Por Cridom

Eu nem bem havia saído da empresa. Nem tampouco tive tempo para digerir os conteúdos da reunião pedagógica, com todas aquelas minhas novas obrigações e trabalhos, e no meu celular já chegava uma mensagem da coordenadora informando que o prazo final para que os professores respondessem a um questionário de avaliação do trabalho docente se encerrava no dia seguinte. Caminhei pouco mais de 600 metros. Entrei no ônibus lotado. O primeiro dos três daquele turno. Três para ir. Três para voltar. E com muita sorte são apenas quatro horas por dia dentro desses ônibus. Peguei novamente o celular. Já havia outra mensagem, dessa vez da diretora da empresa. Era para vermos o e-mail dela. Abri a mensagem. Pura propaganda de outra empresa que queria vender uma mercadoria que consiste na aplicação de provas que simulam uma prova de vestibular. E o que a diretora queria? Queria que os professores analisassem a mercadoria e que cada um desse um retorno opinando sobre a mercadoria e se a escola deveria ou não comprar aquilo e por quê. Como eu ainda não havia respondido ao questionário para a coordenadora, decidi que ao chegar a casa faria estes dois trabalhos. Depois de quase oito horas sem conseguir comer nada, jantei e fui para o computador. Gastei meia hora para dar uma olhada naquilo e responder ao e-mail da diretora. Mais 20 minutos respondendo ao questionário da coordenadora. Vi ainda no celular que a secretária da coordenadora cobrava a todos os professores que enviassem por e-mail as provas 1 e substitutiva da 1, a prova complementar e sua substitutiva, as provas 1 e complementar para alunos com laudos médicos, e a avaliação extra. Todas elas referentes ao primeiro bimestre. Tudo isso até a segunda-feira seguinte. Era quinta-feira. Lá é sempre assim. Sempre jogam esses prazos, quando envolve muito trabalho de nossa parte, para depois de um final de semana. Gastei pelo menos umas 6 horas daquele fim de semana para aprontar tudo que ainda não havia terminado. Já passavam das 22 horas daquele dia exaustivo. Estava sem banho. Minha esposa já dormia. Também ela uma produtora de novos produtores. Uma proletária da educação. Amanhã a gente conversa, eu pensava. Amanhã será como hoje. Um pouco melhor. Dia de reunião pedagógica é pior. Gastos com transporte e alimentação. Tenho que ir naquela escola só para isso. Depois de já ter ficado numa outra escola a manhã toda. E sem receber nada por aquilo. Enfim, amanhã levantaremos às 4:30 e entre 5:20 e 6:00 horas estaremos dentro do mesmo ônibus. Depois cada um toma um rumo. Infelizmente, em algumas manhãs, só nos é possível esse tempo de conversas e carinhos. O resto é troca de mensagens pelo celular. Às vezes telefonemas curtos. Raros. Queria dormir antes da uma hora da manhã. Só me faltava revisar duas aulas do dia seguinte. Refrescar a memória. Não dá para entrar na linha de produção sem aulas bem preparadas, revisadas. Não é bom para o estudante. Não me faz bem. Faltava ainda preparar a mochila, lavar a louça da janta e tomar banho. Aproveitando o momento, água quente, banho, dizia ao meu quinhão de neurônios que eu deveria procurar aqueles quatro estudantes que mandaram mensagens para o meu endereço de e-mail da empresa. Sim, da empresa. Pois a empresa, farol de novidades, tratou de criar uma conta de e-mail para cada professor e divulgar isso aos pais e alunos. Claro, sem nos consultar. Como um bom dono de escravos faria. Os alunos apresentavam dúvidas sobre o conteúdo de algumas aulas. Não respondi e não responderei e-mails desse tipo. Na verdade eu não conheço nenhum professor daquela empresa que tem feito isso. Não farei até que sejamos obrigados a isso. Até que eu seja advertido, ameaçado. Pois se a moda pega, a minha vida ficará mais infernal ainda. Tenho mais de 260 alunos só naquela empresa. Tentarei tirar as dúvidas deles lá mesmo. Se possível, em sala. Terminei o banho tentando calcular o tempo de trabalho semanal que destino gratuitamente ao meu patrão. Dono de uma das empresas consideradas referência em ensino inovador na cidade de São Paulo – assim considerada por outras empresas parceiras dela; velha picaretagem fale de mim que eu falo de você. Todo esse tempo que passo lendo e respondendo mensagens no celular, no e-mail, preparando aulas, provas, corrigindo avaliações, participando de cursos, eventos, treinamentos, reuniões, vale quanto? R$ 50, R$ 100, R$ 150 reais a hora? Ou não vale nada e por isso mesmo tantos de nós estamos dando tudo isso de graça a essa gente que tão bondosamente tem nos dado tantos empregos? Essa gente cidadã, que paga seus impostos em dia, contribui com o progresso e quer ver o Brasil crescer em ordem. “A vida é curta e é pecado perder tempo”. Mas talvez estejamos mesmo é esperando a mordida da grande pobreza.

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