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	Comentários sobre: Ainda acerca da crise económica. 8) a crise de regulação na zona do euro	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2010/10/28596/#comment-14496</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 Oct 2010 19:00:51 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Peço-lhe antecipadamente desculpa, Eduardo Tomazine, pela extensão da minha resposta, mas é mais fácil formular perguntas breves do que réplicas breves, sobretudo quando as questões são como as suas. E agradeço-lhe ter-me dado oportunidade para estas digressões.

Em economia já é difícil estabelecer factos ou tendências, mais complicado ainda é definir-lhes as causas, sobretudo porque nunca se trata de uma causa única, mas de uma estrutura hierarquizada de causas. Ora, o &lt;em&gt;decoupling&lt;/em&gt; observa-se numa variedade de aspectos fundamentais e eu enunciei alguns deles. A questão da produtividade é uma condição necessária para o &lt;em&gt;decoupling&lt;/em&gt;, mas está muito longe de ser a condição única. E eu referi a aceleração das taxas de crescimento da produtividade não na globalidade dos países emergentes, mas em três deles, a que alguns economistas, com a moda dos acrónimos, têm chamado os BICs, ou seja, os BRICs sem a Rússia, reduzidos ao Brasil, à Índia e à China. (Os acrónimos são realmente uma moda, e agora, com a crise na faixa meridional da zona do euro, já há quem fale dos PIGs, que em inglês significa &lt;em&gt;porcos&lt;/em&gt;, ou seja, Portugal, Itália e Grécia. Mas voltemos às coisas sérias.)

É certo que as matérias-primas constituem uma rubrica importante nas exportações brasileiras, mas será que isto coloca o Brasil no mesmo nível, por exemplo, do leste do Congo? Uma empresa como a Vale dispõe de uma tecnologia sofisticada, e neste caso a exportação de minério não indica qualquer atraso tecnológico, mas, pelo contrário, um grande avanço. Ou vejamos o exemplo da carne e dos preparados de carne. O Brasil deu origem a uma empresa transnacional que é actualmente a maior em todo o mundo no ramo do abate e comercialização de bovinos, e do mesmo modo vejo citada na imprensa especializada a Perdigão e Sadia como campeã na criação e aplicação de tecnologias muito produtivas. O mesmo a respeito do agronegócio brasileiro e da exportação de soja.

Desde a época do regime militar, e independentemente da cor política dos governos seguintes, o Brasil prosseguiu uma política sistemática de qualificação da força de trabalho, pondo fim à universidade vocacionada para a formação de elites e desenvolvendo a universidade de massa. Quando eu comecei a leccionar no Brasil, há vinte e cinco anos atrás, a grande moda nas faculdades de Educação e nas de Administração era falar de «capital humano». Tratava-se de criar um proletariado muito qualificado, e é para isso que as universidades servem hoje. Ora, quando os empresários brasileiros, apesar da expansão do ensino universitário de massa, se queixam da escassez da oferta de força de trabalho qualificada, eles estão a assinalar uma forte tendência de fundo para o crescimento da produtividade.

Não devemos ser aqui demasiado entusiastas, porque qualquer economia matura tem obrigatoriamente uma taxa de crescimento inferior à de economias que estão a proceder a um arranque. Mas no caso da China, do Brasil e da Índia parece-me que não se trata só dessa natural diferença de taxas, mas de rumos divergentes. Os tipos de dados são infindáveis e o economista selecciona alguns que considera como indicadores relevantes, ou seja, que considera que irão indicar o comportamento da globalidade da economia. Terei eu escolhido os dados certos? Ou, mais modestamente, terei eu seguido os economistas que fizeram a escolha acertada? Veremos durante a próxima década.

O comportamento futuro dos investimentos externos directos, ou seja, em termos genéricos, os investimentos das empresas transnacionais, fornecerá a esse respeito uma indicação decisiva. Até agora, a maior fatia deste tipo de investimentos, entre 4/5 e 2/3, tem circulado no triângulo constituído pela União Europeia, os Estados Unidos e o Japão. Será que o triângulo se converterá num pentágono ou mesmo num hexágono, incluindo a Índia?

