"Papa Inocêncio X" de Francis Bancon

Por Leo Texto

Quando as pesquisas eleitorais anteriores ao primeiro turno começaram a sair não foram poucos do campo petista que as acusaram de serem compradas, enviesadas, cheias de equívocos metodológicos e tudo mais que pudesse desacreditá-las. E havia um pouco de verdade nas queixas, só que ao contrário: ao “abrirem” as urnas, ou ao transmitirem os dados contidos nelas para a apuração, o candidato Bolsonaro superou todas as expectativas e quase levou a presidência do país no primeiro turno. O que muitos não queriam ver foi demostrado nos números e não só o PT não tinha a força que imaginava, como também o conservadorismo no Brasil se mostrou muito maior do que queríamos acreditar.

Essas mesmas pesquisas mostraram que o antipetismo, ou a rejeição do candidato petista, alcançou os 36% no IBOPE (e 41% no Datafolha) nos dias próximos da votação enquanto a rejeição do seu rival eleitoral ultrapassou os 40%. Enquanto a rejeição do segundo estava próxima dos votos recebidos, a rejeição do primeiro estava – no melhor cenário – sete pontos acima, ou seja, o candidato perdia para si próprio. Ora, apesar de ter sido Bolsonaro o para-raios do antipetismo, dificilmente todos os votos se direcionaram para ele, e podemos supor que parte desses eleitores optaram por Ciro Gomes formando nacos dos seus mais de 12%, outros tantos se direcionaram para as quase inexpressivas votações dos demais candidatos e há aqueles que ficaram em suas casas, formando os mais de 20% dos eleitores que não escolheram nenhum dos 13 candidatos disponíveis, mas que nada nos garante que entre eles não se expresse os mesmos números. Único elemento que joga a favor de uma possível reversão do que se esboçou no primeiro turno é o fato de muitos eleitores que rejeitam um também rejeitam o outro.

Entretanto, se estivermos certos na tese de que nem todos os antipetistas escolheram Bolsonaro no dia 07/10, então estamos diante de uma situação ainda mais complicada, pois se não o escolheram no primeiro turno, o escolherão no segundo, o que seria suficiente para dar ao candidato do PSL os poucos votos a mais que precisa para se eleger.

Ainda apresento mais uma possibilidade a ser levada em consideração. Os votos de Haddad foram puxados na região Nordeste pelos candidatos a governador, muitos entre eles eleitos com expressiva votação já no primeiro turno e quase todos apoiadores (ou sendo) do PT. Esses apoiadores não terão a máquina eleitoral no segundo turno e a expressiva votação conseguida no primeiro turno não apresenta muita elasticidade (a exceção é o Ceará, pois os votos de Ciro Gomes devem ser transferidos mais para Haddad do que para Bolsonaro). Nessa região não dá para crescer para muito além do que já se conseguiu, restando para a militância das demais regiões a responsabilidade de reverter a tragédia.

“Três estudos para figuras na base de uma crucificação” de Francis Bacon

Tendo por base Salvador, são nos bairros de classe média alta que se concentram os votos de Bolsonaro. Sei que não é essa a realidade do Sul e Sudeste do país, pois lá Bolsonaro venceu mesmo entre os de baixo, mas nas grandes cidades nordestinas o antagonismo entre os mais pobres e os mais ricos ficou espacialmente evidente. Nos bairros “nobres” de Salvador o resultado do primeiro turno foi comemorado com buzinaços e paneladas, a mesma cacofonia que embalou o impeachment de Dilma e as demais arbitrariedades direcionadas ao PT em particular, mas aos trabalhadores no geral durante os últimos cinco anos. Seria ingenuidade acreditar na possibilidade de reverter esses votos exatamente quando a vitória daquilo pelo qual eles lutam desde 2013 – quando sequestraram as ruas após as mesmas serem varridas pela repressão promovida pelo governo petista – está prestes a se concretizar. Não há desinformação nesse meio e mesmo os trabalhadores aí residentes optaram por uma identidade com os gestores e demais capitalistas ao invés de criarem uma consciência de classe, como aliás é a forma da luta de classes no Brasil desde sempre. Fizeram uma escolha pela barbárie imaginando que ela não os alcançará.

