Por Rachel Pach

Prólogo: este texto foi escrito no contexto específico de 2016, quando comitês de solidariedade a Rojava começaram a se estabelecer ao redor do mundo, e acenderam o tema no circuito militante de internet, onde dispararam debates se Rojava seria revolucionária ou não. Essa é ao mesmo tempo uma resposta a tudo isso, e também uma autocrítica, pelo pânico de fazer apologia espetacular a uma guerra alhures, e reflete a busca por outro sentido possível para a solidariedade internacional.

“Solo la violencia de lo viviente es revolucionária”
Raoul Vaneigem – Por una internacional del género humano

Um: sobre entender Rojava para além do espetáculo

Uma rede internacional de comitês de solidariedade à resistência curda vem se estabelecendo no mundo inteiro, impulsionada pela tradição da prática militante e funcionando basicamente como bureaux de propaganda do programa político de Rojava. Quem escreve este texto participou ativamente de um destes comitês no último ano (2016), movida por motivos que atravessam um campo extenso de ideações: de uma articulação política internacionalista; de uma auto-organização da vida cotidiana via assembleias de base, de bairro, comunas; da posição das mulheres não só nos frontes de batalha, mas à frente da sociedade, em pleno Oriente Médio; da história de décadas de guerrilha nas montanhas; da sobrevivência de povos originários sob os Impérios de todos os séculos; do cultivo de línguas proibidas e da dança em volta do fogo; dos mitos da antiga Mesopotâmia; da história heroica da esquerda na Turquia; da resistência às novas faces do fascismo; de uma democracia sem Estado que nasce de um Estado arruinado pela guerra civil; da noção de que neste tempo presente, em que tudo por toda parte parece avançar rumo às ruínas, há, em algum lugar do mundo, uma revolução posta em curso.

Mas Rojava é uma zona de guerra, se encontra toda cercada e só pode ser conhecida em larga escala via o acesso remoto pela rede mundial de computadores. Assim se apresenta ao planeta como lugar presente-ausente no domínio global das imagens difusas: a internet. Páginas e perfis online põem em circulação uma profusão de fotos de garotas empunhando suas kalashnikovs fardadas com lindos lenços e tranças, montagens de paisagens montanhosas em cores contrastadas são sobrepostas ao retrato sorridente de Abdullah Öcalan, vídeos de combatentes peshmergas ostentando cadáveres do Daesh, reportagens de todo o tipo, panfletos, manifestações públicas de apoio… a dita revolução curda lançada ao mundo por compartilhamentos muitas vezes sem qualquer discernimento quanto ao conteúdo. Tal difusão se dá sobretudo pelo trabalho de propaganda militante, ou até diletante, e mais demonstram o repertório de um fascínio estético e fé política do que a própria realidade no terreno, que se apresenta aos nossos olhos sob uma nuvem de mistificação. No entanto, nem tudo o que circula é necessariamente tosco, e como qualquer outro acesso a uma realidade distante, entender Rojava exige uma pesquisa cuidadosa. E mesmo as imagens mais insólitas revelam algo de relevante sobre a guerra na nossa época: como, nesta era do capital fictício, a internet se constitui enquanto base material da guerra na Síria. Tal especulação virtual da tragédia não apenas produz conteúdo pesado para o mercado de dados da web (aquece a economia de cliques), como é inclusive responsável por arregimentar boa parte dos contingentes em campo e atrair investimentos para todos os lados. O espetáculo do colapso elevado ao level hard.

De qualquer modo, Rojava existe. E aparece ao mundo como representação de um outro possível posto diante do estado de emergência em que este se encontra hoje. Revolucionário ou não (este é o tema quente de extensos debates nas páginas políticas), estamos falando de um processo de formação social e territorial histórico sem precedentes, que emerge no epicentro da guerra mundial da nossa época. E é claro que, entre o combate a inimigos reais em campo e o ataque à totalitariedade do Estado ou às abstrações concretas do capital, põem-se infinitos conflitos. Também a solidariedade internacional, assim como as críticas feitas por entidades estrangeiras contêm contradições. No limite deste texto, tecido a partir de afetos e atritos vividos no interior do militantismo anarquista de São Paulo, a defesa aqui feita é de que as utopias têm sua importância; assim como tem importância a crítica radical à realidade tal como esta está dada.

