Por Dean Nolan e Fred Thompson

Traduzido por: Poeta em Buenos Aires

Nascido em 7 de Outubro de 1879 em uma família pobre na Suécia, Joel Hägglund mudou seu nome para Joe Hillstrom (e depois Joe Hill) após imigrar para os Estados Unidos da América. Escreveu paródias dos hinos do Exército da Salvação ainda jovem na Suécia.

Hill começou a trabalhar em uma fábrica de cordas em Gävle aos 12 anos, mas teve que abandoná-la em 1896 devido a uma doença ocupacional que ameaçava sua vida. Se recuperou em meio a trabalhos intermitentes e tratamentos que culminaram em cirurgias emergenciais e um longo período de afecção. Finalmente, ele e seu irmão abandonam o trabalho que tinham no estaleiro local e tomam um navio que partia para os EUA, chegando em Nova Iorque no dia 28 de Outubro de 1902.

São poucos os registros dos primeiros anos de Joe Hill no continente americano. Ele esteve em São Francisco em 1906, ano do grande terremoto, sobre o qual escreveu para um jornal sueco. Logo após, mudou-se para Portland, Oregon, onde ocorria um grande esforço organizativo da IWW (Industrial Workers of the World)[1]. Joe Hil se uniu à IWW mais ou menos entre 1907 e 1910, quando publicou seu primeiro artigo na revista Industrial Worker. Ele foi ativo na IWW pelo resto de sua vida.

Joe Hill, organizador da IWW

Joe Hill viajou ao sul para unir-se à Luta pela Liberdade de Expressão[2] em Fresno, em 1910. Depois mudou-se para a cidade portuária de San Pedro, Califórnia, onde a IWW tinha uma importante presença entre os trabalhadores portuários; em seguida viaja a San Diego para unir-se à Luta pela Liberdade de Expressão local e logo atuou como orador em um ato em São Francisco, denunciando a violência das gangues para-policiais contra os “wobblies” [integrantes da IWW].

Ele então se une aos rebeldes do Partido Liberal Mexicano na Baixa Califórnia, em sua luta para derrubar a ditadura de Porfírio Diaz, e escapa depois quando os federalistas apoiados pelo governo dos EUA derrotaram os Magonistas na batalha de Tiajuana. Ele retorna à São Pedro, atuando como secretário do comitê da IWW na greve de estivadores (somado a um breve período de detenção por vagabundagem depois que os esforços da polícia para enquadrá-lo em acusações mais graves fracassaram) e parte para a Colúmbia Britânica para auxiliar na greve de Fraser River. Ao ter seu nome colocado nas listas negras, mudou-se para Utah em 1913, sem dúvidas inspirado pelo então recente sucesso da IWW em organizar os trabalhadores da construção.

As cinzas de Joe Hill

Joe Hill foi fuzilado por um pelotão de Utah depois de um “julgamento” denunciado ao redor do mundo, no qual não havia evidências físicas que ligassem ele ao assassinato do qual estava sendo acusado. Em sua biografia recente, William Adler apresenta evidências que sugerem que a polícia tinha capturado o verdadeiro assassino (um criminoso de longa data que posteriormente se uniu às filas de Al Capone), mas o libertam após decidirem incriminar Hill – aparentemente com a teoria de que como um woobly, ele deveria ser culpado de algum crime terrível. A sentença e pena de morte de Hill geraram muitos protestos ao redor do mundo, mas as autoridades de Utah se recusaram a reconsiderar.

Depois de seu assassinato pelo pelotão em 19 de Novembro de 1915, o corpo de Joe Hill foi enviado a Chicago, de acordo com seu desejo de “não ser encontrado morto em Utah”. Aproximadamente 30.000 pessoas assistiram em seu funeral, marchando pelas ruas até o cemitério, onde foi cremado.

Suas cinzas foram colocadas em 600 envelopes; uma parte foi solta aos ventos no primeiro de Maio de 1916, sendo a maioria distribuída pelas regionais da IWW pelo mundo, a partir de seu primeiro aniversário de morte. A IWW estava sob vigilância governamental pesada. Apesar de que o sindicato não foi nunca posto na ilegalidade, muitos de seus jornais foram banidos dos correios, os oficiais de postagem se recusariam logo a entregar cartas para ou enviadas pelos escritórios da IWW, e milhares de membros foram detidos (a maioria acusados simplesmente de pertencer ou organizar o sindicato). Após a guerra o governo queimou a maior parte dos registros e documentos da IWW que haviam detido.

Em 1988 se descobriu que um envelope contendo cinzas de Joe Hill havia sido detido pelos Correios oficiais dos EUA em 1917 devido ao seu “potencial subversivo”. (O governo dá a versão de que o envelope foi “danificado acidentalmente”, e então detido sob regulações postais “relativas à Lei de Espionagem”). O envelope, com uma foto anexada, levava o título “Joe Hill assassinado pela classe capitalista, 19 de Novembro de 1915”, e assim como o seu conteúdo, foi transferido para os Arquivos Nacionais em 1944.

Depois de saber que o governo detinha cinzas de Joe Hill, membros da IWW decidiram lutar pela liberação dos restos de seu companheiro das mãos governamentais. Após negociações, as cinzas de Hill (mas não o envelope que as continha) foram entregues a Frederic Lee, membro do Conselho Executivo Geral da IWW, e U. Utah Philips, cantor “wobbly”, em 18 de Novembro de 1988. Nos meses seguintes, a maioria das cinzas restantes foram lançados ao ar nos EUA, Canadá, Suécia, Austrália e em outros países.