É, portanto, o antipetismo que irá decidir as eleições (e não o petismo como planejaram alguns). O antipetismo é a maior força eleitoral, mas dentro dele cabem muitos antipetismos e reduzi-lo ao fascismo é de uma miopia catastrófica.

Mesmo assim, todo o campo progressista e/ou de esquerda, em desespero, aderiu acriticamente à campanha de Haddad como se em três semanas fosse possível borrar um quadro pintado por décadas utilizando para tal uma figura até ontem completamente desconhecida pelos brasileiros não-residentes em São Paulo (onde, aliás, ele foi fragorosamente derrotado em sua tentativa de reeleição). Mais do que isso, os quase 30% dos votos recebidos por Haddad ficaram aquém das expectativas dos próprios petistas, que chegaram a vislumbrar uma vitória ainda no primeiro turno caso o candidato de fato escolhido, Lula, não estivesse preso em Curitiba. A transferência de votos de Lula para Haddad aconteceu rapidamente até onde era possível e também rapidamente bateu no teto, este muito mais baixo do que o esperado.

Esse levante ativista tenta reverter, no curto prazo que tem, o desastre que será a vitória de Bolsonaro – o quanto mais acachapante for a vitória, pior será o cenário que se apresentará e mais legitimidade terá o seu governo ultraliberal e conservador –, pois não há mesmo outra coisa a ser feita. Entretanto, é um ativismo, na maior parte dos casos, completamente afastado das lutas recentes e que perdeu (ou nunca teve) a habilidade para dialogar com os trabalhadores mais precarizados do país. Esse ativismo não domina a gramática necessária, não tem a experiência organizativa para tal e nem formou uma rede de solidariedade em torno de si. Parte de uma defesa abstrata da democracia ou de uma luta também abstrata “contra o fascismo” sem entender o que significa democracia para esses trabalhadores precarizados e sem saber que “fascismo” é uma palavra completamente vazia de significado nos dias atuais.

“Tríptico” de Francis Bacon

Mais do que isso, esse levante ativista continua apostando no poder de ataque do petismo sem perceber a virada do jogo. Ao se recusar a perceber que o antipetismo é irreversível no curto prazo – e tem força suficiente para consagrar a vitória de Bolsonaro daqui a alguns dias – acaba jogando contra a própria meta. Parte do desespero para aliviar a consciência de quem deixou para o PT toda a condução das lutas sociais e exatamente por isso nem sabe por onde começar. Mesmo a disputa através das redes sociais – onde Bolsonaro fez a cama que agora está prestes a deitar – se mostra infrutífera, devido à impossibilidade de “furar as bolhas” formadas pelos algoritmos e devido à falta de influencers de esquerda naqueles meios. Soma-se a isso a segregação socioespacial desse campo em relação aos trabalhadores mais pobres que residem em grande número em bairros periféricos das cidades brasileiras espraiadas e desconectadas, formando em algumas metrópoles, a exemplo de Salvador, algo próximo do antigo sistema de apartheid sul-africano. O fato é que a máquina da desinformação está a pleno vapor e nada poderá detê-la nos curto e médio prazos. Para cada fake news desarmada, outra dezena pipoca nos grupos de WhatsApp e nos círculos de afeto do Facebook; e as periferias das grandes cidades e os locais de trabalho se tornaram demasiadamente estranhos para uma esquerda lacradora e preocupada com a autoimagem.

Onde encontraríamos os votos necessários para derrotar Bolsonaro? Talvez em algumas cidades ainda seja possível convencer um vizinho, um parente, um colega de trabalho, mas em outras tantas cidades a segregação é tamanha e o estranhamento ainda maior que há muita pouca margem para isso. E partir para as periferias teria que ser apenas um início de uma ruptura com os modos identitário e acomodado (pelo petismo) de construir a militância que tomou conta da esquerda brasileira. De qualquer forma, ou é isso ou não será nada.