Dois: não se engane com a geopolítica

A emergência histórica de Rojava enquanto região autônoma (autodeclarada Federação do Norte da Síria) diz respeito a uma territorialidade formada na e pela guerra. Mas não uma guerra qualquer (sem reduzir “qualquer guerra” a uma “guerra qualquer”), senão à protagonista das guerras de reordenamento mundial desta época – a guerra civil na Síria. Partir a análise por este pressuposto, com base no atual estágio do desenvolvimento capitalista, já atrita com várias perspectivas sobre a situação, sobretudo porque sabota concepções clássicas de imperialismo e revolução.

A começar por recusar o modo mais vulgar de se ler uma guerra, personificando os Estados como “sujeitos” voluntariosos e plenos de poderes: como players num tabuleiro de War. Vista dessa maneira, a noção de violência se personifica nas figuras de Assad, Putin, Obama, Erdogan, Öcalan e os acontecimentos parecem redundar na vontade e atitude de entidades políticas identificadas por siglas (ISIS/PKK/AKP/YPJ/YPG/PYD/ETC). É óbvio que guerra tem estratégia estatal, e que chefes de Estado, partidos, organizações, desempenham os papeis que lhes cabem no jogo, com todo o teatro diplomático envolvido e as negociações por debaixo do pano. Mas nem tudo opera nesta escala de cartadas geopolíticas: há uma lógica abstrata e diversas contingências concretas movendo o processo. As ciências políticas que analisam e organizam as práticas políticas em geral não avançam pelo terreno das críticas do valor e da vida cotidiana. São justamente estes os frontes desta análise.

Três: a guerra na época do capital fictício

As condições da guerra, por sua vez, não são uma constante trans-histórica: não há fundamento antropológico que dê conta de entender o que de concreto move um a matar ao outro em massa. Cada guerra se determina em particular pelas estruturas sociais dadas a cada lugar e época, ligadas ao desenvolvimento geral da sociedade. Assim as guerras de hoje não seguem aquelas entre Impérios da primeira metade do século XX, nem às guerras regionais entre Estados dependentes das superpotências da segunda metade, nem as dos séculos anteriores, mas, sim, têm a ver com as circunstâncias gerais da nossa época – marcada pela queda do Centro Mundial de Trocas (a.k.a. WTC 11.9.01), atacado por atores invisíveis (a máscara do terrorismo), o ato inaugural do século XXI.

Há uma ruptura substancial entre as guerras de antes e as de hoje. Se até o quase final do século XX as guerras operavam como motor à explosão do imperialismo, para a expansão forçada de fronteiras e dominação colonial de territórios, incorporando a tudo e a todos ao sistema mundial produtor de mercadorias, esse mesmo processo violento ainda avança – pois a modernização é irreversível – mas agora opera ao revés. Depois de ter forçado a socialização capitalista (baseada no trabalho abstrato) até os últimos rincões do planeta, o capital global entra em crise de valorização (ou seria colapso) e deixa zonas imensas em desolação econômica. E o que acontece nestes lugares de relações sociais mediadas pelo dinheiro que se veem num deserto financeiro? Estados desmoronados, deslocamentos forçados, guerra civil. Com o avanço acelerado da terceira revolução industrial, as especulações estratosféricas e as crises de hiperacumulação, o poder mundial não opera mais para incorporar “recursos” à reprodução ampliada do capital porque tal capacidade se esgotou como se previa, sem ter engendrado sua própria superação como se esperava. As novas guerras explodem então para a exclusão de excedentes do sistema, pois interessa ao rearranjo do ordenamento mundial capitalista a destruição de estruturas e o extermínio de gente cuja existência, do ponto de vista da valorização capitalista, corresponde a um entrave.

