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	Comentários sobre: Questão agrária e questão racial no Brasil	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Emiliana Vilas		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2011/03/36825/#comment-25329</link>

		<dc:creator><![CDATA[Emiliana Vilas]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 May 2011 17:47:01 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Interessante o papo entre os ´homens´. Sobre o texto do Rafael Litvin Villas Bôas, interessante a análise. Muito valiosa esta tentativa de articulacao política, é necessária e urgente. Fiquei pensando que essa análise do movimento negro nao está sendo observada somente pelas lutas ´institucionalizadas´. E pensar nisso leva a pensar na grande separacao entre a instituicao ´universidade´ e os movimentos sociais. Pra quem vc escreve o texto? Fiquei pensando que é um diálogo entre um intelectual comprometido e a academia ou nos melhores dos casos uma intelectualidade militante. Enfim, esse abismo é irreconciliável e aí eu com humildade apontaria um problema de ´forma´. Agora, parabéns pelo esforco de pensar a ´totalidade´. Mas pensá-la com ferramentas teóricas de classe/raca (bom, faltou o genero e as feministas bombardearian esse texto) é pensar o problema com as ferramentas teóricas dos estudos culturais e ao mesmo tempo estar apegado a um linha marxista. Nao acredito em dogmas, mas isso é meio esquizofrenico, nao? Talvez o grande debate que tenha gerado foi essa mistura que pode ser um exercicio bem produtivo de recolher o que cada teoria nos pode aportar e seus limites para lermos a realidade. Por último, o MST é um movimento incrível, mas nao mencionar a institucionalizacao e a grande cooptacao feita pelo governo desse movimento é tampar o sol com peneira. Pena que os debates sobre ´autonomia´ nao sao levados a serio na maioria dos movimentos sociais aqui no Brasil, como vejo que acontece na Argentina e no México. Acho que qualquer crítica anticapitalista atual que nao questione o Estado e nao o ve como um ´problema´ pode correr o risco de ser ´reformista´, coisa que o companheiro Rafael está longe de querer ser... Um abraco em luta]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Interessante o papo entre os ´homens´. Sobre o texto do Rafael Litvin Villas Bôas, interessante a análise. Muito valiosa esta tentativa de articulacao política, é necessária e urgente. Fiquei pensando que essa análise do movimento negro nao está sendo observada somente pelas lutas ´institucionalizadas´. E pensar nisso leva a pensar na grande separacao entre a instituicao ´universidade´ e os movimentos sociais. Pra quem vc escreve o texto? Fiquei pensando que é um diálogo entre um intelectual comprometido e a academia ou nos melhores dos casos uma intelectualidade militante. Enfim, esse abismo é irreconciliável e aí eu com humildade apontaria um problema de ´forma´. Agora, parabéns pelo esforco de pensar a ´totalidade´. Mas pensá-la com ferramentas teóricas de classe/raca (bom, faltou o genero e as feministas bombardearian esse texto) é pensar o problema com as ferramentas teóricas dos estudos culturais e ao mesmo tempo estar apegado a um linha marxista. Nao acredito em dogmas, mas isso é meio esquizofrenico, nao? Talvez o grande debate que tenha gerado foi essa mistura que pode ser um exercicio bem produtivo de recolher o que cada teoria nos pode aportar e seus limites para lermos a realidade. Por último, o MST é um movimento incrível, mas nao mencionar a institucionalizacao e a grande cooptacao feita pelo governo desse movimento é tampar o sol com peneira. Pena que os debates sobre ´autonomia´ nao sao levados a serio na maioria dos movimentos sociais aqui no Brasil, como vejo que acontece na Argentina e no México. Acho que qualquer crítica anticapitalista atual que nao questione o Estado e nao o ve como um ´problema´ pode correr o risco de ser ´reformista´, coisa que o companheiro Rafael está longe de querer ser&#8230; Um abraco em luta</p>
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		<title>
		Por: Manolo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2011/03/36825/#comment-22515</link>

		<dc:creator><![CDATA[Manolo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 27 Mar 2011 22:33:34 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Gustavo, se economicamente é possível desagregar a produção industrial em setores -- não fosse assim, teríamos regredido a algum momento anterior à divisão social do trabalho -- em termos políticos é preciso relacioná-la aos industriais em bloco, como base de seu poder. Como segmento de classe capitalista, os industriais dificilmente fazem pressão sobre governos fragmentadamente. Basta ver: quando o COPOM mexe na taxa de juros, por exemplo, não é a ANFAVEA ou a ABRINQ quem a imprensa procura para comentar o assunto, mas a FIESP, a FIRJAN, a FIESC, a FIEB etc. A fragmentação os industriais -- e as classes capitalistas em geral -- deixam que se abata sobre os trabalhadores, com o que colaboram o mais ativamente possível. 
Quanto ao fato de a agricultura ser a segunda maior fonte de emprego, comparados dois processos de trabalhos que resultem na produção de bens semelhantes, aquele a envolver maior número de pessoas e menor complexidade técnica produz menos e leva mais tempo na produção, resultando quase invariavelmente na produção de menos bens, de preço mais alto. O maior número de pessoas empregadas na agricultura, sobre o qual a agricultura familiar exerce grande influência devido a seu baixo grau de apropriação de técnicas produtivas mais complexas (por várias causas: falta de recursos, falta de assessoria técnica etc.), não expressa outra coisa além de sua baixa produtividade, em especial da agricultura familiar -- que estaria seriamente arriscada à extinção se nalgum dia de sol certos agroindustriais (não é necessário que sejam todos) resolvessem investir pesadamente nos mesmos setores atualmente hegemonizados por ela.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Gustavo, se economicamente é possível desagregar a produção industrial em setores &#8212; não fosse assim, teríamos regredido a algum momento anterior à divisão social do trabalho &#8212; em termos políticos é preciso relacioná-la aos industriais em bloco, como base de seu poder. Como segmento de classe capitalista, os industriais dificilmente fazem pressão sobre governos fragmentadamente. Basta ver: quando o COPOM mexe na taxa de juros, por exemplo, não é a ANFAVEA ou a ABRINQ quem a imprensa procura para comentar o assunto, mas a FIESP, a FIRJAN, a FIESC, a FIEB etc. A fragmentação os industriais &#8212; e as classes capitalistas em geral &#8212; deixam que se abata sobre os trabalhadores, com o que colaboram o mais ativamente possível.<br />
Quanto ao fato de a agricultura ser a segunda maior fonte de emprego, comparados dois processos de trabalhos que resultem na produção de bens semelhantes, aquele a envolver maior número de pessoas e menor complexidade técnica produz menos e leva mais tempo na produção, resultando quase invariavelmente na produção de menos bens, de preço mais alto. O maior número de pessoas empregadas na agricultura, sobre o qual a agricultura familiar exerce grande influência devido a seu baixo grau de apropriação de técnicas produtivas mais complexas (por várias causas: falta de recursos, falta de assessoria técnica etc.), não expressa outra coisa além de sua baixa produtividade, em especial da agricultura familiar &#8212; que estaria seriamente arriscada à extinção se nalgum dia de sol certos agroindustriais (não é necessário que sejam todos) resolvessem investir pesadamente nos mesmos setores atualmente hegemonizados por ela.</p>
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		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2011/03/36825/#comment-21929</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 17 Mar 2011 12:25:21 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Em resposta ao comentário de Gustavo Pinto de Araújo, na minha opinião é devido às suas formas de luta, à sua organização interna, que o MST se encontra na linha mais avançada da luta anticapitalista no Brasil. Escrevi num comentário de 4 de Março que «o aspecto positivo do MST consiste na forma de luta colectiva que emprega, na nova sociabilização criada nas ocupações e nos assentamentos e na rotatividade dos cargos que muitas vezes ocorre nos escalões inferiores — embora, infelizmente, não ocorra nos escalões superiores. É nestes aspectos positivos, enquanto forma de luta, que o MST constitui uma das mais importantes antecipações actuais do que poderá ser uma sociedade socialista».
Por outro lado, porém, a agricultura familiar, em vez de ser uma simples solução ou um modelo incontroverso, é, como afirmei noutro comentário, «um nó de problemas». Gustavo Pinto de Araújo evocou um caso, decerto não imaginário, de um grupo de bóias-frias e eu estou de acordo com a conclusão a que ele chegou. Vejamos outro exemplo, não imaginário. Escrevi num comentário de 8 de Março que o facto de a agricultura familiar ocupar uma elevada percentagem da força de trabalho relativamente à área onde está estabelecida corresponde a afirmar que ela é pouco produtiva. Todavia, em circunstâncias de acentuado desemprego geral ou sectorial ou regional, e sendo dado o carácter insatisfatório da assistência aos desempregados, uma agricultura familiar representando aquilo que em termos económicos se denomina desemprego oculto pode ser preferível a um desemprego explícito. E, tal como estes dois casos, vários outros se podem citar. Isto mostra, em meu entender, que a questão da agricultura familiar é muito complexa, servindo interesses antagónicos. A agricultura familiar deve ser avaliada em cada contexto e em cada época, sem que de modo algum deva ser apresentada como um modelo de aplicação geral e muito menos como uma panacéia.
Mais funesta ainda é a confusão que foi estabelecida na esquerda e na extrema-esquerda entre agricultura familiar e agroecologia. Ora, em princípio nada vincula a agricultura familiar à agroecologia, e em diversos países a agricultura familiar adoptou técnicas que estão nos antípodas dos pressupostos ecológicos, atingindo assim elevadas taxas de produtividade.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em resposta ao comentário de Gustavo Pinto de Araújo, na minha opinião é devido às suas formas de luta, à sua organização interna, que o MST se encontra na linha mais avançada da luta anticapitalista no Brasil. Escrevi num comentário de 4 de Março que «o aspecto positivo do MST consiste na forma de luta colectiva que emprega, na nova sociabilização criada nas ocupações e nos assentamentos e na rotatividade dos cargos que muitas vezes ocorre nos escalões inferiores — embora, infelizmente, não ocorra nos escalões superiores. É nestes aspectos positivos, enquanto forma de luta, que o MST constitui uma das mais importantes antecipações actuais do que poderá ser uma sociedade socialista».<br />
Por outro lado, porém, a agricultura familiar, em vez de ser uma simples solução ou um modelo incontroverso, é, como afirmei noutro comentário, «um nó de problemas». Gustavo Pinto de Araújo evocou um caso, decerto não imaginário, de um grupo de bóias-frias e eu estou de acordo com a conclusão a que ele chegou. Vejamos outro exemplo, não imaginário. Escrevi num comentário de 8 de Março que o facto de a agricultura familiar ocupar uma elevada percentagem da força de trabalho relativamente à área onde está estabelecida corresponde a afirmar que ela é pouco produtiva. Todavia, em circunstâncias de acentuado desemprego geral ou sectorial ou regional, e sendo dado o carácter insatisfatório da assistência aos desempregados, uma agricultura familiar representando aquilo que em termos económicos se denomina desemprego oculto pode ser preferível a um desemprego explícito. E, tal como estes dois casos, vários outros se podem citar. Isto mostra, em meu entender, que a questão da agricultura familiar é muito complexa, servindo interesses antagónicos. A agricultura familiar deve ser avaliada em cada contexto e em cada época, sem que de modo algum deva ser apresentada como um modelo de aplicação geral e muito menos como uma panacéia.<br />
Mais funesta ainda é a confusão que foi estabelecida na esquerda e na extrema-esquerda entre agricultura familiar e agroecologia. Ora, em princípio nada vincula a agricultura familiar à agroecologia, e em diversos países a agricultura familiar adoptou técnicas que estão nos antípodas dos pressupostos ecológicos, atingindo assim elevadas taxas de produtividade.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Gustavo Pinto de Araújo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2011/03/36825/#comment-21906</link>