O capitalismo indiano depara com problemas de integração muito graves, que foram superados na China e no Brasil. Não me refiro aqui apenas às infra-estruturas materiais, mas ao que denomino de condições sociais de produção. A China é, dentro das suas fronteiras, uma cultura multimilenar unificada, enquanto a Índia nunca o foi. O Brasil unificou-se socialmente graças a três instituições: um serviço de correios muitíssimo bom, a nível mundial; a rede Globo de televisão, que padronizou a língua e unificou os interesses quotidianos; e uma enorme rede de transportes rodoviários, que cobre praticamente todas as povoações. Duvido que um filme como &lt;em&gt;Central do Brasil&lt;/em&gt;, cujo argumento é estruturado pelo transporte rodoviário, pudesse ter sido feito noutro país. Hoje os correios foram superados pela internet, e vejo com frequência análises baseadas no número ainda reduzido de agregados familiares brasileiros com acesso à internet. Estas análises parecem-me viciadas se não levarem em conta a proliferação de &lt;em&gt;cyber cafés&lt;/em&gt; e de &lt;em&gt;lan houses&lt;/em&gt;. Não conheço nenhum país onde existam tantas como no Brasil. E, se a rodoviária continua a ser fundamental para o transporte da população trabalhadora, desenvolveu-se uma rede de companhias de aviação suficiente para as necessidades dos gestores de baixo nível (os altos gestores viajam em aviões privados ou fretados) e que, nos anos recentes, tem começado a voltar-se também para os trabalhadores mais bem pagos. Ainda a este respeito, recorde-se o que indiquei nesta série de artigos acerca dos investimentos que o governo chinês tem promovido nos serviços de transportes. Ora, estes mecanismos de integração social, que constituem uma das condições gerais de produção indispensáveis ao desenvolvimento do capitalismo, são ainda muito precários na Índia. Penso que este é um dos aspectos em que deve incidir a nossa atenção nos próximos anos, se pretendermos avaliar as possibilidades de desenvolvimento da Índia.

Mas nada disto significa que os países emergentes ou só os BRICs ou só os BICs tenham assegurada uma posição sólida. Isso não existe no capitalismo, que é o primeiro modo de produção que cresce e progride apenas mediante a instabilidade. Por isso abundam na extrema-esquerda aqueles que a cada espirro gritam com entusiasmo «crise, crise»! Instabilidade e desenvolvimento desigual são condições estruturais da normalidade capitalista. O que eu quero dizer ao sustentar que vivemos hoje uma crise no — e não do — capitalismo é que estão a ser criadas condições para um novo fôlego de média ou longa duração. E, se o meu diagnóstico estiver certo, em que situação ficam os trabalhadores?

Se suceder desta vez o que sucedeu noutras ocasiões, a maioria dos trabalhadores em países onde a economia está em recessão ou estagnada, ou seja, nos Estados Unidos, no Japão e em alguns países europeus, preferirá aceitar uma descida do nível de vida a pôr em risco a continuidade dos empregos e contribuir para o aumento da taxa de desempregados. Contrariamente ao que sucede com os professores universitários e com os alunos que dispõem de bolsas de pesquisa e que, portanto, podem ganhar a vida tranquilamente dando aulas e escrevendo monografias acerca da crise terminal do capitalismo e do horizonte de lutas que se avizinha — ou que já está aí — os trabalhadores ganham o sustento vendendo a força de trabalho e só optam pela revolução quando sentem que ela é uma alternativa viável a muito curto prazo. É por isso que há mais «revoluções» nos &lt;em&gt;campi&lt;/em&gt; universitários do que fora deles. Em alguns daqueles países, nos serviços públicos, onde os sindicatos ainda são relativamente fortes, é possível fazer greves que, pelos seus efeitos colaterais, paralisem ou retardem outros sectores da economia. Mas não se trata nestes casos de um confronto de classes, e pretendi chamar a atenção para isso no último artigo da série, infelizmente em poucas palavras, porque o artigo já estava demasiado longo. Porém, se o confronto se ampliar do sector público para as empresas privadas o caso muda de figura, e então já será posível falar de uma luta anticapitalista. Se tal ocorrer, a França será a primeira candidata porque, de todos os países da Europa ocidental, é aí que a taxa de sindicalização é mais baixa. Por isso a França tem tido as lutas mais radicais, sem sindicatos suficientemente poderosos para as poderem conter.

