Por Erick Corrêa

1. As teorias da conspiração envolvendo o atentado à faca contra Jair Messias Bolsonaro, candidato da extrema-direita à presidência do Brasil pelo Partido Social Liberal (PSL) nas eleições de 2018, são ideologicamente ambidestras, contaminando de maneiras diferentes os dois polos antagônicos do espectro sociopolítico brasileiro.

2. À direita, o fenômeno é exposto de modo mais simplificado que à esquerda. Desta perspectiva, a facada dada por Adélio Bispo de Oliveira não passaria de uma tentativa da esquerda, quase sempre identificada com o petismo, de eliminar diretamente a ameaça representada por Bolsonaro nestas eleições. Para “sustentar” tal hipótese, a direita alega que Oliveira já foi filiado ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), o que é verídico. Não obstante, uma tosca falsificação de uma foto em que ele aparece a poucos metros de Lula, num de seus últimos comícios antes de ser preso, tornou-se “viral” nas redes sociais logo no dia seguinte ao atentado. O objetivo mais específico desta montagem parece claro: associar a figura de Oliveira à militância do Partido dos Trabalhadores (PT). Cabo Daciolo, candidato pelo partido Patriota (PATRI) à presidência deste pleito eleitoral ubuesco, também arriscou algumas hipóteses sobre o atentado. Daciolo foi uma das lideranças mais ativas da notável greve dos bombeiros cariocas de 2011, sendo eleito deputado federal pelo PSOL do Rio em 2014. A mudança para Brasília no ano seguinte o levaria a um afastamento de sua base e a uma aproximação com a bancada evangélica no Congresso Nacional, que culmina na sua expulsão do PSOL em 2015. De lá para cá, Daciolo tem sido o principal propagador brasileiro das teorias da conspiração, principalmente após os primeiros debates televisivos de que participou na condição de candidato à presidência nas eleições de 2018. No dia 14 de setembro, dias após o atentado contra Bolsonaro, o ex-bombeiro gravou um vídeo desde o “monte” isolado para onde se recolheu (ele se diz ameaçado de morte por forças desconhecidas), no qual promete revelar misteriosamente “o que está por trás de tudo”… Daciolo então associa o atentado às pessoas próximas de Bolsonaro “que estão envolvidas com a Nova Ordem Mundial, a maçonaria e os Illuminatis”, como o economista Paulo Guedes (anunciado como ministro da Fazenda caso a candidatura da extrema-direita vença as eleições), que teria levado o candidato do PSL para os Estados Unidos “pedir benção à família Rockefeller”, assim como o general Antônio Olímpio Mourão, candidato pelo Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB) à vice-presidente na chapa encabeçada por Bolsonaro, que pertenceria à Maçonaria, “aquela que sempre esteve no poder da nação”. Daciolo sugere ainda uma relação entre a visita feita por Bolsonaro à cúpula da Rede Globo no dia 5 de setembro, na sede das organizações no Rio, e o atentado ocorrido no dia seguinte, na cidade mineira de Juiz de Fora.

3. À esquerda, a teoria da conspiração ganha contornos mais complexos que à direita. Nesta perspectiva, acredita-se que Oliveira tenha agido teleguiado por um comitê secreto, supostamente oriundo da cúpula de sua própria chapa presidencial. Segundo esta hipótese, Bolsonaro teria sido sacrificado por um ou dois motivos principais: talvez para baixar o índice de rejeição de sua chapa e, por meio desta manobra desesperada, tentar ampliar o seu prostrado teto eleitoral, que inviabilizaria sua vitória em um eventual segundo turno; ou talvez para abrir caminho à ascensão do grupo de militares chefiados por Mourão na cabeça da chapa formada com o grupo de políticos do PSL. Para “sustentar” tais hipóteses, a princípio um tanto inverossímeis, a esquerda alega que a postura oportunista do general, que logo após o atentado saiu responsabilizando o PT pelo acontecido e, dias depois, entrou com um pedido na justiça eleitoral para substituir Bolsonaro nos compromissos de campanha do candidato à presidência sem sequer ter consultado seus assessores, seriam fortes indícios de que estaria em curso uma “conspiração militar” interna à chapa PSL/PRTB. Há que se reconhecer que se, por um lado, tratam-se de possibilidades aparentemente absurdas, elas parecem perfeitamente plausíveis não apenas para quem conhece minimamente a história política e militar brasileira do século 20, repleta de golpes e contragolpes, mas também para quem não ignora algumas declarações radicalmente violentas e antidemocráticas, dadas à imprensa tanto pelo ex-capitão, para quem “o erro da ditadura foi torturar e não matar”, quanto pelo ex-general, para quem “a Constituição não precisa ser feita por eleitos pelo povo”.