		<dc:creator><![CDATA[Gustavo Pinto de Araújo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 17 Mar 2011 02:30:57 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Um bom texto e um bom debate! Vamos continuar!

Levantarei rapidamente alguns pontos de debate:

1) Sobre a importância da união entre a questão da terra e raça/racismo, além dos exemplo que o Manolo trouxe, parece-me que o exemplo da Bolívia é também muito sintomático, pois nos últimos anos a força do movimento dos povos autóctones veio justamente da junção entre a proteção/retomada de seu território e a afirmação de sua identidade/&quot;raça&quot; indígena.

2) Manolo comentou em algum momento que o PIB agropecuário gira em torno de 5% e, portanto, o poder do agronegócio seria &quot;infinitamente menor que o poder econômico das classes que dominam os setores industrial e de serviços, em especial em relação ao setor industrial&quot;. Manolo, vejamos a tabela no link abaixo:

http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/economia/contasnacionais/2008/tabelas_pdf/tab10.pdf

Se analisarmos os dados agregados realmente nos parece que a Agropecuária é insignificante em relação à indústria e serviços. Porém, se analisarmos de maneira desagregada veremos que em 2008, por exemplo, a agricultura só perdeu para a construção civil e algumas atividades de serviços. Ou seja, a agricultura é muito forte e influente em nosso país. Levando em conta a área ocupada pela agricultura e a contribuição dela para o PIB, pode-se dizer que ela é improdutiva e socialmente injusta, mas não que seja fraca.
Por outro lado, vemos na próxima tabela que a agricultura é a segunda maior fonte de emprego neste país (2008).

http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/economia/contasnacionais/2008/tabelas_pdf/tab14.pdf

3) João Bernardo, para mim a defesa da agricultura familiar era até então uma unanimidade (assim como o MST! Não prestava atenção na importância da luta quilombola e indígena, como mostrou o Manolo). Todavia, você apresentou críticas fortes e, sem dúvida, o arcaísmo como projeto, vem sendo uma falha romântica da esquerda.
Então, primeiro, uma pergunta ingênua: não devemos mais apoiar a agricultura familiar? Parece-me que faltou um pouco de conceituação desta prática ou, pelo menos, da distinção entre possíveis &quot;agriculturas familiares&quot; (nazistas) e outras &quot;agriculturas familiares&quot;.
Segundo, um exemplo simples e que talvez seja uma mera exceção: pensemos num caso de um grupo de bóias-frias que antes vivia em condições sub-humanas de trabalho e depois recebem um pedaço de terra onde podem plantar e constituir uma pequena vila de agricultores que produzem seu sustento e, com sorte, comercializam seu excedente, gerando uma qualidade de vida melhor do que a anterior. Mesmo que não signifique a libertação/emancipação do ser e que seja um passo pequeno, como não apoiar essa experiência?


Seguimos...

Gustavo.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um bom texto e um bom debate! Vamos continuar!</p>
<p>Levantarei rapidamente alguns pontos de debate:</p>
<p>1) Sobre a importância da união entre a questão da terra e raça/racismo, além dos exemplo que o Manolo trouxe, parece-me que o exemplo da Bolívia é também muito sintomático, pois nos últimos anos a força do movimento dos povos autóctones veio justamente da junção entre a proteção/retomada de seu território e a afirmação de sua identidade/&#8221;raça&#8221; indígena.</p>
<p>2) Manolo comentou em algum momento que o PIB agropecuário gira em torno de 5% e, portanto, o poder do agronegócio seria &#8220;infinitamente menor que o poder econômico das classes que dominam os setores industrial e de serviços, em especial em relação ao setor industrial&#8221;. Manolo, vejamos a tabela no link abaixo:</p>
<p><a href="http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/economia/contasnacionais/2008/tabelas_pdf/tab10.pdf" rel="nofollow ugc">http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/economia/contasnacionais/2008/tabelas_pdf/tab10.pdf</a></p>
<p>Se analisarmos os dados agregados realmente nos parece que a Agropecuária é insignificante em relação à indústria e serviços. Porém, se analisarmos de maneira desagregada veremos que em 2008, por exemplo, a agricultura só perdeu para a construção civil e algumas atividades de serviços. Ou seja, a agricultura é muito forte e influente em nosso país. Levando em conta a área ocupada pela agricultura e a contribuição dela para o PIB, pode-se dizer que ela é improdutiva e socialmente injusta, mas não que seja fraca.<br />
Por outro lado, vemos na próxima tabela que a agricultura é a segunda maior fonte de emprego neste país (2008).</p>
<p><a href="http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/economia/contasnacionais/2008/tabelas_pdf/tab14.pdf" rel="nofollow ugc">http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/economia/contasnacionais/2008/tabelas_pdf/tab14.pdf</a></p>
<p>3) João Bernardo, para mim a defesa da agricultura familiar era até então uma unanimidade (assim como o MST! Não prestava atenção na importância da luta quilombola e indígena, como mostrou o Manolo). Todavia, você apresentou críticas fortes e, sem dúvida, o arcaísmo como projeto, vem sendo uma falha romântica da esquerda.<br />
Então, primeiro, uma pergunta ingênua: não devemos mais apoiar a agricultura familiar? Parece-me que faltou um pouco de conceituação desta prática ou, pelo menos, da distinção entre possíveis &#8220;agriculturas familiares&#8221; (nazistas) e outras &#8220;agriculturas familiares&#8221;.<br />
Segundo, um exemplo simples e que talvez seja uma mera exceção: pensemos num caso de um grupo de bóias-frias que antes vivia em condições sub-humanas de trabalho e depois recebem um pedaço de terra onde podem plantar e constituir uma pequena vila de agricultores que produzem seu sustento e, com sorte, comercializam seu excedente, gerando uma qualidade de vida melhor do que a anterior. Mesmo que não signifique a libertação/emancipação do ser e que seja um passo pequeno, como não apoiar essa experiência?</p>
<p>Seguimos&#8230;</p>
<p>Gustavo.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Eduardo Tomazine Teixeira		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2011/03/36825/#comment-21298</link>

