Na Universidade Walter Sisulu, na África do Sul, um coral formado por jovens adolescentes de uma escola apresentou-se usando o inkciyo, pequeno avental tradicional da etnia xhosa que deixa o torso desnudo e, quando agitado em meio às danças tradicionais, permite ver a genitália. O professor defende-se evocando os valores do identitarismo, enquanto a ministra se revela presa aos preconceitos do eurocentrismo, pois foram os malvados colonizadores que convenceram os negros e as negras a vestirem-se, para assim lhes poderem vender os têxteis fabricados nas metrópoles imperialistas. Temos assim uma luta do identitarismo contra o puritanismo eurocêntrico. Mas então, como ficamos perante o olhar lúbrico dos pedófilos? A vida é complicada, e a vida politicamente correcta é mais complicada ainda. Passa Palavra

19 COMENTÁRIOS

  1. OCIDENTE ou ACIDENTE?
    O pseudo-antagonismo entre essas duas Weltanschauungen (cosmovisões), ambas fundamentalistas & cada uma delas pro domo sua, tem suas vantagens no mistifório das mistificações.
    O universalismo ocidental, amálgama judeu-cristão & greco-romano que o capital devindo sistema hipostasiou, foi implantado a ferro&fogo e sucessivas expropriações primitivas, que remanescem e perduram suas distopias sanguinárias neste colapso epocal.
    O fundamentalismo, esse rótulo homologatório do não-ocidental (exterior e hostil ao judeu-cristão & greco-romano…), é o ideologema que o logocentrismo quantofrênico axiomatiza como o Outro sans phrase (bárbaro, negro, muçulmano etc.): a chancela do bode expiatório ou vítima sacrificial.

  2. Sim, é engraçado, mas é uma parábola de crianças, muito light. Quem quiser ver os horrores — ridículos, mas nem por isso menos horrorosos — que ocorrem dentro dos aquários do politicamente correcto, com as disputas de qual identidade é mais vítima, e portanto mais privilegiada, do que as outras, leia esta notícia:
    http://www.lepoint.fr/societe/etats-unis-licenciees-pour-avoir-refuse-de-servir-une-activiste-noire-apres-la-fermeture-11-06-2018-2226139_23.php#xtor=CS2-238

    E, claro, como sempre sucede nos identitarismos, quem apanhou a martelada foram os trabalhadores. O problema com esta notícia é que é necessário entender francês, mas quem não entender talvez tenha uma vizinha que entenda. Ou então, quem sabe se entre os leitores do Passa Palavra há alguma boa alma poliglota que se disponha a traduzir isto, para o bem geral.

  3. De fato, situação de classe (trabalhador, formal ou precário) não é o mesmo que posição de classe; nem, tampouco, imuniza contra os ideologemas reacionários: fascistas, racistas etc.
    Neste ínterim, desenrola-se a pré-história da humanidade: as inexoráveis(?) acumulações primitivas e contrarrevoluções preventivas – locais e globais – se multiplicam…

  4. Para quem entende inglês, encontrei uma notícia sobre o mesmo fato referido por João Bernardo em sua última mensagem: http://komonews.com/news/local/portland-bakery-fires-employees-for-denying-black-woman-service-after-closing-06-01-2018

    Há uma referência crítica ao mesmo acontecimento aqui: https://www.americanthinker.com/blog/2018/06/portland_bakery_fires_two_employees_for_refusing_service_to_a_black_customer_after_closing_time.html

    Outra notícia, também de um ponto de vista crítico, pode ser encontrada aqui: https://www.dailywire.com/news/31346/portland-bakery-fires-employee-denying-service-paul-bois

    Também parece ter sido publicado um artigo de opinião sobre o assunto no Wall Street Journal, mas o acesso é exclusivo para assinantes e não pude conferi-lo: https://www.wsj.com/articles/would-you-like-some-strife-with-your-meal-1527807733

    Por fim, encontrei dezenas de outras notícias em inglês pesquisando no Google, inclusive vídeos no YouTube.

  5. Também há em inglês uma matéria do mesmo autor do artigo de opinião do WSJ: https://quillette.com/2018/06/05/portland-bakery-white-guilt-poisons-batter/

    Ela é esclarecedora em um ponto que julgo muito importante: várias pessoas são identificadas na reportagem como uma espécie de consultores de igualdade, trabalhando tanto para os governos (parece que principalmente na área de educação), mas também prestando consultoria para empresas, sejam elas grandes ou pequenas (como o loja onde se deu todo o incidente). Parece que a própria discriminada trabalha dessa forma. A matéria dá mais enfase num picareta que se aproveita do discurso racial para arrancar dinheiro de brancos que se sentem culpados, mas parece que está disseminada, pelo menos nos EUA, esse tipo de profissão.