Já afirmei que o antipetismo é irreversível nesse exato momento e apostar no petismo para derrotar Bolsonaro é insistir no erro até então cometido e que nos trouxe para esse buraco. Ponto, mas desenvolvo. Se tem algo que pode derrotar o antipetismo é o próprio antipetismo, da mesma forma que foi o petismo religioso que quase derrotou o petismo pragmático no primeiro turno. Esse é o paradoxo dos dias atuais. É preciso promover o encontro do antipetismo militante de esquerda com o antipetismo dos trabalhadores não-fascistas e profundamente decepcionados com o PT.

Qualquer campanha eleitoral feita nesse exato momento deve carregar a crítica ao petismo e desmontar a dualidade presente. Reforçar o eixo do “petismo X antipetismo” é escolher pela derrota. Somente deslocando a eleição para um novo eixo, por exemplo, o do “direitos sociais e trabalhistas X precarização” ou o do “respeito à vida e à diferença X violência institucionalizada”, é que teríamos chances de derrotar Bolsonaro e dar freios à rápida ascensão do fascismo. Somente com a disseminação de uma outra concepção de fazer política poderíamos abrir espaço para conversarmos com quem definitivamente está fechado com o antipetismo entre os trabalhadores mais vulneráveis e daí poderíamos levar às urnas segmentos daqueles que não querem nem um nem outro ou até reverter um voto aqui outro acolá.

“Tríptico” de Francis Bacon

Para tanto, é preciso se desvincular do petismo e mostrar para os trabalhadores que está em jogo algo muito mais amplo. E somente quem pode fazê-lo são exatamente os antipetistas do campo progressista. São poucos, é verdade, mas reside neles a legitimidade de uma proposta que supere o atual beco sem saída no qual quase todos os brasileiros se sentem presos. São os petistas que deveriam aderir a uma campanha mais ampla do que eles mesmos e deveriam também colocar a máquina eleitoral ao dispor dessa estratégia, não o oposto. Aliás, parece que o candidato Haddad entendeu isso e atacou José Dirceu já na sua declaração do dia 08/10, o segundo da hierarquia do petismo messiânico, mas a sua cativa e religiosa militância se recusa e enxergar que o caminho é esse pois não existe outro. Porém, há limites óbvios para que o próprio PT conduza tal estratégia eleitoral e é preciso que muitos outros levem à frente o desafio.

Se não for dito aos trabalhadores mais precarizados que o PT também precisará ser derrotado nos próximos anos; que neste exato momento a escolha é pelo mal menor; que será preciso construir uma opção política – e eleitoral – ao PT de imediato; que as críticas ao PT são reais, fundamentadas; que o voto de agora é pelos direitos sociais arduamente conquistados; e que teremos 4 anos muito difíceis pela frente; será impossível ter a credibilidade necessária para conquistar a possibilidade do convencimento. Pode parecer um jogo de palavras, mas fazer campanha contra Bolsonaro, insistir no #EleNão dando ares classistas à consigna (ou à hashtag, já não há diferença), tem muito mais chances de evitar o desastre do que a adesão desesperada – ou a continuação da chantagem – que se esboça agora.

Discar treze na urna eletrônica carregará muitos significados. E ainda assim teríamos um desafio maior que é o de aprender em poucos dias como chegar naqueles que nem sabemos quem são. Entretanto, se tem algo que o ativismo destrambelhado em curso acerta é por começar hoje sabendo que amanhã será tarde. No mais, pode ser também o início – na derrota ou na vitória – de um novo ciclo de lutas e de uma nova esquerda que aprenda, na marra, com os próprios erros.

11 COMENTÁRIOS

  1. As eleições são sempre o momento de reforço da hegemonia vigente. Pois é através das significações instituídas, do senso comum, que se ganha votos e adeptos.

    A hegemonia protofascista no momento é tão grande que draga para dentro de seus significantes e significações tanto o petismo quanto parte da extrema-esquerda.
    Se por um lado temos o PT largando o vermelho em prol do verde e amarelo, por outro lado, e mais grave, parte da extrema-esquerda assume explicitamente o “antipetismo” para atrair adeptos contra o Bolsonaro.
    Uns usam as cores do Bolsonaro, outros a significação imaginária central do fenômeno protofascista que ascendeu no Brasil.