		<dc:creator><![CDATA[Eduardo Tomazine Teixeira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 09 Mar 2011 19:50:47 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Um breve esclarecimento: referi-me ao &quot;homem cordial&quot; do Sérgio B. de Holanda sem o unilateralismo que o comentarista &quot;em dúvida&quot; me imputa. Basta reler o comentário para se dar conta de que não faço menção à afabilidade, mas à necessidade do nosso homem cordial, quando se mete a debater, de mitigar críticas objetivas tecidas contra uma argumentação, como se elas fossem agressões pessoais.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um breve esclarecimento: referi-me ao &#8220;homem cordial&#8221; do Sérgio B. de Holanda sem o unilateralismo que o comentarista &#8220;em dúvida&#8221; me imputa. Basta reler o comentário para se dar conta de que não faço menção à afabilidade, mas à necessidade do nosso homem cordial, quando se mete a debater, de mitigar críticas objetivas tecidas contra uma argumentação, como se elas fossem agressões pessoais.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Manolo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2011/03/36825/#comment-21198</link>

		<dc:creator><![CDATA[Manolo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 09 Mar 2011 00:06:18 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Bom, como quem está em dúvida insiste, tenho que fazer como quem explica as piadas, e me vejo forçado a dizer de novo o que já estava dito: eu não disse que você era paulista, sequer que isto seja demérito. Só disse que o artigo era uma disputa interna do MST paulista, e quem faz este tipo de disputa pode ser até inca venusiano, pois para os objetivos que pretende alcançar, quaisquer que sejam, sua origem pouco importa. Se a regional a que me referi foi esta, e se você teve ou tem lá suas questões depois da mudança para &quot;outro país&quot;, esta concidência pouco me importa, isto são coisas do acaso. E ser paulista não é vantagem ou demérito para ninguém. Não é este o foco de meus argumentos, nunca foi e nunca será. E que me aponte lá onde disse o contrário, para tirar qualquer dúvida.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Bom, como quem está em dúvida insiste, tenho que fazer como quem explica as piadas, e me vejo forçado a dizer de novo o que já estava dito: eu não disse que você era paulista, sequer que isto seja demérito. Só disse que o artigo era uma disputa interna do MST paulista, e quem faz este tipo de disputa pode ser até inca venusiano, pois para os objetivos que pretende alcançar, quaisquer que sejam, sua origem pouco importa. Se a regional a que me referi foi esta, e se você teve ou tem lá suas questões depois da mudança para &#8220;outro país&#8221;, esta concidência pouco me importa, isto são coisas do acaso. E ser paulista não é vantagem ou demérito para ninguém. Não é este o foco de meus argumentos, nunca foi e nunca será. E que me aponte lá onde disse o contrário, para tirar qualquer dúvida.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Em dúvida		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2011/03/36825/#comment-21194</link>

		<dc:creator><![CDATA[Em dúvida]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 08 Mar 2011 21:52:33 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=36825#comment-21194</guid>

					<description><![CDATA[É a última vez que escrevo, prometo - pois o tema aqui não é esse. Mas, pelo jeito, meu apelo-crítica pegou o Manolo de raiva.

Manolo, meu caro. Não estou armado a nada. Li seus comentários e por eles não passei batido. Mas, estou apontado o foco de seu argumento (veja se não é):

- seu argumento se baseia no problema da localização dos autores dos artigos que você lê. ou seja, está receoso, pelo visto sempre, de que aquele que escreve é um &quot;paulista&quot;. por isso, as pegadinhas: a) eu, que estou &quot;em dúvida&quot;,não sou localizável; b) você recebe um drops de minha posição com &quot;sou seu conterrâneo&quot;, mas que, como você bem notou, não mora na Bahia. Então, não tente me localizar, Manolo. E esse é o problema. Em última instância, se você ficar muito agoniado, pergunte aos administradores do site meu e-mail. Ou, quem sabe, com o tempo, eu saia da dúvida.

Enfim: Será possível que um &quot;paulista&quot; tenha algo a dizer sobre o que você está observando na experiência baiana de luta? e o reverso? Penso que sim nos dois casos, desde que você se desapegue de ficar tentando localizar antes de tudo ao autor, para a partir daí dar-lhe um parecer (necessariamente depreciativo, no que diz respeito aos &quot;paulistas&quot;).

Para concluir minha sugestão: quando fui, por um período, morar no &quot;outro país&quot; (assim um amigo carioca de nascimento e baiano de adoção se refere a SP, quando ambos morávamos por lá, no interior), pude (re)conhecer o quanto essa picuinha de paulistocentrismo atrapalha os melhores argumentos críticos. No seu caso, pelo que entendo, você tem um bocado a apresentar sobre concepções amplas da luta pela terra - mas, precisa sempre colocá-las na conta da luta contra os &quot;paulistas&quot;. E o que seu argumento ganha com isso? Pelo visto, nada.

Acho, inclusive, que se você tem tanta consciência de que o assunto está em disputa no &quot;MST paulista&quot; e que a experiência que você vê aí na Bahia tem algo a ensinar aos &quot;paulistas&quot;, pairamos diante de duas questões políticas: a) o autor do artigo (que você continua presumindo - eis o problema: é uma presunção! - que sou eu e que ele é paulista) estaria contra ou a favor da experiências que você relata?; e b) a melhor solução para fazer mais fortes a apresentação de suas experiências é essa de depreciar (&quot;contundência&quot;...) o autor-debatedor?