Enquanto o capital financeiro transnacional acumulado por certos “agentes” banca a barbárie, a posição das velhas potências mundiais é permitir, a princípio, que “eles se matem”; e fornecem até forças e armas para tanto, como se fosse uma “guerra normal” de manutenção do status quo. Mas ao deflagrarem a maior “crise humanitária desde a segunda guerra mundial” (noticiada assim pela mídia como se a “vida normal” nessa sociedade já não fosse “crise humanitária”), então agem para lidar com os resíduos da catástrofe que produziram alhures. Assim, do controle da barbárie, passa-se à barbárie do controle: reações nacionalistas, radicalização do racismo, aumento do policiamento, recrudescimento das fronteiras, agravamento das condições de vida, genocídio. Não é a toa que a situação seja vista como atualização do fascismo – mas o ponto é que este agora não opera mais sob o fundamento de expansão da economia nacional pois já não se pode mais explorar produtivamente os dominados. Diferente de outras épocas, as migrações massivas não se dão mais pela mobilidade do trabalho (como era a história dos escravizados, dos proletarizados, ou mesmo daqueles que se aburguesavam alhures), mas pelo imperativo da mobilização pela tragédia – e isso é notável nas narrativas das próprias sagas pessoais sobre o abandono de tudo que se tinha, sobre a travessia de mares e desertos, que se dão não “por emprego”, senão pelo desespero de poder continuar a existir. Aqueles que, neste horizonte, conseguem ser explorados pelo trabalho chegam a parecer ter sorte. Cada uma dessas tragédias particulares é quantificada pelos Estados enquanto custo de gestão populacional. No fascismo do capital fictício, refugiados são tratados como commodities humanas escoadas num mercado mundial em crise. As “saídas políticas” aparecem sempre provisórias, assim como as medidas improvisadas vão virando permanentes. Os governos estendem ad eternum o estado de emergência: já não podem prometer nada senão o parcelamento da catástrofe a crédito e com juros.

Quatro: Economia e Política, modelos em guerra

A guerra civil da Síria expressa radicalmente os conteúdos deste tipo específico de guerra do colapso da modernização. Foi disparada pela insurgência popular num contexto de crise política e econômica, esmagada por um governo que atacou a própria população justamente por não poder defender sua administração da estrutura estatal. Vista do campo, acontece mais como um caos generalizado de centenas de milícias que se enfrentam em coalizões cambiantes, formadas por pequenos poderes armados (de várias ordens: os comandantes podem ser sheiks, gangsters, burgueses, chefes tribais, líderes comunitários… os combatentes, em geral, proletários), bancadas pelo capital financeiro estrangeiro (magnatas do petróleo, empresários de armas, há uma diversidade enorme de investidores interessados), e que, portanto, não são apenas inimigas no fronte, como também empresas concorrentes na disputa por investimento. Se no início do “conflito” uma única bala de AK-47 podia custar até dois dólares, quanto não custa esta guerra cinco anos depois?

Ponto fundamental para entender a guerra no capitalismo: não são os mortos que contam para os “acordos de paz”. Controlar áreas militarmente implica em assumir a gestão dos lugares que se ocupa. Em regiões autônomas em relação ao Estado (sejam zonas rebeldes, Rojava ou o Califado), os grupos armados têm seus braços políticos (ou seria o contrário?), já que nessas condições a ordem social só existe enquanto posse da violência. Não à toa, as primeiras instituições civis que se estabelecem em áreas auto-administradas são a Polícia e a Justiça. Mas no plano das necessidades radicais, cabe à população em geral dar conta da manutenção da própria vida. É aí que se estabelece a autogestão da sobrevivência numa sociedade em ruínas.

