Olha a onda, olha a onda. Cuidado que a correnteza te leva!

Por Maurilio Vianna

Vou te pegar, essa é a galera do avião
Se ligue agora nessa nova onda
Sou um pirata jogando a cooptação, ô, ô, ô
Vou navegar, cumprindo as ordens do meu capitão
Capitão UJR vem dançando com a galera
Nessa aventura que é pura emoção, olha a onda![1]

É inegável que nos últimos anos o movimento Correnteza tem ganhado cada vez mais espaço dentro da universidade e tem usado dos espaços coletivos – tanto de luta, quanto de convivência – para construir e cooptar sua base política. O Correnteza surge em 2016 após as ocupações dos institutos e universidades federais, na tentativa de construir um programa contra o sucateamento da educação pública superior e o corte de gastos destinados a este setor. Esse programa – a um leitor desatento – se mostra como uma alternativa de luta diante das velhas organizações da burocracia estudantil, porém uma análise esmiuçada revela diversas contradições e problemáticas que reforçam a ideia de que o movimento Correnteza não passa de apenas mais uma nova “organização da burocracia estudantil” e mais, com diversas práticas fascistas e reacionárias para com sua “base”.

Correnteza detém certa força política dentro da universidade e essa força vem por meio de práticas antigas, outrora usadas por outras burocracias estudantis, que hoje se encontram em decadência. O Correnteza é a idealização da União da Juventude Rebelião doravante UJR, a respeito de uma organização de “massas”, mesmo que essa seja enormemente problemática e propensa ao projeto de “controle estudantil”, do que de concretamente a auto-organização dos estudantes, em suas múltiplas facetas.

I

O movimento Correnteza surge de uma extensão da juventude do Partido Comunista Revolucionário doravante PCR (UJR) com a mesma proposta de lutar contra o sucateamento da educação pública superior. Existe uma dicotomia entre a UJR e o Correnteza. Essa dicotomia não é de forma alguma pontuada dentro dessas organizações, no sentido de que os militantes da UJR podem fazer parte do Correnteza e vice-versa. Porém, implicitamente, a UJR ocupa nesse cenário um papel de direção do movimento. O que quero dizer é que os quadros da UJR ocupam dentro dessa dicotomia um papel de Vanguarda (no sentido leninista do termo) e que o Correnteza, por sua vez é a “massa”.

Olha a onda, olha a onda. Cuidado que a correnteza te leva!
Essa relação dúplice é demonstrada no sentido de que dentro da UJR existe um esforço de formação política e teórica de seus militantes e que possibilita perceber “quais interesses defendem” (mesmo que esses interesses sejam questionáveis, enquanto dizem defender interesses coletivos). No caso do Correnteza, a “massa” (que é atraída por uma relação que explicarei mais adiante) não possui nenhum tipo de formação política ou teórica e esse deficit provoca reações anômalas, que em nada compreendem as contradições da realidade, como aconteceu certa vez numa reunião sobre uma parceria entre a Faculdade de Ciências Sociais e a Guarda Civil metropolitana em que percebendo que todos se mostravam contrários a essa medida uma militante do Correnteza/UJR disse para os presentes “chamarem o Batman”, caso fossem assaltados ou sofressem alguma violência.