A forma que o debate assumiu, para retomar uma referência de Eduardo, foi cordial - mas, Eduardo, numa leitura unilateral de Sérgio Buarque, confunde cordial com afável. Mas, bsta lembrar que Sérgio Buarque vê a cordialidade como o contrário de relações objetivias - ou seja, as coisas são pessoais, feitas com o coração, passionais. Logo, a franqueza, quando tem esse caráter depreciativo, de tom obviamente masculinizante, é ela tão cordial quanto uma afabilidade pautada pela redução do debatedor.O que eu sugeri foi franqueza também, mas com respeito. E o estilo adotado aqui não parece esse - mas, sim o do tipo &quot;você não sabe do que fala&quot;,&quot;você mais parece um articulista da Veja&quot;, &quot;pedir que você leia algo é pedir demais&quot; e assim vai. A troco de quê? Esse esforço de auto-afirmação sobre os outros, ele sim, é um mal da esquerda de luta - masculinizante, que não se vê entre pares em discussão, mas na necessidade de se dizer melhor. a não ser que vocês me prove que o argumento do autor do texto é uma violência contra outros quaisquer, só posso dizer que as primeiras respostas e o andamento do debate é sinal de nosso embrutecimento e nossa violência em hora e local desnecessário.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É a última vez que escrevo, prometo &#8211; pois o tema aqui não é esse. Mas, pelo jeito, meu apelo-crítica pegou o Manolo de raiva.</p>
<p>Manolo, meu caro. Não estou armado a nada. Li seus comentários e por eles não passei batido. Mas, estou apontado o foco de seu argumento (veja se não é):</p>
<p>&#8211; seu argumento se baseia no problema da localização dos autores dos artigos que você lê. ou seja, está receoso, pelo visto sempre, de que aquele que escreve é um &#8220;paulista&#8221;. por isso, as pegadinhas: a) eu, que estou &#8220;em dúvida&#8221;,não sou localizável; b) você recebe um drops de minha posição com &#8220;sou seu conterrâneo&#8221;, mas que, como você bem notou, não mora na Bahia. Então, não tente me localizar, Manolo. E esse é o problema. Em última instância, se você ficar muito agoniado, pergunte aos administradores do site meu e-mail. Ou, quem sabe, com o tempo, eu saia da dúvida.</p>
<p>Enfim: Será possível que um &#8220;paulista&#8221; tenha algo a dizer sobre o que você está observando na experiência baiana de luta? e o reverso? Penso que sim nos dois casos, desde que você se desapegue de ficar tentando localizar antes de tudo ao autor, para a partir daí dar-lhe um parecer (necessariamente depreciativo, no que diz respeito aos &#8220;paulistas&#8221;).</p>
<p>Para concluir minha sugestão: quando fui, por um período, morar no &#8220;outro país&#8221; (assim um amigo carioca de nascimento e baiano de adoção se refere a SP, quando ambos morávamos por lá, no interior), pude (re)conhecer o quanto essa picuinha de paulistocentrismo atrapalha os melhores argumentos críticos. No seu caso, pelo que entendo, você tem um bocado a apresentar sobre concepções amplas da luta pela terra &#8211; mas, precisa sempre colocá-las na conta da luta contra os &#8220;paulistas&#8221;. E o que seu argumento ganha com isso? Pelo visto, nada.</p>
<p>Acho, inclusive, que se você tem tanta consciência de que o assunto está em disputa no &#8220;MST paulista&#8221; e que a experiência que você vê aí na Bahia tem algo a ensinar aos &#8220;paulistas&#8221;, pairamos diante de duas questões políticas: a) o autor do artigo (que você continua presumindo &#8211; eis o problema: é uma presunção! &#8211; que sou eu e que ele é paulista) estaria contra ou a favor da experiências que você relata?; e b) a melhor solução para fazer mais fortes a apresentação de suas experiências é essa de depreciar (&#8220;contundência&#8221;&#8230;) o autor-debatedor?</p>
<p>A forma que o debate assumiu, para retomar uma referência de Eduardo, foi cordial &#8211; mas, Eduardo, numa leitura unilateral de Sérgio Buarque, confunde cordial com afável. Mas, bsta lembrar que Sérgio Buarque vê a cordialidade como o contrário de relações objetivias &#8211; ou seja, as coisas são pessoais, feitas com o coração, passionais. Logo, a franqueza, quando tem esse caráter depreciativo, de tom obviamente masculinizante, é ela tão cordial quanto uma afabilidade pautada pela redução do debatedor.O que eu sugeri foi franqueza também, mas com respeito. E o estilo adotado aqui não parece esse &#8211; mas, sim o do tipo &#8220;você não sabe do que fala&#8221;,&#8221;você mais parece um articulista da Veja&#8221;, &#8220;pedir que você leia algo é pedir demais&#8221; e assim vai. A troco de quê? Esse esforço de auto-afirmação sobre os outros, ele sim, é um mal da esquerda de luta &#8211; masculinizante, que não se vê entre pares em discussão, mas na necessidade de se dizer melhor. a não ser que vocês me prove que o argumento do autor do texto é uma violência contra outros quaisquer, só posso dizer que as primeiras respostas e o andamento do debate é sinal de nosso embrutecimento e nossa violência em hora e local desnecessário.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Manolo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2011/03/36825/#comment-21191</link>

		<dc:creator><![CDATA[Manolo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 08 Mar 2011 21:31:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Rafael, tenho alguns pontos a ressaltar, alguns deles já repetidamente.

(1) Acho que considerar &quot;reforma agrária e demarcação de terras quilombolas&quot; como &quot;processos diferentes&quot; faz parte exatamente deste &quot;paradoxo&quot; segundo o qual &quot;a classe dominante vê mais elos do que as organizações [de esquerda] estabelecem em termos de estratégia de luta&quot;. O &quot;paradoxo&quot; é tão grande que chega a aplicar-se a seu próprio artigo. Por alguns motivos: 
(a) Se a reforma agrária é um projeto de distribuição das terras de um país de maneira mais equânime, tanto a demarcação de terras quilombolas quanto a demarcação de terras indígenas se enquadram no conceito. 
(b) Pode-se igualmente, e com mais justiça, considerar que a reforma agrária envolve não apenas a redistribuição de terras, mas também toda a assessoria técnica à pequena produção resultante desta redistribuição, de acordo com os objetivos pautados pelos pequenos produtores. Do contrário, é a ante-sala do êxodo rural. E é exatamente este -- assessoria técnica -- um dos objetivos da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), que representa comunidades quilombolas de 21 estados, Da mesma forma, para usar um exemplo mais próximo, a Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME), que congrega 64 povos indígenas destes lugares, reivindica também assistência técnica e extensão rural para as comunidades indígenas. Se a conjugação entre democratização do acesso à terra e assessoria técnica (ou sua reivindicação) forem os critérios definidores de um processo de lutas por reforma agrária, a luta pela demarcação de terras indígenas e quilombolas entram neste critério e pode ser consideradas reforma agrária com folga. 
(c) A única hipótese de não se considerar a demarcação de terras quilombolas e indígenas como processos integrantes da reforma agrária é a perspectiva da agroindústria popular, pois os movimentos indígena e quilombola, em sua maioria, exigem respeito aos modos de produção tradicionais. É este o critério que você emprega para diferenciar as coisas? Porque se for este, o que pode-se extrair como conclusão deste critério é que somente luta pela reforma agrária quem aceita e/ou propõe esta pauta, e só quem a propõe é o próprio MST. Ora, a realidade mostra que ele, não obstante sua enorme relevância no cenário político do país, não é o único a lutar deste lado da trincheira. Ou então, como outra linha de raciocínio, o que advém é exatamente o que você disse, mas com o tiro saindo pela culatra: que a esquerda, você inclusive, tem sido míope quanto a esta questão, a de considerar a luta pela demarcação de terras indígenas e quilombolas como parte da reforma agrária.

(2) Os dados do Censo Agropecuário 2006 citados são, tal e qual, incusive na ordem dos dados citados, aqueles das seis páginas dos &quot;Comentários&quot; divulgados pelo próprio Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Eles são o fundamento da palavra-de-ordem dos movimentos de luta pela reforma agrária, de que &quot;a agricultura familiar é quem produz para a mesa do brasileiro&quot;. (É preciso antes de continuar fazer uma ressalva: &quot;a agricultura familiar responde por 38% do valor da produção&quot;, sim, como você diz, mas da produção agrícola, e não de uma produção &quot;sem adjetivos&quot;, que pode dar a entender que se trata da produção econômica brasileira em geral.) Apesar de servir para indicar a importância da luta pela reforma agrária para quem não a compreende bem, estes são dados que, apresentados soltos, não indicam problemas ainda mais sérios:
(a) Os setores da agropecuária sobre os quais tem avançado a agricultura familiar, originária ou não de reforma agrária, são exatamente aqueles deixados de lado pelos latifundiários e pelos agronegociantes ao longo do desenvolvimento da economia brasileira. A atual estrutura da agropecuária brasileira segue, em linhas gerais, o mesmo estilo de produção para exportação vigente desde a colonização, no qual grandes latifundiários produzem para exportação e pequenos agricultores produzem para subsistência e pequeno comércio. Você pode ver estas questões comparando dados dos Censos Agropecuários de 1970, 1975, 1980, 1985 e 1995/1996 com os dados de 2006, com o dificultante de a agricultura familiar só haver sido considerada em comentários separados neste censo mais recente.
(b) O Brasil em 2010 foi o terceiro maior exportador agrícola do mundo, mas apesar dos avanços da agricultura familiar e da agroindústria familiar, e apesar de o Brasil ter como carros-chefes de suas exportações exatamente produtos agrícolas, a representação da agropecuária no total do PIB brasileiro há muito tempo não passa dos 5%. O poder econômico do agronegócio é infinitamente menor que o poder econômico das classes que dominam os setores industrial e de serviços, em especial em relação ao setor industrial; tanto é assim que o setor industrial nem precisa disputar posições políticas no Congresso, porque tudo o que lhe diz respeito foi transformado em &quot;questão técnica&quot;, &quot;questão procedimental&quot;, e passa ao largo do parlamento, resolvendo-se pelo semi-automatismo dos &quot;meios administrativos&quot;. Ao invés de disputar votos para eleger representantes ao Congresso, basta-lhe disputar diretamente com o Comitê de Política Monetária (COPOM) as casas decimais da taxa de juros através da mídia e de pressão direta, ou -- noutro exemplo -- participar de missões diplomáticas brasileiras em viagens para a África e lá, com o beneplácito do Itamaraty, articular diretamente a exploração a ser feita. 
(c) Os comentários de João Bernardo sobre o &quot;arcaísmo&quot;, tal como os compreendi, vão neste sentido; de que as novas estruturas do poder colocam problemas novos para a militância, que precisam ser compreendidos de acordo com a experiência histórica -- algo fundamental neste caso, em que a agricultura familiar já é praticada extensivamente há bastante tempo em outros lugares, sob outras condições históricas, econômicas e políticas que precisam ser levadas em conta. É o que diz também outro João, o Stedile, ao afirmar, apesar de todas as conquistas do movimento, que &quot;aquela reforma agrária que o MST sonhou não existe mais&quot;, ou que &quot;o modelo atual aumenta a pobreza porque faveliza o campo&quot;. Com esta crítica, ele indica uma mudança de postura do movimento quanto ao modelo de reforma agrária a ser reivindicado. Mas a pouca referência que você fez a uma estrutura de poder em seu artigo remete a um modelo já ultrapassado pelos fatos, como se não houvesse outros atores de peso no mesmo cenário, e como se o próprio movimento não refletisse esta mudança.

