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É necessário distinguir entre centralidade de atenção política e uma economia do protagonismo muito diferente do que a tríade protagonista/antagonista/aliado conseguiu estabelecer até hoje. Por Thiago Cazarim


Nos últimos meses, campanhas como #MeToo, #Time’sUp e outras incursões midiáticas de mulheres têm trazido à tona inúmeros casos de assédios, estupros e comportamentos sexuais inapropriados perpetrados por homens. Na cidade de Goiânia, em particular por meio do uso do Facebook, ocorreu em 2017 uma série de acusações de abusos e violências sofridas por parte de homens da chamada “cena do rock”, no mesmo espírito das campanhas norte-americanas. De posse, então, de redes sociais, mulheres levantaram suas vozes, expuseram seus abusadores em público e fizeram aparecer um número enorme de relatos assustadores de situações presenciadas e vividas – ou não – em primeira pessoa.

Um dos elementos que se tornou forte objeto de disputa foram as táticas e as premissas de que estas mulheres se valeram – bem como os efeitos destas sobre o entendimento de categorias como estupro, assédio, comportamento abusivo ou inapropriado. Embora no início possam ter predominado questionamentos originados por homens, o manifesto assinado por uma centena de mulheres francesas progressistas que advoga pelo “direito de importunar” permite situar no próprio campo do feminismo as disputas por seus sentidos. Interessa-me aqui pensar sobre o campo instaurado em torno de tais campanhas de denúncia, em especial sobre os sentidos da participação de diferentes sujeitos políticos em torno daquilo que, mesmo lançando mão de diversos consensos sobre agendas feministas e progressistas, tem servido para classificar e atribuir lugares determinados aos variados agentes engajados em militâncias e discussões. Sendo mais explícito, discuto a seguir a configuração da ideia de “papel do homem no feminismo” para pensar, de modo mais amplo, que tipo de atuação tem sido pautada para alguns sujeitos dispostos a encampar lutas que não dizem respeito diretamente a suas vivências e situações existenciais no mundo.

Os emblemas deste último problema, apresentados em formas de questionamentos, são bem conhecidos: “podem os homens discutir feminismo?” e “as pessoas brancas devem poder debater racismo?” nada mais expressam-no de maneiras bem formulaicas. Citando apenas de passagem neste momento, a polêmica em torno da peça sobre a vida da transexual Gisberta, interpretada pelo ator (gay cisgênero) Luís Lobianco, eventualmente toca na mesma questão ao questionar a legitimidade de pessoas cisgêneras interpretarem teatralmente pessoas trans. O que essas formulações não cessam de recolocar, com todas as especificidades de suas respectivas agendas (que são muitas!), é a mesma, a saber, as diferentes posições que diferentes grupos de sujeitos devem ou não assumir perante pautas que lhes afetam ou não de forma visceral, direta, pessoal.

Em primeiro lugar, há que se levar em conta que a relativamente disseminada ideia de “lugar de fala” desempenha um papel extremamente delicado aqui. Como mérito, esta noção tem apontado para a importância de incorporar o debate sobre as assimetrias de nossa sociedade que impactam nas possibilidades de exercício político num sistema de enunciabilidade/visibilidade/audibilidade estruturado a partir de parâmetros elitistas, racistas, machistas, LGBTfóbicos etc. No entanto, mesmo em sua apresentação mais sistemática que conheço (Djamila Ribeiro: “O que é lugar de fala?”), a noção de lugar de fala dá um peso enorme ao atrelamento dos sujeitos a suas situações atuais no mundo e pouco descreve, por exemplo, os processos pelos quais estes mesmos sujeitos podem, minimamente por meio do discurso, transformar ou reconfigurar parcialmente as estruturas de dominação que situam os sujeitos diferentemente como (não-)falantes, (in)audíveis e (in)visíveis.