Na perspectiva das lutas sociais, todavia, é a China que sobretudo me interessa. Ora, há que levar em consideração os factores seguintes:

a) Desde que iniciou o programa de expansão da economia de mercado, o governo chinês tem afirmado repetidamente que não aceitará taxas de crescimento tão elevadas ou tão baixas que comprometam a paz social. O governo considera que para isso é necessário assegurar uma taxa mínima de 8% de crescimento anual do Produto Interno Bruto, embora vários especialistas ocidentais achem que seriam possíveis taxas mais baixas. Como eu não tenho competência para saber quem está certo, prefiro seguir neste caso a opinião dos mais interessados, que são os governantes chineses. Portanto, do lado do governo, uma das prioridades absolutas é a manutenção da paz social.

b) Compreende-se, nesta perspectiva, que os salários médios tenham aumentado significativamente na China nos últimos anos. Eu forneci alguns dados demonstrativos nesta série de artigos, e parece haver da parte dos governantes uma estratégia de canalizar a hostilidade dos trabalhadores contra as filiais de companhias transnacionais, sobretudo de companhias de sede nipónica, aproveitando a hostilidade latente da população chinesa contra o Japão, potência ocupante entre as duas guerras mundiais.

c) Classificar como «ditadura» o sistema político vigente na China não é muito esclarecedor, porque há tantos tipos de ditadura como os há de democracia. O mais importante parece-me ser que na China não vigora qualquer poder pessoal e que estão bem oleados os mecanismos de substituição períodica dos dirigentes. O regime chinês é uma colossal máquina de estabelecimento de consensos no interior das classes dominantes, incluindo capitalistas de Estado e capitalistas privados, a tal ponto que foi mantida uma ala esquerdista dentro do Partido Comunista — se não fosse eu recear que a ironia passasse despercebida, escreveria: uma ala comunista dentro do Partido Comunista — e, se se virem obrigados a isso, os governantes preferirão que seja esta ala a encabeçar os protestos dos trabalhadores do que comités de base nascidos das lutas e inteiramente exteriores às burocracias oficiais.