(3) Quanto à vinculação entre classe e raça na formação da consciência como resultado de um processo histórico de estruturação sócio-econômica, uma anedota simples pode ajudar a entender a questão que você coloca em seu comentário, a da Bahia como situação &quot;exemplar&quot;, que não encontra &quot;paralelo em nenhum outro estado brasileiro&quot;. Subindo e descendo os morros de um bairro popular de Salvador na companhia de uma amiga lá residente, passamos pela porta do barraco de sua tia-avó, a quem esta amiga, por distração, não cumprimentou. Resposta imediata da tia, em tom jocoso: &quot;é, né? Depois que fica branca não fala mais com preto!&quot; É uma versão daquela velha chacota: &quot;depois que ficou rico não fala mais com os pobres!&quot;, lançada contra quem &quot;melhorou de vida&quot; e &quot;esqueceu as origens&quot;. Achei curiosa, mas bastante pertinente, a associação: &quot;ficar rico&quot; na Bahia é igual a &quot;ficar branco&quot;, e os &quot;pobres&quot; são &quot;pretos&quot;. Como esta já ouvi outras: &quot;roupa de branco&quot; (como quem diz &quot;roupa cara&quot;), &quot;carro de branco&quot; (como quem diz &quot;carro de luxo&quot;) etc. É exatamente o reflexo, na percepção mais simples e cotidiana, da formação da estrutura de classes na Bahia. Não tão surpreendentemente assim, lembrei de já ter ouvido metonímias semelhantes quando estive no Rio de Janeiro e em São Luís (MA). Com isto, quero dizer que esta &quot;consciência vinculada de classe e raça&quot; anda mais espalhada do que os &quot;casos exemplares&quot; podem fazer supor, e que precisamos ter olhos e ouvidos mais abertos para o que rola por aí.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Rafael, tenho alguns pontos a ressaltar, alguns deles já repetidamente.</p>
<p>(1) Acho que considerar &#8220;reforma agrária e demarcação de terras quilombolas&#8221; como &#8220;processos diferentes&#8221; faz parte exatamente deste &#8220;paradoxo&#8221; segundo o qual &#8220;a classe dominante vê mais elos do que as organizações [de esquerda] estabelecem em termos de estratégia de luta&#8221;. O &#8220;paradoxo&#8221; é tão grande que chega a aplicar-se a seu próprio artigo. Por alguns motivos:<br />
(a) Se a reforma agrária é um projeto de distribuição das terras de um país de maneira mais equânime, tanto a demarcação de terras quilombolas quanto a demarcação de terras indígenas se enquadram no conceito.<br />
(b) Pode-se igualmente, e com mais justiça, considerar que a reforma agrária envolve não apenas a redistribuição de terras, mas também toda a assessoria técnica à pequena produção resultante desta redistribuição, de acordo com os objetivos pautados pelos pequenos produtores. Do contrário, é a ante-sala do êxodo rural. E é exatamente este &#8212; assessoria técnica &#8212; um dos objetivos da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), que representa comunidades quilombolas de 21 estados, Da mesma forma, para usar um exemplo mais próximo, a Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME), que congrega 64 povos indígenas destes lugares, reivindica também assistência técnica e extensão rural para as comunidades indígenas. Se a conjugação entre democratização do acesso à terra e assessoria técnica (ou sua reivindicação) forem os critérios definidores de um processo de lutas por reforma agrária, a luta pela demarcação de terras indígenas e quilombolas entram neste critério e pode ser consideradas reforma agrária com folga.<br />
(c) A única hipótese de não se considerar a demarcação de terras quilombolas e indígenas como processos integrantes da reforma agrária é a perspectiva da agroindústria popular, pois os movimentos indígena e quilombola, em sua maioria, exigem respeito aos modos de produção tradicionais. É este o critério que você emprega para diferenciar as coisas? Porque se for este, o que pode-se extrair como conclusão deste critério é que somente luta pela reforma agrária quem aceita e/ou propõe esta pauta, e só quem a propõe é o próprio MST. Ora, a realidade mostra que ele, não obstante sua enorme relevância no cenário político do país, não é o único a lutar deste lado da trincheira. Ou então, como outra linha de raciocínio, o que advém é exatamente o que você disse, mas com o tiro saindo pela culatra: que a esquerda, você inclusive, tem sido míope quanto a esta questão, a de considerar a luta pela demarcação de terras indígenas e quilombolas como parte da reforma agrária.</p>
<p>(2) Os dados do Censo Agropecuário 2006 citados são, tal e qual, incusive na ordem dos dados citados, aqueles das seis páginas dos &#8220;Comentários&#8221; divulgados pelo próprio Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Eles são o fundamento da palavra-de-ordem dos movimentos de luta pela reforma agrária, de que &#8220;a agricultura familiar é quem produz para a mesa do brasileiro&#8221;. (É preciso antes de continuar fazer uma ressalva: &#8220;a agricultura familiar responde por 38% do valor da produção&#8221;, sim, como você diz, mas da produção agrícola, e não de uma produção &#8220;sem adjetivos&#8221;, que pode dar a entender que se trata da produção econômica brasileira em geral.) Apesar de servir para indicar a importância da luta pela reforma agrária para quem não a compreende bem, estes são dados que, apresentados soltos, não indicam problemas ainda mais sérios:<br />
(a) Os setores da agropecuária sobre os quais tem avançado a agricultura familiar, originária ou não de reforma agrária, são exatamente aqueles deixados de lado pelos latifundiários e pelos agronegociantes ao longo do desenvolvimento da economia brasileira. A atual estrutura da agropecuária brasileira segue, em linhas gerais, o mesmo estilo de produção para exportação vigente desde a colonização, no qual grandes latifundiários produzem para exportação e pequenos agricultores produzem para subsistência e pequeno comércio. Você pode ver estas questões comparando dados dos Censos Agropecuários de 1970, 1975, 1980, 1985 e 1995/1996 com os dados de 2006, com o dificultante de a agricultura familiar só haver sido considerada em comentários separados neste censo mais recente.<br />
(b) O Brasil em 2010 foi o terceiro maior exportador agrícola do mundo, mas apesar dos avanços da agricultura familiar e da agroindústria familiar, e apesar de o Brasil ter como carros-chefes de suas exportações exatamente produtos agrícolas, a representação da agropecuária no total do PIB brasileiro há muito tempo não passa dos 5%. O poder econômico do agronegócio é infinitamente menor que o poder econômico das classes que dominam os setores industrial e de serviços, em especial em relação ao setor industrial; tanto é assim que o setor industrial nem precisa disputar posições políticas no Congresso, porque tudo o que lhe diz respeito foi transformado em &#8220;questão técnica&#8221;, &#8220;questão procedimental&#8221;, e passa ao largo do parlamento, resolvendo-se pelo semi-automatismo dos &#8220;meios administrativos&#8221;. Ao invés de disputar votos para eleger representantes ao Congresso, basta-lhe disputar diretamente com o Comitê de Política Monetária (COPOM) as casas decimais da taxa de juros através da mídia e de pressão direta, ou &#8212; noutro exemplo &#8212; participar de missões diplomáticas brasileiras em viagens para a África e lá, com o beneplácito do Itamaraty, articular diretamente a exploração a ser feita.<br />
(c) Os comentários de João Bernardo sobre o &#8220;arcaísmo&#8221;, tal como os compreendi, vão neste sentido; de que as novas estruturas do poder colocam problemas novos para a militância, que precisam ser compreendidos de acordo com a experiência histórica &#8212; algo fundamental neste caso, em que a agricultura familiar já é praticada extensivamente há bastante tempo em outros lugares, sob outras condições históricas, econômicas e políticas que precisam ser levadas em conta. É o que diz também outro João, o Stedile, ao afirmar, apesar de todas as conquistas do movimento, que &#8220;aquela reforma agrária que o MST sonhou não existe mais&#8221;, ou que &#8220;o modelo atual aumenta a pobreza porque faveliza o campo&#8221;. Com esta crítica, ele indica uma mudança de postura do movimento quanto ao modelo de reforma agrária a ser reivindicado. Mas a pouca referência que você fez a uma estrutura de poder em seu artigo remete a um modelo já ultrapassado pelos fatos, como se não houvesse outros atores de peso no mesmo cenário, e como se o próprio movimento não refletisse esta mudança.</p>
<p>(3) Quanto à vinculação entre classe e raça na formação da consciência como resultado de um processo histórico de estruturação sócio-econômica, uma anedota simples pode ajudar a entender a questão que você coloca em seu comentário, a da Bahia como situação &#8220;exemplar&#8221;, que não encontra &#8220;paralelo em nenhum outro estado brasileiro&#8221;. Subindo e descendo os morros de um bairro popular de Salvador na companhia de uma amiga lá residente, passamos pela porta do barraco de sua tia-avó, a quem esta amiga, por distração, não cumprimentou. Resposta imediata da tia, em tom jocoso: &#8220;é, né? Depois que fica branca não fala mais com preto!&#8221; É uma versão daquela velha chacota: &#8220;depois que ficou rico não fala mais com os pobres!&#8221;, lançada contra quem &#8220;melhorou de vida&#8221; e &#8220;esqueceu as origens&#8221;. Achei curiosa, mas bastante pertinente, a associação: &#8220;ficar rico&#8221; na Bahia é igual a &#8220;ficar branco&#8221;, e os &#8220;pobres&#8221; são &#8220;pretos&#8221;. Como esta já ouvi outras: &#8220;roupa de branco&#8221; (como quem diz &#8220;roupa cara&#8221;), &#8220;carro de branco&#8221; (como quem diz &#8220;carro de luxo&#8221;) etc. É exatamente o reflexo, na percepção mais simples e cotidiana, da formação da estrutura de classes na Bahia. Não tão surpreendentemente assim, lembrei de já ter ouvido metonímias semelhantes quando estive no Rio de Janeiro e em São Luís (MA). Com isto, quero dizer que esta &#8220;consciência vinculada de classe e raça&#8221; anda mais espalhada do que os &#8220;casos exemplares&#8221; podem fazer supor, e que precisamos ter olhos e ouvidos mais abertos para o que rola por aí.</p>
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		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2011/03/36825/#comment-21175</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 08 Mar 2011 16:20:09 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O apego que a maioria da extrema-esquerda tem à imagem de um país arcaico não se circunscreve, infelizmente, ao Brasil. Para empregar os conceitos marxistas, essa extrema-esquerda sente-se capaz de lutar em termos de mais-valia absoluta, mas não de mais-valia relativa. E assim fica ultrapassada pelo desenvolvimento económico e condena-se à marginalização e à irrelevância. Na resposta ao meu comentário Villas Bôas demonstra uma vez mais o arcaísmo de concepções, quando escreve que «basta ver quem são os caciques da direita no Congresso Nacional». Ora, só na letra das Constituições é que, em qualquer país, o parlamento continua a ser um centro da soberania. Desde há várias décadas os parlamentos ficaram desprovidos de poder e o poder político passou para os bastidores, para os órgãos tecnocráticos de decisão e de assessoria. O facto de no Brasil os ruralistas mais retrógrados concentrarem a sua força no parlamento confirma que chegaram a um elevado grau de debilidade política. Mas é outro o problema principal.
