Como entender a violência entre militantes, e como enfrentá-la? Por Passa Palavra

Leia a segunda parte clicando aqui!

Em tempos de recrudescimento dos linchamentos virtuais promovidos por uma militância identitária e sua política sectária e fratricida, é preciso retomarmos o debate sobre os chamados “coletivos autônomos”, pois é principalmente neles que os identitaristas agem como quinta-coluna dos capitalistas e impõem seu puritanismo moral.

Num cenário onde as denúncias de racismo, machismo e outras violências tornaram-se a razão de ser de parte da militância, e seu punitivismo apresenta-se como o meio mais fácil para tapar o sol com a peneira, há quem diga não ser mais possível existir “coletivos autônomos”. Já seria a hora de decretar seu fim.

Esta forma de organização, importante quinze ou vinte anos atrás, quando o “campo autônomo” encontrava-se em fase de restruturação – dizemos “restruturação” porque uma das arrogâncias da militância deste “campo” é precisamente a de fazer coincidir o início das formas autonomistas de organização com o momento de seu próprio ingresso na militância, como se fosse o marco zero da História – parece ter encontrado seu limite. Os “coletivos autônomos” cumpriram um importante papel na constituição de um campo de luta libertário, abrigando, muitas vezes sob o mesmo guarda-chuva, anarquistas das mais diversas vertentes e “novos” libertários que se decepcionavam com a forma-partido, que juntos – por desespero ou ousadia, tanto faz – se propuseram a experimentar e a construir novas formas organizativas. Mas também atraíram uma quantidade significativa de novos militantes que não necessariamente passaram a se identificar com alguma linha ideológica pré-definida.

A questão que alguns colocam – entre eles muitos agora decepcionados ou expelidos de tais organizações – é se não teria chegado a hora de criarmos outra forma de organização, menos informal e menos simples do que os coletivos autonomistas, porém ainda longe das tradicionais estruturas burocratizadas dos partidos, e também de muitos sindicatos e movimentos sociais. Ou, em outros termos, se a forma “coletivo autônomo” não teria chegado ao seu limite. A questão a ser resolvida seria: se temos muito bem consolidada a crítica do que a é a burocratização de partidos e movimentos sociais, o que seria a burocratização destes “coletivos autônomos”?.

Compreende-se a burocratização aqui como uma determinada forma de organização das lutas que se cristaliza. Se antes ela tinha sentido para as lutas sociais que a haviam gestado e que foram animadas por ela, passa-se a uma repetição de práticas e padrões com pouca plasticidade, que não mais conseguem dinamizar as lutas. As ações dos “coletivos autônomos” tornam-se voltadas para a manutenção do grupo em detrimento das lutas que se pretende fazer. A forma política de grupos fluidos, sem estrutura definida, geralmente limitados em número de integrantes, com alto grau de pessoalização das relações, possibilitou a cristalização de práticas de denúncias internas. A tendência seria então que todos, literalmente todos, fossem sequestrados pelas denúncias de racismo, machismo ou qualquer outra forma de violência, voltando assim suas energias políticas para o combate a inimigos internos ao próprio “campo autonomista”. Todos, sem exceção, viriam a transformar-se em tribunais de exceção voltados contra a própria militância, ocupando seu tempo e usando suas forças numa luta fratricida e ineficaz contra os capitalistas.

Os “coletivos autônomos” já não são mais anticapitalistas, mas sim espaços identitários. Eles já não cumprem uma função na luta de classes, mas, no pior dos casos, na formação de novas elites para o capitalismo. Ou, o que é mais comum, servem como espaços de sociabilização, de vivência, de proteção, de acolhimento, importantes para cada um daqueles que se dizem militantes, mas inócuos para enfrentamento da questão central que deu origem ao “coletivo autônomo”.

Por isto mesmo, deveriam ser evitados. Afinal sua validade enquanto instrumentos de luta anticapitalista teria chegado ao fim.

***

Não obstante estas observações terem muita razão e basearem-se em fatos muito conhecidos, há quem diga, contrariamente, que ainda não é o momento de decretar, teórica ou praticamente, o “fim dos coletivos autônomos”.