Quanto ao Brasil, fico perplexo ao saber que você pensa que não ocorreram aqui reformas sociais de base. Antes de mais, remeto para o dossiê publicado neste site sobre o Programa Bolsa Família. Além disso, assistimos nos últimos oito anos à consagração política de uma importantíssima mobilidade social ascendente. Num país cuja classe média mantém uma mentalidade escravocrata e racista (os maiores empresários, esses, são muitíssimo mais esclarecidos, senão não tinham conseguido chegar onde chegaram) a ascensão de uma nova elite formada por sindicalistas e por filhos e filhas de famílias pobres diplomados nas universidades de massa constitui, por si só, uma reforma da maior importância.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Peço-lhe antecipadamente desculpa, Eduardo Tomazine, pela extensão da minha resposta, mas é mais fácil formular perguntas breves do que réplicas breves, sobretudo quando as questões são como as suas. E agradeço-lhe ter-me dado oportunidade para estas digressões.</p>
<p>Em economia já é difícil estabelecer factos ou tendências, mais complicado ainda é definir-lhes as causas, sobretudo porque nunca se trata de uma causa única, mas de uma estrutura hierarquizada de causas. Ora, o <em>decoupling</em> observa-se numa variedade de aspectos fundamentais e eu enunciei alguns deles. A questão da produtividade é uma condição necessária para o <em>decoupling</em>, mas está muito longe de ser a condição única. E eu referi a aceleração das taxas de crescimento da produtividade não na globalidade dos países emergentes, mas em três deles, a que alguns economistas, com a moda dos acrónimos, têm chamado os BICs, ou seja, os BRICs sem a Rússia, reduzidos ao Brasil, à Índia e à China. (Os acrónimos são realmente uma moda, e agora, com a crise na faixa meridional da zona do euro, já há quem fale dos PIGs, que em inglês significa <em>porcos</em>, ou seja, Portugal, Itália e Grécia. Mas voltemos às coisas sérias.)</p>
<p>É certo que as matérias-primas constituem uma rubrica importante nas exportações brasileiras, mas será que isto coloca o Brasil no mesmo nível, por exemplo, do leste do Congo? Uma empresa como a Vale dispõe de uma tecnologia sofisticada, e neste caso a exportação de minério não indica qualquer atraso tecnológico, mas, pelo contrário, um grande avanço. Ou vejamos o exemplo da carne e dos preparados de carne. O Brasil deu origem a uma empresa transnacional que é actualmente a maior em todo o mundo no ramo do abate e comercialização de bovinos, e do mesmo modo vejo citada na imprensa especializada a Perdigão e Sadia como campeã na criação e aplicação de tecnologias muito produtivas. O mesmo a respeito do agronegócio brasileiro e da exportação de soja.</p>
<p>Desde a época do regime militar, e independentemente da cor política dos governos seguintes, o Brasil prosseguiu uma política sistemática de qualificação da força de trabalho, pondo fim à universidade vocacionada para a formação de elites e desenvolvendo a universidade de massa. Quando eu comecei a leccionar no Brasil, há vinte e cinco anos atrás, a grande moda nas faculdades de Educação e nas de Administração era falar de «capital humano». Tratava-se de criar um proletariado muito qualificado, e é para isso que as universidades servem hoje. Ora, quando os empresários brasileiros, apesar da expansão do ensino universitário de massa, se queixam da escassez da oferta de força de trabalho qualificada, eles estão a assinalar uma forte tendência de fundo para o crescimento da produtividade.</p>
<p>Não devemos ser aqui demasiado entusiastas, porque qualquer economia matura tem obrigatoriamente uma taxa de crescimento inferior à de economias que estão a proceder a um arranque. Mas no caso da China, do Brasil e da Índia parece-me que não se trata só dessa natural diferença de taxas, mas de rumos divergentes. Os tipos de dados são infindáveis e o economista selecciona alguns que considera como indicadores relevantes, ou seja, que considera que irão indicar o comportamento da globalidade da economia. Terei eu escolhido os dados certos? Ou, mais modestamente, terei eu seguido os economistas que fizeram a escolha acertada? Veremos durante a próxima década.</p>
<p>O comportamento futuro dos investimentos externos directos, ou seja, em termos genéricos, os investimentos das empresas transnacionais, fornecerá a esse respeito uma indicação decisiva. Até agora, a maior fatia deste tipo de investimentos, entre 4/5 e 2/3, tem circulado no triângulo constituído pela União Europeia, os Estados Unidos e o Japão. Será que o triângulo se converterá num pentágono ou mesmo num hexágono, incluindo a Índia?</p>
<p>O capitalismo indiano depara com problemas de integração muito graves, que foram superados na China e no Brasil. Não me refiro aqui apenas às infra-estruturas materiais, mas ao que denomino de condições sociais de produção. A China é, dentro das suas fronteiras, uma cultura multimilenar unificada, enquanto a Índia nunca o foi. O Brasil unificou-se socialmente graças a três instituições: um serviço de correios muitíssimo bom, a nível mundial; a rede Globo de televisão, que padronizou a língua e unificou os interesses quotidianos; e uma enorme rede de transportes rodoviários, que cobre praticamente todas as povoações. Duvido que um filme como <em>Central do Brasil</em>, cujo argumento é estruturado pelo transporte rodoviário, pudesse ter sido feito noutro país. Hoje os correios foram superados pela internet, e vejo com frequência análises baseadas no número ainda reduzido de agregados familiares brasileiros com acesso à internet. Estas análises parecem-me viciadas se não levarem em conta a proliferação de <em>cyber cafés</em> e de <em>lan houses</em>. Não conheço nenhum país onde existam tantas como no Brasil. E, se a rodoviária continua a ser fundamental para o transporte da população trabalhadora, desenvolveu-se uma rede de companhias de aviação suficiente para as necessidades dos gestores de baixo nível (os altos gestores viajam em aviões privados ou fretados) e que, nos anos recentes, tem começado a voltar-se também para os trabalhadores mais bem pagos. Ainda a este respeito, recorde-se o que indiquei nesta série de artigos acerca dos investimentos que o governo chinês tem promovido nos serviços de transportes. Ora, estes mecanismos de integração social, que constituem uma das condições gerais de produção indispensáveis ao desenvolvimento do capitalismo, são ainda muito precários na Índia. Penso que este é um dos aspectos em que deve incidir a nossa atenção nos próximos anos, se pretendermos avaliar as possibilidades de desenvolvimento da Índia.</p>
