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	Comentários sobre: Luta, que cura! (1ª Parte)	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Eduardo Tomazine Teixeira		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2011/05/40157/#comment-26311</link>

		<dc:creator><![CDATA[Eduardo Tomazine Teixeira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 26 May 2011 22:46:19 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Tomemos um trecho do comentário do Allan: &quot;Outro problema são as dificuldades psicológicas individuais dos militantes que já entram nos espaços de luta com objetivos outros que não sejam a materialidade da ação e da construção de uma sociedade para além do capitalismo.&quot; Essa é uma boa demonstração de uma dicotomia que não impera só entre os liberais: de um lado, indivíduo; do outro, a sociedade. Além de ser uma boa prova de um materialismo dos mais rasteiros - mesmo para os materialistas. Dois problemas: 1) a constituição psíquica de cada um (inclusive destes que pretendem construir a sociedade para além do capitalismo) é um produto da relação deste cada um com a sociedade que lhe constitui; 2) se a única forma de lutar contra o sistema de opressão é desenvolvermos, desde já, as relações que desejamos generalizadas na sociedade de amanhã, como poderia o espaço da luta não representar também um espaço onde tentamos superar, usando os termos do Allan, &quot;as dificuldades psicológicas individuais dos militantes&quot;? Eu não diria amigos, mas seu eu não puder fazer bons companheiros na revolução, então essa não é a minha revolução, camarada! 

A sensibilidade psicológica que deve ser assimilada por uma organização revolucionária, no meu entendimento, deve levar em conta, claro, o acompanhamento e tratamento das disfunções causadas pelos embates da luta (pressão da polícia, dos capangas, da milícia; o risco de perder a casa, o emprego etc.); mas também daquelas que vêm de casa, da fábrica, da sala de aula, da rua e, frequentemente, dentro das próprias organizações e  costumam ser tomadas, infelizmente, como as &quot;dificuldades psicológicas individuais dos militantes&quot;. Ora, mesmo que não tenhamos um psicanalista ou um terapeuta de plantão nas nossas organizações e demais espaços de luta (como temos advogados - afinal, as leis são materiais...), prestar atenção nesses aspectos deve entrar na nossa agenda se não quisermos ser alienados nessa esfera de constituição do ser humano. Como fazer isso é uma boa pergunta. Acho que o Marco (nosso Frantz Fannon inserido no movimento sem-teto/terra) vai trazer uma tentativa de resposta na próxima parte do artigo... 

