Por João Bernardo

Com a autorização do autor, transformamos estes comentários de João Bernardo ao artigo “Fascismo à Brasileira (6)” em um artigo à parte no interesse da discussão colocada.  Não se trata originalmente, então, de um artigo do autor. Por Passa Palavra

Comentário 1

O fascismo de entre as guerras mundiais só se converteu de movimento em regime em países que depararam com obstáculos ao crescimento económico, fossem esses obstáculos de ordem económica ou política. A situação hoje parece equiparável, já que as alterações geoeconómicas provocadas pelo decoupling (peço desculpa por não usar o termo «desengatamento», que é realmente difícil de engolir para um português) geraram tendências fascistas em alguns países. No Estados Unidos, por exemplo, o governo Trump, sem ser fascista, acolhe uma ala fascizante, de que Steve Bannon foi o elemento mais destacado. Mas o caso até agora mais significativo é o italiano, com o governo de aliança entre a Liga e o Cinco Estrelas. A Liga é um partido fascista com abertura aos fascistas radicais, e basta ver as recentes expressões de simpatia de Salvini pela CasaPound.

A este respeito, cabe aqui uma reflexão. Os conceitos «populismo» e «populista» não gozam de simpatia entre a extrema-esquerda, e logo no primeiro artigo desta série Manolo revelou-se um tanto ou quanto avesso ao seu emprego. No entanto, se esses conceitos hoje reapareceram e se difundem, isto deve-se a uma necessidade prática, porque sem eles torna-se impossível reunir num mesmo quadro de análise fenómenos que na prática se encontram reunidos. Sem admitirmos a existência de uma teia populista, mais ampla e difusa do que o fascismo, dificilmente se explica a convergência da Liga com o Cinco Estrelas. No centro dessa teia impera a figura de Putin, e são ele e o círculo em seu redor quem tem fomentado politicamente e apoiado monetariamente este novo populismo, que junta um programa social a uma estratégia nacionalista. Na Europa, a estratégia nacionalista visa o ataque à União Europeia, esforçando-se por fragmentá-la e por desagregar a Zona Euro. Nesta estratégia convergem partidos fascistas, como a Liga em Itália, partidos da extrema-direita radical, como o Rassemblement National de Marine Le Pen em França, e partidos comunistas, como Partido Comunista Português, que recentemente votou no Parlamento Europeu em defesa do regime de Orbán. Sem o conceito de populismo, mais amplo e mais ambíguo do que o conceito de fascismo, não se pode dar conta da formação desta teia. E esta teia é imprescindível também para entendermos o que agora ocorre no Brasil.

Partilha/saque do mundo entre Alemanha (à esquerda), Grã-Bretanha (ao centro) e Rússia (à direita)

É que o decoupling não se limitou a erguer obstáculos ao crescimento económico em países que antes haviam ocupado uma situação dominante, mas fê-lo igualmente em países emergentes como o Brasil. No terceiro artigo desta série Manolo, depois de chamar a atenção para as alterações que o decoupling está a provocar na forma de internacionalização da economia brasileira, escreveu que «a crise econômica afeta mais os capitalistas pouco capazes de exportar capitais ou de atrair investimentos externos diretos». Ficou assim desenhado um dos campos de apoio de um fascismo brasileiro, quando empresas arcaicas e ineficazes procuram o amparo do poder político para construírem uma reserva de mercado. Seria bom que a extrema-esquerda reflectisse a partir desses dados, em vez de papaguear as eternas diatribes contra o neoliberalismo e o imperialismo (entendido exclusivamente como Estados Unidos). Os conceitos ultrapassados que têm curso na extrema-esquerda só se explicam pelo facto de ela estar vocacionada para uma realidade também ultrapassada. O problema é que com uma chave de parafusos só se pode manipular parafusos, e se há muito já deixara de ser possível analisar em quadros nacionais uma economia que se internacionalizara, hoje é impossível analisar como soma de nações uma economia que se transnacionalizou. Ora, o trágico é que uma boa — ou má — parte da extrema-esquerda pretende dar voz aos mesmos anseios, apresentando como programa o mesmo proteccionismo e o mesmo nacionalismo que são o programa do fascismo clássico. É aqui, na teia assim gerada, que o conceito de populismo me parece imprescindível.

Este carácter estatista da extrema-esquerda é mais lamentável ainda quando pretende enfrentar a reforma das leis do trabalho. Nos quarto e quinto artigos desta série Manolo traçou um quadro diversificado da exploração da força de trabalho brasileira nas actuais circunstâncias, mas neste comentário vou limitar-me a sublinhar um aspecto, especialmente interessante por atingir sectores modernos. É que a reforma trabalhista não decorre, ou não decorre exclusivamente, no plano governativo. Se os governos não promovem essa reforma, as empresas realizam-na na prática. A uberização é a modalidade mais notória dessa reforma trabalhista realizada na prática, dando à terceirização uma nova amplitude. Muitas vezes o desemprego não significa que não se trabalhe. Significa que se trabalha sem estabilidade nem garantias, e se nesta situação muitos desempregados se dedicam a actividades tradicionais ainda vivas no Brasil, noutros casos a actividade é mais moderna e por isso mais rentável para o capitalismo. É aqui que a Uber e congéneres têm um vasto campo de acção. Em suma, as grandes remodelações da economia capitalista não dependem de eleições nem de jogos partidários. Os políticos eleitos é que se adequam às remodelações já efectivadas na prática. Entretanto a esquerda só consegue lutar contra a uberização propondo reservas do mercado de trabalho, ou seja, lançando uns trabalhadores contra outros, numa réplica do que sucede com o nacionalismo e o proteccionismo.

No Passa Palavra têm sido publicados ultimamente numerosos artigos e comentários que debatem as eleições presidenciais e as alternativas que elas colocam. Ora, é um sintoma do estado a que chegou a esquerda anticapitalista, ou melhor, do estado a que chegou o anticapitalismo na esquerda, que esse debate esteja a processar-se no plano estritamente político, em vez de tomar como pano de fundo a situação descrita e analisada por Manolo no quinto artigo desta série. A luta da classe trabalhadora no plano económico que lhe pertence encontra-se sem voz nem expressão, e o que se ouve é apenas o confronto entre políticos profissionais no plano das instituições capitalistas.

Se os movimentos identitários forem, como tenho afirmado que são (ver o último capítulo do meu livro Labirintos do Fascismo, na sua 3ª versão, uma componente do fascismo pós-fascista, então o que está neste momento a ocorrer no Brasil é um confronto entre dois tipos de fascismo, um representado por Bolsonaro e o outro pelos movimentos identitários que se lhe opõem. A clivagem não é, porém, tão nítida, pois entre os apoiantes arruaceiros de Bolsonaro, aquilo a que eu poderia chamar as suas milícias informais, predominam as réplicas de movimentos sociais originariamente anticapitalistas, num processo que já foi analisado no Passa Palavra. Ora, este confronto entre tipos diferentes de fascismo não é uma anomalia nem uma novidade. Ele ocorreu na Roménia, onde duas modalidade de fascismo se exterminaram reciprocamente numa espiral sanguinária; ocorreu na Áustria, onde um dos tipos de fascismo liquidou o outro; ocorreu também, embora sem chegar a consequências tão extremas, no Japão, na França ocupada pelas tropas germânicas, em Portugal em 1933-1934; e, para não ir mais longe, no Brasil durante o Estado Novo, quando a Acção Integralista defrontou Getúlio Vargas.

Será que estaremos agora reduzidos a um remake, assistindo ao confronto entre o fascismo e o fascismo pós-fascista?

Comentário 2

O comentário do Manolo anuncia todo um vasto programa, mas uma passagem chamou-me especialmente a atenção:

[…] não há nenhum partido ou movimento fascista organizado no Brasil que tenha relevo ou impacto suficientes para causar assombro. Mas é isto necessário em tempos de comunicação horizontalizada? É isto necessário quando, como externalidade negativa das facilidades à comunicação causadas pela internet, basta um youtuber afirmar algo para que passe como verdade sem qualquer comprovação? É isto necessário quando estes mesmos influenciadores digitais (ou digital influencer, para os mais “descolados”) mantêm algum nível de consistência e coerência em meio a seus delírios, aparentando alguma verdade? É isto necessário quando há um público não digo nem fascista, mas conservador, formado em meio às forças armadas, às forças privadas de segurança, ao crime organizado e ao neopentecostalismo, onde os delírios encontram ampla ressonância? A meu ver, não é preciso um movimento fascista ostensivo neste contexto. Basta que os temas do fascismo e as teorias conspiratórias tenham uma boa roupagem audiovisual para movimentar centenas de milhares de pessoas. É Goebbels elevado à enésima.