<p>Mas nada disto significa que os países emergentes ou só os BRICs ou só os BICs tenham assegurada uma posição sólida. Isso não existe no capitalismo, que é o primeiro modo de produção que cresce e progride apenas mediante a instabilidade. Por isso abundam na extrema-esquerda aqueles que a cada espirro gritam com entusiasmo «crise, crise»! Instabilidade e desenvolvimento desigual são condições estruturais da normalidade capitalista. O que eu quero dizer ao sustentar que vivemos hoje uma crise no — e não do — capitalismo é que estão a ser criadas condições para um novo fôlego de média ou longa duração. E, se o meu diagnóstico estiver certo, em que situação ficam os trabalhadores?</p>
<p>Se suceder desta vez o que sucedeu noutras ocasiões, a maioria dos trabalhadores em países onde a economia está em recessão ou estagnada, ou seja, nos Estados Unidos, no Japão e em alguns países europeus, preferirá aceitar uma descida do nível de vida a pôr em risco a continuidade dos empregos e contribuir para o aumento da taxa de desempregados. Contrariamente ao que sucede com os professores universitários e com os alunos que dispõem de bolsas de pesquisa e que, portanto, podem ganhar a vida tranquilamente dando aulas e escrevendo monografias acerca da crise terminal do capitalismo e do horizonte de lutas que se avizinha — ou que já está aí — os trabalhadores ganham o sustento vendendo a força de trabalho e só optam pela revolução quando sentem que ela é uma alternativa viável a muito curto prazo. É por isso que há mais «revoluções» nos <em>campi</em> universitários do que fora deles. Em alguns daqueles países, nos serviços públicos, onde os sindicatos ainda são relativamente fortes, é possível fazer greves que, pelos seus efeitos colaterais, paralisem ou retardem outros sectores da economia. Mas não se trata nestes casos de um confronto de classes, e pretendi chamar a atenção para isso no último artigo da série, infelizmente em poucas palavras, porque o artigo já estava demasiado longo. Porém, se o confronto se ampliar do sector público para as empresas privadas o caso muda de figura, e então já será posível falar de uma luta anticapitalista. Se tal ocorrer, a França será a primeira candidata porque, de todos os países da Europa ocidental, é aí que a taxa de sindicalização é mais baixa. Por isso a França tem tido as lutas mais radicais, sem sindicatos suficientemente poderosos para as poderem conter.</p>
<p>Na perspectiva das lutas sociais, todavia, é a China que sobretudo me interessa. Ora, há que levar em consideração os factores seguintes:</p>
<p>a) Desde que iniciou o programa de expansão da economia de mercado, o governo chinês tem afirmado repetidamente que não aceitará taxas de crescimento tão elevadas ou tão baixas que comprometam a paz social. O governo considera que para isso é necessário assegurar uma taxa mínima de 8% de crescimento anual do Produto Interno Bruto, embora vários especialistas ocidentais achem que seriam possíveis taxas mais baixas. Como eu não tenho competência para saber quem está certo, prefiro seguir neste caso a opinião dos mais interessados, que são os governantes chineses. Portanto, do lado do governo, uma das prioridades absolutas é a manutenção da paz social.</p>
<p>b) Compreende-se, nesta perspectiva, que os salários médios tenham aumentado significativamente na China nos últimos anos. Eu forneci alguns dados demonstrativos nesta série de artigos, e parece haver da parte dos governantes uma estratégia de canalizar a hostilidade dos trabalhadores contra as filiais de companhias transnacionais, sobretudo de companhias de sede nipónica, aproveitando a hostilidade latente da população chinesa contra o Japão, potência ocupante entre as duas guerras mundiais.</p>
<p>c) Classificar como «ditadura» o sistema político vigente na China não é muito esclarecedor, porque há tantos tipos de ditadura como os há de democracia. O mais importante parece-me ser que na China não vigora qualquer poder pessoal e que estão bem oleados os mecanismos de substituição períodica dos dirigentes. O regime chinês é uma colossal máquina de estabelecimento de consensos no interior das classes dominantes, incluindo capitalistas de Estado e capitalistas privados, a tal ponto que foi mantida uma ala esquerdista dentro do Partido Comunista — se não fosse eu recear que a ironia passasse despercebida, escreveria: uma ala comunista dentro do Partido Comunista — e, se se virem obrigados a isso, os governantes preferirão que seja esta ala a encabeçar os protestos dos trabalhadores do que comités de base nascidos das lutas e inteiramente exteriores às burocracias oficiais.</p>
<p>Quanto ao Brasil, fico perplexo ao saber que você pensa que não ocorreram aqui reformas sociais de base. Antes de mais, remeto para o dossiê publicado neste site sobre o Programa Bolsa Família. Além disso, assistimos nos últimos oito anos à consagração política de uma importantíssima mobilidade social ascendente. Num país cuja classe média mantém uma mentalidade escravocrata e racista (os maiores empresários, esses, são muitíssimo mais esclarecidos, senão não tinham conseguido chegar onde chegaram) a ascensão de uma nova elite formada por sindicalistas e por filhos e filhas de famílias pobres diplomados nas universidades de massa constitui, por si só, uma reforma da maior importância.</p>
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		<title>
		Por: Eduardo Tomazine Teixeira		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2010/10/28596/#comment-14490</link>