Para estes, decretar o “fim” de uma forma organizativa como são os “coletivos autônomos” por força de um só aspecto, por sinal externo a ela, e especialmente quando não há qualquer outra forma organizativa no horizonte imediato; decretar o “fim” dos “coletivos autônomos” sem qualquer solução, no campo prático ou no campo das ideias, para o problema da ligação e da solidariedade entre quem está em luta e para o problema da ligação entre quem está em luta e quem (ainda) não está. Decretar o “fim” dos “coletivos autônomos” em tais circunstâncias, enfim, significa ceder ao individualismo metodológico, ou seja, tratar problemas sociais como se se tratassem dos resultados de escolhas e omissões puramente individuais, como se os indivíduos, tornados assim verdadeiras mônadas, decidissem o que quer que seja fora de seu contexto social.

Explica-se. Interessa aos capitalistas a existência de uma multidão de indivíduos politicamente desconectados, psicologicamente angustiados e socialmente desorientados; controlam melhor a massa informe quando as formas autônomas de inter-relacionamento social declinam, e aumentam aquelas controladas pelos capitalistas. A destruição de qualquer forma de inter-relacionamento autônomo entre os trabalhadores e o reforço das formas capitalistas de inter-relacionamento significa que os trabalhadores encontram enormes dificuldades para criar relações entre si sem a mediação de quaisquer instituições capitalistas; desta forma, shopping centers substituem as praças públicas, os produtos da indústria cultural substituem formas autônomas de lazer, em suma, tudo quanto possa impedir os trabalhadores de relacionarem-se entre si sem a interferência dos capitalistas é desqualificado, minado, mercantilizado, subalternizado, destruído. Resultado: estando sempre sob a vigilância dos capitalistas e incapazes de relacionarem-se entre si sem sua mediação, os indivíduos que integram a classe trabalhadora, como que impossibilitados de olhar para os lados e reconhecer companheiros entre seus iguais, encontram dificuldades cada vez maiores de reconhecerem-se como classe, como um corpo social único e internamente diverso, como uma força política capaz de opor-se aos capitalistas e pôr fim à exploração a que são sujeitos todos os dias.

Se o individualismo impõe obstáculos sempre crescentes à formação de organizações voltadas aos lazeres, que põem em questão apenas tangencialmente a disciplina social capitalista, mil vezes maiores serão os obstáculos que impõe à formação de organizações de trabalhadores voltadas às lutas anticapitalistas, que têm como centro não apenas a disciplina social, mas os fundamentos da exploração econômica que tal disciplina reforça. Na luta anticapitalista, a ascensão do individualismo decorre precisamente do reforço da disciplina social capitalista e da fragmentação dos trabalhadores, especialmente em períodos de descenso das lutas: a militância, esmagada por sucessivas derrotas, vê-se abatida, enfraquecida, seja enquanto indivíduos, seja enquanto corpo social e político, e passa a ver nas falhas dos companheiros, e não na fortaleza dos capitalistas, a razão de suas derrotas. Eis aí o porquê de tantas crises, punições, disputas fratricidas, vinganças. É como se, incapazes de combater os capitalistas frente a frente, a militância em crise voltasse suas baterias para os adversários mais fracos, ou mesmo para companheiros agora enquadrados como inimigos. Resultado: ao invés de se fortalecerem coletivamente no enfrentamento aos capitalistas, pisam nas cabeças da companheirada para projetarem-se enquanto indivíduos e confortarem seus egos machucados.

Isto no que diz respeito ao funcionamento interno das organizações políticas dos trabalhadores. Uma consequência desta dinâmica está em tomar estas organizações políticas como encerradas, findas, ineficazes, precisamente porque não conseguem lidar com os efeitos das derrotas, tal como descritos acima. Esta é outra forma de individualismo, desta vez metodológico: ou não se consegue ver as organizações políticas dos trabalhadores como imersas em seu contexto político e social, responsabilizando-as individual e monadicamente por suas próprias decisões e destinos, ou sim, consegue-se vê-las neste contexto, mas sem tirar daí as consequências mais evidentes desta constatação. Resultado: condena-se as organizações a um fim prematuro, antes mesmo que deixem de existir na prática.

Podemos achar o que quisermos de uma forma de organização política (Estado, partido, domus, feudo, bonde, mir, empresa, sindicato, coletivo, ting, conselho etc.), mas elas só se extinguem quando as relações sociais que as instituem não conseguem encontrar mais sustentação numa base social. E enquanto não nos esforçarmos, teórica e praticamente, para construirmos novas relações sociais, é aos “coletivos” que será preciso recorrer.