Lembro-me de já há muitos anos, na verdade já há várias décadas, eu dizer em conversas que a Inglaterra (a Inglaterra especificamente, não a Escócia) não precisava de ter um partido fascista porque a imprensa de massas, os tabloids, cumpriam essa função. Eu dizia isto sobretudo como blague, embora com uma parcela de seriedade. Mas hoje a questão, tal como o Manolo a colocou, é inteiramente séria. No entanto, será que essa rede de comunicação horizontalizada pode continuar a substituir-se a um partido fascista, ou será que em breve há-de gerar um partido fascista? O que sucedeu em Itália com o Movimento 5 Estrelas poderá talvez ser elucidativo, porque este Movimento baseou-se inicialmente numa rede estabelecida na internet e funcionando à maneira das redes sociais, e agora assumiu o perfil de um partido clássico, aliando-se à Liga para formar o primeiro governo claramente fascista da União Europeia.

Aliás, não levem a mal a minha observação, mas se os brasileiros olhassem para o que se passa fora do Brasil poderiam entender melhor o seu país. O mais urgente é conhecer a actuação do presidente Duterte nas Filipinas, porque ele é uma versão aumentada de Bolsonaro — aumentada em truculência e em desmandos verbais. Serve de lupa. Se quiserem prever o que poderá ser uma presidência de Bolsonaro, olhem para o que é a presidência de Duterte.

32 COMENTÁRIOS

  1. O autor é muito lúcido. O único ponto que faltou ressaltar é que a realidade concreta em que vive o povão é muito terrível, tão terrível ao ponto de verem na violência bolsonariana um possível horizonte de melhora. O horror das quebradas, a violência sanguinária do crime, o massacre cotidiano é algo real, basta ver as páginas de gore.

    No caso então a coisa fica numa escolha moral. Entre os dois fascismos presentes, a população opta por aquele fascismo que está moralmente mais próximo dela.

  2. Uma pena que deram destaque exatamente ao ponto mais frágil – o único ponto que eu particularmente tenho discordância – desses comentários que foram feitos e transformados em artigo.

    Não é questão de discordar de que os movimentos que se costuma chamar de multiculturalistas ou identitários carreguem elementos de fascismo (os elementos de fascismo a esquerda também os carrega, eles sempre estão mais ou menos difusos na sociedade liberal). Mas no caso prática brasileiro, no momento, não, está fora da realidade que assistimos afirmar um confronto entre dois fascismos. A analogia com o integralismo e o Estado Novo não é correta para o que estamos vendo nesses percurso eleitoral. As manifestações do #elenão, pode-se até discordar taticamente, podemos concordar que não ajudam a romper a fragmentação da classe trabalhadora (pelo contrário), mas não carregavam traços de exclusão de gênero/biológica ou de regressão identitária étnica etc.

    O fascismo pós-fascista, vindo desses meios que estão inseridos na esquerda, ficou bem evidente foi em outra ocasião: na chacina do Charlie Hebdo, em que boa parte da esquerda, imersa nesses paradigmas multiculturalistas regressivos, justificou e praticamente apoiou a barbárie.

    Mas isso definitivamente não está vindo à tona e nem tem expressão nessas manifestações eleitorais. Elas estariam mais próximas a manifestações pela legalização do aborto na Argentina do que apoio envergonhado à barbárie do Charlie Hebdo.

  3. O homem que talvez seja um espelho do que será Bolsonaro no futuro:

    1) admitiu execuções extrajudiciais no contexto de sua “guerra contra o tráfico” (https://www.dn.pt/mundo/interior/presidente-das-filipinas-admite-execucoes-extrajudiciais-na-campanha-antidrogas-9919965.html).

    2) mesmo diante de protestos, afirmou que tal política continuará tão implacável e assustadora quanto no primeiro dia de governo (https://www.dn.pt/mundo/interior/milhares-de-filipinos-saem-as-ruas-contra-viragem-ditatorial-de-pr-duterte-9627152.html).

    3) disse a seus soldados para atirarem nas vaginas das guerrilheiras do movimento comunista que controla parte do país (https://www.dn.pt/mundo/interior/duterte-disse-que-e-preciso-disparar-nas-vaginas-das-guerrilheiras-comunistas-9113419.html).

    e

    4) ofereceu aproximadamente 500 dólares para a pessoa que conseguir matar um guerrilheiro comunista (https://www.dn.pt/mundo/interior/pr-das-filipinas-oferece-cerca-de-500-dolares-a-quem-matar-um-rebelde-comunista-9119895.html).

    Mas não vejo as pessoas falando sobre isso e fazendo os paralelos que deviam estar sendo feitos.

  4. Leo Vinicius,

    A questão não é ver, neste momento em que debatemos, em pleno processo eleitoral, um embate decisivo entre identitários e bolsonaristas. A questão é que o terreno já foi, de certa maneira, preparado. O presente processo eleitoral já transcorre num momento em que os identitários conseguiram imobilizar as esquerdas e em que elas foram novamente tragadas pelo lulismo.

    Aliás, diga-se de passagem, não veremos mesmo os identitários – aqueles que são partidários do escracho, por exemplo – em batalhas campais contra os bolsonaristas… afinal, a marca da atuação das pessoas que tentam se afirmar como elite dos movimentos sociais, recorrendo para isso à exclusão ou subordinação de opositores em termos biológicos, é a covardia…

  5. Leo,
    Os motivos que me levam a integrar os movimentos identitários na teia que denomino fascismo pós-fascista estão enunciados no capítulo que indiquei em link. É um problema global, que ultrapassa muito as fronteiras do Brasil e o momento que vivemos. E o carácter desses movimentos não se altera pelo facto de num certo país e numa certa eleição os seus participantes irem votar em Fernando Haddad. Tal como Fagner Enrique observou no comentário anterior, «a questão é que o terreno já foi, de certa maneira, preparado. O presente processo eleitoral já transcorre num momento em que os identitários conseguiram imobilizar as esquerdas e em que elas foram novamente tragadas pelo lulismo».

    Haydin,
    Concordo com a sua observação. Há já vários anos o Passa Palavra publicou um artigo onde se afirmava que todos os presos eram presos políticos. Procurei-o agora mas não soube encontrá-lo. Nos comentários eu critiquei o artigo, defendendo a distinção entre presos políticos e presos comuns, o que me valeu as injúrias habituais. Lembro-me de que houve alguém que me disse, em privado, que concordava comigo, mas que era impossível dizer isso publicamente, porque a tese de que todos os presos eram presos políticos se convertera num dogma dos movimentos sociais. Num dos meus comentários ao artigo observei que, entre todos os participantes naquele debate, era eu provavelmente o único que já tinha sido tanto preso político como preso comum, e por isso sabia na prática do que estava a falar. Mas, como sempre sucede, os dogmas não são permeáveis à razão prática.
    Ora, depois de tantos anos de uma certa esquerda a defender a ilusão moralista de que todos os presos seriam presos políticos, não espanta que a população das favelas e periferias tome a atitude que Haydin referiu. Os erros pagam-se, e nos erros políticos pagamos todos, mesmo quem não os cometeu.

  6. “os identitários conseguiram imobilizar as esquerdas e em que elas foram novamente tragadas pelo lulismo.” escreveu o Fagner Henrique.

    Que processo de imobilização foi esse? Ah sim, principalmente na tal esquerda autônoma isso tem sido preocupante, principalmente em algumas cidades. mas essa esquerda autônoma fica sempre colocando responsáveis para sua própria incapacidade. Ou é na repressão de governo do PT, ou é nos identitários.. como se fossem esses agentes que inviabilizaram ela a ter grande penetração na sociedade…

    Fico mais curioso por essa afirmação de serem tragadas pelo lulismo. O que é ser tragado pelo lulismo? É fato que tem muita gente que nunca participou de campanha eleitoral na vida e que está fazendo nesse segundo turno (digo campanha na rua mesmo, não na internet). Isso é ser tragado pelo lulismo? Fazer campanha para um candidato que se opõe a outro que até seus apoiadores estão reconhecendo como fascista (vide a tentativa do TRE-RJ de retirar uma faixa antifascista da UFF como se ela fosse propaganda eleitoral), é ser tragado pelo lulismo? É dar importância demais pro voto. Ora, ser tragado pelo lulismo é se, com Haddad eleito, se passar a defender as políticas de governo acriticamente, não demonstrar independência etc.

    Esse medo do Lula ou do lulismo tem é tragado muita esquerda pra direita e, como já disse comentando outro artigo aqui publicado, tem jogado água no moinho do fascismo, reforçando e mobilizando as significações imaginárias centrais e instituintes desse neofascismo brasileiro.

    Mas enfim.. daqui dez anos se olha pra trás e vai se ver onde cada um estava. Alguns pelo jeito requentando ou renovando os erros do passado, como fizeram os comunistas com a social-democracia e sua teoria do socialfascismo.

