatuador e artesão anarquista, Santiago Andrés Maldonado vivia na região patagônica, entre Argentina e Chile. Em realidade não tinha domicílio fixo, costumava viajar muito por esta zona. Esteve desaparecido por quase 3 meses após a repressão da Gendarmeria sobre um corte de estrada realizado por mapuches na Pu Lof (comunidade) em resistência no departamento de Cuchamen (província de Chubut), contra a prisão de seu Lonko (líder) Facundo Jones Huala. Santiago estava neste corte de estrada, assim como esteve em diversas outras ocasiões apoiando a luta de povos originários ou de pequenas comunidades, como havia feito no Chile poucas semanas antes de sua desaparição. Seu corpo foi encontrado e reconhecido pelos familiares nas últimas semanas de outubro. Morreu afogado no rio fugindo dos gendarmes que invadiam as terras mapuches sem mandado, e que portavam, além dos equipamentos convencionais, machados e pedras. Os eventos que levaram à morte de Santiago ainda não foram esclarecidos, especialmente devido ao fato de que a força policial deu três versões diferentes do ocorrido nos dias que se seguiram ao desaparecimento de Maldonado. Poucas semanas após a autópsia do corpo que confirmou sua morte por hipotermia e asfixia, foi a vez de Rafael Nahuel ser assassinado, desta vez pela Prefectura (polícia naval), em uma operação contra uma ocupação de terras mapuche próximo à cidade de Bariloche. A campanha do atual governo para respaldar as forças repressivas do Estado e difundir uma grande quantidade de mentiras com apoio dos principais grupos de mídia faz parte dos planos que este governo tem para incrementar o uso da Gendarmeria como força de choque contra distúrbios sociais, aprofundando o uso que os governos anteriores faziam desta que é a força mais militarizada entre as polícias argentinas. Ambos assassinatos demonstram que o atual governo está colocando muitas fichas nos negócios extrativistas situados no norte da Patagônia, em províncias como Chubut, Neuquén e Rio Negro, e a mensagem que estão passando é a de que não irão tolerar um aumento da conflitividade social, particularmente do povo mapuche, que tem uma longa história de resistência contra os estados nacionais que hoje controlam os territórios onde vivem.

***

Santiago Maldonado
de Gaita Nihil

Algum dia
eu gostaria de conhecer Santiago

Algum dia, um qualquer
quando ele apareça
sorrindo
como o sol detrás do rio que ele viu
ser roubado.

Algum dia eu gostaria de falar com Santiago
e perguntar o que ele pensa
de ser refém da Gendarmeria
de ser refém dos jornais
da política
de ser a figurinha difícil da democracia

de ser anarquista.

Quero falar com ele
e dizer que eu penso como ele
que o Estado não cuida de nós
o Estado não ama a gente.

Quero falar com Santigado
quero abraçá-lo e dizer
“que bom que você está bem, companheiro”.
Deixaria que ele me fizesse uma tatuagem
de um A bem forte, bem grande.

Eu posso estar aqui, escrevendo,
recitando, acreditando que como pessoas podemos
mais que como Estado
porque a administração nos desaparece..\\. Mas quero que o diga Santiago.

Não é por você, Santiago
tudo isso parece pessoal, mas não é por você
você só apareceu no caminho
foi um azar, mano,
o pior de todos.

Mas não é por você
podia ser qualquer pessoa com tuas convicções
qualquer um com tua ideologia
qualquer um com tua profissão
com teu estilo de vida
qualquer um, o tempo inteiro
qualquer um.
Quero falar com Santiago e perguntar
se ele está bem
se vai voltar a ser o de antes.
Algum dia desses…
quando apareça
quero falar com Santiago Maldonado
o anarquista.

***

Santiago Maldonado
de Marcos Jako

ontem à noite eu voltava de uma festa
estava com meus amigos
que tinham ido na manifestação por Santiago
me contaram da polícia
da violência
ontem à noite eu voltava dessa festa, eram seis da manhã
e chegando na estação de trem
passou um policial caminhando
e me cumprimentou com a cabeça
e eu apenas o olhei
não respondi à simpática saudação e seguimos caminhando
não quis cumprimentá-lo
pensei capaz que é boa gente
ou um policial bom
se é que existe tal coisa
de todas formas eu não quis
tem que entender
ele
o que ele representa
Entrei na estação de Yrigoyen
e um cachorro veio correndo atrás
latindo
para me atacar
eu dei a volta e encarei
o cachorro latia para mim
eu ameaçava que ia pra cima
o cachorro recuava
e latia
eu podia ter seguido a caminhada
mas ele rápido vinha atrás
então me coloquei bem de frente
encarei
seguia latindo
me deixou bravo
me deixou com raiva
e senti que eu tinha muita raiva
que minha raiva era suficiente para uma boa luta
que eu não tinha medo
a raiva vencia o medo
posso matar um cachorro esta noite
com minhas próprias mãos
se ele quer me atacar
tenho força esta noite
e não tenho medo
e tenho raiva
então gritei pra que caia fora
avancei contra ele
latiu para trás
e apareceram quatro cachorros mais
correndo e latindo ferozes
(bichos inteligentes
não se deixam sós
em sua luta)
Senti que agora sim
agora sim podiam me matar
já vi matilhas atacarem homens
são cinco
agora sim posso morrer
então recuei
mas não dei as costas
tinha raiva esta noite
tinha força esta noite
podia enfrentar cinco cachorros
lutar
pela minha vida
posso lutar até que se cansem
ou que aconteça algo
posso lutar esta noite
começaram a me cercar
e uma senhora começou a gritar para que se acalmem
que parem
saiu de sua guarita uma policial mulher
dando ordens de recuar
e recuaram
submissos à sua ordem
a polícia me salvou?
por que ela tem esses cachorros aí?
por que a obedecem?
por que se a obedecem eles me atacaram?
por que tenho que agradecê-la?
por que me atacaram esses cachorros que a obedecem?
é intimidação?
tenho que agradecê-la?
A policial mulher deu a ordem de recuar
recuaram
e eu fiquei parado na escadaria que sobe à plataforma
olhando
E a senhora que já havia acalmado as feras
deu a volta e me olhou
e eu a olhei
nos olhamos
talvez esperasse um obrigado
um cumprimento
um comentário
eu fiquei parado
apenas olhando para ela
e me olhou
e eu a olhei
sem expressão
um olhar frio
distante
muda
me olhou
e eu a olhei
e nos olhamos uns segundos
sem falar
sem expressão
e depois desapareci pela escadaria
ela tinha uma arma
não disse obrigado
não pediu desculpas
desapareci pela escadaria
Não sei se a senhora era uma boa senhora
ou boa policial
mas ela tem que entender
o que ela representa
E eu sobrevivi
E aprendi
sobre os cachorros
E já não volto a passar de novo por ali inocentemente
sem estratégia
sem armas
A senhora
e os cachorros
terão que entender
o que representam
como eu
que já estou entendendo
meu lado do jogo
Que já sei
que represento Santiago.


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