A afirmação, muito corrente, de que a agricultura familiar ocupa uma elevada percentagem da força de trabalho relativamente à área onde está estabelecida corresponde simplesmente a afirmar que a agricultura familiar é genericamente pouco produtiva. Não percebo por que motivo as pessoas que usam este argumento se limitam ao campo e não o aplicam também à indústria. As pequenas oficinas de tecnologia arcaica empregam uma percentagem muito considerável de mão-de-obra relativamente ao &lt;em&gt;output&lt;/em&gt; que geram. Vamos, então, defender a desarticulação das grandes indústrias e a proliferação de pequenas oficinas? No capitalismo — visto que em tudo isto é de mercado capitalista que se trata — os ramos trabalho-intensivos são, por definição, os ramos com baixa produtividade. Enquanto o MST apresentar este tipo de programa económico, continuará a isolar-se da classe trabalhadora não só do agronegócio como igualmente da indústria. E é isto que, para mim, é verdadeiramente preocupante.
Se adoptarmos como modelo uma tecnologia agrária de carácter vernáculo, convém observar que em alguns estados da Índia e sobretudo em África, onde a agricultura e a pecuária familiares são muito disseminadas, o desmatamento e o esgotamento das terras atinge um grau muito elevado. É nessas regiões que devem estudar-se os efeitos a médio e longo prazo da generalização da agricultura familiar.
Sem dúvida que pode subsistir uma agricultura familiar aliada à modernização tecnológica e, portanto, com elevados índices de produtividade, como Villas Bôas defendeu no seu comentário. Mas será bom analisar as funções sociais deste tipo de agricultura na União Europeia, sobretudo em França, e nos Estados Unidos. O comentário de Leo Vinícius deu algumas indicações neste sentido, e a propósito é conveniente saber que Henry Ford, a figura que qualquer pessoa associa imediatamente à indústria de massas, foi também um incansável apologista da sociedade agrária. «Sou um homem do campo», afirmou ele em 1918, uma das muitas declarações do mesmo estilo que prodigou ao mundo. «Quero ver cada acre da superfície terrestre coberto por pequenas quintas, onde habitem pessoas felizes e satisfeitas». Aliás, Ford procurou desenvolver a agricultura familiar em relação com os seus complexos fabris. Estes devaneios ruralistas não eram politicamente inocentes, porque foram expostos em 1920 em &lt;em&gt;The International Jew&lt;/em&gt;, uma obra que Ford assinou e que tanto contribuiu para divulgar o anti-semitismo pelo mundo, exercendo uma influência directa sobre o racismo alemão e nomeadamente sobre Hitler.
Quem pretende defender a agricultura familiar como um instrumento anticapitalista não deve ignorar os casos históricos em que a agricultura familiar serviu como reforço social e ideológico do capitalismo. Já agora, quem será que escreveu as linhas seguintes? «A teoria mais desastrosa é a que estabelece um contacto íntimo e uma harmonia entre as ideias modernas e as catástrofes delas resultantes, dizendo que “tudo são sinais de progresso”, porque, se realmente forem, então será de um progresso que conduz ao abismo. Ninguém pode assinalar um progresso efectivo no facto de que, onde os nossos antepassados usavam moinhos de vento ou hidráulicos, nós empreguemos motores eléctricos. Sinal de um verdadeiro progresso seria a resposta a esta pergunta: que influência essas rodas exercem sobre nós? Foi a sociedade da época dos moinhos de vento melhor ou pior do que a actual? Foi mais uniforme nos costumes e na moral? Tinha mais respeito pela lei e formava caracteres mais elevados?». O autor destas linhas evoca o «respeito pela lei» e Villas Bôas preocupa-se igualmente com os índices de criminalidade elevados que atribui à dissolução da agricultura familiar. Interessante convergência. Mas índices de criminalidade elevados verificam-se numa grande diversidade de circunstâncias, pelo que não devem, neste caso, ser empregues como argumento.
O que procurei afirmar no meu comentário anterior, e que reforço neste, é que a agricultura familiar, em vez de ser uma solução, é um nó de problemas. E se quisermos, no quadro da agricultura familiar, desenvolver uma orientação anticapitalista não só social mas tecnologicamente, temos de estudar as experiências históricas em que a agricultura familiar serviu, social e tecnologicamente, de suporte do capitalismo. Se em vez de uma reacção desabrida, em que me compara aos jornalistas da &lt;em&gt;Veja&lt;/em&gt;, Villas Bôas tivesse aproveitado a minha indicação para ler as obras de Walter Darré e estudar a política agrária do Terceiro Reich, talvez passasse a entender melhor aquele complexo de problemas. Mas vejo agora que isso seria pedir demais.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O apego que a maioria da extrema-esquerda tem à imagem de um país arcaico não se circunscreve, infelizmente, ao Brasil. Para empregar os conceitos marxistas, essa extrema-esquerda sente-se capaz de lutar em termos de mais-valia absoluta, mas não de mais-valia relativa. E assim fica ultrapassada pelo desenvolvimento económico e condena-se à marginalização e à irrelevância. Na resposta ao meu comentário Villas Bôas demonstra uma vez mais o arcaísmo de concepções, quando escreve que «basta ver quem são os caciques da direita no Congresso Nacional». Ora, só na letra das Constituições é que, em qualquer país, o parlamento continua a ser um centro da soberania. Desde há várias décadas os parlamentos ficaram desprovidos de poder e o poder político passou para os bastidores, para os órgãos tecnocráticos de decisão e de assessoria. O facto de no Brasil os ruralistas mais retrógrados concentrarem a sua força no parlamento confirma que chegaram a um elevado grau de debilidade política. Mas é outro o problema principal.<br />
A afirmação, muito corrente, de que a agricultura familiar ocupa uma elevada percentagem da força de trabalho relativamente à área onde está estabelecida corresponde simplesmente a afirmar que a agricultura familiar é genericamente pouco produtiva. Não percebo por que motivo as pessoas que usam este argumento se limitam ao campo e não o aplicam também à indústria. As pequenas oficinas de tecnologia arcaica empregam uma percentagem muito considerável de mão-de-obra relativamente ao <em>output</em> que geram. Vamos, então, defender a desarticulação das grandes indústrias e a proliferação de pequenas oficinas? No capitalismo — visto que em tudo isto é de mercado capitalista que se trata — os ramos trabalho-intensivos são, por definição, os ramos com baixa produtividade. Enquanto o MST apresentar este tipo de programa económico, continuará a isolar-se da classe trabalhadora não só do agronegócio como igualmente da indústria. E é isto que, para mim, é verdadeiramente preocupante.<br />
Se adoptarmos como modelo uma tecnologia agrária de carácter vernáculo, convém observar que em alguns estados da Índia e sobretudo em África, onde a agricultura e a pecuária familiares são muito disseminadas, o desmatamento e o esgotamento das terras atinge um grau muito elevado. É nessas regiões que devem estudar-se os efeitos a médio e longo prazo da generalização da agricultura familiar.<br />
Sem dúvida que pode subsistir uma agricultura familiar aliada à modernização tecnológica e, portanto, com elevados índices de produtividade, como Villas Bôas defendeu no seu comentário. Mas será bom analisar as funções sociais deste tipo de agricultura na União Europeia, sobretudo em França, e nos Estados Unidos. O comentário de Leo Vinícius deu algumas indicações neste sentido, e a propósito é conveniente saber que Henry Ford, a figura que qualquer pessoa associa imediatamente à indústria de massas, foi também um incansável apologista da sociedade agrária. «Sou um homem do campo», afirmou ele em 1918, uma das muitas declarações do mesmo estilo que prodigou ao mundo. «Quero ver cada acre da superfície terrestre coberto por pequenas quintas, onde habitem pessoas felizes e satisfeitas». Aliás, Ford procurou desenvolver a agricultura familiar em relação com os seus complexos fabris. Estes devaneios ruralistas não eram politicamente inocentes, porque foram expostos em 1920 em <em>The International Jew</em>, uma obra que Ford assinou e que tanto contribuiu para divulgar o anti-semitismo pelo mundo, exercendo uma influência directa sobre o racismo alemão e nomeadamente sobre Hitler.<br />
Quem pretende defender a agricultura familiar como um instrumento anticapitalista não deve ignorar os casos históricos em que a agricultura familiar serviu como reforço social e ideológico do capitalismo. Já agora, quem será que escreveu as linhas seguintes? «A teoria mais desastrosa é a que estabelece um contacto íntimo e uma harmonia entre as ideias modernas e as catástrofes delas resultantes, dizendo que “tudo são sinais de progresso”, porque, se realmente forem, então será de um progresso que conduz ao abismo. Ninguém pode assinalar um progresso efectivo no facto de que, onde os nossos antepassados usavam moinhos de vento ou hidráulicos, nós empreguemos motores eléctricos. Sinal de um verdadeiro progresso seria a resposta a esta pergunta: que influência essas rodas exercem sobre nós? Foi a sociedade da época dos moinhos de vento melhor ou pior do que a actual? Foi mais uniforme nos costumes e na moral? Tinha mais respeito pela lei e formava caracteres mais elevados?». O autor destas linhas evoca o «respeito pela lei» e Villas Bôas preocupa-se igualmente com os índices de criminalidade elevados que atribui à dissolução da agricultura familiar. Interessante convergência. Mas índices de criminalidade elevados verificam-se numa grande diversidade de circunstâncias, pelo que não devem, neste caso, ser empregues como argumento.<br />
O que procurei afirmar no meu comentário anterior, e que reforço neste, é que a agricultura familiar, em vez de ser uma solução, é um nó de problemas. E se quisermos, no quadro da agricultura familiar, desenvolver uma orientação anticapitalista não só social mas tecnologicamente, temos de estudar as experiências históricas em que a agricultura familiar serviu, social e tecnologicamente, de suporte do capitalismo. Se em vez de uma reacção desabrida, em que me compara aos jornalistas da <em>Veja</em>, Villas Bôas tivesse aproveitado a minha indicação para ler as obras de Walter Darré e estudar a política agrária do Terceiro Reich, talvez passasse a entender melhor aquele complexo de problemas. Mas vejo agora que isso seria pedir demais.</p>
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		<title>
		Por: Rafael L. Villas Bôas		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2011/03/36825/#comment-21144</link>

