<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	
	>
<channel>
	<title>
	Comentários sobre: A revolta de Paraisópolis para além dos fatos	</title>
	<atom:link href="https://passapalavra.info/2009/02/643/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://passapalavra.info/2009/02/643/</link>
	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
	<lastBuildDate>Tue, 13 Mar 2018 19:12:01 +0000</lastBuildDate>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=6.9</generator>
	<item>
		<title>
		Por: Ronan		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2009/02/643/#comment-70</link>

		<dc:creator><![CDATA[Ronan]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Mar 2009 12:08:24 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=643#comment-70</guid>

					<description><![CDATA[Taiguara, Henrique, André,  protestos como este de Paraisópolis ocorrem todos os dias, nas mais variadas instituições, nos mais variados cantos. Me fez lembrar, claro, os quebras nas penitenciárias, mas também os quebras nas escolas, os quebra de ônibus e principalmente os quebra-quebra de trens cuja última manifestação foi em 97, estava eu lá. 

Atos desse tipo são claramente políticos, são manifestações de revolta e protesto contra uma situação indigna que chega a um limite. No entanto, tendem a ser esporádicos e pontuais. Se o trabalho da esquerda e/ou a organização das pessoas ajudam a que a luta seja mais contínua, por outro lado, na maioria dos casos, acabam por tornar a luta mais branda, retirando o aspecto de violência que ela contém. 

De todo modo, é um tipo de luta característico das populações mais mal tratadas, com menor instrução, menos politizadas, mas, pelo que se vê, preocupa muito mais as autoridades que a milésima passeata na Paulista. Num próximo texto seria bom colocar fatos assim junto aos quebra de ônibus, trens e outros mais para um enquadramento maior. Abraços,]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Taiguara, Henrique, André,  protestos como este de Paraisópolis ocorrem todos os dias, nas mais variadas instituições, nos mais variados cantos. Me fez lembrar, claro, os quebras nas penitenciárias, mas também os quebras nas escolas, os quebra de ônibus e principalmente os quebra-quebra de trens cuja última manifestação foi em 97, estava eu lá. </p>
<p>Atos desse tipo são claramente políticos, são manifestações de revolta e protesto contra uma situação indigna que chega a um limite. No entanto, tendem a ser esporádicos e pontuais. Se o trabalho da esquerda e/ou a organização das pessoas ajudam a que a luta seja mais contínua, por outro lado, na maioria dos casos, acabam por tornar a luta mais branda, retirando o aspecto de violência que ela contém. </p>
<p>De todo modo, é um tipo de luta característico das populações mais mal tratadas, com menor instrução, menos politizadas, mas, pelo que se vê, preocupa muito mais as autoridades que a milésima passeata na Paulista. Num próximo texto seria bom colocar fatos assim junto aos quebra de ônibus, trens e outros mais para um enquadramento maior. Abraços,</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Taiguara		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2009/02/643/#comment-51</link>

		<dc:creator><![CDATA[Taiguara]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Mar 2009 05:35:15 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=643#comment-51</guid>

					<description><![CDATA[Caro Henrique e demais leitores:

Uma específica e devida qualificação do papel que tem as ONGs nestas comunidades, assim como outros pontos também tocados no texto, mereceria mesmo muito mais do que um mero artigo. Quem sabe o Passa Palavra, o Henrique, ou mesmo outro leitor que quiser colaborar não prepare algo para futuramente.

Penso que, de fato, não podemos desmerecer a ação de qualquer entidade que for, se partirmos somente das nomenclaturas e siglas que as denominam. É preciso conhecer, caso a caso, o que de concreto é ali realizado, quais os tipo de relações são gestadas, prevalecem e podem ser difundidas. Nesse sentido, mesmo uma singela e reformista ONG pode estar trabalhando muito mais pelo novo do que certas seitas de extrema-esquerda que se auto-proclamam revolucionárias, socialistas e redentoras de um povo e de uma época.

No caso de Paraisópolis, infelizmente, é bem sabido que boa parte das ONGs que ali atuam são sim destas com &quot;interesses perversos&quot;, como vc mesmo disse.  Nestas, a filantropia nada mais é do que uma cobertura jurídica que que esconde o interesse de verdadeiras empresas privadas que buscam se beneficiar das inúmeras facilitações de que gozam estas entidades: baixíssima carga tributárias, esquemas de captação de recurso, muita boa-fé alheia, e outras regalias.