    Chegamos no ponto que o menor dos problemas é não ter autonomia ao PT, mas sim não ter autonomia ao fascismo em ascensão.

  2. O antipetismo é um fenômeno muito amplo e representa a rejeição ao PT por diversos motivos. Ele se origina, claro, na sistemática campanha de difamação que existe desde sempre contra a esquerda e contra o partido que conseguiu se tornar a imagem de todo o campo do qual ele deveria ser apenas um dos elementos. Mas o antipetismo também se origina da profunda decepção que muitos trabalhadores têm dos governos petistas — o que inclui a corrupção, claro — mas também do aumento da precarização da vida, em especial nas grandes cidades brasileiras. Quando o PT foi contra esses trabalhadores que lutavam por direitos ou denunciavam as péssimas condições de vida, abriu espaço para que essa rejeição fosse conduzida pelos caminhos do conservadorismo.

    Mas Leo Vinicius parte do pressuposto — não é de hoje — de que qualquer rejeição ao PT é protofascista, e portanto só nos resta fazermos frente ao lado do PT. Não é capaz de enxergar na frustração generalizada qualquer saída a não ser aquela de combatê-la, colocá-la dentro da ordem mais uma vez. Trazê-la para um novo eixo? Não, não é possível. Mesmo a luta por direitos, contra a precarização, se for contra o PT, é protofascista. O que deve estar propondo Leo Vinicius agora aos trabalhadores de Santa Catarina, estado que, relativamente, foi um dos que mais deu votos a Bolsonaro? Ou não proporá nada, pois eles são todos protofascistas. Ah, menos os policiais, esses não, esses são trabalhadores como qualquer um outro.

    Leo Vinicius, que horas você volta?

  3. Ótimo texto.
    A dualidade do buraco negro petista é constantemente colocada a partir da tese de que as trincheiras estão formadas, num eterno congelamento do processo. Isso sempre pressiona para uma análise imediatista e idealista. Perdemos a PERSPECTIVA HISTÓRICA.
    O ciclo de conflitos Estatais que se iniciou em 2013 está dando passos largos para também encontrar seus limites, quando economicamente nenhum projeto de Estado dá consequência aos problemas sociais, ainda mais a beira de uma crise global. Assim como em 2001 na Argentina. Mas sabemos também que, quem pegar a bomba vai perder e quem pegar a retomada da onda vai crescer no próximo ciclo. Dados os dois cenários esse texto contribui muito para pensarmos o conteúdo crítico para discutir eleição no atual momento. Um bom caminho para pensar TATICAMENTE.
    Para além do conteúdo, me parece que ainda estamos perdidos num processo de aglutinação repentina e desesperada. A proposta de análise crítica da melhor prática a se seguir agora, me parece ainda se dar de maneira individual e desorganizada (desculpem a generalização). Não estamos “errando diferente” nas formas de atuação e ORGANIZAÇÃO. Estamos errando mais, igual. Acerta taticamente sem ter estratégia, é só errar mesmo.

  4. Outro Leo,
    Foi bem infeliz o uso da significação “antipetismo”, que aliás está sendo usada de modo ainda pior pelas mídias sociais com a frase “Antipetismo contra Bolsonaro” (que seria mais adequada ao Reinaldo Azevedo).

    No seu texto pelo menos há um conteúdo não é apenas um slogan.

    Mas nessa altura usar a significação de antipetismo é jogar água no moinho do neofascismo. Nós somos petistas para o antipetismo.

    Colocar rejeição ao PT, como ao sistema político em geral, como antipetismo é misturar duas coisas distintas. Ter críticas ao PT, mesmo que muito duras, é muito diferente do antipetismo como fenômeno social que ganhou existência no Brasil e que alimentou o processo ao neofascismo emergente.

