Por Manolo

Viu-se na primeira parte deste ensaio como populismo e fascismo encontram-se numa zona nebulosa, de difícil distinção. A isto adiciono que estão como que num continuum, onde o fascismo é uma forma mais radical de populismo.

Viu-se na segunda parte deste ensaio como o populismo e o fascismo encontram solo fértil em meio a economias atingidas direta ou indiretamente pela crise financeira de 2007-2010. Os setores da classe trabalhadora mais duramente afetados pelos efeitos da crise – desemprego, precarização do trabalho, compressão salarial, redução do poder de compra, encarecimento ou redução severa na prestação de serviços públicos etc. – buscaram neste campo da política soluções imediatas para seus problemas, ainda que, no médio e longo prazos, saiam perdendo.

Livro de Carne, Artur Barrio.

Viu-se na terceira parte deste ensaio como o desenvolvimento da economia brasileira resultou na formação de um setor capaz de exportar capitais e internacionalizar operações para fugir à crise recessiva instalada no país desde 2014 como resultado de diagnósticos equivocados, políticas ineficazes e do acirramento da luta de classes instaurados pelo menos desde 2011. Em seguida à recessão, economistas indicam que a retomada do crescimento econômico mostra sinais de ser uma das mais lentas já verificadas, o que afeta os setores presos aos circuitos produtivos e financeiros afetados pelos vários elementos da crise.

Viu-se na quarta e quinta partes deste ensaio como os capitalistas brasileiros incapazes de recorrer a estes mecanismos de fuga empurraram a conta da crise para os trabalhadores por meio do desemprego, da inflação e da captura de poupanças dos trabalhadores, que resultaram na desvalorização da força de trabalho – o que, no fim das contas, beneficia os capitalistas, qualquer que seja sua inserção nos circuitos da economia. Além da desvalorização da força de trabalho, estes expedientes resultam numa enorme e difusa repressão às lutas e reivindicações dos trabalhadores, pois aumentam suas preocupações com o futuro imediato e a sobrevivência, cresce a disputa com outros trabalhadores pelos empregos restantes, diminui drasticamente seu poder de barganha frente aos patrões – e não são poucos aqueles empurrados ao limiar da sobrevivência.

Tudo isto tem efeitos.

Do ponto de vista dos capitalistas beneficiados pela recessão, ainda que ela afete os trabalhadores mais drasticamente que os capitalistas, nem a eles interessa manter por longo tempo a situação; os trabalhadores, de seu ponto de vista, são seus consumidores, e a repressão econômica não pode estender-se ao ponto de prejudicar seus negócios.

Do ponto de vista dos capitalistas retardatários, esmagados pelos efeitos da recessão, pouco capazes de fazer frente a seus efeitos sem reduzir enormemente suas próprias margens de lucro, é preciso sair logo da crise para que se beneficiem dos efeitos de uma retomada econômica e de prosperidade.

Do ponto de vista dos trabalhadores, os principais afetados por uma crise recessiva, é preciso sair dela o quanto antes, pois é de sua sobrevivência, literalmente, que se trata.

Os primeiros ainda podem “jogar limpo”, usar as “regras do jogo” em seu próprio favor, porque compartilham a gestão da economia com os gestores públicos, circulam amplamente nos centros de decisão e formam parte do governo real da sociedade. Já tive a oportunidade de falar do assunto em outras ocasiões (ver aqui, aqui, aqui e aqui), não será preciso repetir os mesmos argumentos.

Trouxas, Artur Barrio.

Os dois últimos, entretanto, encontram-se em situação desesperadora. Estão fora dos corredores do poder, têm pouco acesso às decisões políticas, sua participação na política e no governo é meramente formal e encontram-se atomizados, postos a lutar uns contra os outros. Não lhes falta a coesão sociológica, pois seus modos de vida e hábitos comuns permite-lhes reconhecer os que lhe são próximos, os que vivem de modo parecido, os que sofrem os mesmos problemas; falta-lhes, não obstante, a coesão política. Mesmo reconhecendo que seus interesses são apresentados imediatamente de modo difuso nas conversas cotidianas, nas correntes de redes sociais e em outros meios de expressão individual, eles não encontram expressão política concentrada. Poucos passam da conversa – e da bravata – à ação; quem o faz, via de regra é por iniciativa individual; na medida em que as muitas iniciativas individuais pouco dialogam, mesmo quando convergem, perdem fôlego em pouco tempo, duram rápido, não se espalham, não contagiam.

