Por um invisível

O objetivo desse texto é de construir, no calor dos acontecimentos, uma reflexão sobre as condições e os problemas da luta contra demissões. Todos nós que trabalhamos sabemos que a ameaça e o medo das demissões é uma constante que influencia não apenas nossas tentativas de mobilização, mas também o cotidiano de trabalho. Mas o que acontece quando tratamos as demissões como um problema político? Usaremos um caso concreto para discutir isso com outros trabalhadores interessados no problema.

Sr. José[1] era um trabalhador exemplar na instituição. Na instituição porque ele era empregado terceirizado que fazia a limpeza do espaço. Independente disso, era respeitado pelos colegas da empresa, pelos colegas do local de trabalho e pelos gerentes da empresa. Mas um dia chegou o aviso prévio. Esse dia foi logo após a entrega de um atestado . Todos ficaram indignados. Mesmo sem ser justa causa, aquilo não era certo. Não era natural . Seguiu-se uma luta.

Como assim não era natural? O que causou essa indignação? E que tipos de indignação e reação foram gerados?

A primeira indignação foi a dos colegas do local. Vejamos como eles colocam a questão no calor do momento em um jornal independente dos trabalhadores:

Aqui trabalha um homem chamado José há vários anos. Por motivo da empresa não aceitar muitos atestados ele foi dispensado. Nós colegas sentimos muito, pois ele vai fazer muita falta, não só pelo trabalho mas por ser um homem de Deus, humilde, que sempre tenta fazer o que pode por cada um da sua maneira. Infelizmente não há o que fazer, ele próprio disse que vai sentir muito, mas o tempo chega para todos nós. É triste saber que para a empresa o colaborador não pode adoecer e nem pode trazer atestado. Infelizmente é o que acontece com quem trabalha nesta empresa. Precisamos lutar, mudar esta ideia de que o velho não pode adoecer. A saída dele nos faz sentir como se nós perdêssemos um pai.

O que está em questão aqui? Primeiro – ele vai fazer falta, trabalha bem e muito, coopera com os colegas. Segundo – é uma pessoa correta, respeitada por nós enquanto pessoa, uma “boa” pessoa. Terceiro – ele estava apenas exercendo um direito, que a empresa não está respeitando. Para conseguir chegar no questionamento do ataque aos direitos, a denúncia passa por um questionamento aos critérios da demissão. A empresa justifica as demissões com a necessidade de bom funcionamento da empresa e da falta de compromisso dos trabalhadores. Muitas vezes com isso consegue até a colaboração dos funcionários na política de demissões – são os próprios colegas que reclamam dos “preguiçosos” e dos “faltosos” para os gerentes e supervisores. Mas quando se demite um funcionário querido e colaborativo se expõe que não é bem dos “bons trabalhos” que se trata. Um limite foi ultrapassado. E agora, os limites estão em discussão.

Começa a mobilização. De um lado, escreve-se uma denúncia “anônima” e espalha-se a notícia na rádio peão, no boca a boca a respeito dos critérios injustos da demissão. Do outro lado, os supervisores do prédio ligam para a empresa e mobilizam a administração superior para garantir a permanência do funcionário “que é fundamental para o bom funcionamento do lugar”. Enquanto um lado enfatiza as questões coletivas que tocam o caso, o lado de lá enfatiza a excepcionalidade e a importância individual do demitido. Essa contradição não se coloca claramente em um primeiro momento porque ambos estão unidos no objetivo de manter o trabalhador no lugar. Enquanto isso corre o aviso prévio do trabalhador.

Em uma semana aparece o resultado. O gestor dos espaços físicos da instituição garante a permanência do funcionário. A promessa é acompanhada pelo chefe local da empresa terceirizada. Sr. José rasga o aviso prévio e todos comemoram. Ao que parece, a mobilização dos chefes alcança o sucesso e aborta a articulação mais coletivista em torno da questão. Uma das chefes do prédio diz: “Parabéns ao Sr. José, que é muito querido e fez por merecer sua permanência”.

A resistência dos colegas trabalhadores anuncia, “Você já ouviu falar que a união faz a força? Casos assim a gente não pode deixar de fazer observações para que mude: atos, palavras e saber que passamos pelo ambiente de trabalho e fazemos amigos. Amigos que plantamos como semente”. Cada um interpreta a vitória do seu jeito. Todos respiram aliviados e comemoram. Comemoraram cedo demais.

