Por Lucas

A premissa básica da Astrologia é que a posição dos astros no momento exato do nascimento de um indivíduo produz influências sobre este indivíduo – sejam relativas à sua personalidade ou ao seu destino. O sistema astrológico ocidental conta com 12 valores – os signos do zodíaco, que representam algumas agrupações de estrelas visíveis na Terra. Os astrólogos da antiguidade escolheram estas 12 constelações pois são aquelas que no céu terráqueo parecem estar alinhadas com o movimento solar no transcurso de 1 ano. Na realidade, como sabemos, não é o sol que se move e sim a Terra, mas da nossa perspectiva humana temos a impressão de que o sol se move contra o fundo de um “cinturão” de constelações. A linha completa desenhada por esta impressão ótica se chama “eclíptica”, e na realidade atravessa 13 constelações – somando-se Ofiúco às 12 tradicionais. O que se conhece como “zodíaco” é uma faixa estendida 8 graus para o norte e para o sul da eclíptica, que abarca as constelações que conhecemos como signos zodíacos e contra as quais parece estar projetado o sol a partir de nossa percepção humana do movimento aparente do astro rei.
Os 12 valores astrológicos estão divididos em 4 elementos: água, terra, ar e fogo, que foram a base das primeiras teorias filosóficas pré-socráticas para explicar a natureza, e que depois também foram adaptados para a medicina e outros campos da ciência antiga grega, relacionados com os polos opostos “úmido x seco” e “quente x frio”. Para a realização do mapa natal, onde se rastreia a posição dos astros no momento em que o feto é expulsado pela vagina da mãe, se leva em consideração outras duas posições além da projeção solar no fundo zodíaco: a posição da lua na projeção do fundo zodíaco e também a constelação que se encontrava ascendendo no horizonte terrestre no momento do parto no lugar em que este ocorreu. A tudo isto se soma a posição de planetas específicos do sistema solar em relação a todas as constelações e à lua.

Temos então um sistema com 12 valores, divididos em 4 elementos, que formam combinações de 3 posições (signo solar, lunar e ascendente), às quais se soma a presença de alguns planetas de nosso sistema solar, para determinar em alguma medida a vida do indivíduo humano.

Se vale a pena falar sobre astrologia hoje é somente porque se trata de um discurso com uma surpreendente frequência em conversas de amigos/as e companheiros/as nos mais diversos âmbitos. Se entendemos que em nosso continente e em boa parte do mundo as religiões monoteístas se estabeleceram com a força de poderosos impérios e posteriormente com o doutrinamento exercido por diferentes órgãos de poder, o crescente interesse por um esoterismo genérico e sem uma fonte determinada é chamativo e merece nossa atenção. Não necessariamente para combatê-lo, mas para entendê-lo, na mesma medida em que é importante compreender o por quê do crescimento recente dos radicalismos monoteístas, particularmente do evangelismo e do islamismo.

“Autoconhecimento” é talvez o que melhor traduz a oferta da astrologia, e responde a uma visão de mundo muito mais autocentrado e menos verticalizado do que aquelas oferecidas por diferentes tipos de igreja, com seus pastores ou líderes espirituais. De fato, se algo caracteriza a astrologia popular atual é a ausência de figuras públicas que traduzam o misticismo em ordem social, além de uma série descentralizada de fontes de conhecimento legitimadas (sites de internet, livros vendidos em bancas, colunas de jornais, “bruxos” e “bruxas” autointitulados, cursos de “formação”, etc). Isto é, um misticismo dedicado não ao conhecimento de uma verdade do mundo, senão a uma verdade de si, e que não implica a autoridade pessoal ou institucional senão o de um “conhecimento antigo” genérico, difuso e com múltiplas fontes.

Mas estamos diante de um conhecimento francamente dogmático, que não questiona nem fundamenta suas próprias bases, que as aceita como verdades eternas, mesmo nas versões mais “relaxadas” que afirmam que as influências astrais são “fluidas” e não determinantes, tentando dar uma margem de inexatidão para a ciência astrológica e seus elementos analíticos. Esta seria a crítica científica à astrologia, ou seja, a crítica herdeira da tradição moderna que propôs uma revisão total do obscurantismo medieval e das verdades inquestionáveis promovidas pela Igreja – os dogmas. O obscurantismo é uma posição intelectual que nega a capacidade humana de buscar o conhecimento das coisas e que propõe entender o mundo e a organização social a partir de um conjunto de dogmas que não podem ser questionados devido ao fato da razão humana não ser capaz de propôr outra forma de entendimento do mundo. O homem foi emanado de Deus e, por isso, a mente humana não pode nunca chegar a entender Deus (e suas leis, que as igrejas defendem hoje com espadas e chumbo). Assim também, emanado da mística cósmica-astral, o homem (e a mulher) não deveriam questionar o mistério dos astros, pois tudo isso é muito mais do que podemos pensar racionalmente…

Mas a razão humana não se baseia somente no empirismo da ciência da “alta modernidade”, nem somente nas matemáticas profundas da ciência moderna madura (e muito menos da ciência como eficiência capitalista de nossos dias). A crítica por meio da razão também toma corpo no pensamento social e na desnaturalização das formas de vida hegemônicas. E procedendo desta forma podemos pensar: se os astros influenciam a vida dos indivíduos, o fizeram desde o princípio dos tempos humanos? Os astros influenciavam a personalidade dos primeiros homo sapiens, diziam algo sobre os traços de personalidade dos indivíduos das primeiras tribos ou organizações humanas? Como se relacionam os diferentes tipos de calendários lunares e solares e as diferentes formas de contabilizar o tempo desenvolvidas por diferentes civilizações? Todas se reduzem verdadeiramente a uma única essência? O conceito mesmo de “personalidade” e “destino”, são aplicáveis a diferentes momentos e lugares da história humana?