Should we all be feminists? Lugar de fala e a economia do protagonismo

Ao lado dos problemas da concepção de lugar de fala, é possível ainda pensar em seus usos. Apenas para permanecer no nível da discussão formalizada por Djamila Ribeiro, é curioso observar como esta mesma autora se vale da ideia de lugar de fala para situar-se, numa entrevista concedida à Carta Capital, frente ao posicionamento do ensaísta Francisco Bosco (“A vítima tem sempre razão?: lutas identitárias e o novo espaço público brasileiro”). Tanto em seu livro como em entrevistas recentes, Francisco Bosco tem questionado aquilo que a opinião pública entende como “excessos” políticos e inconsistências teóricas militantes, o que tem, como um de seus efeitos, blindado de antemão agendas políticas legítimas em suas causas de serem criticadas tanto em alguns de seus pressupostos quanto desses mesmos “exageros” alegados. A resposta de Djamila Ribeiro, também em seu livro e na aludida entrevista, poderia desconcertar. Pergunta a autora: faz sentido dar tanta atenção a excessos e erros pontuais enquanto violências estruturais matam jovens negros e periféricos e mulheres a todo instante no Brasil? Daí a autora conclui serem questões éticas infinitamente menos relevantes o escrutínio tão detido destes tropeços militantes e o elogio da suposta “coragem” de um “homem branco do Leblon”, que, do alto de suas posições privilegiadas, se julga no direito de estabelecer asserções tão categóricas sobre estes temas.

Parece que, à diferença do que afirmado em “O que é lugar de fala?”, Djamila Ribeiro não reconhece a Francisco Bosco nenhum lugar de fala relevante. Não só no sentido de que ele não refletiu sobre seu lugar de fala, mas de que, publicamente, não se deve reconhecer para ele um “lugar de fala” legítimo para as questões que pauta, pois delas ele não participaria organicamente. Ademais, a coragem de dizer publicamente o que parece politicamente equivocado é insuficiente nessas condições pois, como Djamila Ribeiro relembra, até mesmo Kant nos lembra que a coragem não é uma virtude moralmente suficiente. O que leva a perguntar: pode Kant, homem branco cujas posições afins ao colonialismo, ao racismo e ao eurocentrismo são notórias, servir para operar tal crítica da crítica como feita pela autora de “O que é lugar de fala?”? Pode o racismo de Kant ser posto de lado para pensarmos questões morais que lhe são contemporâneas, bem como às de nosso tempo? De que lugar fala Kant quando critica a insuficiência da coragem? Com que autoridade pode ele dirigir seu questionamento àqueles que, em tese, não têm legitimidade para pautar determinadas questões?

Quaisquer que sejam as respostas para as perguntas acima, fica evidente o problema de certos usos da noção de lugar de fala. Quem autoriza a pensar isso é a própria forma como uma de suas defensoras mostra que, em que pese toda a carga de abominações e condenações éticas e políticas sobre a situação em que um discurso e um sujeito se entrelaçam, esta situação pode ser, performativamente, desfeita pelos deslocamentos dos discursos para além dos sujeitos e condições sociais que os produzem. Digo isso para explicitar, também, que não estabeleço uma condenação à citação de Kant por Djamila Ribeiro como instrumento de crítica de um homem “sem lugar de fala”, como se o fato de esta ser uma mulher negra, feminista e filósofa tornasse mais problemático o recurso ao aparato de um pensador que contradiz, em parte, aquilo que ela defende. Se trago este exemplo, faço-o somente para mostrar como não há correspondência total entre lugar de fala, sujeitos, suas práticas e o sentido de seus discursos. Esta é uma relação sempre por refazer – e precisamente nisto a noção de lugar de fala se debate com seus limites teóricos e práticos.