  7. Bom, cá estamos a falar sobre fascismos e bolsonaro. Me surpreende um pouco sobre como certos elementos foram deixados de fora, daí vou pontuá-los aqui.

    1. Os paralelismos com os fascismos, neo-fascismos e afins presentes na Europa são relevantes, mas me parece, sinceramente, que precisamos explicitar um gancho com a própria história do Brasil. No fenômeno bolsonarista, temos uma clara referência (e ameaça de retomada) à ditadura militar. Esta terminou há bem menos tempo atrás do que os regimes fascistas históricos europeus e, se teve semelhanças, teve também diferenças. Este passado nunca foi plenamente condenado, e agora pagamos um preço por isso. Meu ponto é o seguinte: seu posso concordar com as colocações feitas sobre a democracia institucional feitas aqui e no artigo de Manolo, cabe também falar sobre a democracia como elemento das relações sociais mais em geral. Simplificando, a ideia de que somos radicalmente iguais, e que as hierarquias sociais e econômicas a que estamos sujeitos é que não são “naturais”. A sociedade brasileira é muito pouco democrática, a começar pela família, passando pelas relações trabalhistas e pela religião. O autoritarismo está inserido em todo tipo de relações sociais. Este me parece um elemento fundamental que atrai para o bolsonarismo, antes mesmo que dificuldades econômicas ou outras questões. Se a ascensão política de Bolsonaro está ligada a outros fenômenos mundiais, também é fruto da nossa própria história, brasileira e sul-americana, e me parece importante não perder isso de vista.

    2. João Bernardo afirma que “é um sintoma do estado a que chegou a esquerda anticapitalista, ou melhor, do estado a que chegou o anticapitalismo na esquerda, que esse debate esteja a processar-se no plano estritamente político, em vez de tomar como pano de fundo a situação descrita e analisada por Manolo no quinto artigo desta série.”
    Pode ser um sintoma, mas não apenas isso. Olhemos bem para o fato de que, nestas eleições, não se fala em economia. O governo temer foi um desastre, e isso mal é mencionado. Acontece, porém, que estamos em campanha eleitoral desde o impeachment. Aliás, o fato do impeachment/golpe, como preferirem, nem mesmo ter sido mencionado, me surpreende. Seja esse acontecimento entendido como reorganização de forças econômicas, ou políticas, é inegável seu impacto no momento presente, seu papel, inclusive, em varrer do cenário atores políticos tradicionais. Não dá para ignorar, para além de seu impacto político e econômico, sua força discursiva. Consideremos que, apesar da crise econômica, a campanha bolsonaro pouco ou nada fala de economia. Quando Paulo Guedes fala, é desautorizado pelo candidato. Ela fala pouco de economia, e tudo vai bem para os seus eleitores. Quem o cobra são os que nele não votam. Me parece relevante notar que o que move a campanha é uma chave discursiva que gira em volta do anti-petismo, e de tudo que ele implica, inclusive coisas que nada tem a ver com ele, mas que lá estão, no pacote antipetista duro. É claro que a situação econômica do brasil e do mundo é uma condição que movimenta o eleitorado, mas não tanto neste momento eleitoral, especificamente. Tá aí uma razão pela qual se fala muito de política e pouco de economia: é em volta do discurso político q estas eleições se movem, e isso não dá para ser desprezado.
    Neste sentido, acho que o paralelismo com o 5 estrelas italiano também não se sustenta. O 5 estrelas nasceu em outro contexto político, e não como sistema descentralizado nas redes sociais. Seu blog, onde os inscritos podiam votar, sempre foi centralizado, o sistema inclusive sujeito a investigações. Mais de uma vez, apesar do voto lá explicitado, a opinião de Grillo contou mais na hora de direcionar os parlamentares. E nesta última eleição falou-se sim bastante de economia na italia, fosse sobre renda de cidadania, fosse a visão distópica de q os migrantes são quem rouba o emprego dos cidadãos, fosse para dizer que os problemas econômicos do país são causados pela UE.

    3. Confesso que sorrio, quando leio do fascismo dos “identitários” lacradores e do escracho, como comentou alguém lá no texto do Manolo. Sorrio porque me parece a reação de um tiozão que fez uma conta no twitter mês passado, e ainda não entendeu bem como é a dinâmica das coisas por lá.
    Lacradores e do escracho são palavras da internet, associadas, às vezes, à militância online. A vida fora da rede é bem diferente. Chamar estas pessoas e grupos de “identitários” é raso, sinceramente. As pessoas não são “identitárias”. Elas levam para o campo político algo que compõe sua identidade de forma inescapável, que não é uma escolha: o ser lgbt, ser negro, ser mulher, por exemplo. O que pode mudar é se a pessoa continua fazendo desse aspecto de si bandeira política ou não. Ela ainda será essas coisas. Nos grupos, coletivos, alas de partidos, enfim, que levantam essa bandeira, há uma clareza, sustentada teoricamente e nas práticas cotidianas, de que o sistema capitalista é um problema, não último, porque se alimenta também do racismo e do machismo, por exemplo, para existir. Esse não é um campo político para quem conta a “identidade”, apenas. Nunca foi. Há, também, a clareza de que, se a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco, a mulher negra pobre e favelada está mais vulnerável do que, digamos, uma jovem branca que vive precariamente de fazer freelas no design. Me parece evidente que, se assumimos um olhar interseccional, conjunto a um dialético, essas coisas saltam aos olhos. Dito em termos muito simples, as pessoas estão inseridas em conflitos sociais e de classe não só pelo lugar econômico que ocupam, mas também pelo que são. Se as pessoas querem que seu existir seja reconhecido, em termos culturais e políticos, e também econômicos, a melhor via para isso seria o silêncio? Esperar que o machismo e o racismo, que são estruturantes da nossa sociedade, simplesmente evaporem? Estas coisas, o lugar que se ocupa no conflito social, enquanto indivíduo e enquanto grupo, são muito claras a todo mundo que se envolve na luta política também a partir de bandeiras “identitárias”. Talvez quem precise sair da internet são vocês, se ainda não notaram isso.

    Por fim, uma última observação sobre a “fragmentação”, qual que ela seja. Dou aqui o exemplo dos movimentos de luta no campo das cidades, hoje motores de um capitalismo global talvez mais do que inteiras nações. Há muitos setores. Moradia, direito ao trabalho, mobilidade, meio ambiente, o que cabe no guarda chuva do direito à cidade. Nestes espaços há, cada vez mais, uma perspectiva de que a fragmentação, se nos articularmos em redes, na verdade nos dá forças, pois a heterogeneidade soma. Novas perspectivas, percursos de luta, construções políticas. Nesses lugares também cabem as ditas bandeiras “identitárias”, para termos sociedades e espaços urbanos mais seguros para mulheres, por exemplo. A fragmentação social é inevitável, mas ela não é, necessariamente uma fraqueza, não mesmo. Pelo contrário, me parece desse lugar que vemos formas criativas de resistir e repensar o mundo em que vivemos.
    Essa é uma grande lição vinda de onde? Do feminismo. Em que entende-se que mulher não é uma só, são muitas. Diferentes, às vezes em contradição entre si, mas que podem agir em numerosas frentes, de formas distintas.
    Me entristece um pouco que todas essas questões foram jogadas no “fascismo dos identitários”. Francamente. Te digo mais. Os eleitores do bolsonaro foram descritos aqui, ou no texto do Manolo, como “identitários de signo trocado”. Por favor. Estamos falando de pessoas, pelo menos o núcleo duro da militância dele, que desejam a manutenção de hierarquias sociais em que não há lgbts, não há autonomia feminina, negros não ousam levantar a cabeça para reclamar de seu lugar social histórico de subordinação. É sério que vamos colocar isso como “o outro lado da mesma moeda”?
    Boaventura bem falou. iguais quando a diferença nos inferioriza, e diferentes quando a igualdade nos descaracteriza. Vale para pensar esse nosso fascismo à brasileira aí, e como vamos enfrentá-lo.

  8. Leo Vinicius, o que significa ser “tragado pelo lulismo”, para mim, está expresso num artigo que publiquei no Passa Palavra no dia 20 deste mês e que pode ser conferido aqui: http://passapalavra.info/2018/10/123251

    É uma tentativa de analisar as aventuras do lulismo na sua luta incansável para se afirmar e/ou conservar como referência única e monolítica das esquerdas. Entretanto, veja bem, eu nem sequer julgo quem está defendendo o voto no PT contra o Bolsonaro. Se a alternativa fosse entre Bolsonaro e PSDB, não te julgaria se defendesse o voto no PSDB. O problema é não perceber como o Lula e o PT colaboraram para a presente situação e como trabalharam para inviabilizar alternativas, inclusive apoiando/participando da repressão ao movimento que em 2013 abriu – colocando milhares de pessoas nas ruas em todo o país – perspectivas radicais à esquerda (teria sido a primeira vez? Será a última?).