Confederalismo Democrático – modelo autogestionário que corresponde ao estatuto revolucionário de Rojava, que basicamente organiza a sociedade em níveis escalares partindo da base, e exige máxima representatividade da população nas esferas especializadas da política – proporciona a uma sociedade sob condições críticas de reprodução (com a capacidade produtiva praticamente arruinada e desequipada de toda a velha infraestrutura estatal) não apenas um funcionamento relativamente eficiente para a manutenção do território, como rearranja de modo bastante relevante a ordem social existente. É evidente também que, por toda parte onde a guerra se estabelece, a ordem social existente necessariamente se rearranja de maneira substantiva. Mas diferente do modo bárbaro como a gestão do território se estabelece em outras partes da Síria (como adjetivar a administração do Daesh?), o modelo em vigor em Rojava foi montado pelo Partido a partir de um repertório extenso de gestões da esquerda no último século, compondo num único mecanismo uma miscelânea de elementos do anarquismo e do socialismo, tanto quanto da social-democracia e da antiga ordem feudal, tem forte influência do movimento feminista ocidental, incorpora novas ondas capitalistas como a “economia solidária”, além de tentar introduzir técnicas ecológicas para a produção em geral, enquanto queima petróleo para produzir energia elétrica e prover a população de necessidades básicas.

Aos que adoram os consensos da práxis de esquerda, esse soa um modelo quase utópico, o consomem como idílio ideológico. Já àqueles teóricos da crítica que apontam afoitos na internet as incongruências entre o “projeto libertário” de Rojava e suas “práticas autoritárias”, é preciso dizer a eles que esse atrito entre um modelo de sociedade e a existência contraditória de uma sociabilidade, bem… esse não é um problema exclusivo dos “mals revolucionários curdos”: mas da Política, no sentido de esfera especializada em administrar o cotidiano. O verdadeiro problema da máquina democrática não-estatal montada em Rojava se encontra neste fundamento, e não nas especificidades do seu “bom” ou “mal” funcionamento, que não passam de contradições incondicionais. Em todo caso, as críticas ao processo concreto são necessárias, mas sendo cuidadosas em considerar as contingências. Já no campo da Economia, avisem aos críticos que a declaração de autonomia de um território não significa sua autonomização do planeta. Dado o grau de devastação das estruturas físicas do território, trocas precisam ser negociadas para garantir o mínimo de abastecimento para a população, e não há troca que se faça nesse mundo sem a mediação do dinheiro. Que Rojava esteja assentada sobre uma bacia de petróleo pode ser vista como sorte para uns ou azar para outros, o que importa é: comercializam porque precisam. Sobre a manutenção da propriedade privada, outro tópico que os analistas estrangeiros de Rojava não param de pôr em pauta, sabe-se que esta é uma questão de embate nos conselhos, e é, aliás, uma discussão elementar a ser feita não só do ponto de vista das teorias socialistas, mas porque repercutem imediatamente nas determinações práticas da vida. Mas também é importante lembrar que, no limite da análise, todos os modelos locais que aparecem como alternativos, o cooperativismo por exemplo, ainda são categoricamente capitalistas. Então para reiterar o óbvio aos peritos críticos da revolução dos outros: é impossível abolir a forma-mercadoria num contexto isolado – mas isso também nunca esteve no programa de Rojava.

Cinco: as histórias de vitória curda

Certamente, as vitórias das forças curdas (a impressionante batalha de Kobane) e a consequente conquista territorial para a autodeclarada Federação do Norte da Síria têm a ver com a história de organização política militar do PKK e a experiência de décadas de guerrilha contra os exércitos de todos os Estados nacionais que dominam o Curdistão; um repertório estratégico bastante avançado aliás, considerando a conjuntura desta guerra confusa. Também é claro que o sucesso de suas campanhas não se deve só a uma “cultura curda de inteligência bélica”, muito menos ao armamento soviético velho recuperado do Afeganistão, senão ao forte suporte norte-americano e ao apoio de outros países ao PYD/YPG/YPJ. Apontar tal posição tática e diplomática como incoerente para uma “luta verdadeiramente revolucionária” é uma crítica comum feita às milícias populares curdas, feita por aqueles que ignoram o quadro de necessidades reais extremas para que uma defesa seja possível naquele contexto. A perversidade está em exigir ao Outro, que no limite luta pela sobrevivência, que resista à guerra numa posição livre de contradições. Claro que é fundamental chamar atenção para as execuções e coerções historicamente promovidas pelo movimento curdo, porque flagra a incoerência dos princípios éticos e desmonta em público a ideologia dos discursos. Mas as insistentes acusações de violação aos direitos humanos que são dirigidas aos partidos socialistas curdos, em sua maioria não dialetizam a violência inerente a um processo social conduzido sob a ordem mundial do Estado, do Capital e do Patriarcado, e sim afirmam a ideologia burguesa da não-violência que reitera tal ordem, reivindicando seu código moral.