Eis o cenário perfeito para o surgimento de substitutos, sucedâneos, representantes. É deste modo que os interesses dos trabalhadores e dos pequenos e médios capitalistas chega aos corredores do poder: pela mediação dos seus “representantes eleitos”, pelo espelho das estatísticas e pesquisas de opinião, pelo vaivém dos indicadores sociológicos e econômicos – sempre pela mão de alguém, nunca diretamente.

Em tempos de crise, quando um arranjo político e econômico não funciona mais para os fins a que servia, é preciso substituí-lo por outro, mas os diagnósticos do que precisa ser substituído, de como fazer a substituição e do que colocar no lugar do arranjo antigo variam tanto quanto as diferentes inserções de seus proponentes nos processos produtivos.

Soma-se a isto o fato de que as crises não acontecem num espaço hermético. As formações sociais têm contradições próprias, são formadas por conflitos entre as classes que as compõem, e surgem daí tradições de luta e também de exploração e opressão. É aí que as crises fazem dos despossuídos, dos explorados e dos oprimidos os bodes expiatórios, os responsáveis pela ruptura na ordem, as causas do problema. Na crise atual, é esta procura por culpados pela piora nas condições de vida que tem grande potencial de amalgamar trabalhadores e os pequenos e médios capitalistas num só coro. Os velhos preconceitos vêm à tona, e a erradicação dos “indesejáveis” é elevada ao status de solução.

A partir daqui, o que se tentará é entender como as contradições da formação social brasileira encontram-se com as características específicas da crise recessiva recente e fecundam o ovo da serpente fascista. Depois de uma caracterização do espaço político brasileiro nesta parte do ensaio, serão vistos numa parte seguinte os traços da formação social brasileira capazes de fermentar um movimento fascista, ainda que difuso.

14 trouxas ensanguentadas, Artur Barrio.

O espaço político, da esquerda à direita

O espaço político considerado neste ensaio segue a tradicional divisão entre esquerda e direita, incluindo aí o centro, as posições intermediárias (centro-esquerda e centro-direita) e as posições extremas (extrema-esquerda e extrema-direita). Antiquadas como sejam tais classificações, ainda têm uso corrente no dia a dia, ainda permitem a qualquer pessoa sem treinamento em ciência política identificar e agrupar políticos e partidos de modo minimamente coerente.

Seguindo a tradição da ciência política, serão considerados apenas os partidos políticos eleitorais, quer tenham na via eleitoral e institucional a centralidade de sua atuação, quer vejam nela apenas uma oportunidade pontual para apresentar e disputar um programa político frente à sociedade. A relação entre estes e os partidos e organizações extraparlamentares, com os formadores de opinião extrapartidários etc., será tratada em outro momento.

Esquerda e direita, extrema-esquerda e extrema-direita

Esquerda é a posição política que defende a igualdade – não a igualdade biológica, mas a igualdade social. Envolve não apenas a preocupação com cidadãos em desvantagem frente a outros, mas o pressuposto de que tais desigualdades devem ser reduzidas ou abolidas. A diversidade de posições permite matizar este campo quanto à intensidade da redução da desigualdade – desde a nivelação total à moderada minoração das diferenças – e quanto os meios necessários para reduzi-la – desde reformas graduais na estrutura social até a revolução social. Nas oligarquias liberais a que na atualidade fomos acostumados a chamar de democracias, a esquerda política se opõe às monarquias, ao absolutismo, ao liberalismo laissez-faire, ao sexismo e ao racismo. Via de regra este campo da política é formado por comunistas, socialistas e social-democratas. (Anarquistas costumam ser classificados na esquerda, mas aqui estão sendo tratados apenas os partidos eleitorais e os anarquistas desde sempre rejeitam a participação em eleições.)

Um critério de avaliação específico para os partidos comunistas é a participação no Encontro Internacional de Partidos Comunistas e Operários (IMCWP), onde congregam-se o Partido Comunista Alemão, o Partido Comunista de Cuba, o Partido Comunista da China, o Partido Comunista Português, o Partido Comunista da Federação Russa, o Partido Comunista do Vietnã, o Partido Comunista da Venezuela, o Partido Comunista Brasileiro e o Partido Comunista do Brasil. A proximidade de socialistas e social-democratas com o centro do espaço político faz necessário tratar deles mais adiante, junto à centro-esquerda.