Em outras situações, talvez um pouco menos perversas,
trata-se de entidades fundadas geralmente por socialites e outros cidadãos de bem que, com tais ações, procuram provar para si mesmos que estão &quot;fazendo a sua parte&quot; e, então, aliviam suas consciências e dormem tranquilos. Estes gestos, porém, ao invés de propiciarem um salto para fora daquela condição indigna em que vivem as pessoas, apenas reproduzem indefinidamente as diferenças sociais que os fazem necessários.

Agora, é inegável que entre os &quot;ongueiros&quot; há muita gente lutadora, sincera, convicta da necessidade de se ultrapassar o atual modelo social, e de que, para isso, é preciso &quot;tirar a bunda da cadeira&quot; e &quot;meter a mão na massa&quot;, começando por onde for possível começar. É certo que no desenrolar deste processo inclui-se a possibilidade de os diretamente interessados sairem do seu estado de apatia e passividade geral e experimentarem, pela primeira vez, um movimento de organização política, antes que possam agir por si mesmos, autonomamente. O ponto é saber se no âmbito destas ONGs existe ou não a possibidade de desenvolvimento desta tendência.

Quanto à questão dos serviços sociais que as ONGs prestam a estas comunidades, convém reconhecer que, de um ponto de vista humanitário, principalmente em se tratando do abismo social em vive a população em debate, é impossível ser indiscriminadamente contra qualquer tipo de caridade. Afinal, mesmo entre os socialistas mais radicais, não há ninguém que prefira ver as pessoas numa situação pior do que aquela em que se encontram atualmente, a não ser que se acredite na tese do &quot;quanto pior melhor&quot;; o que não me parece ser a idéia defendida no artigo. Ao contrário, chega a afirmar que  estas redes de solidariedade contribuem para que a precariedade da situação material seja minimamente atenuada, algo que vc bem mencionou. Mas é igualmente inquestionável que, se nenhum  trabalho paralelo de polização for desenvolvido, o assistencialismo, enquanto tal, tende mesmo a reforçar a passividade e a acomodação, funcionando mais como um mecanismo de controle e reprodução social. 

Entretanto, de tudo o que se passou e se discutiu, um aspecto que me parece bem relevante, que diferencia o acontecimento de Paraisópolis dos demais, e que, por isso, deveria ser levado em conta, é o fato de, neste dia, parte da juventude carente do bairro ter de alguma maneira demonstrado que só isso não basta, não é o suficiente para suprir as suas necessidades, quer as do estômago, quer aquelas há muito trancadas no peito.

Continuemos o debate.

Abraços,
Taiguara]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Henrique e demais leitores:</p>
<p>Uma específica e devida qualificação do papel que tem as ONGs nestas comunidades, assim como outros pontos também tocados no texto, mereceria mesmo muito mais do que um mero artigo. Quem sabe o Passa Palavra, o Henrique, ou mesmo outro leitor que quiser colaborar não prepare algo para futuramente.</p>
<p>Penso que, de fato, não podemos desmerecer a ação de qualquer entidade que for, se partirmos somente das nomenclaturas e siglas que as denominam. É preciso conhecer, caso a caso, o que de concreto é ali realizado, quais os tipo de relações são gestadas, prevalecem e podem ser difundidas. Nesse sentido, mesmo uma singela e reformista ONG pode estar trabalhando muito mais pelo novo do que certas seitas de extrema-esquerda que se auto-proclamam revolucionárias, socialistas e redentoras de um povo e de uma época.</p>
<p>No caso de Paraisópolis, infelizmente, é bem sabido que boa parte das ONGs que ali atuam são sim destas com &#8220;interesses perversos&#8221;, como vc mesmo disse.  Nestas, a filantropia nada mais é do que uma cobertura jurídica que que esconde o interesse de verdadeiras empresas privadas que buscam se beneficiar das inúmeras facilitações de que gozam estas entidades: baixíssima carga tributárias, esquemas de captação de recurso, muita boa-fé alheia, e outras regalias.</p>
<p>Em outras situações, talvez um pouco menos perversas,<br />
trata-se de entidades fundadas geralmente por socialites e outros cidadãos de bem que, com tais ações, procuram provar para si mesmos que estão &#8220;fazendo a sua parte&#8221; e, então, aliviam suas consciências e dormem tranquilos. Estes gestos, porém, ao invés de propiciarem um salto para fora daquela condição indigna em que vivem as pessoas, apenas reproduzem indefinidamente as diferenças sociais que os fazem necessários.</p>
<p>Agora, é inegável que entre os &#8220;ongueiros&#8221; há muita gente lutadora, sincera, convicta da necessidade de se ultrapassar o atual modelo social, e de que, para isso, é preciso &#8220;tirar a bunda da cadeira&#8221; e &#8220;meter a mão na massa&#8221;, começando por onde for possível começar. É certo que no desenrolar deste processo inclui-se a possibilidade de os diretamente interessados sairem do seu estado de apatia e passividade geral e experimentarem, pela primeira vez, um movimento de organização política, antes que possam agir por si mesmos, autonomamente. O ponto é saber se no âmbito destas ONGs existe ou não a possibidade de desenvolvimento desta tendência.</p>
<p>Quanto à questão dos serviços sociais que as ONGs prestam a estas comunidades, convém reconhecer que, de um ponto de vista humanitário, principalmente em se tratando do abismo social em vive a população em debate, é impossível ser indiscriminadamente contra qualquer tipo de caridade. Afinal, mesmo entre os socialistas mais radicais, não há ninguém que prefira ver as pessoas numa situação pior do que aquela em que se encontram atualmente, a não ser que se acredite na tese do &#8220;quanto pior melhor&#8221;; o que não me parece ser a idéia defendida no artigo. Ao contrário, chega a afirmar que  estas redes de solidariedade contribuem para que a precariedade da situação material seja minimamente atenuada, algo que vc bem mencionou. Mas é igualmente inquestionável que, se nenhum  trabalho paralelo de polização for desenvolvido, o assistencialismo, enquanto tal, tende mesmo a reforçar a passividade e a acomodação, funcionando mais como um mecanismo de controle e reprodução social. </p>
<p>Entretanto, de tudo o que se passou e se discutiu, um aspecto que me parece bem relevante, que diferencia o acontecimento de Paraisópolis dos demais, e que, por isso, deveria ser levado em conta, é o fato de, neste dia, parte da juventude carente do bairro ter de alguma maneira demonstrado que só isso não basta, não é o suficiente para suprir as suas necessidades, quer as do estômago, quer aquelas há muito trancadas no peito.</p>
<p>Continuemos o debate.</p>
<p>Abraços,<br />
Taiguara</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Henrique Zizo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2009/02/643/#comment-47</link>