    Da minha parte, continuo a defender – em sua essência – o que defendi noutra ocasião, em julho de 2015 (http://passapalavra.info/2015/07/105308):

    “Conforme o PT sofre ataques da direita e da extrema direita, e os movimentos governistas se mantêm ao seu lado, eles se colocam também na mira dos ataques, sendo indispensável que eles se afastem – e se diferenciem – ao máximo dos governos petistas, saindo de sua órbita. É preciso que as bases dos movimentos governistas rompam, o quanto antes, com os dirigentes desses movimentos, abolindo ainda a divisão entre base e direção, e colocando-se contra o PT e os direitistas; caso contrário, cairão todos juntos, PT e movimentos sociais, mesmo que o mandato da presidente não seja interrompido; e, se não caírem, seguirão definhando juntos, de mãos dadas […] na medida em que tais movimentos se mantêm ao lado dos governos petistas, e não somam forças com os movimentos ‘autônomos’ ou libertários que fazem oposição ao PT, ou com o que resta deles, estes últimos ficam à deriva, presos em suas próprias contradições, totalmente isolados. E seguirão definhando também, à sua maneira”.

    Ou seja, continuo a defender que as bases do lulismo se desvencilhem do lulismo e somem forças com quem já está ou sempre esteve à esquerda do lulismo, para que juntos resistam/destruam o capitalismo… e com ele o lulismo.

    Registre, portanto, para sua retrospectiva 2028, essa minha posição. Antes que se passem 10 anos, porém, pergunte-se por que tanta gente declara que votaria alternativamente em Lula ou em Bolsonaro e o que ambos representam para essas pessoas. Aqui vai uma pista: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/direita-avanca-nas-periferias-a-reboque-do-conservadorismo-da-favela.shtml

  9. Aliás – esqueci-me de comentar a respeito disto – seria bom que o Leo Vinicius refletisse sobre como foi o Encontro Nacional do MPL em 2013, por exemplo, já que ele não sabe como os identitários imobilizaram a esquerda.

  10. Fagner,

    eu ouvi falar do Encontro do MPL de 2013.

    Repito o que eu disse, a incapacidade política dessa esquerda autônoma ela joga a responsabilidade nos outros: ou é em repressão de governo (ora, por que diabos um governo não riria reprimir movimento social? os sábios da esquerda acham que vão encontrar um governo que não reprime? É como colocar a culpa de ter se molhado na chuva que caiu e não no fato de não ter levado guarda-chuva sabendo que iria chover? Ou não se aprendeu ainda a natureza e a função do Estado?),
    ou são os “identitários”.
    Posso dizer que em Florianópolis eles nunca foram problema mas nem por isso o MPL deixou de miar aqui. E mais, o MPL não é a esquerda. Há que colocar cada movimento na sua devida dimensão.

    Já que citou o seu artigo recente, aproveito para comentar aqui> o último parágrafo dele contradiz todo o resto. O último parágrafo diz que estamos no deserto da esquerda alternativa, autônoma, o que for. Então o lulismo estaria agindo sobre o nada. Levando a reboque o que sequer existe. E a propósito, a parte sobre intervenção da ONU é descabida. O PT obviamente não buscava na ONU algo impossível de acontecer. Ele esperava o que ocorreu, uma decisão favorável. A ONU não tem meios de imposição nessa matéria. A hipótese me pareeu bem absurda de que o PT foi à ONU para mostrar quem pode ativar essas instâncias… como se ele estivesse preocupado com essa esquerda que vc diz no parágrafo final que não existe ou é insignificante.

  11. Há muitos anos, logo no começo da existência do Passa Palavra, publiquei aqui um artigo intitulado «Entre a luta de classes e o ressentimento» (http://passapalavra.info/2009/03/2063 ), que ainda hoje é reproduzido com alguma frequência. Nesse artigo eu afirmei, a dado passo:

    «Numa época em que, perante a concentração transnacional do grande capital, os trabalhadores se encontram fragmentados, quando foram em boa medida dissolvidas as suas antigas relações de solidariedade e atenuado ou extinto o seu sentimento de classe, mais fácil se torna que eles encontrem nos pequenos patrões os leaders ou os modelos. No plano ideológico e psicológico, trata-se de substituir o espírito de classe pelo ressentimento, ou seja, o desejo de acabar com o capitalismo pela aspiração de subir dentro do capitalismo. O fascismo, na face que apresentou às massas populares, foi exactamente isto». Hoje eu incluiria na lista dos pequenos patrões os chefes e as chefas de Colectivos e Colectivas e, já agora, de Movimentos e Movimentas. E concluí o artigo escrevendo que «sempre que o ressentimento prolifera entre os trabalhadores, o risco do fascismo não anda longe».

    Na mesma perspectiva, num livro intitulado Labirintos do Fascismo (https://archive.org/stream/jb-ldf-nedoedr/BERNARDO%2C%20Jo%C3%A3o.%20Labirintos%20do%20fascismo.%203%C2%AA%20edi%C3%A7%C3%A3o#page/n25/mode/2up ) escrevi:

    «Com o abandono da esperança revolucionária, a hostilidade de classe passava a assumir a forma degenerada do ressentimento. Diluídas as redes de solidariedade, os trabalhadores já não apareciam como membros de uma classe e apresentavam-se como elementos das massas. Uma massa agitada pelo descontentamento, mas sem nenhuma expectativa que não se cingisse à sociedade existente — eis a base popular da revolta dentro da ordem. Foi nessa gente que o fascismo se apoiou para eliminar as chefias operárias tradicionais, isolar as vanguardas combativas e reorganizar o Estado consoante um novo modelo ditatorial. E fê-lo tanto mais facilmente quanto o refluxo do movimento revolucionário havia fragilizado a base de sustentação de socialistas e comunistas, e a repressão conduzida contra os trabalhadores mais ousados comprometera qualquer prestígio de que os governos liberais tivessem podido gozar entre a população humilde».

    Ora, o mesmo ressentimento que moveu e move os fascismo é hoje também o mecanismo motor dos identitarismos. Todos os movimentos identitários, sem nenhuma excepção, baseiam-se no ressentimento e promovem o ressentimento. É este um dos pontos de convergência — não o único, mas um deles — entre as formas clássicas de fascismo e o fascismo pós-fascista. O antagonismo que existe entre o ressentimento e o espírito de classe é o mesmo que existe entre o identitarismo e a luta contra o capitalismo.

  12. Leo Vinicius,

    1) A repressão que mencionei não foi executada apenas pelo Estado, mas contou também com o apoio/participação das bases lulistas. Então, não, Leo Vinicius… não se trata de “sair para a chuva” sem querer “se molhar”: trata-se do efeito que um governo de esquerda exerce sobre os trabalhadores que o apoiam, que se colocam contra outros trabalhadores que começam a descolar as lutas sociais das teias do Estado. E nem é preciso mencionar boicotes, censuras, críticas e ataques abertos, etc. Mas, se você não reconhece nada disso e silencia quanto à atuação da militância cooptada pelo lulismo, então realmente a coisa está difícil para o nosso lado. Mas talvez você aprove esse tipo de procedimento…

    2) Eu afirmei, naquele artigo, que inexiste hoje uma alternativa efetiva ao lulismo. Mas, reflita, Leo Vinicius: isso quer dizer que as pessoas deixaram de existir? Não, elas ainda existem: quer dizer, na verdade, que elas deixaram de atuar como alternativa efetiva. E eu me lembro de ter afirmado também que, no governo Bolsonaro, os militantes/trabalhadores à esquerda do PT serão empurrados para a reincorporação ao campo lulista ou para a dispersão (alguns preferem a reincorporação à dispersão…). Portanto, a dependência com relação à estrutura partidária do PT para que as esquerdas sobrevivam no governo Bolsonaro, para mim, ocorrerá nos termos acima, de modo que o seu comentário não fez mais que criticar meu texto pelo que ele não diz.

  13. Fagner,

    Essa repressão com apoio/participação das bases lulistas me parecem bem abstratas. Os comentaristas neopetistas dos chamados blogs progressistas eram bem concretos na criminalização pela internet. Emir Sader, Marilena Chauí entre outros intelectuais também ajudaram na criminalização. Por outro lado, mesmo pensando em São Paulo, tinha base do PT participando das manifestações contra aumento da tarifa em 2013, inclusive apanhando na Paulista dos neofascistas no dia 10 de junho.

    Então a relação dos petistas é muito variada para uma afirmação dessas. De toda forma, as burocracias sindicais sempre vão procurar esvaziar os movimentos autônomos dos trabalhadores, é função dela. Função do Estado e das burocracia acho que todos aqui sabem qual é.