		<dc:creator><![CDATA[Eduardo Tomazine Teixeira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 Oct 2010 15:48:47 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Caro João Bernardo,

Muito obrigado por esta série de artigos. Mas muito obrigado mesmo! 

Não farei grandes comentários, pois a complexidade do tema me escapa em vários pontos, limitando-me, portanto, a fazer algumas perguntas que podem parecer banais:

1) Se compreendi bem, a principal causa do tal &quot;decoupling&quot; entre as economias emergentes e as centrais seriam os ganhos de produtividade das primeiras em detrimento das últimas. Se este for o caso, consigo muito bem entender que isso se aplique à China, mas, em um país como o Brasil, o motor do crescimento não seria ainda a grande valorização das commodities que se deu nos últimos anos - uma valorização que favoreceu sensivelmente a balança comercial do governo, aumentando sua capacidade de investimento e de intervenção financeira?

2) As economias dos países emergentes estariam realmente tornando-se mais produtivas do que a dos países centrais, ou estariam apenas tirando o atraso e provocando, assim, uma situação concorrencial inédita, mas com &quot;prazo de validade&quot;? Se a segunda opção for verdadeira, o fluxo de capitais destinado aos países emergentes e a sua consequente expansão econômica seriam motivados pela expansão da fronteira do capital nestes países, a qual tende a diminuir em alguns anos. Se isto realmente acontecer, as vantagens competitivas dos países emergentes não terão deixado de existir, e não se produzirá uma nova situação concorrencial outra vez favorável aos países centrais de hoje?