4. Antes de prosseguir, é preciso distinguir as verdadeiras das falsas conspirações. A história está repleta de exemplos de um ou outro destes modelos.

5. Às conspirações verdadeiras, realmente existentes, portanto, devemos chamá-las “conspirações”, tão simplesmente. São arquetípicos destas práticas os atentados no Gasômetro do Rio em 1968 e no Riocentro em 1981, como também o incêndio do Reichstag, em Berlim, no ano de 1933, ou os atentados à bomba de Piazza Fontana, em Milão, no ano de 1969. Tais conspirações, materialmente orquestradas por centros decisórios que, a despeito de serem ocultos, existiram realmente, inscreveram-se no interior das modernas guerras de movimento e das chamadas “estratégias da tensão”. Tais estratégias lançam mão de táticas como os atentados de “bandeira falsa” (false flag), também conhecidos, principalmente na Itália, como “terrorismo de Estado”. O objetivo é sempre o de atribuir a autoria de um atentado terrorista ao inimigo, beneficiando-se politicamente, a curto prazo, de sua desmoralização perante a opinião pública, preparando desta maneira o terreno para liquidar, a médio e longo prazo, qualquer oposição política interna ao regime. Tais táticas são elaboradas segundo os métodos conspirativos das operações militares secretas, como a Operação Gladio, de orientação anticomunista, patrocinada pelos Estados Unidos e aplicada em diversos países europeus durante os anos 1970 (como Itália, Espanha e Portugal) e a Operação Condor, que repetia os mesmo métodos no Cone Sul; ou ainda a Operação Bandeirante (OBAN), criada pelos militares brasileiros em 1969 com o objetivo de destruir o que ainda restava da esquerda, lançada na ilegalidade total no final de 1968.

6. Porém, nem toda conspiração verdadeira é reacionária. O movimento anticzarista russo, o movimento das sufragistas pelo direito ao voto feminino e o movimento operário do século 19, bem como os movimentos de descolonização do século 20, também foram em larga medida animados por organizações e associações secretas de ligas clandestinas e conspirativas atreladas a uma concepção golpista (putschista) da revolução social. Foi assim que algumas dezenas de delegados de diversas associações de trabalhadores se reuniram em Londres para fundar, em 1864, a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT). Com menos pessoas seria constituído o núcleo inicial da guerrilha em Sierra Maestra que, em janeiro de 1959, toma Havana e derruba a ditadura de Fulgencio Batista (ela própria nascida de uma conspiração militar). Em abril de 1974, outra conspiração aparentemente “de esquerda”, iniciada por capitães e encabeçada por generais do exército, levaria à queda da ditadura fascista em Portugal e ao fim da guerra colonial em Guiné-Bissau, Moçambique e Angola.

7. Às falsas conspirações, denomina-se “teorias da conspiração”, ou “conspiracionismo”. Assim como as verdadeiras conspirações podem ser reacionárias ou revolucionárias, de direita ou de esquerda, o recurso às teorias da conspiração floresceram historicamente tanto entre fascistas como entre socialistas e comunistas. Sua origem, entretanto, é reacionária. Tem início na reação eclesiástica e monarquista à revolução francesa de 1789, quando os círculos jacobinos do movimento são acusados de servirem a entidades malignas como a Maçonaria e a Ordem dos Iluminados. Procedimento semelhante se verificaria cerca de dois séculos depois, quando as correntes stalinistas do movimento comunista recorreram às teorias da conspiração, em diferentes conjunturas críticas marcadas pela radicalização das lutas sociais – Berlim oriental (1953); Hungria (1956); diversos países em 1968; Portugal (1974-75); Itália (1977) –, para desqualificar e deslegitimar a ação das correntes antistalinistas e revolucionárias do proletariado, acusando-as de serem manipuladas pelos serviços de inteligência norte-americanos.