Seis: essencialismo e status revolucionário

Sem botar sobre Rojava o peso teórico, seja socialista utópico ou científico, do termo revolucionário, dá ao menos para ver seu processo como estamentário: no sentido de organização da sociedade civil posta em direção à consolidação de um novo tipo de estrutura social geral, que todavia não se estabeleceu. Enquanto momento histórico, o processo de formação move a sociedade pela virtualidade, apontando várias formas de organização possíveis que vão, com a vida em curso, se instituindo ou não. Se pode parecer impossível existir um território sem fronteiras rígidas ou uma arquitetura política sem Estado, é porque a forma Estado passou historicamente por um processo estamentário e se consolidou como forma absoluta da sociedade moderna. Mas com a modernização em colapso, vemos algo novo aí surgindo. Em Rojava como em diversas outras territorialidades contemporâneas, a auto-organização social numa porção de território não destitui imediatamente a existência do Estado que o domina, mas o prescinde enquanto mecanismo organizativo. Isso não necessariamente aponta para a superação histórica do Estado, muito menos se refere a uma “Zona Autônoma Temporária”; trata-se, antes de mais nada, de outra formação social tornada possível dada a plasticidade da ordem mundial em crise, e aos imperativos de rearranjo do sistema global capitalista.

De qualquer modo, a condição insanamente negativa de um processo de formação social conduzido sob a barbárie só pode destituir a ideia positivista da existência de um sujeito histórico revolucionário. A compreensão de que a história é feita por um corpo social organizado (cabe aqui uma miríade de formas e identidades possíveis), que conscientemente domina (seja pela “teoria social verdadeira” ou pelo tal “acúmulo de experiências” que a militância sempre clama) a um processo social posto em curso, projetando nele seu devir como se fosse um “programa”… esta ideia se mostrou uma ilusão, ainda mais depois do último século, quando aconteceram enfrentamentos autênticos por toda parte, sem terem, contudo, alcançado mais do que “meias-revoluções” (arranques de melhorias reais limitadas a certos âmbitos da vida social – “partout des révolutionnaires, mais la Révolution nulle part” – I.S. nº10, 1965). Isso só demonstra o quanto as teorias e as práxis políticas em geral não escapam à velha metafísica do sujeito da Razão iluminista, a mesma que fundou o Estado moderno e anima o capitalismo há séculos, agora mais do que nunca sob os signos da “administração” e “gestão social” (“planejamento” e “urbanismo” inclusos).

Neste ponto, pode-se admitir que quase todo o debate sobre o status verdadeiro ou falso da revolução de Rojava feito entre anarco-apologetas e críticos marxistas cínicos continua acontecendo no plano do pensamento cartesiano, e reitera uma ideia fetichista de revolução. E no fim das contas, este também se demonstra um falso problema: porque as formulações abstratas do que é ou não revolução desconsidera as implicações concretas do ela representa para quem move (contraditoriamente) o processo.