Pergunto isto porque, com exceção da China (e talvez da Índia, que não conheço bem), não vejo entre outros países emergentes o mesmo nível de investimento tecnológico e em educação, o qual segue sendo ainda muito inferior ao dos países centrais. O que hoje são, para países como Brasil e África do Sul, fatores de expansão econômica, como a venda de commodities, o investimento em infraestrutura básica e a inclusão de novos contingentes de assalariados, amanhã pode representar um atraso, pois em uma ou algumas décadas as novas fronteiras do capital estarão ligadas à criação de novas necessidades, o que exige grandes investimentos tecnológicos.  

3) Por fim, a pergunta que considero mais importante: quais são, na sua opinião, as consequencias desta transição de hegemonia no capitalismo para a classe trabalhadora e para um projeto de transformação radical das relações sociais? Sobretudo considerando-se que a China é dirigida por uma ditadura, e que a expansão de países como o Brasil, a China e a Índia não vem acompanhada de reformas sociais de base, ameaçando ainda mais os fragilizados Estados de bem-estar da Europa ocidental.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro João Bernardo,</p>
<p>Muito obrigado por esta série de artigos. Mas muito obrigado mesmo! </p>
<p>Não farei grandes comentários, pois a complexidade do tema me escapa em vários pontos, limitando-me, portanto, a fazer algumas perguntas que podem parecer banais:</p>
<p>1) Se compreendi bem, a principal causa do tal &#8220;decoupling&#8221; entre as economias emergentes e as centrais seriam os ganhos de produtividade das primeiras em detrimento das últimas. Se este for o caso, consigo muito bem entender que isso se aplique à China, mas, em um país como o Brasil, o motor do crescimento não seria ainda a grande valorização das commodities que se deu nos últimos anos &#8211; uma valorização que favoreceu sensivelmente a balança comercial do governo, aumentando sua capacidade de investimento e de intervenção financeira?</p>
<p>2) As economias dos países emergentes estariam realmente tornando-se mais produtivas do que a dos países centrais, ou estariam apenas tirando o atraso e provocando, assim, uma situação concorrencial inédita, mas com &#8220;prazo de validade&#8221;? Se a segunda opção for verdadeira, o fluxo de capitais destinado aos países emergentes e a sua consequente expansão econômica seriam motivados pela expansão da fronteira do capital nestes países, a qual tende a diminuir em alguns anos. Se isto realmente acontecer, as vantagens competitivas dos países emergentes não terão deixado de existir, e não se produzirá uma nova situação concorrencial outra vez favorável aos países centrais de hoje?</p>
<p>Pergunto isto porque, com exceção da China (e talvez da Índia, que não conheço bem), não vejo entre outros países emergentes o mesmo nível de investimento tecnológico e em educação, o qual segue sendo ainda muito inferior ao dos países centrais. O que hoje são, para países como Brasil e África do Sul, fatores de expansão econômica, como a venda de commodities, o investimento em infraestrutura básica e a inclusão de novos contingentes de assalariados, amanhã pode representar um atraso, pois em uma ou algumas décadas as novas fronteiras do capital estarão ligadas à criação de novas necessidades, o que exige grandes investimentos tecnológicos.  </p>
<p>3) Por fim, a pergunta que considero mais importante: quais são, na sua opinião, as consequencias desta transição de hegemonia no capitalismo para a classe trabalhadora e para um projeto de transformação radical das relações sociais? Sobretudo considerando-se que a China é dirigida por uma ditadura, e que a expansão de países como o Brasil, a China e a Índia não vem acompanhada de reformas sociais de base, ameaçando ainda mais os fragilizados Estados de bem-estar da Europa ocidental.</p>
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