8. O fato de que as seitas secretas iluministas do século 18, que forjaram uma crítica total ao absolutismo monárquico e precipitaram a crise conclusiva do Antigo regime, existiram realmente, e de que os serviços secretos norte-americanos, através de apoio logístico e financeiro aos serviços secretos locais, tenham sido verdadeiramente infiltrados nas organizações e movimentos revolucionários da classe operária europeia e sul-americana do século 20, nos leva a conceber as chamadas “teorias da conspiração” como um momento do falso congelado e transferido para a verdade transistórica e anti-histórica dos mitos. Qualquer teoria da conspiração, por mais mirabolante que pareça, precisa manter um lastro mínimo de verossimilhança com o real, sem o qual não seria possível qualquer penetrabilidade de suas hipóteses irreais e delirantes no imaginário coletivo.

9. Através de técnicas de desinformação como estas, politicamente muito úteis na fabricação das mistificadoras teorias da conspiração, o fato de um especulador do capital financeiro, de origem judaica e alinhado a um discurso liberal progressista, somado a um antissemitismo desde sempre latente na extrema-direita e à aversão de setores conservadores da pequena e média burguesia endividada, vai desembocar nas teorias envolvendo a figura de George Soros. E o fato de que Antonio Gramsci tenha efetivamente pensado e escrito sobre o problema da hegemonia cultural e ideológica nas modernas sociedades dividas em classes antagônicas é o bastante para que seja visto como o grande maestro de um complô comunista orquestrado mundialmente e dirigido contra os valores da cultura dita cristã e ocidental, como se lê nos delírios paranoicos de um “filósofo” como Olavo de Carvalho em torno do pseudoconceito de “marxismo cultural”. Já uma leve ironia num irrelevante artigo de jornal é o bastante para que um complô internacional de lideranças políticas de esquerda para se apoderar dos destinos da América do Sul passe a existir, ao menos no imaginário de um grande país como o Brasil, possuindo até mesmo uma nomenclatura própria, a União das Repúblicas Socialistas da América Latina (URSAL), em referência à sua suposta matriz histórica, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Assim como, no polo sociopolítico oposto, o fato de que as organizações Globo tenham efetivamente instrumentalizado os protestos de junho de 2013 contra o aumento na tarifa do transporte urbano na cidade de São Paulo, inflamando em seguida uma série de manifestações cívicas de coloração verde-amarelista e orientação antipetista que se espraiariam rapidamente por todo o país, bastou para que os ideólogos petistas insinuassem em seus veículos midiáticos que autonomistas do Movimento Passe Livre (MPL) e anarquistas do Black Bloc atuassem mancomunados com grupos nacionais e estrangeiros interessados na defenestração do PT do poder federal.

10. A concepção golpista e conspirativa, decerto paranoica, da história e da revolução social que se manifesta tanto nas conspirações políticas e militares realmente existentes, quanto nas falsas teorias da conspiração, presente nas lutas sociais desde os jacobinos no século 18, passando pelos comunistas-marxistas e pelos anarquistas-bakuninistas no século 19, bem como por sindicalistas revolucionários e bolcheviques no século 20, constitui um elemento doutrinário comum na dinâmica dos processos revolucionários e contrarrevolucionários da modernidade – e não somente dela, vide os relatos do grego Tucídides sobre o papel das conspirações na Guerra do Peloponeso (431 a 404 a.C.), da qual foi, além de historiador, protagonista.

11. É hora de voltar ao atentado contra Bolsonaro e às duas teorias da conspiração surgidas desde então, tanto à esquerda quanto à direita do espectro sociopolítico brasileiro. Como vimos, subjaz a ambas as hipóteses o recurso à retrologia, uma forma de raciocinar que parte sempre dos resultados de um crime/atentado político, para identificar nos beneficiados por ele os responsáveis, ainda que ocultos, por sua verdadeira autoria. Na hipótese da direita, o atentado beneficiaria as candidaturas de centro-esquerda às eleições presidenciais de 2018 (no caso, o PT). Na hipótese da esquerda, o atentando beneficiaria, pelo contrário, a própria vítima (ou outros grupos de sua base de apoio, constituída, sobretudo, por militares e civis de extrema-direita), de onde decorre a necessidade de enunciar uma retórica mais complexa que historicize a “estratégia da tensão”, procurando justificar uma acusação tão grave, vista como delirante por amplos setores da sociedade e da chamada opinião pública.