Em Guerra e Paz no Curdistão, Öcalan elabora uma tese da identidade curda com um ethos essencialmente revolucionário. Ele se baseia nos trabalhos acadêmicos de intelectuais de esquerda da Turquia nos anos 70, comprometidos com a construção política de uma identidade nacional curda para a fundação de um Estado socialista na região, e defende que a etnia curda é autóctone da Mesopotâmia e descende da primeira civilização, responsável pela revolução neolítica; também, veja bem o determinismo geográfico, que pela conformação de seu território (sobre a cordilheira Zagros-Taurus), os curdos (etimologicamente os kurtis, povos das montanhas) seriam essencialmente guerrilheiros. Já a jinealogia, a ciência específica das mulheres desenvolvida nas últimas décadas pelas academias de mulheres curdas, também se estabelece naturalizando o poder que estas vêm conquistando na sociedade ao longo de uma história de luta muito dura. Se hoje as mulheres ocupam papel central na formação social de Rojava, isso definitivamente não se deu por conta de uma “natureza feminina”, nem a convite de um líder homem iluminado, mas porque elas foram armadas pelas necessidades da guerra, ganharam força nas revoltas populares e forçaram sua maior participação ao longo do processo, como protagonistas da luta contra suas próprias opressões. Ou seja, por mais que essa ontologia toda sirva de discurso ideológico, o tal “espírito revolucionário” curdo diz respeito à história das tradições de resistência dessas populações. Trata, afinal, dos modos de sobrevivência passados geração a geração, durante séculos de guerra e dominação. A cosmogonia de um povo construída ao entorno de uma identidade revolucionária faz com que os mortos do passado reascendam a esperança nos vivos quando estes se encontram em perigo.

Por isso, a representação de Rojava como revolução pode ser ideológica, mas é real. É real porque desdobra de uma realidade histórica ao mesmo tempo em que determina esta realidade agora. A esperança e a desesperança não são só virtualidades: elas mobilizam a ação. A revolução enquanto representação comum de outra sociedade possível imprime sentido ao processo social vivido agora; move a comunidade, como a cada um em particular, a produzir ativamente a própria história – mesmo que não dominem totalmente o processo social que põem em curso.

Sete: o sentido possível da solidariedade

Nas notas preparatórias para as teses sobre o conceito de história, escritas na época em que o fascismo triunfava, Benjamin escreveu: “Marx diz que as revoluções são as locomotivas da história. Mas talvez não seja bem assim. É possível que as revoluções sejam, para a humanidade que viaja nesse trem, o gesto de puxar o freio de emergência”. Se o único progresso lógico possível é o da expansão exponencial da barbárie, a revolução que se pode encontrar em Rojava está precisamente no combate deste avanço, como tentativa de ampliar o campo dos possíveis em direção a outro devir.

Enquanto a violência do capital em colapso avançar em escala global, o essencial da solidariedade internacional às lutas radicais pela sobrevivência não está em fazer a defesa de um modelo político determinado, mas em mover-se em direção ao encontro com o outro; sem exigir-lhe um papel heroico ou acusá-lo moralmente por suas contradições. O movimento solidário se dá no sentido de entender sob quais condições se encontram nossas irmãs e irmãos, e buscar junto com elxs pelas violências capazes de combater a verdadeira violência que é a totalidade capitalista. Por isso é preciso manter a revolução como representação no campo dos possíveis – para que nos mova, porque não estamos mortos. Ou, como canta o lema Rojavista:

”Berxwedan Jiyan ê”! (“Resistência é vida”).

BIBLIOGRAFIA:

Adresse aux révolutionnaires d’Algérie et de tous les pays (Argel, juillet 1965) – Internationale Situationniste, numéro 10. Mars, 1966.
Califat & Barbarie: En attendant Raqqa – Tristan Leoni, DDT21. Julho 2016.
Crédito à morte: a decomposição do capitalismo e suas críticas – Anselm Jappe, 2012.
Cristóvão Colombo Forever? Para a crítica das atuais teorias da colonização no contexto do colapso da modernização – Roswitha Scholz, Revista EXIT! nº 13. Julho 2016.
Guerra e paz no Curdistão: perspectivas para uma solução política da questão curda – Abdullah Öcalan, 2008.
La présence et l’absence: Contribuition à la théorie des représentations – Henri Lefebvre, 1980.
Por una internacional del género humano – Raoul Vaneigem, 1999.
Rojava Revolution: Reshaping masculinity – Rahila Gupta, 9/5/2016.
Sobre o conceito da história – Walter Benjamin, 1940.
Weltordnungskrieg: A guerra de ordenamento mundial, o fim da soberania e as mutações do imperialismo na era da globalização – Robert Kurz, Crônicas do capitalismo em declínio (2003-2012).

Originalmente publicado em espanhol no #1 da revista 2&3 DORM. Traduzido e nos enviado pela própria autora.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here