***

Qualquer que seja a posição no que diz respeito à perversão dos coletivos anticapitalistas pela militância identitária, há um ponto reconhecido por quem defenda qualquer das duas posições: as violências de onde a militância identitária sectarista e divisionista extrai sua pretensa legitimidade política, apesar de todas as críticas dirigidas ao identitarismo, estas violências existem, e não deixarão de existir sem lutas.

É impossível, repetimos, é impossível dizer que não há violência internamente aos “coletivos autônomos”, pois estão numa sociedade onde a violência é uma das tônicas das relações sociais, e são exatamente estas violências que dão aos capitalistas a oportunidade não de destruírem eles próprios as organizações anticapitalistas, mas de estimular que elas destruam-se por si próprias sob o pretexto de estarem construindo uma sociedade mais justa e igualitária.

A enorme visibilidade das lutas antirracistas e antimachistas nos últimos anos fundamenta-se não somente na ascensão econômica e social das mulheres e de não-brancos, resultado de lutas individuais e coletivas, mas igualmente na sua repercussão na mídia corporativa (sim, Facebook, Twitter, Instagram e similares ainda funcionam como empresas capitalistas milionárias, não esqueçam). Sub-celebridades brotam ao sabor da “lacração” do dia, mais preocupadas com reputação que com solução de problemas reais. Entre elas, mesmo quando a linguagem empregue é a da luta de classes, demonstrando afastamento do identitarismo, a operação lógica identitária mantém-se a mesma.

A questão é: como enquadrar teórica e praticamente os casos de violência entre militantes? Como entender a violência entre militantes, e como enfrentá-la?

13 COMENTÁRIOS

  1. Interessante o editorial, coloca as denúncias de casos de violência entre militantes um aspecto de vigilância capitalista, depois diz que inevitável que essas violências existem dentro dos coletivos autônomos, uma vez que esses estão atreladas a sociedade e suas contradições, mas não traz nenhuma proposta de como lidar com esses casos de violência sem recair em um “identitarismo, burocrático e que faz o jogo capitalista”. Espero que esse horizonte de como atuar nesses casos, pelo menos alguma proposta menos vaga, que não recaia apenas na crítica a quem faz essas denúncias possa vir na segunda parte do texto. Outra questão, fato é que um ambiente tóxico e com membros frustrados tentem a gerar muito mais casos de violência de todo tipo, entre os mesmos, mas será que apenas a divulgação desses casos é que corrobora com o afastamento de militantes (os denunciados) e o fim dos coletivos? A violência em si não afasta também quem a sofreu? Apenas colocar a denúncia ou a publicização de uma situação de violência por parte de membros de um mesmo coletivo, como algo ruim e que só serve de projeção a uma das partes, sem dar nenhum outro tipo de alternativa, me soa uma crítica amordaçadora, impeditiva, um “melhor deixar quieto, pelo bem do coletivo” – que perigosamente, pode recair em coleguismo ou em um tipo de caso a caso, de acordo com o grau de relevância política, laços de amizade ou articulação da pessoa que foi acusada. Dois pesos e duas medidas. Mesmo se tratando de “coletivos autônomos”. E pior do que se cometer injustiça com um ou outro membro (sendo cabo ou capitão), pode-se acabar fortalecendo a continuidade e a permanência desses possíveis casos de violência. Concordo que o moralismo e a mediação capitalista não seja um horizonte aceitável para a sobrevivência de um espaço saudável de militância, mas se esse é o diagnóstico, qual o tratamento que se deve dar para que não recaia nessas práticas?

  2. O comentarista anterior nem leu o texto nem terá interesse em lê-lo naquilo que ele expressa explicitamente. Vê duas frases prontas, regurgita com aquelas já batidas nos meios militantes e quer que o Passa Palavra responda a suas angústias. Ele que vá construir as alternativas nos meios onde milita e depois fale de suas próprias experiências, ora bolas! Do contrário, as preocupações expressas são pura retórica legitimadora de um discurso fácil. Ou está esperando que o Passa Palavra “dê a linha”?