12. Há ainda uma terceira via completamente cética em relação às teorias da conspiração, considerando-as folclóricas e delirantes, sem nexo algum com a realidade. Entretanto, seria mais inteligente por parte dessa elite intelectual se ela não adotasse uma postura tão unilateral quando se trata da ação de poderes invisíveis na história social e política, conforme enunciou um dos grandes historiadores da esquerda brasileira que, numa entrevista de outubro de 2017, declarou:

Falar simplesmente em “teoria da conspiração” é manifestação de desconhecimento e ignorância. Nada ocorre, nem um acidente de automóvel, sem causas; seja por falha mecânica, descuido do motorista ou outras. E assim é na história. Quem pode dizer, diante de tantos documentos revelados sobre a Operação Brother Sam, que o golpe contra o governo do presidente João Goulart não foi articulado a partir dos Estados Unidos (CIA, DIA, etc.), embora uma parte do exército brasileiro o tenha executado? Lincoln Gordon, embaixador dos Estados Unidos no Brasil em 1964, quando me deu uma entrevista em Washington, alguns anos depois, disse-me, com o maior cinismo, que nenhum americano participou do golpe contra Goulart. Eu respondi, prontamente: “Claro, não estavam à frente. Com o senhor, os americanos estavam por trás, manejando os cordéis”.

Em novembro de 2017 (dois meses antes de falecer na Alemanha), ao comentar o golpe de Estado ocorrido no Brasil em 2016, o historiador Moniz Bandeira parece repetir seu raciocínio acerca do golpe de 1964:

Falar em Constituição, agora, é que é uma grande ilusão. As liberdades são relativas, como durante o regime militar, porém nem imprensa alternativa existe mais como naquele tempo. Toda a mídia repete o mesmo e o alvo é o ex-presidente Lula, com judiciário a condená-lo, sem provas, apenas para efeito de repercussão na imprensa e desmoralizá-lo. Quanto mais ele cresce nas pesquisas mais me parece que as poderosas forças econômicas nacionais e estrangeiras, que sustentaram o golpe do impeachment da presidente Dilma Rousseff, tentarão tirá-lo de qualquer forma das eleições. Tenho até dúvidas de que as eleições ocorrerão. Temer e demais cúmplices sabem que, ao descer a rampa do Planalto, sem imunidade, podem ser presos e enviado para a Papuda. A insatisfação no meio militar é enorme, conforme exprimiu o Antônio Olímpio Mourão.

Revelação da farsa democrática, referência a indeterminadas “poderosas forças econômicas nacionais e estrangeiras”, dúvidas sobre a realização das eleições de 2018, referência à crescente insatisfação no meio militar expressa pelo general Mourão: todos os elementos de uma boa teoria da conspiração estão aí presentes. Bandeira seria, afinal, um historiador ou um conspiracionista? Consideramos falsa a alternativa entre história e teoria da conspiração. Verdadeiramente sóbria seria uma análise que não se apegasse unilateralmente nem à suposta materialidade das provas (sempre passíveis de falsificação ou manipulação) com as quais são construídos os “fatos históricos” nem aos aspectos mais fantasiosos das teorias da conspiração, mas que percebesse a íntima relação existente entre os dois polos dessa falsa alternativa. Como o fato de que, historicamente, as próprias teorias da conspiração muitas vezes são elementos constituintes de conspirações em andamento.

13. No livro As ilusões do progresso, de 1908, o sindicalista revolucionário francês Georges Sorel acusava o comunista alemão Karl Marx de incorrer no erro de subestimar o papel da mediocridade na história. Parece-me que foi evitando precisamente este erro que, num filme de 1975, o situacionista francês Guy Debord esclarece que “a sociedade do espetáculo é uma miséria, bem mais do que uma conspiração”. Pode ser mesmo que, cedo ou tarde, a história dê razão a uma ou outra destas teorias da conspiração envolvendo o atentado contra a principal liderança política desta ressurreição do integralismo (expressão brasileira do fascismo) na vida social do país, algo que, salvo engano, parece cada vez mais improvável. Afinal, como nota o mesmo Debord num livro de 1988, “fica difícil aplicar o princípio Cui Prodest? [a quem beneficia?] num mundo onde tantos interesses poderosos estão bem escondidos”… A propósito: quem matou ou quem mandou matar Marielle?

9 COMENTÁRIOS

  1. A teoria mais estapafúrdia e mais disseminada – e, curiosamente, surgida em meio à esquerda – foi a de que todo o atentado não passou de uma farsa. A faca não teria perfurado o Sacodebostanaro, os médicos teriam posado para a foto e esquecido as luvas, toda uma encenação envolvendo centenas de pessoas e instituições teria sido arquitetada.