		<dc:creator><![CDATA[Henrique Zizo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 27 Feb 2009 22:02:51 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=643#comment-47</guid>

					<description><![CDATA[Concordo com o texto, apoio o trabalho de uma divulgação desvinculada dos interesses das elites. Porém algo me incomodou:

&quot;há também as ONGs, ... Ao contrário, acreditam que o problema pode ser sanado se nestas pessoas carentes for incutido um pouco de civilidade e filantropia. Por isso, levam-lhes tambores, cestas básicas, cursos de dança, de decoração de bolo, de costura, distribuem bolas de futebol e orientam-nos para terem bons modos, inclusive hábitos ecologicamente corretos.&quot;

É facil simplificar, generalizar e criticar o trabalho das ONGs.

É dificil concordar com suas afirmações quando se conhece a vivência de uma periferia. Saber o que é não ter um puto no bolso e pensar em arriscar as grades de um presídio por comida. Não ter onde deixar os filhos para ir ao trabalho. Não ter o mínimo acesso a &quot;cultura&quot;. E nessas encontrar o trabalho de ONGs, com assistência alimentar de qualidade, creches com projetos pedagógicos que invejam as instituições públicas, ensino de música, dança, artes. Claro que existem ONGs com interesses &quot;perversos&quot;. Mas não todas.

Uma coisa não exclui a outra. O trabalho de uma ONG não ata as mãos de uma população se organizar e lutar por seus &quot;direitos&quot;, talvez até possibilite tempo e auxílio para isso.

É fácil ficarmos escrevendo textos e artigos para os mesmos enquanto temos as  mínimas condições de existência como casa e comida. Não entendi sua colocação quanto as ONGs, talvez poderia esclarecer. Não quero aqui em nenhum momento apedrejar o trabalho do coletivo, mas pelo contrário. 

As únicas organizações de luta política que vejo serem efetivas hoje no Brasil (talvez por ignorância) são movimentos como MST, MTST, etc... e esses mesmos não se fecham aos trabalhos das ONGs, pelo contrário, muito se beneficiam.