Le Support de L’Art. Projetos. Artur Barrio.

Direita, por outro lado, é a posição política que aceita a hierarquia ou a desigualdade sociais como inevitáveis, naturais, normais ou desejáveis, justificando tal posição por meio da economia, do “direito natural”, da tradição, da revelação ou orientação divinas, da “superioridade” e “inferioridade” entre povos, etnias, sexos ou “raças” etc. A diversidade de posições permitem matizar este campo quanto à intensidade da manutenção das hierarquias e das desigualdades – desde a estremança radical às compensações pelas diferenças – e quanto os meios necessários para reduzi-la – desde reformas graduais na estrutura social até a revolução social. Nas oligarquias liberais a que fomos acostumados a chamar de democracias, a direita política se opõe ao socialismo, ao comunismo e à social-democracia. Via de regra este campo da política é composto por conservadores, democratas clássicos, democratas cristãos, liberais clássicos e nacionalistas.

Podem ser facilmente classificados como de direita partidos como Rússia Unida, a Aliança para o Futuro da Áustria, o Venstre e o Partido Popular Dinamarquês, o Partido Democrático Liberal e os Republicanos da Alemanha, o Partido Cristão Democrata francês, o Likud e o Zehut israelenses, o Komeito e o Partido Liberal Democrata japoneses, o Partido Político Reformado holandês, a Liga Muçulmana da União Indiana, o Partido da Liberdade Inkatha sul-africano, o Partido Saenuri sul-coreano, o Partido da Coalizão Islâmica e a Sociedade dos Devotos da Revolução Islâmica iranianos, o Movimento Cinco Estrelas italiano e, no caso brasileiro, o Partido Novo (NOVO), o Partido Social Cristão (PSC), o Patriotas (PATRI), os Democratas Cristãos (DC) e o Partido Progressista (PP).

Tanto esquerda quanto direita têm variantes extremas. O extremismo, todavia, tem longa história de conotação negativa, pois as chamadas “práticas virtuosas” de vários sistemas religiosos e éticos orientam à moderação e à temperança:

  • Nos muitos textos sagrados do hinduísmo, a temperança (dama) é uma das características de uma vida virtuosa (dharma), assim como a compaixão (daya), a caridade (daana);
  • No jainismo, os cinco yama são votos de moderação e temperança (ahiṃsā / não-violência, brandura; satya / sinceridade, honestidade; asteya / desapego, desprendimento, abnegação; brahmacharya / castidade, celibato; aparigraha / pobreza);
  • No budismo, o terceiro, o quarto e o quinto pañcaśīla, assim como quatro das oito práticas do āryāṣṭāṅgamārga, orientam a evitar condutas imoderadas;
  • Na ética grega clássica, a temperança (σωφροσύνη / sophrosyne) e a prudência (φρόνησῐς / phrónēsis) são virtudes importantes;
  • Na Bíblia, os Dez Mandamentos e o Livro dos Provérbios no Velho Testamento contém várias orientações no sentido da moderação e da temperança, que reaparecem em vários lugares do Novo Testamento como, por exemplo, na enumeração dos “frutos do espírito santo” na Carta aos Gálatas (5:19-23);
  • O Alcorão apresenta a moderação e a temperança como virtudes em várias passagens, e na sura Al-Isra (17.22-37) é apresentado um decálogo onde são apresentados como os fundamentos de virtudes éticas correlatas àquelas dos Dez Mandamentos.

Tal aversão histórica ao extremismo, conquanto questionável, encontra-se profundamente enraizada em sistemas religiosos e éticos adotados por multidões. Ela é uma das explicações para o surgimento de um centro no espaço político, a ser comentado mais à frente.

Nos extremos não é incomum a rejeição ou a secundarização da política institucional; se é a substituição total dos arranjos políticos e econômicos o objetivo final das organizações políticas deste campo, a rejeição ao sistema existente estende-se ao “jogo político” tradicional, tido como injusto, iníquo, ilusório, parcial, deturpado, viciado, corrompido, ineficaz, lento etc.