Como podemos ver, para além do questionamento sobre forças e causalidades físicas, quando enfrentamos a astrologia com a história ou com a antropologia facilmente nos damos conta de que existem questões não resolvidas. É que este conhecimento místico, isto é, que guarda um saber oculto sobre o mundo que não responde aos termos da razão humana, pressupõe uma noção de humanidade a-histórica. Pressupõe uma essência humana desvinculada da história, não simplesmente ao ignorar a multiplicidade de horóscopos – ou por sua homogenização em uma verdade eclética – mas principalmente por universalizar os traços específicos de nossa sociedade, particularmente a ideia de personalidade, relacionando-a com os astros eternos. Esta operação parece produzir um efeito muito buscado em nossa época: ancorar nosso “eu” em uma força superior abstrata, organizada de modo quase matemático. O dado aleatório, a data de nascimento, responde pelo que somos por motivos supranaturais que podem ser lidos e conhecidos por meio de sinais inscritos no mundo sensível e articulados por meio de conjuntos de valores. Estamos determinados por outras coisas, somos o que somos, está escrito nas estrelas – já não importa o que fazemos, pois tudo o que fazemos é apenas a expressão de algo maior que não podemos modificar.

Não me parece uma simples coincidência que em economia uma das teorias hegemônicas atualmente se baseie em uma concepção a-histórica de humanidade, que considera que os indivíduos são movidos por uma força que transcende e é mais forte do que a consciência: a maximização utilitária do homo economicus. Pois bem, em uma época onde as relações capitalistas avançam sobre os códigos sociais tradicionais, acelerando, por exemplo, os relacionamentos sexo-afetivos, a rotatividade nos postos de trabalho, a mercantilização dos corpos, das imagens, a mistura dos estilos de vida, dos costumes, etc, vemos também como os setores mais conservadores têm juntado forças em porções muito grandes da população. A relevância numérica destes setores era impensável em meados dos anos 90, quando a globalização capitalista estava sendo conduzida quase sem oposição pela classe gestorial transnacional. Esta condução trazia consigo a semente de todas as posições da esquerda liberal atual: a defesa da igualdade de gênero e raça (igualdade de oportunidades no mercado), a promoção de um sistema multilateral de integração entre os países do mundo (mas onde os mais fortes detinham poder de veto e os EUA a permissão para ignorar todos os acordos), o desejo sincero por um mundo melhor e sem fome (que seria alcançado por meio do trabalho dedicado dos especialistas).

A justaposição entre um individualismo extremado e uma ciência da antiguidade parece apaziguar certas contradições contemporâneas. A herança e a interpretação sobre uma suposta “cultura ocidental” está sendo disputada com muita intensidade, e muitos/as de nós fomos surpreendidos/as pela força com a qual a direita conservadora a nível mundial tem conseguido impor os termos do debate. Se nos anos 90 alguns setores da esquerda que não havia sido incorporada nos quadros gestoriais acusavam a “cultura ocidental” de substituir todos os idiomas pelo inglês, de acabar com as formas de vida tradicionais nos países do terceiro mundo, de envenenar os seres humanos por meio de mentiras científicas, etc, vemos agora na segunda metade dos anos 10 que a direita conservadora tem acusado a “cultura globalista” de cosmopolitismo (imigração, entidades internacionais, judeus), de acabar com os costumes e a vida tradicional em países do primeiro mundo (feminismo, dissidências sexuais, islamismo), de enganar os seres humanos por meio de mentiras científicas (mudança climática, terraplanismo, darwinismo, etc). O recurso a um conhecimento não avaliado pelos critérios científicos dominantes, no caso da astrologia, abre as portas para uma postura “antissistêmica”, sem que tenhamos que abrir mão do individualismo a-histórico. Resulta disso que podemos acusar as críticas à astrologia como uma reprodução da mentalidade dominante (“cientificismo”) nos mesmos termos nos quais um eleitor do Trump ou do Bolsonaro podem acusar as críticas ao machismo como uma expressão da mentalidade dominante – imposta e reproduzida pelas principais autoridades internacionais do passado recente (Obama, Clintons, ONU), pelos professores universitários e pela educação sexual (neo-marxismo pós-moderno, ideologia de gênero) e pela imprensa corporativa (a conivência com os governos de turno, a conspiração globalista de George Soros, os Illuminati, etc).

O consumo do misticismo em nossa sociedade pode trazer bem-estar para muitos/as trabalhadores/as, que podem encontrar em certas práticas e rituais bons momentos de relaxamento. Mas é uma arma de dois gumes, dado que a esmagadora maioria destas práticas espirituais e religiosas está enquadrada em uma busca por harmonia e equilíbrio que mascaram as contradições de nossa sociedade. Basta visitar rapidamente a sessão de autoajuda de qualquer livraria para constatar a facilidade e a naturalidade com a qual se vincula espiritualidade individual com êxito na sociedade capitalista. A harmonia e o equilíbrio têm sido intensamente associados ao produtivismo nos degraus mais altos da sociedade como forma de evitar o stress de ambientes competitivos, e esta cultura individual tem sido copiada por muitos/as nos degraus mais baixos, como costuma ocorrer nas sociedades de classe. Por outro lado, vemos como a espiritualidade coletiva está levando a uma organização cada vez mais numerosa e protofascista em diferentes lugares do mundo. Os credos e nossa posição em relação ao fenômeno espiritual, não merecem um pouco mais de nossa atenção e crítica?

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