  2. Interessante o rejúbilo de partes da população:

    https://www.youtube.com/watch?v=W7-QfGGmT3w

    surgiu, inclusive uma campanha: tramontina 2018.

    Mas estou tentando entender seu argumento, que não ficou-me claro. Você propõe que não nos limitemos aos elementos empíricos dos acontecimentos, mas que realizemos links que possam apontar para as tramas intestinas dos acontecimentos? É isso? Uma mescla de análise criteriosa com um incremento imaginativo como quebra da limitação empiricista?

    abraços

  3. Isso, Marcelo, é por aí… Ao menos enquanto a história ainda está quente, isto é, enquanto os segredos e as mentiras de Estado são mantidos enquanto tais, numa zona cinzenta, não resta outra opção ao historiador materialista – naquele sentido benjaminiano. De fato, não fui mto feliz na argumentação (truncada, quase enigmática), mas apesar disso vc captou bem a proposição central das teses!
    Abço.

  4. Enquanto não se prova as conspirações, elas são teorias.

    O problema não é haver teorias de conspirações (pois conspirações existem no mundo do poder evidentemente). O problema é quando essas teorias e hipóteses são mantidas como verdades mesmo com fatos que as enfraqueçam ou que as desaprovem. O problema é reificar as hipóteses, transformando-as em verdade.

    Nesse sentido, o que se viu quase em tempo real nas mídias sociais, por parte da esquerda, mas de um público mais amplo que ela, foi a dúvida se a facada teria ocorrido ou não. Até aí a dúvida é saudável, e a hipótese de armação também (afinal, ataques de bandeira trocada e conspirações existem de fato nos jogos de poder). A teoria ou hipótese de uma facada simulada foi caindo por terra à medida que o tempo passou e os fatos duvidosos foram sendo esclarecidos. A esquerda e o público em geral abandonou completamente a hipótese de não ter ocorrido a facada, ou de ter sido simulada. A teoria da conspiração não foi reificada. Não há o que ser criticado nisso.

    Num segundo momento, eu mesmo, entre outros, levantamos a hipótese de gente em torno da candidatura de Bolsonaro ter planejado a facada, como o artigo discorre. Não é uma hipótese inverossímil ainda hoje. Mas ela perdeu força com o tempo, porque não apareceram mais elementos para a reforçar nas últimas semanas. Novamente, a hipótese ou teoria não foi reificada, não ganhou o status de verdade. Não há o que ser criticado nisso, da mesma forma.

    Hipóteses são lançadas, os fatos e acontecimentos as reforçam ou as enfraquecem.. Assim se faz ciência, inclusive a ciência política, mesmo a mais pragmática. Isso para antecipar e não ser pego de surpresa, saber reconhecer os passos do inimigo.

  5. O problema da fantasia ideológica é que qualquer acontecimento no Real (fogo em museu ou facada no Bolsonaro) é – antes mesmo de ocorrerem – apenas confirmação das ideias que as pessoas já possuem (“não deve haver teto de gastos”, “o Estado não sabe administrar” ou “petistas querem matar o mito”, “conspiração/encenação”).
    Então é óbvio que conspirações possam existir e existem mas a total impermeabilidade dos fatos na ideologia que chama a atenção, não apenas em um caso como a facada mas em todo processo político.

  6. Pois é, Cristiano, apenas cinquenta anos depois surgem as provas daquilo que, ainda no calor dos acontecimentos, só era possível intuir ou, como disse o Leo a respeito do atentado contra o coiso, lançar hipóteses. Daí a necessidade tática de procurarmos lançar as melhores hipóteses possíveis, sempre baseadas no uso de um pouco de lógica histórica, enquanto os fatos permaneçam segredos de Estado. Já o problema da irracionalidade da fantasia ideológica destacado pelo Paulo é algo mais ligado à psicologia de submissão das massas e que, portanto, deve ser objeto de uma reflexão de maior duração, o que ultrapassaria o objetivo dessas teses, escritas e publicadas antes mesmo das conclusões do inquérito policial. Creio que os trabalhos de Kracauer dos anos 1930-40 sobre o nazifascismo, bem como as reflexões oitentistas de Debord sobre o poder “espetacular integrado” nos ajude a compreender o fenômeno.

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