Duas semanas depois o trabalhador feliz recebe a notícia da sede da empresa, que fica em outro estado do país. Eles realmente não iriam demitir por questão de atestado. Mas sim pela idade do funcionário. Era a nova política da empresa. O aviso prévio estava valendo. Todos ficam devastados e gera-se um novo clima de indignação entre os empregados – diretos e terceirizados. Os supervisores do prédio aceitam a derrota e articulam uma doação de uma cesta básica para ajudar o trabalhador a lidar melhor com a situação. Por outro lado, começa-se um burburinho de fazer uma denúncia pública do caso. O próprio trabalhador vai de pessoa em pessoa pedindo para abafar. O motivo? Ele teme que isso possa prejudicar a chefia imediata e os supervisores regionais, que eram seus amigos e não eram culpados pela situação. A sua solidariedade com as chefias prevalece sobre a tentativa de solidariedade entre trabalhadores. Consuma-se a derrota?

Talvez. Os colegas do trabalhador tentam, ao menos, fazer com que ao sair ele saiba o quanto é respeitado pelos colegas – por mais que não seja por sua empresa. É aí que surge a ideia da homenagem. A homenagem é um balanço coletivo da trajetória do Sr. José e – até certo ponto – dos motivos que levaram à mobilização. É uma forma de resistência e reflexão nos termos em que esses trabalhadores se relacionam entre si. A homenagem foi feita numa festa (melancólica) de saída do funcionário e publicada em um jornal independente. Vejamos o que ela diz:

Um senhor que não mede esforço para ajudar, para o trabalho seja ele onde for. No livro da vida esse senhor é pai, é marido, é vô e melhor ainda… ele é um grande amigo. Ele nos mostra dia a dia que o tempo não é obstáculo (…) por onde passa deixa sempre a sua marca, a marca do trabalhador dedicado … daquele que entende qual é o seu compromisso. Acorda cedo, arruma suas coisas … deixa para trás sua família, mas não abandona suas raízes. Chega de mansinho e vai buscando organizar suas tarefas, principalmente, preocupado em deixar tudo em seu devido lugar. Depois em preparar aquele cafezinho, para que todos se sintam bem nas primeiras horas de trabalho… e olha que não é pouco café… ainda tem o tradicional cuscuz (…) Ele lidera as estatísticas da simpatia… é líder de abraços e vencedor da vida. Hoje temos apenas que dizer … Obrigado Seu José, Obrigado “Velho”, Obrigado … Obrigado! E lembre-se que a porta jamais estará fechada, os momentos vividos jamais serão esquecidos.

Às normas frias da empresa que prevaleceram na decisão da demissão, eles opõem a realidade viva e quente do trabalho cotidiano. Os pequenos gestos de solidariedade, a colaboração coletiva, a preocupação com a família e com os colegas. O pequeno trabalho que cada um coloca para o bem estar da coletividade. Esses são os critérios da permanência entre os próprios colaboradores. Esses critérios são frutos de um trabalho cotidiano, conflituoso e árduo de construção de relações de respeito mútuo e solidariedade. Eles dependem de algumas condições: uma cozinha acessível, espaços criados para convivência, hábitos consolidados de conversa, compartilhamento dos alimentos, descanso coletivo.

Amparado nessa rede que foi construída com muito sacrifício, ao invés de sair humilhado e de cabeça baixa, o colega sai sabendo que não está sozinho – que não estava sozinho. Essa demissão foi diferente. Ele não apenas desapareceu para ser substituído. A sua existência assumiu uma face pública, uma importância única. Ainda assim, ele foi derrotado. Seus colegas também foram derrotados, na verdade. E por quê?