		<dc:creator><![CDATA[Rafael L. Villas Bôas]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 08 Mar 2011 02:58:40 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Agradeço pelos comentários e abaixo dialogo com alguns deles: 

Em diálogo com João Bernardo:

¬ quanto ao “inconveniente mais notório da perspectiva arcaizante”: salvo engano, João Bernardo tem uma ideia preconcebida de agricultura familiar, sustentada pelo preconceito muito disseminado pela hegemonia, da posição de que o projeto da reforma agrária é avesso à tecnologia, ao “progresso óbvio” do modelo do agronegócio, se não, vejamos: 

1º) Os impasses do agronegócio, em seus próprios termos, foram citados no argumento (“índices de criminalidade das cidades de fronteira agrícola do agronegócio, desmatamento e exportação ilegal de madeira, monocultivo até o esgotamento da terra, criação de pastagens para pecuária extensiva, presença de trabalhadores em condições análogas à escravidão em fazendas-modelo do setor agrícola), não se trata de uma questão de dogma, mas de pesquisa, de comprovação científica.
Além disso, conforme dados apurados no Censo Agropecuário de 2006, divulgado pelo IBGE, nos pequenos estabelecimentos (área inferior a 200 hectares) estão quase 85% dos trabalhadores empregados. Embora a soma das áreas dos pequenos estabelecimentos (área inferior a 200 hectares) represente apenas 30,3% do total das áreas, eles respondem por 84,4% das pessoas empregadas. Os dados também mostram que esses trabalhadores fazem parte da agricultura familiar, cujos 12,8 milhões de produtores e seus parentes representam 77% do total de pessoas ocupadas. A agricultura familiar gera 15 postos de trabalho/100 ha, a não familiar gera apenas 1,7 pessoas/100 ha. A agricultura familiar responde por 87% da produção de mandioca, 70% da produção de feijão, 46% do milho, 38% do café, 34% do arroz, 58% do leite, 59% do plantel de suínos, 50% das aves, 30% dos bovinos e, ainda, 21% do trigo. Mesmo ocupando apenas ¼ da área, a agricultura familiar responde por 38% do valor da produção (R$ 54,4 bilhões).
O modelo defendido pelos movimentos ligados à Via Campesina não abre mão da apropriação da tecnologia, e se isso não ocorre tão agilmente, convém lembrar a serviço de quem está o Estado brasileiro antes de extraírmos juízo estático de uma situação dinâmica: apenas nas áreas do MST há cerca de duzentas agroindústrias, com toda dificuldade para linhas de crédito, etc. A agroindústria é meta do projeto de reforma agrária popular defendido pelo MST. Veja, a título de exemplo, entrevista publicada na página do MST http://www.mst.org.br/node/7748 no dia 28 de julho de 2009, com o presidente da Cooperoeste, “O potencial de nossas coperativas”.