Da mesma forma, vê-se nos extremos do espaço político a tendência em ver as relações políticas nos moldes das alternativas radicais e irreconciliáveis; daí a tendência a não aceitar – como o centro – a gradualidade e parcialidade dos objetivos, a repulsa à negociação e ao compromisso. O extremismo, por isto, costuma ser confundido com o radicalismo e o maximalismo. O primeiro implica, de forma semelhante, no abandono de qualquer hipótese temporizadora e de toda tática moderada para impulsionar um processo de vigorosa (e portanto “radical”) renovação nos vários setores da vida civil e da organização política; o segundo implica a sobrevalorização dos objetivos finais de uma organização política (seu “programa máximo”) em detrimento dos objetivos intermediários que podem servir-lhes de caminho (seu “programa mínimo”).

Situação Ambiente K, 1970. Foto: Artur Barrio e Luiz Alphonsus.

Os três termos parecem dizer a mesma coisa, mas na prática nem todas as organizações situadas nos extremos do espaço político adotam meios radicais – a adoção da via eleitoral e da construção paulatina de blocos parlamentares nada tem de radical, ainda que vista como tática e pontual – e de igual modo nem todas sacrificam seu “programa mínimo” em nome de seu “programa máximo” – não são poucas as organizações extremas que têm nas reformas legais e administrativas um meio para alcançar seus objetivos.

A extrema-esquerda costuma ser definida como o lugar mais à esquerda dos partidos socialistas e comunistas tradicionais; embora compartilhem com eles muito de sua doutrina política e disputem uma base social semelhante, a extrema-esquerda é menos propensa ao envolvimento em alianças e coalizões com forças políticas situadas mais ao centro, como fizeram os partidos comunistas do passado e ainda hoje o fazem muitos de seus sucessores, embora não descartem alianças e coalizões com outros partidos da esquerda, inclusive participando de governos nacionais.

Estão neste lugar os muitos partidos e organizações trotskistas, maoistas, senderistas, bolivarianos, sankaristas, jucheístas etc., cuja proliferação e pulverização dificulta a exemplificação simples. (Novamente: se a participação em eleições é o critério definidor neste ensaio, ficam automaticamente excluídos anarquistas, conselhistas, bordiguistas e todas as demais correntes políticas que rejeitam a participação nas eleições e são comumente situadas na extrema-esquerda.)

A extrema-direita costuma ser definida pela intensidade com que seus proponentes pretendem manter as desigualdades e hierarquias sociais ou aprofundá-las. É rotineiro proporem pautas supremacistas de cunho racista, nacionalista, xenófobo, etnocêntrico e/ou elitista. Situam-se aqui ultraconservadores, fundamentalistas, fascistas de todos os tipos, neonazistas, nacional-bolcheviques, baathistas, adeptos da “terceira posição”, wahabistas, salafistas, nacional-anarquistas e muitos outros.

O critério das afiliações internacionais pouco afeta a extrema-direita, pois o nacionalismo extremo é uma de suas características marcantes. Poucas são as organizações internacionais como a Aliança pela Paz e Liberdade e a Aliança dos Movimentos Nacionais Europeus, restritas à União Europeia. Somente uma comparação direta entre partidos poderia avançar em critérios comuns.

Trouxas III (Alusivo ao Artur Barrio). Fábio Magalhães.

Pode-se dizer, entretanto, que são de extrema-direita partidos como o Partido Popular da Reconstrução (PPR) argentino, a Alternativa para a Alemanha e o Partido Nacional-Democrata da Alemanha, a Frente Nacional britânica, o Partido Estadunidense da Liberdade, o Partido da Liberdade da Áustria, a Frente para a Estabilidade da Revolução Islâmica do Irã, o Partido Comunitário Nacional-Europeu (PCN) da Bélgica, os partidos CasaPound Italia e Força Nova (FN) e o Movimento Social Flama Tricolor italianos, o Hamas palestino, o Eretz Yisrael Shelanu e o Otzma Yehudit israelenses, o Movimento Nacional-Socialista da Dinamarca, a Aurora Dourada na Grécia.