    Não é produtivo ficar fechando os olhos para as insuficiências de um campo e jogando a responsabilidade de seu fracasso nos outros. Esse é o mundo como ele é: com burocracias sindicais e Estado. Se não se é capaz de navegar nele, se não se está preparado para sobreviver nele… Fica parecendo que essa esquerda autônoma espera ser relevante no dia que não houver mais Estado e nem burocracias partidárias ou sindicais. Ora, mas esse é o motivo para existência dessa esquerda anticapitalista: acabar com ambos. Ou seja, o que você está dizendo é que essa esquerda anticapitalista foi incapaz de levar a cabo seu objetivo, sua tarefa, e foi derrotada. E é preciso pensar os motivos. Dizer que foi derrotada porque o exército inimigo atirou nela não faz sentido.

  14. Não queria entrar neste debate porque estou bastante ocupado no momento, mas chamo a atenção para o fato de Tersínoe, ao deslocar a atenção para “nossa própria história, brasileira e sul-americana”, retirou-a completamente da história mundial. Digo-o porque se Duterte tem sido usado como principal ponto de comparação com Bolsonaro, não se pode esquecer, neste mesmo caso, que a ditadura de Ferdinand Marcos nas Filipinas terminou em 1986, um ano depois da ditadura no Brasil ter acabado. Na mesma linha, os regimes soviéticos, que não eram exatamente democracias, ruíram entre 1989 e 1991, e é precisamente no Leste Europeu onde pululam as formas mais radicais de fascismo na atualidade. Em suma: se a memória histórica da ditadura historicamente recente é critério definidor de nossa situação, ela não é exclusividade nossa. Não existe jabuticaba alguma aqui. Devemos, sim, buscar as especificidades de nosso contexto, mas nunca apartá-lo do contexto global.

  15. O identitarismo tornou-se insuportável para um grande número de pessoas quando passou da afirmação de algumas identidades para a negação de outras. Com variados pretextos, cada identidade reivindica para si mesma o direito de se colocar no cimo de uma nova hierarquia social. Esta recusa agressiva das outras identidades, e especialmente de identidades maioritárias, é um dos mecanismos de fragmentação ideológica e orgânica dos trabalhadores enquanto classe.

    A luta contra as discriminações — de sexo, de cor de pele, de preferências sexuais — é indispensável. O problema é que os identitários conduzem essa luta 1º) de forma supraclassista, confundindo nos mesmos movimentos as discriminações que possam existir no âmbito dos capitalistas com aquelas que existem no âmbito dos trabalhadores; 2º) e conduzem-na como um movimento de ascensão de novas elites, preocupando-se mais com o acesso às altas esferas, às administrações de empresa, aos governos e parlamentos, do que se preocupam, por exemplo, com o acesso das mulheres ao operariado da construção civil, onde não estão representadas. Assim, a luta contra as discriminações, em vez de servir para construir uma nova consciência da classe trabalhadora, serve, pelo contrário, para fragmentar e diluir essa consciência. Os trabalhadores desaparecem enquanto tais ou, no máximo, são apresentados como outra identidade específica, o que é uma recusa da noção de classe.

    Ora, como o identitarismo ocupou todo o espaço que antes era ocupado pela esquerda, continuando a chamar-se esquerda, os trabalhadores que não se revêem nesses identitarismos e sub-identitarismos passaram a manifestar simpatia pela extrema-direita e pelos fascistas, o que explica a vitória de Trump nos Estados Unidos ou da Liga e do Movimento 5 Estrelas na Itália. Por isso Salvini pôde dizer, num discurso recente, que a esquerda se esqueceu dos trabalhadores e que é a Liga, ou seja, a extrema-direita radical e os fascistas, quem agora representa os trabalhadores.

    Fica assim esclarecido o êxito do discurso de Bolsonaro. Ele é o reflexo simétrico dos identitarismos; é a resposta, que se afirma como identitária — branca, heterossexual, masculina — aos outros identitarismos. A legitimidade que Bolsonaro e os seus apoiantes invocam é da mesma natureza da invocada pelos movimentos identitários. Por isso o antagonismo que os divide é interno ao campo do fascismo. O problema imediato é que o escopo das identidades que apoiam Bolsonaro abrange uma base muitíssimo mais numerosa do que os apoiantes das identidades alternativas.

    E enquanto os identitarismos e os sub-identitarismos vão fragmentando a classe trabalhadora e diluindo-lhe a consciência, os capitalistas consolidam a sua unificação, já que ambos os lados da disputa promovem as mesmas relações sociais de exploração e é a mesma tecnocracia quem orienta em ambos os lados os programas económicos.

  16. Se o lulismo e o bolsonarismo (e tantos outros “ismos” ditos de esquerda ou direita…), não são consciência de classe, embora decorram da luta de classes, seriam também como identitarismos e/ou culturalismos… portanto, estariam mais no campo da fé, da emoção (como bem revelam certos comentários… lembrando que nem toda emoção é transloucada, estando, muitas vezes, travestida de uma sapiência iluminada…), e não no campo da razão… Parafraseando Marx: “A miséria dos identitarismos, multiculturalismos, lulismos, bolsonarismos, etc, constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. Os identitarismos, multiculturalismos, lulismos, bolsonarismos, etc, são o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração, assim como o espírito de estados de coisas embrutecidos. Eles, identitarismos, multiculturalismos, lulismos, bolsonarismos, etc, são o ópio do povo”…