A única formação possível que esses militantes recebem é através de folhetos selecionados pela organização e toda a esdrúxula retórica leninista [2]. Aposto que se perguntarmos a um desses militantes o que de fato Lênin defende, eles não saberão responder devido às debilidades de sua formação teórica. É preciso esclarecer que nem sempre a formação teórica é mais importante do que a atuação prática no movimento real, mas o que acontece é que nesse caso os militantes reivindicam-se como “marxista-leninistas” e que na prática isso não se confirma ou só se confirma na cabeça desses militantes. Essas deformidades se dão, justamente, porque o Correnteza enquanto organização de “massa” não tem por intenção alguma construir um quadro “consciente” ou crítico desapiedado da realidade, pois esse papel a UJR já desempenha dentro dessa relação. A proposta, é justamente contrária, é formar quadros cada vez maiores e que estejam inseridos nos diversos espaços deliberativos da universidade, para “fazer passar” seus interesses organizativos e que visam à manutenção da hegemonia do Correnteza dentro da universidade. O correnteza busca formar um quadro de militantes que estejam ativos dentro dos respectivos cursos, que ocupem lugares de deliberação ou que se desiludiram com o movimento estudantil para que a partir disso o movimento se constitua como força política dentro da universidade. Quando não conseguem – e surge uma proposta de conciliação com outras organizações políticas a fim de terem força suficiente para ocuparem determinado espaço de “poder”. O movimento Correnteza não prioriza a construção de uma base anticapitalista (acredito que nem sequer sabem o que é isso), mas irradiam-se na tentativa de cooptar estudantes inseridos nas categorias de identidade e usar deles para a promoção do movimento. É um ciclo, no sentido de que o Correnteza (que se diz “classista”) usada do identitarismo para cooptar militantes e dentro dessa relação que não concebe a superação do capitalismo, mas acredita na reforma deste e por sua vez na ascensão dos “oprimidos” a condição de opressores. Esses militantes – após esse processo – saem à caça de novos militantes a partir dessa lógica de identidade.

II

No seio dessa militância, a qual de forma prática abraça todas as bandeiras possíveis – e que deixa em segundo plano a luta contra o sucateamento do ensino público superior – surge toda espécie de anomalias possíveis e que só têm relação na vivência da realidade concreta, se estivéssemos numa realidade alternativa. Dentro dessa organização “classista”, o identitarismo ocupa um lugar de destaque. As diversas práticas anômalas desses militantes, tendem muito mais a fragmentar o movimento estudantil, do que unificá-lo. A caça aos “falsos cotistas”, as diversas tentativas de escracho (mesmo quando já havia se confirmado que não passava de alguns poucos boatos), as tentativas de minar, aparelhar ou até mesmo inviabilizar o surgimento e/ou manutenção dos espaços coletivos, corroboram de forma pouco racional com a ideia de universidade “popular”. Nos nichos dessa militância perdida, os movimentos identitários se formam. Essa gestação não se dá na forma de análise das contradições de identidade que permeiam este sistema. As forças políticas do Correnteza (em sua maioria) só são tidas como tal enquanto pautam-se pura e simplesmente nas questões de identidade.Olha a onda, olha a onda. Cuidado que a correnteza te leva!Esses indivíduos ou subgrupos, a partir da ideia de representatividade, local de fala e empoderamento, abrem duas vias de causa e efeito (que já está clara se pensarmos nessa mesma relação do ponto de vista de outras organizações da burocracia estudantil) e que precisam ser explicadas. O primeiro ponto é que esses subgrupos não conseguem dialogar com o restante dos estudantes que não pertencem ou não possuem determinados traços de identidade; e a sua causa é que quando esses estudantes são cooptados (os que possuem determinados traços de identidade) não é de forma alguma debatido internamente todo o processo de luta e de organização prática ou teórica dos diversos movimentos que também pautaram questões de identidade, isso causa um desequilíbrio nas ações práticas, pois é facilmente verificável que existem linhas bastante destoantes e nesse deficit de uma análise concreta o identitarismo nada consegue fazer para que casos de violência deixem de acontecer e mais, ainda acreditam que estão conseguindo integrar as minorias dentro da universidade.

Talvez possa ser um equívoco, mas fazer acordo com a Polícia, permitir sua entrada no campus e defender minorias parecem duas coisas antagônicas. O identitarismo dentro do Correnteza não é combatido, pelo contrário, ele é usado como meio de atrair base política, de formar quadros, de ocupar espaços deliberativos e cada vez mais espaços deliberativos, para que assim suas propostas possam “passar”, claro, por meio da pressão, da intimidação, das acusações de golpe, de “anarco-fascismo”. O que importa nesse momento ao Correnteza é construir quadros cada vez maiores e espalhados por todos os espaços deliberativos da universidade, e devido à fragilidade na formação teórica, os militantes aceitam cada vez mais os interesses do “comitê central”, ou seja, a UJR.