  6. Outra coisa que também me chamou a atenção na reportagem que compartilhei acima são os relatos dos inúmeros ataques sofridos por comerciantes locais na cidade por estarem se apropriando culturalmente de comidas típicas de outras “identidades”. Uma nove espécie de patrulha ideológica, que pode também desandar para um tipo de gangsterismo, tipo cobrar proteção dos vendedores, faze ameaças, etc.

  7. Tornando o muito complicado ainda mais complicado:

    “Incesto entre irmãos era praticado entre as famílias reais de povos como no Taiti e nas primeiras dinastias do Egipto.

    As últimas eram aristocracias africanas e podem também ter sido a origem da matrilinhagem na África Ocidental através das imigrações trans-saarianas.

    Nos casos conhecidos de casamento de irmãos e entre reis e raínhas, é explicado por um elevado grau de hierarquia, e a consideração dos reis e raínhas como semelhantes a deuses ou acima do nível de um ser humano comum.

    Entre os deuses, o incesto era praticado sem acusação moral, e portanto era o modo de colocar as realezas dessas sociedades bem acima do nível dos comuns.” (http://cec.vcn.bc.ca/mpfc/modules/fam-incp.htm)

    “Do Zimbabue, esses monarcas africanos era polígamos e transavam com milhares de mulheres, entre elas suas filhas e irmãs. E se alguém de fora da família tentasse fazer sexo com elas, era morto na hora. Existia até uma história mítica sobre a Rainha da Chuva, um antiga mulher e bruxa que controlaria a chuva e a seca, e teria conseguido esses poderes por ser fruto de um incesto.” (https://www.fatosdesconhecidos.com.br/casos-de-incesto-historicos-pouco-conhecidos-que-vao-te-chocar/).

    Bom… e se de fato o mimetismo social for um algo comum entre os humanos… “o muito complicado ainda mais complicado” se confirma…

  8. Os delírios do identitarismo são ainda mais ridículos e mais graves do que os do nacionalismo, porque as nações têm fronteiras, mas as presumidas ou assumidas identidades não as têm. Daí as disputas: o meu identitarismo vale mais do que o teu; a minha identidade começa antes de a tua acabar; vá para a fila, que a minha identidade chegou primeiro; saia de dentro da minha identidade; eu quero fazer xixi e a sua identidade põe-se à minha frente e não me deixa. Não estou a inventar. A quem ler inglês, peço que leia isto:
    https://www.economist.com/open-future/2018/07/05/trans-rights-should-not-come-at-the-cost-of-womens-fragile-gains
    Que este artigo seja publicado em The Economist, que é um padrão de respeitabilidade e de seriedade, mostra a que ponto se chegou.

    Não sei se ria, se chore ou se me atire pela janela.

  9. NOW, HERE & EREWHON
    Diante de algum caso horripilante, uma amiga costuma dizer: “A situação está abacate branco!”
    João Bernardo, leitor de Spinoza e Balzac (sobre o qual escreveu e gentilmente disponibilizou, para download, na internet), não é do tipo que oscila entre o entusiasmo e o pânico.
    Ergo, JB não rirá nem chorará. Nem, tampouco, cometerá auto-defenestração. Não rirá, como Demócrito; não chorará, como Heráclito; nem se suicidará, como Deleuze.
    JB remanescerá: firme, sóbrio e consequente. Ainda que amarrado ao mastro ou ao penhasco, em meio à balbúrdia das capitulações teóricas e inapetências práticas, compreendendo (e explicando) o que fazer e como fazê-lo…

  10. Num artigo publicado em The Economist desta semana ( https://www.economist.com/britain/2018/07/05/the-special-relationship-once-enriched-britains-politics.-no-longer ) leio o seguinte:

    «[…] a chamada esquerda progressista está a conduzir os democratas [o Partido Democrático dos Estados Unidos] numa direcção perigosa. […] Dedica uma excessiva atenção às dificuldades sentidas por grupos de activistas, enquanto ignora ou difama a classe operária. A esquerda britânica foi ainda mais longe na importação do progressismo americano do que foi a direita na importação do trumpismo. As normas [rulebook] adoptadas pelo Partido Trabalhista em 2017, um documento com 91 páginas, mencionam 26 vezes questões de género, 41 vezes questões relativas a negros, asiáticos e minorias étnicas [BAME (black, Asian and minority ethnic)], 43 vezes questões étnicas e 11 vezes de raça, mas só duas vezes as de classe».

