Separados pelo capitalismo

— A gente se separou ainda se gostando. Resolvemos morar juntos num momento em que nenhum dos dois estava conseguindo emprego. Então ela foi visitar a família na Argentina e ofereceram dobrar o salário que ela recebia quando trabalhou na empresa. E aí ela foi. Passa Palavra

Abaixa a bandeira!

Em meio à onda de ocupações de escolas e universidades contra a PEC 55, jovens de uma região de assentamentos rurais ocupam sua instituição de ensino. Alguns alunos, que eram também assentados, penduram a bandeira do MST na ocupação. Ao ver a cena, um dirigente sem-terra os censura: “Vocês querem ferrar com o Movimento? Não podemos perder os convênios que temos firmados com o governo aqui! Abaixa essa bandeira!” Passa Palavra

Sequência explosiva

Caminhando pela rua e falando ao celular, o homem dispara para seu interlocutor: “Essa lei do desarmamento é foda, não permite que ninguém se defenda”. E emenda:  “Aí o cara coloca a arma na bolsa da mulher. Tem que ser macho, pô”. Passa Palavra

Esquerda, graças a Deus!

Em tom de confessionário, o sujeito desabafa que há pouco mais de um ano deixou de ser de direita. A mudança de pensamento veio com a faculdade, mas poderia ter vindo antes, se não fosse “a dificuldade de comunicação que a esquerda – intelectuais e professores de história – tem para falar com a periferia”. Evangélico, ele brinca: fui salvo pela esquerda. Amém! Passa Palavra

Palavras (fora) de ordem

Em meio à onda de ocupações de instituições de ensino no Paraná, um grupo tomou o prédio de Direito e Psicologia da UFPR. Do lado de fora, a aglomeração de estudantes rapidamente se dividiu em dois blocos – um de esquerda, a favor da ocupação, e outro de direita, contrário.
Alerta, alerta! Antifascista!  cantaram os primeiros.
Democracia! Queremos democracia!  responderam em coro os alunos de direita, criticando os ocupantes por terem atropelado a decisão da assembleia.
Não tem arrego!  puxou a ala esquerda, um pouco perplexa em ver a tão querida democracia na boca dos fascistas. Alguém ainda tentava argumentar que “democracia começa respeitando a presidente eleita pelo voto…”, quando o bloco reacionário foi mais longe e bradou a ofensa mortal:
Esquerdomachos! Esquerdomachos!
Que jargões a direita nos ensina a abandonar? Passa Palavra

Questão de classe

Fora convidado para um encontro com o grande filósofo Antônio Negri. Presentes estariam alguns coletivos autônomos e intelectuais. Entre a ida e o retorno para a casa cruzaria 100 km; da periferia ao centro e do centro à periferia. Uma hora e quinze minutos para ir e uma hora e quinze minutos para voltar. Mesmo assim se dirigiu a alcunhada Casa do Povo na área central de São Paulo. Chegando lá, depois de uma hora e quinze minutos, aguardou mais quarenta e cinco minutos para o início do debate. Já nervoso constatou: na Casa do Povo, não havia povo e no debate com Antônio Negri, pelo menos para ele, não haveria Antônio Negri. Constrangido, voltou decepcionado para a periferia e decidiu levar sua vó para a igreja onde, por fim, encontrou o pontual pastor e o povo reunidos. Um observador

Demitiram a revolução

O motorista explicava, a todos que entravam naquele ônibus, os motivos da greve do dia seguinte: atraso no pagamento do salário, das férias, do décimo terceiro, situação precária dos veículos da linha. Repetia que após a meia-noite nenhum ônibus deixaria a garagem e que tomariam o dinheiro dos patrões. Na manhã seguinte, o ponto final daquela linha estava cheio. Perguntado sobre a greve, outro motorista responde: não há mais grevistas aqui. Foram todos demitidos. Aqui todo mundo trabalha duro, mas ninguém faz greve. Passa Palavra

Mais pra menos (II)

Perguntado sobre as condições de trabalho no Uber, o motorista relata que há 11 meses havia cerca de 9 mil prestadores de serviços em São Paulo. Atualmente, são 55 mil. Contou que antes a empresa presenteava com R$ 1.500,00 cada motorista que indicasse outro colega, quando faziam 20 corridas. Hoje ganham algo próximo de R$ 100,00 a cada 50 corridas. Ele pretende migrar para outro aplicativo para ter retido “apenas” 20% da corrida. Passa Palavra

Mais pra menos (I)

Ao ser indagado sobre as diferenças entre o serviço de táxi e de prestador da UBER, o condutor sentenciou: “o motorista de UBER tem mais estudos, mas ganha menos”. Passa Palavra

E agora?

Estamos numa escola particular. “Hoje começaremos a estudar a Revolução Francesa.” Para já provocar um debate, o professor questiona: “o que é uma revolução?” Vários alunos respondem: “é como o impeachment da Dilma… O povo foi às ruas e derrubou o governo… Não é, professor?” O professor pensa consigo mesmo: “e agora? O que responder?” Passa Palavra