III

A cooptação acontece de forma “clássica”, no sentido de que essa cooptação se dá através do coleguismo. Assim, como as outras juventudes da burocracia estudantil, essas organizações atuam principalmente no início de cada ano letivo e cercam os possíveis militantes. Constroem relações afetivas e quando estas já se tornaram sólidas, apresentam o programa organizativo e atraem esses estudantes a partir do significado que eles atribuem a essa suposta “amizade”. Deve ser dito que, sem nenhuma formação ou processo de formação política (mesmo que a priori), apenas pelas relações afetivas ou identitárias é que o Correnteza consegue atrair seus militantes. No início de cada ano letivo é ofertado uma série de “rodas de apresentação do movimento Correnteza” e com essa medida os estudantes que advêm de um ensino ou de uma atuação política crítica, quase nula, a partir do coleguismo, são integrados a organização. A tática utilizada comumente pelo Correnteza é justamente essa: se aproveitar dos estudantes com pouca ou quase nenhuma atuação política para integrá-los dentro a organização a partir de diversos métodos que se configuram como a bancarrota do movimento estudantil. Essa prática, cheia de deficiências, provoca reações das mais absurdas e que não analisam as questões concretas da realidade. A parceria do DCE com a Reitoria e a Polícia militar, na tentativa de permitir a entrada de policiais no campus, acirrou ainda mais os preconceitos contra os quais os movimentos identitários do Correnteza tanto dizer lutar. Outro exemplo a ser apresentado é a postura dessas militantes do Correnteza/UJR na construção do centro acadêmico da Psicologia, em que a proposta era se debater a melhor forma organizacional do centro acadêmico (gestão ou autogestão) e posterior ao debate, os estudantes em assembleia votariam pela melhor forma de organização. Com medo de perderem espaço dentro do centro acadêmico, o Correnteza/UJR tensionou para que a votação ocorresse antes do debate e através das forças políticas dessas organizações dentro da psicologia, das relações afetivas e o apoio que possuíam de seus militantes dentro da Atlética conseguiram passar o modelo de “gestão”[3] e, assim, esvaziaram o debate. Quando o Correnteza se defronta com a iminente perda de espaço deliberativo, o aporte tático do autoritarismo, da desmoralização dos ‘’sectários’’ e que no fim não irrompe os limites do trashing. A debilidade argumentativa desses militantes beira a loucura no sentido de que não conseguem avançar para além de métodos que permitam o debate de ideias, mesmo que concernentes.

IV

A postura do Correnteza tende muito mais a trair a base estudantil do que de fato construir algo que venha intervir na radicalidade (ou seja, ir à raiz do problema). O movimento Correnteza, numa tentativa clara de minar o movimento estudantil de base, persegue, mente e usurpa as lutas que surgem no seio do movimento estudantil goiano. Um exemplo disso foi a proposta deliberada em uma assembleia da luta contra o aumento das tarifas. O “hoje é de graça” contra os cortes do passe livre estudantil, contra o qual em assembleia os militantes do Correnteza/UJR se posicionaram, mas que após as atividades e o retorno a normalidade do benefício, numa tentativa de amenizar a situação política (que estava tensa devido à aliança DCE/Reitoria/PM) se propôs – de forma independente da decisão coletiva – a realizar tal atividade. O autoritarismo dos militantes do Correnteza pode ser comparado aos exemplos que Reich dá sobre o “Zé Ninguém” que aprende vendo o seu superior e, depois de ter conservado o aprendizado, o reproduz de forma voraz [4].

O Correnteza é uma entrave para o avanço do movimento estudantil, e como entrave deve ser destruído! Seria o Correnteza uma nova União da Juventude Socialista, doravante UJS? No sentido de ser uma organização extremamente contrária aos interesses estudantis e que pauta pura e simplesmente seus interesses individuais e atua como incubadora de futuras “lideranças” eleitoreiras e gestoras das lutas? Há de ser dito que a partir da pretensão de certos militantes que perdem seis, sete ou oito anos dentro da universidade na tentativa de se fortalecer como força política e posteriormente se lançar no campo eleitoral, é possível que seja esse mesmo o caminho. Mas, por outro lado, o movimento Correnteza é também força humana para a legalização de seu partido. O trabalho feito rende assinaturas com a proposta de ser uma alternativa de esquerda, pois como eles mesmos colocam “a esquerda está corrompida”. Porém, em sua prática incipiente o movimento Correnteza se mostra por igual a esse campo da esquerda que dizem combater ou que rotulam de “pelegos”. O movimento estudantil só conseguirá avançar minimamente a partir do momento em que passar a combater as práticas oportunistas e autoritárias do Correnteza/UJR, que claramente se mostra uma espécie de clubismo, pois, como disse anteriormente, esse movimento abraça todas as bandeiras possíveis e a pauta de luta contra o sucateamento fica em segundo plano.