Joe Hill: o homem certo

Pouco após a polícia de Salt Lake City ter detido Joe Hill, entraram em contato com o Chefe de Polícia de San Pedro, Califórnia, que respondeu: “Vocês pegaram o homem certo… Ele com certeza é um cidadão dispensável. Parece que é músico e escreveu canções para o livro de canções da IWW[3].”

O sentido era claro. Embora faltassem os detalhes do assassinato do qual Hill era acusado, o Chefe de Polícia não tinha dúvidas de que Hill era “o homem certo”. Para ele, Hill simbolizava as ameaças da classe trabalhadora para a ordem estabelecida. Os homens que ele admirava não queriam seus trabalhadores organizados, ou que cantassem tais canções como as que Joe Hill havia escrito, ridicularizando eles e sua polícia, desafiando o seu direito à riqueza que não haviam produzido. A partir destes pontos de vista é que Joe Hill foi julgado e executado por um assassinato que ele não cometeu.

A primeira paródia escrita por Hill de que temos conhecimento foi do hino “In the Sweet Bye and Bye”, uma canção famosa no Exército da Salvação. Sua versão já estava em circulação antes de aparecer na edição de 1911 do cancioneiro IWW. A canção de Hill criou a expressão “pie in the sky” no vocabulário popular estadunidense [“uma torta no céu”, significando a esperança em algo que provavelmente não acontecerá].

Na primavera de 1912 Hill estava na Columbia Britânica durante a greve na construção da ferrovia Canadian Northern. À melodia de “The Wearing of the Green” [música popular que narra a repressão brutal à rebelião irlandesa de 1798], Hill fez com que os grevistas prometessem, pelas letras, “não mais construir ferrovias para os engravatados e almofadinhas”. Uma das condições precárias eram os alojamentos de miséria, com paredes feitas de sacos de batata. À melodia da balada de River Shannon [outra canção popular irlandesa, “Where the River Shannon flows”]:

These gunny-sack contractors have all been dirty actors,
And they’re not our benefactors, each fellow worker knows;
So we’ve got to stick together in fine or dirty weather
And we’ll show no white feather where the Fraser River flows.

Os fajutos contratistas são mesmo grandes vigaristas,
não são gratos socorristas, todo camarada intui.
E então sejamos muitos, e bem certos deste assunto
Nós pisamos forte juntos, aqui onde o Rio Fraser flui.

Nesta greve ele escreveu outras canções que foram entoadas durante a greve mas que logo foram esquecidas. Todas utilizavam uma linguagem provocativa e cômica para ofender os patrões e animar a moral dos trabalhadores. Muitas de suas canções escritas para situações de greves específicas traziam paralelos com experiências de outros lugares, e tinham grande chegada nos trabalhadores.

Hill tinha nove canções novas no cancioneiro de 1913. Antecipando o que ocorreria brevemente na Europa, duas delas eram antimilitaristas. Algumas de suas canções mais populares ridicularizavam os conservadores que culpavam os negros e os estrangeiros por todos os seus problemas. Para a Industrial Workers of the World nenhum trabalhador poderia ser um estrangeiro.

Durante seus meses na prisão, Hill escreveu mais canções. Sua mão ferida lhe atrapalhava a escritura, mas mesmo assim nestas condições escreveu “The Rebel Girl” e “Workers of the World Awaken”. Estas canções têm menos da linguagem do trabalho em comparação com a maioria de suas composições, mas mostram que na prisão ele não perdeu esta perspectiva:

If the workers take a notion they can stop all speeding trains;
Every ship upon the ocean they can tie with mighty chains;
Every wheel in the creation, every mine and every mill
Fleets and armies of the nations will at their command stand still.

Se os trabalhadores sonham, todos os trens podem deter
cada barco que os oponha suas cordas submeter.
Nos moinhos e nas minas impedir as rotações
Contra as causas assassinas das nações e seus canhões.

“Um panfleto, não importa quão bom seja, nunca é lido mais que uma vez, mas uma canção é aprendida de cor e repetida muitas e muitas vezes; eu digo que se uma pessoa consegue colocar alguns fatos nus, de sentido comum, em uma canção, e vesti-los com uma camada de humor para que não sejam tão secos, ela vai conseguir alcançar um grande número de trabalhadores que não têm a instrução ou que são muito indiferentes para ler um panfleto ou um editorial sobre ciência econômica“ — Joe Hill

Trechos retirados do livro “Joe Hill: IWW Songwriter”, de Dean Nolan e Fred Thompson (1979), disponíveis aqui.

Notas do Tradutor

[1] Organização sindicalista-revolucionária fundada em 1905 nos EUA, ligada a tradições anarco-sindicalistas e de democracia sindical de base.

[2] As “Lutas por Liberdade de Expressão” eram as campanhas de encontros públicos com oradores para agitar as temáticas do mundo do trabalho realizadas pela IWW. O nome também se aplica às resultantes repressões e a continuidade das campanhas em decorrência da repressão, o que gerou certa notoriedade da organização a nível nacional.

[3] O “Little Red Songbook”, ou o pequeno cancioneiro vermelho, é o nome com o qual ficaram conhecidas as compilações de canções feitas pela IWW. A primeira edição foi realizada em 1909 em Washington (e tinha outro nome). Os cancioneiros continuaram a ser editados também em outros países, como o Canadá, como uma prática típica desta organização. A 36ª edição, de 1995, pode ser vista aqui.

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