Porque confundiram os critérios que tornavam a sua demissão digna de comoção – que eram individuais – com a motivação concreta da demissão. Por isso, pareceu suficiente uma espécie de lobby das chefias para garantir apenas o Sr. José. Assim foi possível acreditar na promessa da reversão – que, na intenção de quem fez, provavelmente era verdadeira. Mas a empresa não estava perseguindo o Sr. José. Talvez a sua amizade com os chefes fosse até genuína. A empresa estava cortando custos para garantir seus lucros. Abrir mão da demissão do Sr. José era admitir a ilegitimidade dos critérios que foram utilizados para a demissão. Era uma brecha que daria vazão para outras demandas do mesmo tipo que poderiam redundar em uma proibição tácita das demissões por atestados ou por velhice. E para impor uma mudança dessas era necessário contar com a força dos outros potenciais afetados – tanto os demitidos quanto os seus colegas e pessoas queridas. Para se contrapor à nova política de gestão de pessoa da empresa, era preciso contrapor de forma explícita e coletiva uma outra política de permanência, não apenas um “estado de exceção” em que o Sr. José seria salvo da eliminação por “fazer por merecer”. Por ter uma compreensão mais realista do que estava fazendo, a empresa logrou uma vitória ao isolar e abafar o problema na prática. Para esse abafamento, contaram com a ajuda dos “bons” chefes que aproveitaram a oportunidade de ajudar o trabalhador demitido para mostrar como eram bonzinhos e para mais uma vez demonstrar seu poder pessoal aos que “faziam por merecer”.

Conclusões

1. Quanto mais especial e única a demissão, mais difícil de fazer uma mobilização efetiva. Todo mundo tem sua importância específica, mas ninguém é insubstituível aos olhos do patrão. Para vencer, precisamos tornar o particular comum, o individual social. Quem prefere as exceções é quem escolhe quem vai ser exceção. Para mobilizar a solidariedade coletiva, é preciso ir além do indivíduo. A demissão para enxugar custos é a normalidade do sistema capitalista atual. Para combater uma política de demissões para o controle da força de trabalho, é necessária uma política de permanência e contenção das arbitrariedades do patrão – ou seja, uma política anticapitalista na prática no local de trabalho.

2. Se você não for respeitado no local de trabalho, não adianta. É uma condição necessária para a luta coletiva ser uma pessoa respeitada. Mas o respeito não vem de habilidades milagrosas do indivíduo. Para fazer o cuscuz e o café que as pessoas lembram, é preciso ter uma cozinha coletiva. Antes, é preciso ter o hábito de comer juntos. A construção de hábitos e espaço de respeito e solidariedade coletiva são importantes instrumentos para uma possível auto-defesa dos trabalhadores. Essas condições dependem de um árduo trabalho individual e coletivo para serem mantidas, para fazerem sentido. Elas decorrem também do maior grau de responsabilização dos trabalhadores pelo processo de trabalho. Essa responsabilização também acaba contaminando com a arbitrariedade e a empatia das relações de solidariedade. Pense que antes, para não ser demitido, você precisava agradar apenas ao patrão. Hoje, você precisa agradar ao patrão, ao colega, ao cliente. Essa é uma fragilidade que é constantemente explorada pelas chefias, insuflando inimizades entre os trabalhadores e incluindo eles na aplicação da política de demissão e punições da empresa.

3. Uma vitória que não dependa de nossa força coletiva enquanto trabalhadores é apenas o adiamento ou mistificação de uma derrota. Pode ser expediente tático para ganhar tempo, mas se não for pela nossa força, não vai. Ao arbítrio do patrão precisamos contrapor a força da nossa solidariedade coletiva. Para não contar com promessas ocas, precisamos de poder real.

Para finalizar, a perda de um companheiro de trabalho é sempre uma derrota. Coloca medo nos trabalhadores, nos enfraquece. Mas pode ser o início de uma futura vitória se conseguirmos ao menos não fazer a questão passar em branco. Desnaturalizar a arbitrariedade. Como dizem os trabalhadores em sua despedida:

Hoje temos apenas que dizer … Obrigado Sr. José, Obrigado “Velho”, Obrigado … Obrigado! E lembre-se que a porta jamais estará fechada, os momentos vividos jamais serão esquecidos. Um novo capítulo será escrito, mas os personagens sempre serão os mesmo, os amigos sempre estarão prontos para novas histórias”.

Essa nova história começa no dia após a demissão, na rede de cuidado que se cria com os que entregam atestados e com os mais velhos, na indignação que já está colocada contra esse tipo de arbítrio. As próximas lutas já estão colocadas em um outro patamar.

Nota

[1] Nome fictício.

A ilustração do artigo foi feita com fotos das manifestações contra o assassinato do operário Santo Dias, morto em um piquete em 30 de outubro de 1979.

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