  3. Manolo: estou esperando nada do Passa Palavra, tampouco uma “linha”. Eu li sim o texto inteiro, porém comentei somente aquilo que me incomodou na crítica feita pelo editorial do site. Como disse anteriormente, me soa estranho um coletivo criticar a denúncia de violências entre militantes como um dos grandes motivos da toxidade e o triste fim dos “coletivos autônomos”, sem dar nenhum tipo de teoria ou sugestão alternativa a se lidar com essas violências. Ou seja, se esforçam em uma análise coletiva para se chegar ao diagnóstico explicitado no texto, mas nenhum esforço de esboçar uma alternativa, mesmo que teórica? Novamente, me soa simplesmente amordaçadora a crítica, afinal, ninguém que sofre ou mesmo quem pratica violência com um camarada de um mesmo coletivo, quer ser o responsável pelo triste fim de seu “coletivo autônomo”. E acredito que ninguém quer que as violências se perpetuem, se repitam ou se naturalizem nos espaços militantes, mesmo que sejam praticadas por lideranças tastas, que nesses casos fica muito mais fácil fechar os olhos ou “deixar pra lá” pelo bem maior, a continuidade do coletivo e a luta de classes abnegada.

  4. Claro. Estava faltando. O comentarista acima cai num erro comum, a confusão entre crítica e censura. Crítica significa submeter algo a um exame minucioso em busca de seus limites e potencialidades. Bem diferente de censura, que é o impedimento à fala alheia por uma série de meios: força física, leis etc. Não acho que esteja ao alcance de um site qualquer coisa além da crítica, e justamente por haver liberdade de expressão e de manifestação do pensamento (ainda que sob certas condições, como usar um computador, acessar a internet, saber usar navegadores, entender a linguagem necessária para clicar no botão de comentários etc.) qualquer um pode ir a qualquer site ou rede social reclamar de que está sendo censurado porque alguém o criticou. Mas como em tempos de lacração, escracho etc. ninguém mais suporta ser criticado, a crítica transforma-se em censura. Me bata um abacate!

    Pior: o comentarista citado quer que todo mundo ande sempre de lenços â mão antes de falar do cisco no olho dos outros. Ou seja: ninguém pode criticar nada sem oferecer uma solução, talvez quem sabe uma solução eficaz. E é a crítica do Passa Palavra a amordaçar, não ele! Fossem assim as coisas, nunca Marx teria escrito O Capital, nunca Bakunin teria escrito Federalismo, socialismo, antiteologismo, nunca Makhno teria pego em armas para lutar contra capitalistas e bolcheviques… Aguardemos, pois, que os problemas do mundo se resolvam por si sós antes de falar deles, ou esperemos que alguém nos venha com soluções prontas antes de arriscarmo-nos a criá-las.

    Em suma: o comentarista acima, além de censor, é imobilista.

  5. Claro Manolo, apontar que um editorial falha (na minha opinião) em apresentar qualquer horizonte possível, mesmo um mínimo esboço, uma fagulha alternativa ao que é colocado como o principal motivo do fim dos gloriosos e ultra anticapitalistas “coletivos autônomos” – denunciar agressões e violências sofridas por um camarada do mesmo coletivo – recai em censura. Porque é isso censura, é questionar a quem diz que não se pode denunciar uma violência, uma alternativa que não seja: se cale perante a violência sofrida, para não abalar a estrutura do coletivo ou ainda pior, para não abalar a imagem ou a inquestionável postura idônea de uma liderança tasta desse coletivo, que por ventura tenha sido o autor de tal violência.

    Chamar de censor quem questiona a censura de uma tática apresentada por um editorial, isso sim é estratégia (ou falta dela) argumentativa velha e boçal. Se fosse em outro contexto, imaginaria inclusive que o objetivo do editorial, além de apontar questões óbvias sobre o desgaste da tática autônoma (críticas às quais eu concordo), seria tentar teorizar somente quando um membro proeminente do próprio coletivo que assina o editorial tenha sido denunciado por algum tipo de violência. Mas, acredito que realmente tem uma honestidade em se pensar sobre o tema, não só apontando o resultado claro de quando essas violências e as denúncias das mesmas acontecem, na maioria das vezes o fim do coletivo. Levando em consideração a crença pessoal que o PP de fato puxa um debate amplo sobre a temática, novamente não vejo como uma censura ou tentativa de imobilizar tal grupo editorial de se manifestar sobre um tema, apenas por questionar a falta de avanço sobre uma questão tão delicada e desastrosa como violência entre militantes de um mesmo coletivo autônomo. E tendo em vista que é necessário passar pela aceitação da moderação do próprio site, para que esse texto e essa discussão se prolongue, tenho certeza que o PP jamais permitiria que um censor horrível se pronunciasse e de tal forma alcançasse seu objetivo nefasto de “lacrar” literalmente e findar de uma vez por todas esse espaço de liberdade opinativa.