O centro, a centro-esquerda, a centro-direita

Entre esquerda e direita equilibra-se o centro. Trata-se de um lugar político fluido, maleável segundo as circunstâncias, onde proliferam posturas conciliatórias, ideologicamente ecléticas pretensamente “pragmáticas” e “dialógicas”. Sob tal máscara de “equilíbrio” e “moderação” esconde-se a manutenção do sistema, do status quo; a “conciliação” e o “diálogo” se dão apenas entre quem já participa do jogo político institucional, sendo rara e excepcional as organizações politicas centristas defenderem a abertura do “jogo político” à participação de sujeitos que dele se encontrem excluídos, impedidos ou bloqueados – salvo, claro, se tal abertura se der por meio de seus próprios quadros e instituições, fortalecendo-as portanto.

Nas oligarquias liberais a que na atualidade fomos acostumados a chamar de democracias, o centrismo é a política adotada seja por alas e frações dos partidos de esquerda e direita, seja por partidos mais bem acomodados neste lugar político que nos dois lugares tradicionalmente opositores. Um critério de avaliação da localização dos partidos de centro no espaço político global é a participação na Internacional Democrata Centrista (IDC), integrada por partidos como a União Democrata Cristã (UDC) da Alemanha, o Fine Gael irlandês, os Republicanos da França, o Partido Conservador Colombiano (PCC), o Partido Justicialista (PJ) e o Partido Democrata Cristão (PDC) da Argentina, os Democratas (DEM) e o Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB) do Brasil.

A centro-esquerda é o agrupamento de partidos políticos que buscam reduzir a desigualdade social sem eliminá-la de todo. Trabalham em meio ao sistema estabelecido para melhorar a justiça social. Defendem pautas como a tributação progressiva, a proibição ao trabalho infantil, estabelecimento de um salário mínimo e de legislação trabalhista e outras medidas características do chamado estado de bem-estar social. Encontram-se aqui os social-democratas, os progressistas, os trabalhistas e alguns socialistas democráticos, assim como a esquerda cristã e alguns ambientalistas.

Um critério de avaliação da localização dos partidos de centro-esquerda no espaço político global é a participação na Internacional Socialista, herdeira política da II Internacional, integrada por partidos como a União Cívica Radical (UCR) e o Partido Socialista (PS) da Argentina, o Partido Liberal Colombiano, o Partido Socialista francês, o Movimento Socialista Pan-helênico (PASOK), a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) da Nicarágua, o Fatah palestino, o Partido Socialista português, o Partido Socialista do Uruguai e o Partido Democrático Trabalhista (PDT) no Brasil.

Trouxas II (Alusivo ao Artur Barrio). Fábio Magalhães.

Saíram da Internacional Socialista vários partidos que em 2013 fundaram a Aliança Progressista, integrada hoje por partidos como o Movimento ao Socialismo (MAS) boliviano, o Partido Social-Democrata da Alemanha, o Congresso Nacional Indiano, o Partido Trabalhista Israelense (HaAvoda) e o Meretz de Israel, o Partido Trabalhista da Holanda, o Partido Socialista Europeu, a Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas atuante no Europarlamento, o Partido Democrata dos EUA, o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Socialista Brasileiro (PSB) no Brasil.

A centro-direita é o agrupamento de partidos políticos que buscam compensar de algum modo as desigualdades sociais existentes sem reduzi-las. Defendem que sociedades democráticas garantam aos indivíduos as liberdades políticas e pessoais, igualdade de oportunidades e de desenvolvimento econômico sob o império da lei e dos direitos humanos de primeira geração, pautas comuns ao liberalismo político clássico – nem sempre coincidente com o liberalismo econômico.

Um critério de avaliação da localização dos partidos de centro-direita no espaço político global é a participação na União Internacional Democrata (UID), integrada por partidos como a União Democrata Cristã (UDC) da Alemanha, a Proposta Republicana (PRO) da Argentina, o Kuomintang taiwanês, o Partido Popular Austríaco, o Partido Conservador da Noruega, o Partido Progressista sérvio, o Partido Republicano estadunidense, o Partido Conservador britânico, o Partido do Povo Indiano e os Democratas (DEM) do Brasil.

Ressalvas e cuidados na classificação

Nenhuma destas posições é absoluta. Indivíduos dentro de partidos podem ter práticas diametralmente opostas ao posicionamento da organização que integra em meio ao espaço político. De igual modo, partidos podem conter em seus programas e práticas elementos de esquerda e de direita. Adicionalmente, embora as ideologias políticas permaneçam relativamente estáveis no campo político, os partidos que as adotam costumam mudar de posição ao longo do tempo.