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Há um segundo motivo pelo qual normalmente se questiona o papel dos homens no feminismo. Diversas amigas feministas com quem conversei ao longo dos anos dão o relato das dificuldades em criar “espaços mistos”, com a presença de homens e mulheres, para discussão, estudo e ação feminista. Destes relatos – dos quais não há nenhuma razão para duvidar, sejamos honestos –, fica o histórico de tentativas de homens de afirmar o que pode ou não o feminismo ser, como deve ou não agir e pelo que deveria ou não lutar. Entra aqui, então, a categoria de protagonismo, bem mais antiga que a de lugar de fala, mas que guarda com ela um problema semelhante de fundo. Não porque simplesmente a ideia de lugar de fala esteja escondida atrás da ideia de protagonismo; o que leva a pensar nesse parentesco é, antes, aquilo que a figura protagonista reclama como suas categorias correlatas, a saber, a de aliados e a de adversário (ou seja, antagonistas).

O que diz, então, a noção de protagonismo? Na militância pela diversidade sexual, que pessoas heterossexuais não tenham centralidade na luta; e da mesma forma as relações entre não-brancos/brancos nas questões étnico-raciais, entre trans/cis no debate sobre a população T, mulheres*/homens na pauta feminista (*com exceção, provavelmente, dos homens trans). Temos, então, sempre o primeiro termo do par aqueles que assumem posições de protagonismo: são eles que decidem a agenda, as categorias conceituais e práticas úteis a suas lutas; e, no esquerdo, temos aqueles que podem assumir o papel de antagonistas ou aliados, embora nenhum dos dois deva ocupar a centralidade política dos movimentos sociais – os primeiros porque ameaçam efetivamente as lutas, os segundos porque não são objetos de atenção política singular nas agendas em questão.

Vê-se então que a ideia de lugar de fala, mesmo já insinuada na ideia de aliança política, não representa a totalidade da ideia de protagonismo, mais complexa num certo sentido. Enquanto lugar de fala é uma categoria que situa um sistema de oposições entre quem fala, aquilo que fala e se é ouvido ou não, a ideia de protagonismo implica, além das oposições anteriores, as classificações entre que tipos de ação e discursos podem ter determinados sujeitos. Enquanto lugar de fala, ao menos em princípio, mantém em aberto a relacionalidade entre sujeitos e discursos, a noção de protagonismo estabelece de forma mais rígida, não o direito de falar e agir, mas os tipos de exercícios do discurso e da prática política que determinados sujeitos estão aptos a desempenhar, como se a cada classe de atores correspondessem papéis definidos de antemão.

Should we all be feminists? Lugar de fala e a economia do protagonismoObviamente, boa parte dos problemas que esta noção pode suscitar deve ser tributada aos próprios homens. Para além da estupidez de afirmações do tipo “Ninguém é mais feminista que eu!”, diletas de homens notórios por seus históricos de violências, a falta de engajamento orgânico de homens em debates feministas – implicando muita escuta, estudo, sensibilidade, paciência e disposição à mudança – sem dúvida impede pensar a participação de homens no feminismo para além das posições de protagonismo, antagonismo e aliança.

No entanto, e para retornar às campanhas de denúncia com as quais este texto se abriu, a questão dos alegados “exageros” das mobilizações feministas, que não se encontra totalmente fora do campo feminista, exige repensar a própria categoria de protagonismo. Em primeiro lugar, pelas interpretações segundo as quais as “francesas” teriam sido cooptadas pelo patriarcado e que estariam praticando um verdadeiro colaboracionismo de gênero; aqui, as mulheres se tornam antagonistas no próprio campo do feminismo, em vez de entendidas como simplesmente discordantes. Em segundo lugar, porque apontamentos feitos por homens sobre diversas questões não só os colocam no campo do antagonismo, mas ainda têm servido para questionar o estatuto de aliados que – me parece, e isso é uma impressão a ser confirmadas – certo discurso majoritário do feminismo lhes reservou como papel a ser desempenhado.