V

Porém, uma coisa ainda falta ser analisada. O movimento Correnteza emerge logo após o fim das ocupações nos Institutos Federais. Na maior parte das entrevistas realizadas para a construção deste texto os militantes e ex-militantes do Correnteza pontuam harmonicamente que a atuação do bloco autônomo dentro das ocupações promoveu um alinhamento prático dos estudantes com a postura do Correnteza. Bem, é possível observar que o Correnteza capitalizou de forma significante os estudantes após as ocupações e isso acontece não somente a partir do descontentamento desses estudantes com o modelo de organização “autonomista”, mas para que essa cooptação se efetivasse o Correnteza precisou diversas vezes fazer concessões ao discurso de horizontalidade, autogestão e divisão coletiva das tarefas. Porém, dentro desses limites estabelecidos o Correnteza constantemente retirava a legitimidade desse modelo de organização e insistia por uma verticalidade que de forma alguma fora acatada.Olha a onda, olha a onda. Cuidado que a correnteza te leva!
Nessa relação dúplice entre “autonomistas” e Correnteza, onde já estava clara a postura autoritária, vazia e burocrática do segundo, os primeiros nada fizeram e, quando muito, apenas ridicularizaram os que foram cooptados. Nada surgiu após as ocupações e os limites organizacionais do campo autônomo ficaram mais evidentes. Isso contribuiu para o dilaceramento político dos autonomistas dentro da universidade. É possível que seja esse o momento onde o Correnteza conseguiu aglutinar força para crescer dentro do seio do movimento estudantil, pois não há mais quem o denuncie. A postura do campo autônomo possibilitou muito mais a ascensão do Correnteza do que o combate a posturas oportunistas. Pensar nessas questões aponta duas problemáticas nesse processo de verificação. A primeira é como o Correnteza conseguiu capitalizar esses estudantes na forma de que não houvesse nenhuma possibilidade de reação do “movimento autônomo”? O que pode ser observado é que num dado momento da luta – e o desgaste político que ela causou aos estudantes – o Correnteza numa pungência de força conseguiu ampliar ainda mais o discurso de que seria uma alternativa a desorganização do campo autônomo, mas que também primava pelos “ideais de horizontalidade”, construção coletiva das propostas, mas que isso seria de fato acertado se esses estudantes abandonassem o “sectarismo” e adentrassem a organização. A partir disso o Correnteza conseguiu uma liberdade maior para levantar suas bandeiras e mesmo os que estavam distantes daquele processo de luta que se desenrolava acabaram sendo incorporados nessa dinâmica de “luta organizada”.

A segunda questão colocada é entender como o Correnteza, a partir das ocupações, conseguiu de forma implícita jogar os estudantes contra o movimento autônomo. Durante as análises, foi possível perceber que a ação do movimento autônomo de forma alguma conseguiu atrair os estudantes naquele processo de luta. É possível que isso tenha acontecido devido às deficiências teóricas e organizacionais do campo autônomo. Hoje, o autonomismo se tornou demasiadamente vazio. Tudo é enquadrado nesse campo! Uma das percepções que tive na análise da emergência do movimento Correnteza foi justamente essa falta de concretude no campo autônomo. O que quero explicar é que autonomia, autonomismo, independência e etc. se aglutinam dentro do campo autônomo e existem enormes diferenças entre esse conceitos e não necessariamente estes têm por traços gerais a autogestão[5]. Por fim, o movimento Correnteza representa nada mais do que os interesses daqueles que somos contrários, ou seja, da burocracia e do capital.