  17. Dos comentários aqui expostos, um me chamou especial atenção pela consequência teórica implicada que acaba por sair dos locais comuns do marxismo tradicional. Este comentário foi o de Telsinoe, tentando refletir sobre ele faço um registro aqui das escavações arqueológicas de conceitos que estou fazendo no momento.
    O problema das novas empreitadas da esquerda anticapitalista deve ser tomado do ponto de vista metodológico e apesar da abstração que parece estar envolta nisso, essa abstração ganha força material que tem prejudicado ou se limitado aos pressupostos da sociabilidade capitalista e, por isso, novamente A questão de Método deve ser urgentemente retomada.
    A própria noção de interseccionalidade desenvolvida posteriormente pela brilhante Angela Davis tenta responder de modo original as limitações desenvolvidas pelo engessamento daquilo que se convencionou chamar de método dialético. É preciso ter em vista que Davis foi orientada por Marcuse e este quando chegou aos Estados Unidos lançou uma espécie de manual contra a pragmática filosofia americana chamado de Razão e Revolução. Façamos aqui uma pequena parada. E tenham paciência com a densidade que segue, mas ela é fundamental para nos tirar dos locais comuns e recolocar a questão das identidades.
    Não raras vezes no interior das formulações de Marcuse ecoa a premissa básica de elevação dos pressupostos kantianos à uma suposta dialética que sintetiza os opostos. Para Marcuse, Hegel, impregnado pelos problemas abertos pela filosofia kantiana, tenta reinterpretar e resolver – “dialeticamente” – as lacunas deixadas em aberto pelo pensamento de Kant: 1) a filosofia kantiana determina – a despeito de si mesma – a verdadeira forma do pensamento moderno; 2) dada a estrutura antinômica dos fenômenos e numeno (a Ding an sich), o passo fundamental de Hegel seria a operação da síntese formada pela cisão existente entre sujeito e objeto.
    Apesar do desnudamento certeiro sobre os pressupostos que fundamentam a filosofia kantiana, Marcuse incorreu no perigo de rebaixar a complexidade do conceito de Entendimento. Se, por um lado, sua formulação visou chamar atenção à atualidade de Hegel em contraposição com o positivismo lógico, – postura dominante nos EUA que lhe oferecera exílio – sua postura trouxe, por outro, uma infinidade de problemas que coincidirão com uma mecanização do pensamento especulativo.
    Se, Razão e Revolução é um livro de introdução ao pensamento de Hegel, no volver de alguns pressupostos tornados lugares comuns recai numa simplificação dos termos hegelianos e num apaziguamento da complexidade dialética. Se a originalidade da leitura marcusiana incide numa espécie de hegelianismo particular, ao ver no Entendimento algo que pode ser entendido como uma “reflexão isolada”, elide a possibilidade dissociativa e avançada da própria noção de Entendimento que em termos grosseiros fundamenta a própria posição da interseccionalidade entre termos aparentemente separados.
    Eu sei, ficou pesado, mas isso é para ilustrar como do ponto de vista desse engessamento do pensamento especulativo passou-se a uma noção estéril de universalidade que deixou de observar o lado obscuro, ou a noite em que são produzidos os demônios da razão. Não farei aqui ainda uma crítica ao conceito de interseccionalidade, porque apesar de instrutivo e propedêutico, não se dá conta, aliás por ser filho do Entendimento, de sua própria limitação. Isso não significa absolutamente que devemos desprezá-lo, mas como críticos apontar suas limitações. E daí que faço uma crítica a forma como o marxismo tradicional manteve esse engessamento que hoje em dia já não dá conta mais da realidade histórica que estamos lançados.
    A compreensão da necessidade da unilateralidade (particular) como algo contingente no qual só posso entender o que se passa na realidade concreta a partir das categorias que ela engendra em seu automovimento tornou-se central numa realidade em que a modernidade chegou no seu limite e apodrece. Há nessa compreensão a necessidade de uma espécie de reversão da interpretação que o marxismo tradicional fez de dialética, pois, o alcance da totalidade só é determinada se o sujeito é incompleto significando que a completude do sujeito se dá pela falta, o que movimenta essa totalidade. Noutros termos, é a falta que nos constitui e a diferença é a única coisa que temos em comum.
    Contraposta aquela noção de uma totalidade exclusiva é a própria incompletude que fomenta essa mesma totalidade, a particularidade, o não-ser que é. O Outro contraditório é, portanto, o que nos constitui a partir do momento que expressa uma consciência negativa a ficção, ou ilusão socialmente necessária, de nosso Eu=Eu. Nossa identidade, seja, o momento no qual a experiência fundamenta uma subjetividade, depende do elemento externo negativo que não é senão uma outra consciência contraposta e em choque com nós. (Observe: é dessa posição hegeliana que o anti-hegeliano Foucault tirará e ontologizará a noção de Poder, não é foda? Eu acho lindo!)
    É preciso assinalar que a leitura lukacsiana remonta a necessidade de reconhecimento do sujeito a partir da substância alienada distinguindo na substância o produto alienado de seu próprio trabalho. Esse reconhecimento impõe uma resolução dos problemas engendrados pela reificação de si mesmo por meio da reapropriação da substância que, no caso especifico, é identificado como produto do trabalho recuperado. Ora, a dimensão de sujeito impresso por essa avaliação reduz o campo de experiências da consciência ao trabalho como dimensão fulcral de formação. Tal passo minimiza – ou simplesmente ignora – a experiência que se realiza no campo da intersubjetividade cujo vão necessário da alienação é pressuposto da própria experiência e a necessidade do trabalho em sua coerção fomenta um mundo social que lhe é próprio. Suprime o nada. Todo o marxismo consequente e inconsequente para aí…
    Segundo essa tese, o conhecimento do Eu e sua posição decisiva enquanto sujeito se daria pela reapropriação do fruto de seu trabalho, o problema é que o trabalho já é a negação do sujeito. Todo marxismo tradicional vê a dialética do senhor e escravo como algo positivo, utópico, a recuperação da humanidade do escravo via trabalho. Todo marxismo, menos Hegel. (risos)
    É o trabalho que cria a “identidade” do escravo e é ele, o trabalho, que a mantém… mas isso são outros quinhentos!
    É preciso dizer que a ficção da identidade foi inventada pela Europa, foi o colonizador que deu cor e inventou as raças. Foram essas identidades feitas e criadas, que não cabiam naquela universalidade, que permanecem e permaneceram excluídas dos processos “civilizatórios” europeus sob um silêncio sepulcral do Esclarecimento. E aqui para voltarmos à história e a vida concreta está assentado o grande vazio não solucionado que persegue a humanidade desde a Revolução do Haiti: abandonaremos a noção de universalidade ou tornaremos ela efetiva? Torná-la efetiva, no entanto, não é superar o vazio constitutivo do Eu – como o fascismo quer impor –, mas compreendê-lo e compreender que são as singularidades em relação ao universal que o movem.
    E tudo isso desenvolvi para afirmar que a luta pela compreensão da criação das identidades como componente excludente, não é a mesma luta que alguns identitarismo executam. Estes agem no interior dos pressupostos colonialistas e não fazem menção a estrutura que fundou o racismo. Esse é um problema que tentei descrever ainda ingenuamente nesse ensaio: https://diplomatique.org.br/contra-o-retorno-as-raizes-identidade-e-identitarismo-no-centro-do-debate/
    No Brasil ainda engatinhamos nessa questão, motivo que faz com que Fanon, Mbembe e Judith Butler, que não é nem um pouco identitária, sejam muito pouco compreendidos por aqui.
    Me alonguei demais, pra uma caixinha de comentários… peço desculpas…
    abraços
    Douglas

  18. Achei esse video ilustrativo do último comentário do João Bernardo, que achei uma excelente formalização do das relações que se reproduzem no mundo entre esquerda, lutas identitárias e ascensão da extrema-direita.

    Porta dos Fundos – Barbies
    https://www.youtube.com/watch?v=TXteIWha4Jo

  19. João Bernardo, por gentileza, se possível, me responda uma pergunta: o nazismo teria existido sem Hitler ou Hitler era o nazismo? Da mesma forma, poderíamos fazer a mesma pergunta mudando apenas os personagens: o fascismo teria existido sem Mussolini ou Mussolini era o próprio fascismo? O bolsonarismo poderia existir sem Bolsonaro ou Bolsonaro é o próprio bolsonarismo? E assim por diante…

  20. 1) Nos últimos dias fiz algumas viagens longas, sem tempo para olhar a internet, e aproveitei para ler, entre outros, este livro: Asad Haider, Mistaken Identity. Race and Class in the Age of Trump (Londres e Nova Iorque: Verso, 2018). É uma leitura indispensável. O autor desvenda as ciladas que surgiram com a proliferação dos identitarismos e analisa-as em perspectivas sempre estimulantes e em abordagens novas. Isto não significa que eu esteja de acordo ou em desacordo com todas as páginas. Significa que o autor nos ajuda a singrar entre as dificuldades contemporâneas. É um livro realmente indispensável.
    No entanto, Asad Haider é um marxista de propensão vanguardista. Se não o fosse, interessar-se-ia mais por certos fenómenos sociológicos de longa e média duração, por aquilo que eu chamo convivência, precisamente essa convivência que é impedida pelos exclusivismos e pelos «espaços seguros» dos identitarismos.

    2) Os identitarismos são o nacionalismo da época da transnacionalização, já que as fronteiras não dividem cada identidade. Nestas condições, os identitarismos tendem a multiplicar sem limites os defeitos dos nacionalismos, não existindo nada que lhes trave as subdivisões. A conhecida tese de que «o corpo é político» é o limite último do identitarismo, a identidade reduzida ao indivíduo.
    É neste quadro que se torna ainda mais nociva a noção de que para compreender o que se passa num país não é necessário saber o que se passa nos outros. Manolo, no seu comentário, insistiu que «devemos, sim, buscar as especificidades de nosso contexto, mas nunca apartá-lo do contexto global». Ora, é muito difícil convencer as pessoas disso, Manolo, porque a ideia contrária tem tudo a seu favor. A ignorância fica justificada pela ilusão de que é desnecessário saber e a preguiça fica promovida a estratégia política. Que confortável!
    Entretanto os grandes capitalistas sabem que têm de conhecer tão bem o lado de fora das fronteiras como o lado de dentro, por isso triunfam. É que, reparem, se não pode haver socialismo num só país, também não pode haver Brasil num só país.

    3) Leo,
    Quando vi esse sketch do Porta dos Fundos que você cita, pensei o mesmo. Aliás, nós dois falámos várias vezes do Porta dos Fundos, naqueles jantares, e encontro neles muita coisa esclarecedora. Só me irritam quando se limitam à baixaria.

    4) Severino,
    Quando eu era novo, há tanto tempo que você nem imagina, havia um velho autor marxista que era bastante lido e hoje está esquecido, já que as modas seguiram outros ventos. Refiro-me a Plekhanov, um dos introdutores do marxismo na Rússia. Num ensaio intitulado «Acerca do Papel do Indivíduo na História» ele responde à questão que você levantou. Em traços muito resumidos, e se a minha memória for fiel, o argumento dele é o seguinte. Quando se inicia um movimento histórico há sempre vários candidatos a preencherem o primeiro lugar. Depois um deles adquire a primazia, por motivos tantas vezes fúteis. Mas a partir do momento em que adquire a primazia torna-se único e mais ou menos rapidamente fica insubstituível. A posteriori, podemos ter a noção de que foi ele o causador dos acontecimentos e que sem ele os acontecimentos não teriam ocorrido. Mas visto o processo a partir da génese, foram os acontecimentos que propulsaram aquela figura para o primeiro plano.

  21. João Bernardo, grato por suas orientações!

    Severino.