De resto belo texto. Abraços.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Concordo com o texto, apoio o trabalho de uma divulgação desvinculada dos interesses das elites. Porém algo me incomodou:</p>
<p>&#8220;há também as ONGs, &#8230; Ao contrário, acreditam que o problema pode ser sanado se nestas pessoas carentes for incutido um pouco de civilidade e filantropia. Por isso, levam-lhes tambores, cestas básicas, cursos de dança, de decoração de bolo, de costura, distribuem bolas de futebol e orientam-nos para terem bons modos, inclusive hábitos ecologicamente corretos.&#8221;</p>
<p>É facil simplificar, generalizar e criticar o trabalho das ONGs.</p>
<p>É dificil concordar com suas afirmações quando se conhece a vivência de uma periferia. Saber o que é não ter um puto no bolso e pensar em arriscar as grades de um presídio por comida. Não ter onde deixar os filhos para ir ao trabalho. Não ter o mínimo acesso a &#8220;cultura&#8221;. E nessas encontrar o trabalho de ONGs, com assistência alimentar de qualidade, creches com projetos pedagógicos que invejam as instituições públicas, ensino de música, dança, artes. Claro que existem ONGs com interesses &#8220;perversos&#8221;. Mas não todas.</p>
<p>Uma coisa não exclui a outra. O trabalho de uma ONG não ata as mãos de uma população se organizar e lutar por seus &#8220;direitos&#8221;, talvez até possibilite tempo e auxílio para isso.</p>
<p>É fácil ficarmos escrevendo textos e artigos para os mesmos enquanto temos as  mínimas condições de existência como casa e comida. Não entendi sua colocação quanto as ONGs, talvez poderia esclarecer. Não quero aqui em nenhum momento apedrejar o trabalho do coletivo, mas pelo contrário. </p>
<p>As únicas organizações de luta política que vejo serem efetivas hoje no Brasil (talvez por ignorância) são movimentos como MST, MTST, etc&#8230; e esses mesmos não se fecham aos trabalhos das ONGs, pelo contrário, muito se beneficiam.</p>
<p>De resto belo texto. Abraços.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: André D'Abô		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2009/02/643/#comment-26</link>

		<dc:creator><![CDATA[André D'Abô]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 17 Feb 2009 16:19:15 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=643#comment-26</guid>

					<description><![CDATA[O procedimento de rotular como baderna as (re)ações das áreas pobres das cidades às décadas de marginalização faz parte da cartilha básica do poder público ao mobilizar seus agentes e equipamentos de controle social e de repressão. Muitas das manifestações vindas das favelas são submetidas à pedra de toque que lhes impõe caráter não político, sob a alcunha de arruaças, ou badernas, ou música de mau gosto, etc. A voz das favelas para ser considerada voz política precisa, na visão das classes médias intelectualizadas ou não, receber o banho de loja, ou melhor, de manifestação étnico-cultural. A voz rota, coberta de lixo, com esgoto à porta de casa, que ateia fogo a veículos e pneus não é considerada manifestação política pelos agentes do poder e pelas classes médias, ainda que seu móbile seja um fato político fundamental: a desigualdade social.
Tal desigualdade se manifesta em cada detalhe da situação de Paraisópolis e em sua configuração geográfica a questão política se expressa de forma tão patente que pode ser vista ao mesmo tempo como a alegoria e o tecido do conflito. Apesar dos esforços das elites para a disseminação da cegueira coletiva, aquela paisagem não pode ser naturalizada, não há como neutralizar a contradição que coloca. A força e a brutalidade dos aparelhos repressivos operam um trabalho longevo de silenciar o escândalo que as diversas Paraisópolis representam. Muitas vozes, porém, estão a compor em surdina, em muitas Paraisópolis, um canto que, espero, não poderá ser silenciado.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O procedimento de rotular como baderna as (re)ações das áreas pobres das cidades às décadas de marginalização faz parte da cartilha básica do poder público ao mobilizar seus agentes e equipamentos de controle social e de repressão. Muitas das manifestações vindas das favelas são submetidas à pedra de toque que lhes impõe caráter não político, sob a alcunha de arruaças, ou badernas, ou música de mau gosto, etc. A voz das favelas para ser considerada voz política precisa, na visão das classes médias intelectualizadas ou não, receber o banho de loja, ou melhor, de manifestação étnico-cultural. A voz rota, coberta de lixo, com esgoto à porta de casa, que ateia fogo a veículos e pneus não é considerada manifestação política pelos agentes do poder e pelas classes médias, ainda que seu móbile seja um fato político fundamental: a desigualdade social.<br />
Tal desigualdade se manifesta em cada detalhe da situação de Paraisópolis e em sua configuração geográfica a questão política se expressa de forma tão patente que pode ser vista ao mesmo tempo como a alegoria e o tecido do conflito. Apesar dos esforços das elites para a disseminação da cegueira coletiva, aquela paisagem não pode ser naturalizada, não há como neutralizar a contradição que coloca. A força e a brutalidade dos aparelhos repressivos operam um trabalho longevo de silenciar o escândalo que as diversas Paraisópolis representam. Muitas vozes, porém, estão a compor em surdina, em muitas Paraisópolis, um canto que, espero, não poderá ser silenciado.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
	</channel>
</rss>