    O antipetismo não derrota o antipetismo. O que você descreve é a autonomia e independência crítica ao PT (supostamente) derrotando o antipetismo – essa canalização de ódio ou revolta que sustenta esse neofascismo. Pode ter sido apenas uma retórica de título para chamar atenção, mas quando slogans já aparecem por aí, como o que citei, a questão não é só de retórica, pois o slogan passa uma mensagem e reafirma uma significação que tem sido a ponte pro fascismo.

  5. sejamos sinceros, Leo Vinicius.
    VOCÊ é petista para o antipetismo. Você é petista até para os petistas. Isso é o que acontece quando você enche teu perfil de Facebook com fotos e referências ao Lula, vá saber o tipo de discurso que você mantêm com teus/tuas companheiras de trabalho.
    Para uma porcentagem pequena dos eleitores do Bolsonaro, sim, todos os que não votam no capitão são petistas, essa é a fração fascista e proto-fascista. Quem arrisca a porcentagem de seus eleitores que entra nesta fração? 20% no máximo?
    Todo o resto não vê a sociedade dividida assim, e se você não costuma encher o seu perfil de Facebook com o Lula, certamente não terão motivos para pensar que você “é petista” apenas por não votar no Bolsonaro.

  6. O Bolsonaro conseguiu desrecalcar muita coisa na sociedade. Inclusive o antipetismo de parte da extrema-esquerda.
    Não precisa ser muito atento para perceber no comentário do Joseph o problema dele com a figura do Lula. O demônio aparecer, seja de que forma for, será sempre o demônio e será sempre demais.

    Não Joseph, todos aqui sao petistas. No meu trabalho eu nao sou petista. Quando as pessoas sao mais proximas desfazem os estereótipos.

    Somos petistas porque seremos apontados como tal por desconhecidos. Como somos apontados como comunistas. Amiga minha foi xingada por uma.simples blusa vermelha na rua. Um ciclista por estar de bicicleta. Todos petistas.

    É preciso estar bem alheio para nao se dar conta da significação imaginária de petismo e antipetismo que vem instituindo esse protofascismo.

    Lembro dos maoístas indo nas manifestacoes coxinhas e pelo impeachment em BH em 2015.. entregando aeus panfletos de esquerda… eles, antipetistas até a veia. Foram escurraçados. O protofascismo sabe identificar bem um petista, mesmo que seja um que pise todo dia na imagem do Lula.

  7. Ao longo dos últimos dias, tenho me perguntado diuturnamente se o Bolsonaro já venceu essas eleições e não queremos nos dar conta/aceitar ou se ainda é possível reverter a situação.
    Acredito que muitos estão fazendo o mesmo, mas se há não petistas fazendo campanha nas ruas e nas redes sociais, escrevendo textos, dialogando e buscando refletir e construir a melhor estratégia para se tentar aquilo que parece improvável é porque não nos curvamos.
    Alguns artigos publicados pelo passapalavra, incluindo este, têm destacado o elemento que me parece central, seja para a tentativa de se conseguir a virada, seja para se pensar no cerne do que deverá aglutinar nossa resistência: retomar a centralidade do trabalho e as formas de organização horizontal para se superar os identitarismos fragmentários, a burocratização das esquerdas e o petismo/lulismo (anacrônico e esgotado).
    Estou de acordo com o Leo quando ele afirma que “o petismo é um fenômeno muito amplo…”. De modo geral e sem a mínima pretensão de dar conta da sua amplitude, eu diria que o antipetismo nasceu com o próprio PT, associando-o ao socialismo em crise, rechaçando a linguagem dos sindicalistas, condenando a realização de grandes greves, criminalizando o apedrejamento de fábricas e assim por diante. Incorporava tanto os capitalistas quanto os trabalhadores conservadores. Não por acaso, foi necessário construir o Lula “paz e amor” e apelar às distintas formas de comoção (“você também é um pouco PT”) para se vencer a disputa eleitoral.
    Com os governos do Lula e da Dilma, o antipetismo ganhou um novo ingrediente, que o reforçou e o ampliou substancialmente: a negação na prática de princípios que compuseram a própria formação do partido, como ética e honestidade. Assim, o ódio àqueles sindicalistas barbudos e radicais foi reforçado por um discurso hipócrita de combate à corrupção, vendida como a mãe de todos os males da nação.
    Ainda que o antipetismo tenha adquirido novos contornos e se difundido entre um número cada vez maior de pessoas, creio que a quantidade decisiva de votos necessários para a virada não virá daqueles bem intencionados que estão se assumindo antipetistas em defesa da democracia, mas sim dos eleitores decepcionados com o PT e que desconhecem as propostas do Bolsonaro, tendo votado nele seguindo a onda ou que se abstiveram. Muitas pessoas que são antipetistas convictos, mas não fascistas, têm preferido anular o voto a votar no Haddad.
    Concordo que reforçar o antagonismo entre “petismo x antipetismo” é uma opção desastrosa e que devemos deslocar “a eleição para um novo eixo, por exemplo, o do ‘direitos sociais e trabalhistas X precarização’ ou o do ‘respeito à vida e à diferença X violência institucionalizada’…”