Tendo como base o fato de os partidos políticos serem organizações voltadas à tomada de poder de Estado por vias eleitorais ou revolucionárias, é a comparação entre as propostas e práticas dos partidos nos diferentes sistemas políticos atualmente existentes que permite colocá-los num ou noutro lugar do espaço político.

Todas dependem de comparação com outros partidos do mesmo sistema político, ou com outros sistemas. Salvo no caso das tendências e organizações políticas internacionalistas, que defendem variações da mesma política em contextos nacionais distintos, dificilmente se pode comparar a esquerda do sistema político de um país com a de outro, e o mesmo vale para a direita.

O espaço político brasileiro

Partidos de âmbito nacional num país de dimensões continentais, de economia muito diversificada, onde capitalistas empregam variadíssimas formas de extração da mais-valia de uma classe trabalhadora com composição étnica bastante diversificada etc. apresentam um enorme desafio às análises que tendem a simplificá-los.

Um exemplo: apesar do que comumente se diz na esquerda com grandes doses de exagero, DEM e PSDB estão muito longe de serem partidos fascistas. Representam variados matizes da tecnocracia e diferentes inserções na estrutura produtiva dos tecnocratas que os integram, e para complicar ainda mais a situação os vários “partidos” dentro deles respondem a diferentes bases econômicas regionais, estaduais e locais. Para complicar ainda mais a situação, o sistema eleitoral brasileiro permite alianças diversificadas nos diversos níveis da estrutura federativa brasileira.

É este o grande equívoco das simplificações excessivas do espaço político brasileiro, tal como a operada por André Singer no ”intermezzo histórico” de O lulismo em crise. Ele já se equivocara antes em Os sentidos do lulismo ao usar os “pobres” num esquema analítico de corte marxista originalmente talhado para a classe trabalhadora francesa do século XIX; falhou agora ao não considerar as diversas escalas em sua tentativa de estabelecer o PT como o “partido dos pobres”, o PSDB como o “partido da classe média” e o PMDB como o “partido do interior”. Sua análise, como a da vasta maioria dos cientistas políticos brasileiros, leva em conta principalmente as eleições presidenciais, secundarizando as eleições para o Congresso Nacional e ignorando solenemente as eleições estaduais e municipais, lá onde as certezas das eleições federais embaralham-se no cipoal das alianças e coligações “heterodoxas”. Singer falha igualmente por considerar o “urbano” e o “rural” como universos infensos a mudanças desde a década de 1940, mantendo intacta a equação uspiana/cebrapiana entre “rural” e “atraso”, de um lado, e “urbano” e “modernidade”, de outro; é precisamente a dialética marxista que anima suas pesquisas quem ensina existir “atraso” e “modernidade” tanto no campo quanto nas cidades, e que uma não sobrevive sem a outra. Infelizmente, o interessante e necessário cruzamento da expressão política das diferentes classes sociais nas três escalas federativas não cabe neste artigo.

A tabela 1 apresenta uma tentativa de localização dos partidos brasileiros atualmente existentes no espaço político, assim como o número de eleitores filiados em cada um deles. Como qualquer classificação similar, não pode ser tida como definitiva, nem representa qualquer opinião “científica” ou “neutra”; trata-se de uma classificação por meio de autodeclaração nos sites de cada partido (quando possível) e por meio do posicionamento de tais partidos pela imprensa.

Tabela 1: Localização dos atuais partidos brasileiros no espaço político e número de filiados