Notas:

[1] Adaptação da música “Olha A Onda” do grupo Tchaka Bum.
[2] Lênin, em seu texto “esquerdismo a doença infantil do comunismo” usa de toda a sua retórica e uma tosca argumentação para rebater a prática dos militantes alemães, italianos e holandeses. Chamando-os de pequeno-burgueses, esquizofrênicos aburguesados e etc…
[3] Naquele caso, gestão queria dizer exatamente hierarquia, comitê gestor e base gerida.
[4] REICH, Wilhelm. PSICOLOGIA DE MASSAS NO FASCISMO – 2 edição, 1988. Martins Fontes. Pg.13
[5] Para uma melhor explicação sobre autonomismo, ver aqui

2 COMENTÁRIOS

  1. Maurilio,
    me lembro de uma conversa com companheiros e companheiras ex-trotskistas e trotskistas aqui na faculdade que frequento em buenos aires. Brincávamos com uma metáfora, muito potente, sobre a forma que cada partido usava para “paquerar” estudantes. Alguns eram mais “monogâmicos”, só aceitavam integrar a pessoa nas atividades internas do partido quando ela já estava disposta a filiar-se. Outros eram mais “promíscuos”, fingiam muito interesse nas opiniões dos estudantes, fingiam estar muito interessados nas “iniciativas” dos “seus” estudantes de base, construíam esta relação pouco a pouco e iam integrando aos poucos: o/a estudante a princípio é um “contato” (um peguete), depois vira um “independente” do partido (um rolo), até que por fim, se a pessoa demonstra ser valiosa e disposta, se integra ao partido (namoro). Também cada partido tem uma tradição diferente com relação à tática 2 (ou “cooptação húmeda”), festas, verdadeiras políticas libidinais etc. A maioria, no entanto, é igual com relação a algo: no momento em que se dão conta de que você não está interessado em filiar-se, ou está se aproximando de outro partido, nunca mais voltam a falar com você.

    Sobre a questão do autonomismo, contar com um aparelho por trás sempre facilita o trabalho de cooptação. A aplicação de uma estratégia coordenada e contando com ajuda externa sempre coloca os aparelhos na frente de grupos autônomos. Mas infelizmente é o contexto que nós não escolhemos, mas onde devemos travar disputas. Acho que sim, é necessário oferecer alternativas às e aos estudantes que acabam de entrar na faculdade, ávidos de política, e se o único que encontram é a atividade de uma única agrupação — por estranha que pareça –, é aí onde irão. Por mais que muitas vezes seja nojenta a luta espetacular que muitos grupos políticos fazem entre si, não é possível abrir mão da visibilidade, se a ideia é não automarginar-se.
    Me parece que muitas vezes o autonomismo se expressa em sua vertente liberal e não consegue ultrapassá-lo. A horizontalidade é tomada como uma forma de fazer valer o princípio de que ninguém esteja acima de ninguém, como se se tratasse de um ponto de partida. Oras, todos os grupos humanos têm desigualdades, existem os que sabem mais, os que falam melhor, os que se vinculam mais facilmente, os mais corajosos, etc etc etc. A igualdade é uma tendência, um conteúdo latente e que ganha força nos processos de luta, não é um pressuposto de partida.
    Isso é importante para poder encarar a tarefa de falar com estudantes recém-chegados na faculdade que sim estarão necessariamente em uma situação “inferior”, politicamente falando: eles/elas tem menos experiencia, menos conhecimento sobre a política local, etc. Como entablar essa relação essencialmente desigual em principio, sem abrir mão dela, como se pensássemos que é por natureza e “autonomamente” que os e as companheiras novas se integrarão às correntes políticas autonomistas? Acredito que isso é uma herança ruim do anarquismo, daquele anarquismo que se acredita uma evolução natural do pensamento humano e para onde emanam todas as pessoas corretas.
    É hora de deixar de confundir autonomismo com não-organização. Existem ambientes onde talvez a tarefa primeira dos e das companheiras seja criar espaços de base, vínculos informais entre ativistas, pequenas trincheiras de luta “democrática”; mas existem outros ambientes onde as posições políticas já estão mais sobre a mesa, onde já existe grande volume de ativismo político e onde a diferenciação visível de linha política é importante para combater as tendências burocráticas e gestoriais. É necessário experimentar com formas de organização autonomista: a falta de formação da militância autonomista não se reduz a uma suposta falta de leitura de textos, a formação de ordem prática é tão importante quanto e requer ensaio e erro, assim como no campo da teoria.

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