    Enquanto os identitários, que monopolizam o espaço antes ocupado pela esquerda, esquecem ou esforçam-se por fazer esquecer a exploração económica, deparamos com o espectáculo de o principal órgão do capitalismo internacional insistir na relevância da classe trabalhadora. Qual o significado deste tipo de situações, que se reproduzem hoje por todo o mundo? E quais as suas consequências?

  11. BARTLEBY
    BAME or not, proletários – seja por terem mais(-valia, relativa&absoluta) que fazer e, por via de consequência, menos tempo do seu para esbanjar lendo The Economist – não se apoquentariam ainda que soubessem de tais escaramuças, no âmago discursivo das rivalidades interfracionais do kkkapital. Sobreviventes da classe em si, leem o jornal na banca (800) e sabem quase tudo sobre futebol. Guardam a boca para comer farinha, com ou sem feijão…

  12. Acabo de ler aqui
    https://www.dn.pt/cultura/interior/museu-vende-quadros-de-warhol-para-comprar-obras-de-mulheres-e-afro-americanos-9661697.html
    que o director do Museu de Arte de Baltimore, nos Estados Unidos, decidiu pôr à venda obras de Rauschenberg, Andy Warhol e outros artistas proeminentes por serem homens e com baixo teor de melanina, para com o dinheiro assim obtido comprar obras de mulheres e de negros. Coloca-se uma questão interessante e, como já observei noutros lugares, ora se salta com um pé ora com o outro e nunca se sabe se está a falar-se de biologia ou de género, porque Rauschenberg, sem qualquer dúvida um dos artistas geniais da segunda metade do século XX, era explicitamente homossexual. Quanto a Warhol, se é certo que ele se apresentava e era apresentado como homossexual, há quem diga que se definiria mais exactamente como um assexual a transbordar para a homossexualidade, o que deveria contribuir para situá-lo como pioneiro nas tonalidades do arco-íris. Mas as suas dificuldades com o politicamente correcto não são apenas póstumas, porque em 1968 sofreu uma tentativa de assassinato às mãos da gloriosa militante feminista Valerie Solanas, que o deixou malferido para o resto da vida. Aliás, é curioso que as feministas falem tão pouco desta Joana d’Arc dos nossos dias. Será que se sentem incomodadas? Não posso acreditar.

    O problema surge quando os substantivos não prescindem de adjectivos e sobretudo quando os adjectivos se tornam mais importantes do que os substantivos, quando não basta ser classificado como artista e tem de se ser artista nórdico ou artista judeu, e mau artista por ser judeu e bom por ser nórdico, ou quando se pretende definir agora o valor de um ou uma artista pela cor da pele ou pelo baixo ventre.

    Os nacionalismos, que na primeira metade do século passado mostraram os seus efeitos mais perversos, não foram extintos pela transnacionalização económica nem pela globalização cultural e ressurgiram nos últimos anos com inesperado vigor. Como se isto não fosse suficientemente trágico, a globalização gerou o terreno para o aparecimento de um novo tipo de chauvinismo transversal, os identitarismos, não menos perigosos nem menos histéricos do que os nacionalismos. E na disputa cruzada que os identitarismos estão a travar entre eles, a decisão do museu de Baltimore contribui para empurrar os “G” para o final da fila.

  13. “Christopher Bedford defende que esse desequilíbrio é ainda mais flagrante numa cidade como Baltimore, de maioria afro-americana: segundo dados dos censos de 2010, 64% dos habitantes são negros”. Seguindo a lógica do diretor do museu de Baltimore, se “Em relação à demografia, em maio de 2007, Jerusalém tinha uma população de 732 100 – 64% eram judeus, 32% muçulmanos, e 2% cristãos” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Demografia_de_Jerusal%C3%A9m), nada mais coerente que a decisão de Israel de se definir como ‘Estado-nação judeu’ , ou o “Parlamento israelense debate(r) a criação de cidades segregadas só para judeus”, (https://brasil.elpais.com/brasil/2018/07/10/internacional/1531241795_580668.html), tal qual nos espaços de fala exclusivos desta ou daquela identidade e cultura… afinal, não estão os judeus justamente e defender sua identidade e cultura?

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