    PS: João Bernardo, o quão jovem é João Bernardo! Para mim, nada é tão velho quanto “fazer apelos ao coração e dar a primazia à ética” (João Bernardo) como tanto se faz na defesa das “ancestralidades”, “da grandeza das raças, “do retorno a uma natureza perdida”, “das invocações religiosas”, “a defesa da moral e dos bons costumes”… Na verdade, velho era eu… que achava que eu era o novo e que meu pai era o velho, sem perceber que as marmitas que levávamos para almoçar no trabalho eram preenchidas pela mesma comida que minha mãe fazia… não só para o almoço, mas também para o jantar… Velho era eu que achava ser bancário (que era o presente) e meu pai, operário (o passado), sem perceber que éramos levados ao trabalho pelos mesmos ônibus (e que hoje leva meu filho à faculdade… ao “futuro”…)… Eu era o velho, embora jovem de idade, que achava, como meu pai, que nós apenas estávamos produzindo, e não que éramos também produzidos… Velho era eu que pensava saber o que eu precisava… “O que nós precisamos, e hoje mais do que nunca, perante tantos desafios novos, é a lucidez de um frio raciocínio” (João Bernardo). E, a partir deste frio raciocínio, pensei: Meu nome é Severino… E somos muitos Severinos… E se somos Severinos, iguais em tudo na vida, vivemos de vida igual, morremos de morte igual; mesma vida e morte severina” (Adaptado de João Cabral de Melo Neto), quer no campo, quer na cidade, quer seja homem, quer seja mulher, quer seja preto, quer seja branco, quer seja ocidental, quer seja oriental, enfim, no modo de produção capitalista todos temos a mesma vida e morte Severina, porque pertencemos à mesma classe, a classe trabalhadora… Hoje os identitários, e mesmo a esquerda em geral já se colocam como se fossem “emancipados em busca da emancipação”… Penso que é a partir do reconhecimento da condição da “vida e morte Severina” dos trabalhadores que se caminha em direção à emancipação, condição “sine qua non” para se tornar um emancipado… Por isso se eu era velho, posso dizer que hoje estou um pouco mais jovem, graças ao jovem João Bernardo…

  22. Senhores, devo dizer que conheci o Passa Palavra há pouco tempo, o que é uma pena, mas agora estou aqui e isso é o que importa.
    Devo dizer que nos últimos meses tenho lido sempre que tenho tempo, o que infelizmente, não é sempre, mas francamente o site me estimulou muito. Tenho verdadeiro prazer e vontade de ler. Não só a temática geral me agrada, mas achei de certa forma impressionante o quanto aqui o debate e a construção dos textos têm uma argumentação toda focada para a luta de classe. Isso é pra mim não só raro como motivo de satisfação. A centralidade do debate como sendo a luta de classes me parece ter sido fragmentada cada vez mais dentro da ”esquerda”. Resolvi hoje comenta, apesar do meu pouco conhecimento e do desejo de não rebaixar o debate de vocês, especialmente porque vi o comentário de João Bernardo sobre os movimentos identitários e sobre como funcionam com o mesmo motor do fascismo. Nunca tinha visto esse ponto de forma tão bem posta, parece até que alguém, com muito mais conhecimento que eu, escreveu exatamente o que penso sobre os movimentos. O que me causa muitos problemas pois sou cercado de pessoas defensoras ferrenhas desses movimentos e que, inclusive, os colocam por vezes como mais centrais que a luta anticapitalista. Isso foi mesmo trabalhado aqui em um artigo ótimo que falava sobre a ”mão esquerda” do capitalismo, as ”ONGs” o ”terceiro setor” e etc; instituições que cooptaram as pautas sociais para que servissem em verdade aos interesses do capital transnacional. É inclusive curioso pois minha companheira (Camila Acosta) acaba de defender tese de mestrado justamente sobre o falso papel das ”ONGs” e a forma como a ”ideologia do terceiro setor” é na verdade apenas mais uma força a favor do capital, tudo isso pelo viés da comunicação.
    Enfim, o ponto em que esses movimentos de identidade assumem posição de negação e imposição abre espaço tanto para a reação mais clara e rápida, quando para a paulatina fragmentação da classe trabalhadora como tal e sob uma construção ideológica muito perigosa pois afasta o trabalhador da causa anticapitalista ou da consciência de classe em sua própria subjetividade.
    Sobre não descolar o Brasil do contexto mundial, concordo completamente.
    Pergunto: onde posso ler mais sobre essa relação entre os movimentos identitários e o fascismo?
    Como trabalhar a recuperação da luta de classe e a consciência da classe trabalhadora como tal dentro de uma esquerda fragmentada por movimentos identitários que a desmancham..?

  23. Num artigo publicado ontem, a revista e site The Economist chamou a atenção para o facto de o principal alicerce ideológico do presidente Trump ser a noção de uma identidade branca, e considerou que este identitarismo de direita é mais poderoso nos Estados Unidos do que os seus recíprocos de esquerda. O mesmo se pode dizer dos identitarismos cristão, especialmente evangélico, e heterossexual.

    Ora, o mesmo fenómeno ocorre no Brasil e contribui para explicar a vitória eleitoral de Bolsonaro e da sua corte, uns tipos de identitarismo contra outros. É precisamente este um dos temas dos dois comentários que o Passa Palavra converteu em artigo. Acrescentei-lhe só uma coisa. Que os identitarismos, de um lado e do outro, consoante uma tese que expus nas referidas páginas (https://archive.org/stream/jb-ldf-nedoedr/BERNARDO%2C%20Jo%C3%A3o.%20Labirintos%20do%20fascismo.%203%C2%AA%20edi%C3%A7%C3%A3o#page/n1361/mode/2up ) do livro Labirintos do Fascismo, se inscrevem naquilo que denomino fascismo pós-fascista. Um combate, então, entre duas vertentes do fascismo.

    Não só nos Estados Unidos e no Brasil, mas noutros países também, parece ser esta a paisagem política actual.

  24. “(…) Esta arqueologia do saber faz-se olhando para a parte de baixo das páginas, para as notas de rodapé, e também entre as linhas, destacando o que é afirmado no corpo do texto e esquecido nas conclusões. Em matéria de ideologia o silêncio é uma parte do discurso — para a visão crítica é mesmo a componente fundamental — por isso quanto mais exactamente se definir o lugar do silêncio, tanto mais gritante ele será e mais o abafarão numa pletora de palavras. Tal como, na arqueologia dos objectos materiais, os acúmulos de terra podem indicar que haja ali tesouros escondidos” (João Bernardo, Labirintos do Fascismo -3ª versão- p. 9)

    “Rua Gabriele D’Annunzio: Excelente apartamento com ótimo terraço gourmet fechado. 274M² úteis. Acabamento de alto padrão, amplos ambientes, home theate, 4 suítes, 4 vagas e lazer completo. R$3.400.000,00” (O estado de São Paulo, caderno de imóveis, p. 6, 04/11/2018)

    “Tive várias vezes oportunidade de observar que a história é frequentemente simbólica e é sempre irónica” (João Bernardo, Labirintos do Fascismo -3ª versão- p. 730)

    “Rua Gabriele D’ Annunzio. Localização: Campo Belo | Distrito: Campo Belo. Político e escritor italiano, nasceu em 1863. Possuidor de um espírito extravagante. Como aviador e extravagante escritor italiano, prestou serviços a Itália na I Grande Guerra Mundial. Faleceu em 1938. Oficialização: DECRETO nº: 15.540 de 11/12/1978” (https://dicionarioderuas.prefeitura.sp.gov.br/logradouro/rua-gabriele-d-annunzio)

    Dizem que meias palavras bastam… Mas tantas são as vezes que mesmo palavras inteiras não são suficientes para explicar que aquilo que nos parece novo, nunca deixou de estar entre nós… hoje, ao que parece, as “notas de rodapé” simplesmente “cambiaram” ao corpo do texto… e o que podemos disso concluir?