  6. Ou pelo menos o titulo do editorial do PP está equivocado: “Como entender a violência entre militantes, e como enfrentá-la?” – até então não soube a postura que o Passa considera aceitável e menos destrutiva ou identitária/capitalista para enfrentar essas violências. Espero não ter soado censura ao título, afinal como o Manolo disse, todos que tem acesso a um computador ou outro meio tecnológico a fim de entrar aqui podem se expressar, mesmo eu, mesmo ele e mesmo o coletivo que assina o editorial acima. Se eu estiver apenas tendo um erro de leitura, porque não descarto essa possibilidade, me avise por favor. Mas até então não encontrei a segunda proposta apresentada no título do editorial, e o questionamento da mesma está soando como uma censura horrível, e certamente não seria minha intenção.

  7. O comentarista censor não é somente imobilista, não sabe ler. Qualquer leitor é convidado a passar um “ctrl+f” nesta página atrás das palavras “calar”, “censurar”, “proibir”. Que faça o mesmo com a palavra “proposta” ou com a expressão “duas propostas”; o que há, e o texto o explicita, são duas posições diante do mesmo problema. A “censura”, o “calar”, a “proibição”, as “propostas”, quem pesquise o texto não as encontrará, pois encontram-se somente na cabeça maniqueísta, proibicionista e punitivista do comentador acima. É que ele, na sua tresleitura alucinada, busca desesperadamente encontrar no texto algo que satisfaça sua ansidedade por uma militância tranquila e sem conflitos, e quando não encontra toca a impor ao Passa Palavra a necessidade de “apresentar soluções”.

    Insisto: nenhuma crítica tem a obrigação de ser “propositiva”. A descoberta daquilo que não se quer nem sempre se dá ao mesmo tempo da descoberta ou invenção daquilo que se quer, e a defasagem entre um e outro momentos não obriga ninguém ao silêncio. É este o tipo de censura que o comentarista aí quer impor: calar antes que as “soluções” apareçam, ou então falar um monte de bobagens sem qualquer enraizamento político ou social apenas para satisfazer a maldita mania “propositivista”.

    Acho o texto até agora lúcido precisamente por levantar problemas concretos, apresentar posições conflitantes e seguir indagando, aparentemente sem ter respostas prontas ou fáceis. Teria o Passa Palavra que se adiantar ao tempo histórico das contradições internas aos próprios coletivos, que ainda não foram, eles próprios, capazes de sair dos problemas apontados no texto? Ou seria preciso colocar, como nos animes, um enorme to be continued… ao final do texto para indicar o que já está explícito no título, ou seja, que ele é um texto seriado, e que é preciso ter paciência e esperar pela sua parte final antes de esculhambá-lo em seu conjunto?

  8. uma possível rota: a criação de sessões de terapias de paz mesmo, não é descanbar p o mundo espiritual mas sim ousar práticas que busquem arquétipos nao racionais entre membros de um coletivo, transes, arte, meditações, práticas de plantio e observação, afinal parece bem claro que a violência se enfrenta com a solidariedade, a escuta e porque não o silêncio. vida nova aos coletivos, um viva ao pensamento decolonial e comunal!

  9. a forma organizativa “coletivo autonomista” deveria ser no máximo “larval” até que se torne outra coisa. Ultimamente tenho achado que o tradicional “Somos um coletivo horizontal e blablabla” pior que o velho panfleto trotskista com o número 4 estampado sobre uma foice e um martelo, com um globo terrestre de fundo.
    Duas pessoas trabalhando intensamente e com um propósito político e tático bem estabelecido pode ser muito mais valioso do que uma dúzia de “autonomistas” que repartem seu tempo de militância igualmente entre a discussão e a cerveja. O que falta não é uma nova e milagrosa “forma organizativa”, é uma atitude de vinculação e associação que saia dos limites do coletivo com maior facilidade. Se isso ocorre com êxito, necessariamente advêm a necessidade de dar formas adequadas e potentes à organização — em oposição à informalidade tirânica e endógena — e logo a noção de “coletivo autonomista” perde todo o sentido.