Partido Filiados Participação no total de eleitores filiados
Extrema-esquerda 185.513 1,10%
PSTU 17.142 0,10%
PCB 14.718 0,09%
PCO 3.738 0,02%
PSOL 149.915 0,89%
Esquerda 2.864.309 17,05%
PT 1.589.377 9,46%
PMN 221.183 1,32%
PSB 656.411 3,91%
PCdoB 397.338 2,37%
Centro-esquerda 2.741.640 16,32%
PDT 1.257.080 7,48%
REDE 23.936 0,14%
PPS 482.141 2,87%
PV 376.942 2,24%
PRP 250.891 1,49%
PPL 40.454 0,24%
SD 212.478 1,26%
PROS 97.718 0,58%
Centro 4.267.066 25,40%
PTB 1.191.886 7,09%
MDB 2.394.547 14,25%
PODE 167.041 0,99%
PSD 326.320 1,94%
AVANTE 187.272 1,11%
Centro-direita 4.206.524 25,04%
PRB 396.796 2,36%
PR 797.396 4,75%
DEM 1.094.162 6,51%
PHS 215.173 1,28%
PMB 42.619 0,25%
PTC 199.420 1,19%
PSDB 1.460.958 8,70%
Direita 2.153.829 12,82%
PP 1.444.264 8,60%
PSC 423.418 2,52%
DC 187.318 1,12%
NOVO 19.026 0,11%
PATRI 79.803 0,48%
Extrema-direita 380.357 2,26%
PRTB 138.901 0,83%
PSL 241.456 1,44%
TOTAL 16.799.238 100,00%

Fonte: TSE, sites dos respectivos partidos, O Globo, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, A Tarde, Correio 24h, O Popular, Correio Brasiliense e outros.

Centro-direita e centro-esquerda podem ser agrupadas junto ao centro, como o fez André Singer em outras oportunidades; isto resultaria na alocação de 66,76% dos eleitores filiados num “centro ampliado” e no compartilhamento do mesmo campo por notórios adversários como PT e PCdoB, de um lado, e PSDB e DEM, do outro. Diferentemente, centro-esquerda e centro-direita podem ser agrupados junto à esquerda e extrema-esquerda, de um lado, e à direita e extrema-direita, de outro; este método corresponde mais à realidade e resulta numa alocação de 40,12% do eleitorado filiado a partidos numa “direita ampliada” que vai da extrema-direita à centro-direita, de 25,40% num “centro puro” que se alia à esquerda e à direita ao sabor das circunstâncias e de 34,47% numa “esquerda ampliada” que engloba desde a extrema-esquerda até a centro-esquerda. Numa hipotética situação de extremos, a aliança da “direita ampliada” com o “centro puro” resultaria na alocação de 65,52% do eleitorado filiado num campo “conservador”; de outro lado, uma hipotética aliança da “esquerda ampliada” com o “centro puro” resultaria na alocação de 59,87% do eleitorado filiado a partidos num campo “progressista”.

O número de eleitores filiados não reflete de modo algum os resultados eleitorais. Como se sabe, o comportamento eleitoral no Brasil é menos determinado por fidelidades partidárias que pela identificação muito lata de eleitores entre a “esquerda ampliada” e a “direita ampliada”, de um lado, e de outro pela avaliação utilitária e pragmática do voto (sem qualquer conotação pejorativa no uso destes dois adjetivos) em meio às alternativas que se apresentam a cada nova eleição. Adicionalmente, o número de filiados não varia apenas em função do alinhamento ideológico, pois há oportunidades em que os partidos são “inflados” por alguns de seus chefes para fazer número nas convenções internas e processos eleitorais para a direção dos partidos. Há ondas de filiação estritamente determinadas pelas conveniências eleitorais, em especial quando se pretende beneficiar da popularidade momentânea de um candidato (p. ex., o que acontece com o PSL depois da filiação de Jair Bolsonaro). Pode acontecer também um aumento no número de filiados para aumentar o caixa partidário. Com todas estas ressalvas, a distribuição de eleitores filiados aos partidos expressa, sem embargo, uma situação conjuntural em que os partidos da “direita ampliada” são mais procurados que os da “esquerda ampliada” por eleitores que pretendem de algum modo engajar-se na política partidária – é este o fenômeno que deve ser compreendido para entender os rumos da política atual, em especial no que diz respeito à juventude (ver reportagens a este respeito aqui, aqui, aqui e especialmente aqui); entender a conjuntura olhando apenas para a extrema-esquerda é pura miopia.

Este espaço político é estruturado, arranjado e permeado pelas pautas, demandas, interesses e propostas surgidas em meio aos conflitos e lutas sociais característicos da formação social brasileira. Daqui por diante, na parte seguinte deste ensaio, se verá mais especificamente como se forma neste espaço político um campo sensível aos temas do populismo e do fascismo, estruturado num eixo endógeno e num eixo exógeno.

etc. [Para Artur Barrio]. Mazzilli.

Este artigo é o sexto de uma série. Leia as demais partes clicando aqui.

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