Para encerrar o texto, gostaria de pontuar que, sendo professor da educação básica, homem cisgênero, branco, gay e de classe média, entendo como meu dever pautar questões de gênero, raça, sexualidade, classe – e todas as demais comprometidas com uma agenda progressista, de defesa dos direitos humanos e crítica da realidade. Não devo, certamente, reclamar-me como representante de todas essas pautas; também devo exercer minha fala a partir do que os sujeitos que elaboram diretamente suas lutas o fazem; devo, enfim, reconhecer os privilégios que me beneficiam ou que me assolam e combater a falácia da neutralidade política. Isto é o exercício primeiro de reconhecimento de lugar de fala, sem o qual todo debate nasce mistificado. Porém, qual feminismo devo pautar? Aquele que teoriza que as mulheres trans não são sujeitos do feminismo? Aquele que defende sem critérios a criminalização e o punitivismo? Aquele que trata no mesmo nível (jurídico-criminal e moral), como abusos equiparáveis, o trauma de um estupro e a frustração por descobrir-se ser a terceira de uma relação outra? Aquele que abre mão do direito em favor da opinião pública como alternativas inconciliáveis? Ou então feminismos, no plural, que se oponham a estes nomeados aqui?

Como se vê, há muitas escolhas a fazer. Inclusive enquanto homem que não pode se omitir diante da dominação de gênero e das contradições a que qualquer luta política está sujeita. Mas há uma diferença importante que deve ser estabelecida aqui. Conquanto as ditas “minorias” tenham razão em reclamar para si a centralidade na preocupação e atenção política no espaço público, a noção de protagonismo esbarra numa construção “centralista” da relação entre minorias e pessoas em posições hegemônicas que se dispõem a entrar na luta. Existe uma sobreposição entre, de um lado, a ideia de que pessoas em posições de privilégio devem falar a partir de/com os sujeitos de atenção e preocupação política singulares, e, de outro, a ideia de que as primeiras devam subordinar suas interpretações e ações às elaborações das segundas. Nesse sentido, é necessário distinguir entre centralidade de atenção política e uma economia do protagonismo muito diferente do que a tríade protagonista/antagonista/aliado conseguiu estabelecer até hoje. Sujeitos que não têm centralidade ou prioridade de atenção política nem por isso devem ser vistos como coadjuvantes nestas lutas.

Este é um ponto delicadíssimo: jamais se deve depreender disso que homens devem ser vistos como centrais no feminismo ou que devem ditar seus rumos. Há o fato de que qualquer agenda contra-hegemônica que se pretenda tornar consensual estará sujeita a negociações no espaço público, estando sujeita, pois, a reconfigurações e direcionamentos que escapam das agendas e retóricas militantes. Mas o ponto principal é que a relação protagonismo/aliança eventualmente tem sido utilizada como forma de limitar, direcionar ou reduzir a agência daqueles sujeitos que, não sendo objetos centrais de atenção e cuidado político, também deveriam ser vistos como ativos e que nem sempre poderão incorporar sem filtros a agenda militante tal qual se apresenta de início. Afinal, não existe pauta LGBT em geral, mas posições divergentes sobre que tipo de agenda deve ser consensuada (uma que privilegie a criminalização da LGBTfobia, representatividade midiática, empreendedorismo, casamento igualitário etc.).

Falo então de economia do protagonismo como forma de provocar a pensar sobre o real papel daqueles que, repito, não são centrais como sujeitos de atenção, cuidado e preocupação política, mas que estão ativamente ajudando a formar consensos e dissensos sobre as agendas que, em tese, não lhes tocam diretamente. Com isso, convido a pensarmos para além dos limites das noções de lugar de fala e protagonismo – uma reconsideração generosa, que não sirva apenas para reafirmar nosso eventual compromisso com o status quo, mas que, ao mesmo tempo em que nos convida à agência política, também ajude a caracterizá-la mais adequadamente. Sobretudo se quisermos (e porque deveríamos) ultrapassar o nível das simples problematizações sobre os defeitos que enxergamos nos outros.

Should we all be feminists? Lugar de fala e a economia do protagonismo

1 COMENTÁRIO

  1. Thiago, sua reflexão é certeira. Espaço público, agência e, acrescento, prática política (no sentido proposto por Ranciere, de subjetivação contingente que desloca partilhas estabelecidas), parecem conceitos intransponíveis pela práxis identitarista em seu mundo pré-estabelecido de posições sempre já dadas.

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