  10. Chacun son tour d’être mangé
    Cordame de Notre Cunda, a irmã transex OprahMarxista do Corcunda de Notre Dame, bem que aprovaria uma suruba tetrapatafísica ou furdunço no badalhocal. Desde que fosse com tudo dentro, no bom sentido. E no mau também. Algumas danças guerreiras, com indiani metropolitani e charos da paz. Fracassando melhor, enquanto seu lobo não vem…

  11. Não me pareceu que o texto venha a sugerir que as pessoas fiquem caladas, o que me parece é que se está refletindo sobre as dinâmicas que esses coletivos assumem, para onde está focada sua atenção, de que maneira eles se organizam para lidar com os problemas entre militantes?
    Pelo que pude compreender existe uma tentativa de análise de por que os coletivos autônomos são consumidos por essa dinâmica de denúncias internas, não se trata aqui de responsabilizar tal ou qual militante, mas compreender a historicidade desses coletivos e como se tornaram o que são hoje.

  12. Interessante o texto e o diagnóstico quanto ao pesadelo em que se tornaram os “coletivos autônomos”. Voluntarismo (a favor/contra vontades ou ideias boas/más) nessa questão certamente é fadado a levar à reprodução, talvez expandida, da disposição e atividade repressiva e paranoica que o texto critica. Se não se busca a transformação das circunstâncias, se não se busca compreender os problemas e contradições nascidos e desenvolvidos nas circunstâncias (desde históricas, a situação de derrota profunda do proletariado em nossa época, até as circunstâncias da vida cotidiana na qual se desenvolvem as paixões e os desejos e que, numa situação de derrota histórica do proletariado, se desenvolvem evidentemente de maneira a reproduzir a sociedade de classes, isto é, uma disposição de guerra e competição entre os proletários que os leva a, necessariamente, se acusarem e se matarem para sustentar um poder alienado como “mal menor” frente a seu igual, poder alienado que vão desde mecanismos e rituais de repressão, até a classe dominante, o capital e o Estado), resta apenas ataques pessoais e repressão das “vontades” no grupo, que, cada uma de cada vez (ou todas de uma vez permanentemente, em alguns casos), se tornam o bode expiatório necessário como “mal menor” para a perpetuação do grupo.

    Provavelmente pertinente a essa discussão é esse texto recentemente traduzido:

    – Bordiga versus Pannekoek – Antagonism
    [link: https://libcom.org/library/bordiga-versus-pannekoek-antagonism]
    “Texto que trata da questão da relação contraditória entre os revolucionários – que são uma pequena minoria, quer queiram quer não – e o restante do proletariado. Contradição que não é superada trocando nomes, por exemplo, nomeando-se, no lugar de “partido”, como “movimento”, “organização autônoma”, “rede”, “federação”, ou até “não-organização”. Para tratar essa questão, o texto analisa as obras de Amadeo Bordiga e Anton Pannekoek, que, ao expressarem as lutas de classes de seus tempos e lugares, paradigmaticamente apreenderam, cada um, os dois polos dessa contradição, levando a teorização desses polos até o fim de suas consequências.”

    Sobre a questão da “violência entre militantes” e “identitarismo” em relação à autonomia do proletariado:

    – A autonomia é favorecida pelas lutas identitárias?
    [link: http://humanaesfera.blogspot.com.br/2014/12/a-autonomia-e-favorecida-pelas-lutas.html]

    – Autonomia, espiral de violências e apelo à força (i.e, à classe dominante) [link: http://humanaesfera.blogspot.com.br/2015/06/autonomia-conflitos-e-apelo-classe.html]

    E quanto ao “individualismo”:
    – Marx comunista individualista! (trechos sobre o indivíduo em Marx)
    [link: http://humanaesfera.blogspot.com.br/2016/12/marx-individualista-comunista.html]

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