  8. Usar o antipetismo para eleger… o candidato do PT? Rapaz, que imaginação fértil a sua.

    Seguinte: a única coisa que pode mudar os rumos desse 2o. turno é um fato novo de proporções apocalípticas. Para tal, o PT precisaria cortar na carne. E para tal, tem duas opções, uma à esquerda e uma à direita – cortar fora o braço esquerdo ou o direito.

    O corte à esquerda seria Haddad desistir e passar a vaga no 2o. turno para Ciro, como sugeriu a Katia Abreu. Mas isso tem que ser feito ONTEM. Se só desistir faltando três dias para eleição, um político experiente como o Ciro jamais aceitaria botar seu nome urna só para ser o alvo de uma derrota fragorosa e inevitável. Idem para os outros candidatos – seria uma desistência atrás da outra, até chegar num 2o. turno Bolsonaro x Cabo Daciolo. Haddad desistindo hoje, cria-se o fato novo e tem-se tempo para campanha.

    O corte à direita seria o PT renunciar expressamente às suas narrativas que alimentam o antipetismo e a aversão generalizada ao partido. Principalmente reconhecer a Venezuela como ditadura e retirar o apoio a Maduro, e reconhecer como corretos, legais e constitucionais o impeachment de Dilma e a prisão de Lula.

    Naturalmente, nenhuma das duas coisas vai acontecer, devido à obsessão totalitária do PT. Agora era o momento de perder do PDT para ganhar do Bolsonaro, mas a mentalidade petista jamais vai permitir tal coisa. Para o PT, não existe diferença entre perder do PDT, do PSOL, do PSDB ou do Bolsonaro. Mesmo as composições que o partido faz à esquerda são nos termos dele, reforçando a hegemonia dele e colocando o “aliado” na posição de subalterno calado – basta ver as humilhações a que está submetendo agora Manuela e o PC do B.

    Se a esquerda quiser continuar a existir daqui a 10 anos, a melhor coisa que faz agora é estudar uma forma de recuparar a classe C (quase 70% dos eleitores, amplamente Bolsonarista hoje) que o PT, igualmente, humilhou e desprezou como meros pagadores dos impostos que custeiam o Bolsa-Família dos muito pobres e o Bolsa-Empresário dos muito ricos. Esse modelo está sendo dinamitado diante dos nossos olhos.

  9. Puxa… Como eu sou tapado… Eu achava que o PT e o petismo eram, “centralmente”, de centro…

  10. Tapado, pior sou eu que nem sabia que havia “UM” petismo…para mim havia “articulação”, “união de base”, “democracia socialista”,” movimento PT”, etc… Isso sem levar em conta, “convergência socialista”, “ação popular”, etc… Será que havendo um petismo, haverá também um “emedebismo”, um ” PSLismo”, etc?

  11. Apesar do encanto de um dos Leos para com o pt e o lulalove

    O petismo fora do poder, me preocupa por de mais.
    Me dá calafrios só de pensar, o que fizeram uns anos atras.

    As lições de 1995,
    ao contrário de terem levado a uma maior combatividade e decisão,
    levaram, graças à traição do PT e da CUT, à prostração.
    http://esquerdadiario.com.br/ideiasdeesquerda/?p=153

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