  25. João
    Lendo essa pequena passagem (https://archive.org/stream/jb-ldf-nedoedr/BERNARDO%2C%20Jo%C3%A3o.%20Labirintos%20do%20fascismo.%203%C2%AA%20edi%C3%A7%C3%A3o#page/n1361/mode/2up ) do livro Labirintos do Fascismo, entendo, ainda que superficialmente, a construção que se faz ao se estabelecer uma onda de movimentos identitários que fragmentam a classe trabalhadora e operam numa lógica fascista.
    Gostaria de perguntar ao senhores sobre essa relação entre movimentos identitários e a luta anticapitalista. Visto que o seu texto pareceu-me demonstrar que, ao transformar os movimentos identitários em uma luta contra o suposto eurocentrismo, o que acontece é mascarar e subverter a luta, já que na verdade essa noção da ”identidade eurocêntrica” é apenas resultante do desenvolvimento capitalista.
    Mas e quanto ao que há de legítimo nas lutas identitárias?
    A submissão da mulher que vem mesmo antes da sociedade propriamente capitalista, o racismo, a violência contra o negro e etc. Me parece que esses movimentos originais populares foram cooptados e subvertidos em seu discurso e sua prática para atender às necessidades do capital, e enaltecer esse tipo de movimento distancia a classe trabalhadora da luta anticapitalista. Me pareceu que essa passagem do livro de certa forma desconsidera a validade dos movimentos em sua forma ”original” , digamos.
    Esse tema inclusive foi analisado aqui lindamente na série sobre o Fórum Social Mundial.
    Seguindo nessa linha, me parece que o capitalismo hoje está como nunca antes seguro principalmente pelo que João Bernardo trabalha de forma breve porém precisa nessa passagem do livro – cada vez mais a tecnologia aproxima a gestão da fiscalização do lazer, enfim, abarca a totalidade das atividades do trabalhador e a submetem ao capital, e isso dentro do campo prático levou a uma hegemonia no campo discursivo.
    Essa série sobre o FSM e mesmo esse texto (https://theintercept.com/2018/10/28/novo-brasil-esculpido-olavo-de-carvalho/)
    do Intercept me levaram a pensar sobre a batalha que ocorre no campo discursivo. A ”esquerda” e extrema esquerda não têm uma abrangência discursiva (mesmo por falta de meios, talvez, mas em tempos de facebook já não tenho certeza também) que integre ou aproxime a classe trabalhadora. Enfim, me alongo nesse comentário porque fico com a questão na cabeça: como a ”esquerda” deve se posicionar em meio a essa batalha discursiva, quando a própria esquerda hoje é dominada por exemplo pelos ideais identitários que rapidamente repudiam ou para usar uma palavra próxima a esses movimentos “violentam” qualquer opinião que não concorde prontamente com seus postulados de identidade…?
    Enfim, como lutar contra esses diferentes tipos de fascismo e se possível recobrar a força da luta anticapitalista

  26. Gabriel Silva,

    Nenhuma luta ocorre se não houver motivos de contestação que, pelo menos para quem contesta, pareçam legítimos. Aliás, é assim que os governos adquirem um apoio de massas. A questão não reside, em meu entender, nos motivos de contestação, mas na forma como esses motivos são usados e na forma como a contestação é organizada.

    Até à poucas décadas, antes de os movimentos identitários terem adquirido a completa hegemonia, as lutas contra a discriminação sexual, contra o racismo e contra a discriminação de certas preferências sexuais tinham um objectivo único — o de que o sexo, a cor da pele e o formato do nariz e dos olhos e as preferências sexuais deixassem de ser consideradas como caracteres pertinentes. Uma pessoa pode ser gorda ou alta ou baixa e isso ser evocado para descrevê-la, mas esses caracteres não são pertinentes para classificar a posição ocupada pela pessoa na sociedade. Do mesmo modo, a luta contra o racismo e o sexismo tinha como objectivo o estabelecimento de uma igualdade entre os seres humanos.

    Ora, os movimentos identitários vieram alterar drasticamente esta visão igualitária. Para o feminismo actual não se trata de estabelecer uma igualdade entre mulheres e homens, mas, pelo contrário, trata-se de inverter as hierarquias; e onde antes os homens pretendiam colocar-se no cimo são agora as mulheres a pretenderem adquirir a supremacia. Trata-se também de acentuar os pretextos de diferença, e o feminismo contemporâneo ora recorre ao biológico ora ao cultural, num ciclo que só recorda o racismo nacional-socialista. O mesmo sucede com o movimento negro, a tal ponto que, com a introdução da política de cotas, algumas associações de estudantes negros pretendem reservar para elas o direito de decidir quem é, ou não é, negro. A temática dos «espaços seguros» e «espaços exclusivos» insere-se nesta inversão de hierarquias e acentuação de clivagens. E, como não poderia deixar de ser sempre que se trata de identidades e hierarquias, umas entram em conflito com as outras. Os ataques feitos pelo movimento negro aos mestiços fazem lembrar os recentes ataques dos movimentos feministas aos transgéneros.

    A ânsia pela igualdade e o universalismo, que durante um século e meio caracterizou a esquerda, foi derrotada e em seu lugar afirma-se agora um número crescente de fraccionamentos e hierarquizações. O pós-modernismo, com o ataque que conduziu contra a «grande narrativa», criou as condições ideológicas para este triunfo do identitarismo, o que permitiu aos movimentos identitários afirmarem explicitamente que a busca pela igualdade e pela universalidade seria uma visão eurocêntrica e que, portanto, deveria ser eliminada.

    Afirmei repetidamente que os identitarismos são o equivalente dos nacionalismos numa época em que a transnacionalização da economia ultrapassa as fronteiras. E, tal como sucede com os nacionalismos, os identitarismos apresentam como homogéneas pseudo-identidades que, na realidade, são rasgadas por diferenças de classe. É impossível no espaço de um comentário, ou mesmo no espaço de um só livro, desenvolver este tema, mas vou indicar dois exemplos:

    1) Na França do século XIX, na elite da nobreza e da alta burguesia, as mulheres não se ocupavam da vida pública, porque lhes estava reservada a autoridade sobre o interior da casa. Por isso cabia às esposas organizarem os salons, ou seja, as reuniões mundanas que em dados dias da semana reuniam numa casa ou noutra as principais figuras da política e das artes. Ora, era nos salons que se decidiam os golpes e contragolpes da vida política bem como se decidia o prestígio ou o declínio de correntes estéticas. Assim, afirmar que as mulheres estavam afastadas das decisões políticas e estéticas é ignorar a complexidade da situação, porque as mulheres governavam os salons, onde aquelas questões eram decididas.

    Mas, que mulheres? Balzac, um dos grandes romancistas da França dessa época, explicou que não pudera incluir o proletariado no seu colossal conjunto de obras, La Comédie humaine, já que para o escritor no centro de qualquer romance estava o drama amoroso, enquanto os proletários se uniam ou separavam com toda a facilidade, sem drama. As mulheres proletárias, contrariamente às outras, eram sexualmente livres.

    E mesmo nas camadas sociais em que o drama existia, ele era claramente dividido em espaços distintos quando se tratava da elite, pois a esposa recebia o amante nos seus aposentos próprios, o boudoir, onde o marido jamais entrava sem autorização, enquanto o marido só se encontrava com a amante fora de casa.

    2) Esta mesma complexidade que deixa sem qualquer sentido real uma pretensa identidade feminina pode encontrar-se para a pretensa identidade negra. Tomemos o exemplo que de mais perto interessa no Brasil, a escravatura. a) A escravatura foi praticada em numerosas sociedades, quer como elemento fundamental do modo de produção quer como elemento acessório, e não tem nenhuma relação especial com os povos negros. Aliás, basta usarem os meios ao vosso dispor para verificarem a etimologia da palavra «escravo». b) Numerosas sociedades africanas praticaram a escravatura antes do estabelecimento dos entrepostos comerciais europeus. c) A utilização de escravos para a produção em massa destinada ao mercado mundial, que constituiu uma das características da época mercantilista, foi inaugurada na Creta veneziana, sem nenhuma mão-de-obra africana. d) Grupos de africanos dedicaram-se ao aprisionamento e comercialização de escravos africanos, com especial relevo para os árabes do Norte de África. e) Os portugueses inseriram-se em redes de comércio de escravos já existentes, com o efeito de as ampliarem muitíssimo, mas este tráfico não poderia ter ocorrido sem a colaboração activa e interessada das elites africanas. f) Ao mesmo tempo que os portugueses se dedicavam ao tráfico de escravos africanos de um para o outro lado do Atlântico, os comerciantes árabes do Norte de África traficavam em massa escravos negros através do Índico. Em resumo, se alguma coisa a escravização dos negros e o seu envio para o Brasil mostram é a divisão em classes das sociedades africanas. g) Enquanto se processava a exportação de escravos negros a partir das costas oeste e leste da África, os árabes do Norte de África aprisionaram e escravizaram maciçamente europeus da costa setentrional do Mediterrâneo, a tal ponto que vastas extensões desta costa ficaram desertas, já que a população fugia às razias dos traficantes do Norte de África.

    Concluindo, tanto o feminismo como o movimento negro como qualquer outro identitarismo constituem modos de ocultar as cisões de classe que existem no interior das presumidas identidades. O identitarismo consiste numa forma de mobilizar pessoas, cujos motivos de insatisfação podem ser legítimos, mas cujo sistema de organização pretende estar acima das divisões internas de classe. Por isso defino o identitarismo como uma revolta dentro da ordem.

  27. Foi passar as eleições e o Bolsonaro ser eleito que aqui na minha cidade, quebrada da grande SP, as autoridades locais impuseram funcionamento até 22 horas para os bares. O clima está estranho. Um taxista falou que possivelmente quem for pego na madrugada vai ser atacado após a assunção do Bolsonaro. Seria um toque de recolher informal e um entendimento de que a polícia pode matar drogados.

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