2º) Interessante, a título de registro historiográfico, o dado sobre o uso do discurso sobre soberania alimentar e agricultura familiar pela extrema direita, pelo nazismo, mas o editor pretende daí comparar os movimentos sociais do campo brasileiro que defendem essas pautas com o movimento nazista? Isso caberia na revista Veja, que já comparou o MST com o nazismo por motivos como o uso de “uniforme”, a presença de forte ideologia, a ação organizada das massas, etc.
A crítica ao suposto arcaísmo do MST em quase nada se difere daquela feita pelos próceres do agronegócio. Caberia nessa seção de debate um artigo sobre os potenciais fatores contra-hegemônicos no campo da disputa pela matriz produtiva, levado adiante por alguns movimentos sociais, escrito por alguém que pesquise o tema.

¬ sobre a imagem de um país arcaico a que o autor supostamente tem apego: ok, bem colocado que há a questão mais recente dos fundos de pensão, das multinacionais beneficiárias dos empréstimos do BNDES e do sistema financeiro, e que há alterações significativas na estrutura do poder hegemônico em função de dados que levanta (que são foco de pesquisas do grupo “Modos de produção e antagonismos sociais”). Não fiz a devida ponderação e concordo com a ressalva, contudo, discordo da configuração dualista de teu contraponto. Aquela suposta velha classe dominante não foi descartada, basta ver quem são os caciques da direita no Congresso Nacional: na grande maioria são aqueles que constituíram seu poder pelo tripé citado, e que hoje acrescentam em seus patrimônios os dividendos de suas ações de mediadores lobistas do grande capital. A face arcaica é incorporada no novo ciclo de modernização conservadora, e além de não deixar de existir, segue sendo estruturante. Sobre a eficiência de nossas empresas de comunicação, concordo, somos recordistas em exportação de carne, soja e telenovelas, indício de quanto o caráter arcaico da estrutura do país é moderno. Enfim, não há dicotomia entre arcaico e moderno no Brasil, como negócio, aliás, o país já nasce como uma empresa bem sucedida...
- sobre a alegação da ausência dos vínculos entre as duas questões: procurei estabelecê-las em três frentes: das marcas originárias comuns (escravidão, lei de terras de 1850...), da posição da classe dominante frente às duas questões e das contradições prementes que já começam a render lutas articuladas (cito uma reportagem de dois dirigentes que justifica os motivos das lutas comuns no presente);

Sobre as conjecturas de Manolo: militantes não costumam usar sites abertos para debate sobre estratégia interna de suas organizações. O caso da Bahia, em termos de consciência vinculada de classe e raça, é exemplar, mas pelo que conheço, salvo engano, não há paralelo em nenhum outro estado brasileiro. Ponto C) sim, a direita vê bem as conexões, isso está no texto, bons os teus exemplos, o que chamo atenção é para o paradoxo: a classe dominante vê mais elos do que as organizações estabelecem em termos de estratégia de luta. Reforma agrária e demarcação de terras quilombolas são processos diferentes...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Agradeço pelos comentários e abaixo dialogo com alguns deles: </p>
<p>Em diálogo com João Bernardo:</p>
<p>¬ quanto ao “inconveniente mais notório da perspectiva arcaizante”: salvo engano, João Bernardo tem uma ideia preconcebida de agricultura familiar, sustentada pelo preconceito muito disseminado pela hegemonia, da posição de que o projeto da reforma agrária é avesso à tecnologia, ao “progresso óbvio” do modelo do agronegócio, se não, vejamos: </p>
<p>1º) Os impasses do agronegócio, em seus próprios termos, foram citados no argumento (“índices de criminalidade das cidades de fronteira agrícola do agronegócio, desmatamento e exportação ilegal de madeira, monocultivo até o esgotamento da terra, criação de pastagens para pecuária extensiva, presença de trabalhadores em condições análogas à escravidão em fazendas-modelo do setor agrícola), não se trata de uma questão de dogma, mas de pesquisa, de comprovação científica.<br />
Além disso, conforme dados apurados no Censo Agropecuário de 2006, divulgado pelo IBGE, nos pequenos estabelecimentos (área inferior a 200 hectares) estão quase 85% dos trabalhadores empregados. Embora a soma das áreas dos pequenos estabelecimentos (área inferior a 200 hectares) represente apenas 30,3% do total das áreas, eles respondem por 84,4% das pessoas empregadas. Os dados também mostram que esses trabalhadores fazem parte da agricultura familiar, cujos 12,8 milhões de produtores e seus parentes representam 77% do total de pessoas ocupadas. A agricultura familiar gera 15 postos de trabalho/100 ha, a não familiar gera apenas 1,7 pessoas/100 ha. A agricultura familiar responde por 87% da produção de mandioca, 70% da produção de feijão, 46% do milho, 38% do café, 34% do arroz, 58% do leite, 59% do plantel de suínos, 50% das aves, 30% dos bovinos e, ainda, 21% do trigo. Mesmo ocupando apenas ¼ da área, a agricultura familiar responde por 38% do valor da produção (R$ 54,4 bilhões).<br />
O modelo defendido pelos movimentos ligados à Via Campesina não abre mão da apropriação da tecnologia, e se isso não ocorre tão agilmente, convém lembrar a serviço de quem está o Estado brasileiro antes de extraírmos juízo estático de uma situação dinâmica: apenas nas áreas do MST há cerca de duzentas agroindústrias, com toda dificuldade para linhas de crédito, etc. A agroindústria é meta do projeto de reforma agrária popular defendido pelo MST. Veja, a título de exemplo, entrevista publicada na página do MST <a href="http://www.mst.org.br/node/7748" rel="nofollow ugc">http://www.mst.org.br/node/7748</a> no dia 28 de julho de 2009, com o presidente da Cooperoeste, “O potencial de nossas coperativas”.</p>
<p>2º) Interessante, a título de registro historiográfico, o dado sobre o uso do discurso sobre soberania alimentar e agricultura familiar pela extrema direita, pelo nazismo, mas o editor pretende daí comparar os movimentos sociais do campo brasileiro que defendem essas pautas com o movimento nazista? Isso caberia na revista Veja, que já comparou o MST com o nazismo por motivos como o uso de “uniforme”, a presença de forte ideologia, a ação organizada das massas, etc.<br />
A crítica ao suposto arcaísmo do MST em quase nada se difere daquela feita pelos próceres do agronegócio. Caberia nessa seção de debate um artigo sobre os potenciais fatores contra-hegemônicos no campo da disputa pela matriz produtiva, levado adiante por alguns movimentos sociais, escrito por alguém que pesquise o tema.</p>
<p>¬ sobre a imagem de um país arcaico a que o autor supostamente tem apego: ok, bem colocado que há a questão mais recente dos fundos de pensão, das multinacionais beneficiárias dos empréstimos do BNDES e do sistema financeiro, e que há alterações significativas na estrutura do poder hegemônico em função de dados que levanta (que são foco de pesquisas do grupo “Modos de produção e antagonismos sociais”). Não fiz a devida ponderação e concordo com a ressalva, contudo, discordo da configuração dualista de teu contraponto. Aquela suposta velha classe dominante não foi descartada, basta ver quem são os caciques da direita no Congresso Nacional: na grande maioria são aqueles que constituíram seu poder pelo tripé citado, e que hoje acrescentam em seus patrimônios os dividendos de suas ações de mediadores lobistas do grande capital. A face arcaica é incorporada no novo ciclo de modernização conservadora, e além de não deixar de existir, segue sendo estruturante. Sobre a eficiência de nossas empresas de comunicação, concordo, somos recordistas em exportação de carne, soja e telenovelas, indício de quanto o caráter arcaico da estrutura do país é moderno. Enfim, não há dicotomia entre arcaico e moderno no Brasil, como negócio, aliás, o país já nasce como uma empresa bem sucedida&#8230;<br />
&#8211; sobre a alegação da ausência dos vínculos entre as duas questões: procurei estabelecê-las em três frentes: das marcas originárias comuns (escravidão, lei de terras de 1850&#8230;), da posição da classe dominante frente às duas questões e das contradições prementes que já começam a render lutas articuladas (cito uma reportagem de dois dirigentes que justifica os motivos das lutas comuns no presente);</p>
<p>Sobre as conjecturas de Manolo: militantes não costumam usar sites abertos para debate sobre estratégia interna de suas organizações. O caso da Bahia, em termos de consciência vinculada de classe e raça, é exemplar, mas pelo que conheço, salvo engano, não há paralelo em nenhum outro estado brasileiro. Ponto C) sim, a direita vê bem as conexões, isso está no texto, bons os teus exemplos, o que chamo atenção é para o paradoxo: a classe dominante vê mais elos do que as organizações estabelecem em termos de estratégia de luta. Reforma agrária e demarcação de terras quilombolas são processos diferentes&#8230;</p>
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