Sobre o interessante problema apontado pelo Manolo - essa &quot;lei de ferro&quot; de criação de uma elite de militantes em contraste ao esmorecimento da base -, posso apontar duas razões (entre outras) que podem estar por trás disso. Uma é a ênfase desmesurada sobre as conquistas materiais da luta, o que pode implicar frustrações. A outra é prima da primeira, que é a projeção da luta para uma &quot;vitória final&quot; (que consta até como verso da Internacional...), um tudo ou nada que, também, costuma acabar em frustração. Não quero, absolutamente, desprezar a importância das conquistas &quot;materiais&quot;: terra, casa, aprovação de uma lei progressista etc. Por outro lado, se a luta for, desde já, um espaço mais humano que queremos ver generalizado para o amanhã, e se considerarmos ganhos de auto-estima como conquistas, então talvez seja possível, no âmbito de organizações libertárias, diminuir essa tendência ao descolamento das bases.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tomemos um trecho do comentário do Allan: &#8220;Outro problema são as dificuldades psicológicas individuais dos militantes que já entram nos espaços de luta com objetivos outros que não sejam a materialidade da ação e da construção de uma sociedade para além do capitalismo.&#8221; Essa é uma boa demonstração de uma dicotomia que não impera só entre os liberais: de um lado, indivíduo; do outro, a sociedade. Além de ser uma boa prova de um materialismo dos mais rasteiros &#8211; mesmo para os materialistas. Dois problemas: 1) a constituição psíquica de cada um (inclusive destes que pretendem construir a sociedade para além do capitalismo) é um produto da relação deste cada um com a sociedade que lhe constitui; 2) se a única forma de lutar contra o sistema de opressão é desenvolvermos, desde já, as relações que desejamos generalizadas na sociedade de amanhã, como poderia o espaço da luta não representar também um espaço onde tentamos superar, usando os termos do Allan, &#8220;as dificuldades psicológicas individuais dos militantes&#8221;? Eu não diria amigos, mas seu eu não puder fazer bons companheiros na revolução, então essa não é a minha revolução, camarada! </p>
<p>A sensibilidade psicológica que deve ser assimilada por uma organização revolucionária, no meu entendimento, deve levar em conta, claro, o acompanhamento e tratamento das disfunções causadas pelos embates da luta (pressão da polícia, dos capangas, da milícia; o risco de perder a casa, o emprego etc.); mas também daquelas que vêm de casa, da fábrica, da sala de aula, da rua e, frequentemente, dentro das próprias organizações e  costumam ser tomadas, infelizmente, como as &#8220;dificuldades psicológicas individuais dos militantes&#8221;. Ora, mesmo que não tenhamos um psicanalista ou um terapeuta de plantão nas nossas organizações e demais espaços de luta (como temos advogados &#8211; afinal, as leis são materiais&#8230;), prestar atenção nesses aspectos deve entrar na nossa agenda se não quisermos ser alienados nessa esfera de constituição do ser humano. Como fazer isso é uma boa pergunta. Acho que o Marco (nosso Frantz Fannon inserido no movimento sem-teto/terra) vai trazer uma tentativa de resposta na próxima parte do artigo&#8230; </p>
<p>Sobre o interessante problema apontado pelo Manolo &#8211; essa &#8220;lei de ferro&#8221; de criação de uma elite de militantes em contraste ao esmorecimento da base -, posso apontar duas razões (entre outras) que podem estar por trás disso. Uma é a ênfase desmesurada sobre as conquistas materiais da luta, o que pode implicar frustrações. A outra é prima da primeira, que é a projeção da luta para uma &#8220;vitória final&#8221; (que consta até como verso da Internacional&#8230;), um tudo ou nada que, também, costuma acabar em frustração. Não quero, absolutamente, desprezar a importância das conquistas &#8220;materiais&#8221;: terra, casa, aprovação de uma lei progressista etc. Por outro lado, se a luta for, desde já, um espaço mais humano que queremos ver generalizado para o amanhã, e se considerarmos ganhos de auto-estima como conquistas, então talvez seja possível, no âmbito de organizações libertárias, diminuir essa tendência ao descolamento das bases.</p>
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		<title>
		Por: Manolo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2011/05/40157/#comment-26277</link>

		<dc:creator><![CDATA[Manolo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 May 2011 23:01:07 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Foi em Recife onde aprendi a origem da mística nos movimentos sociais. Numa reunião com uma liderança do MTST que por acaso também é pastor (ou religioso de algum tipo), estava no chão um conjunto bem-disposto de bandeiras, frutas, folhas, farinha de pupunha, pé-de-moleque, jornais, revistas, livros etc. Ao apresentar-se, com grandes arroubos oratórios, esta liderança relembrou sua formação enquanto militante, que se deu inclusive naquele mesmo convento onde realizávamos o encontro (a hospedagem nas casas da Santa Madre é sempre mais barata que hotel). E apontou para o chão: &quot;... e vejo que vocês mantém esta origem, olha as sementes, as frutas, toda esta linda simbologia do altar que vocês fizeram...&quot; Caiu a ficha.

Não nego que a mística sirva para, de alguma forma, resgatar para os presentes certa ligação com as lutas do passado e ativar mecanismos afetivos de vinculação às lutas. Mas seria o rito católico o único possível?

Dialogando com Caribé, lembrei de tudo o que já vi e vivi nas lutas de que participei. E a situação é tal e qual ele desenha: disciplinadíssimos leninistas amarrados pela tarja-preta, ex-militantes de CEBs afogados no álcool, suicídios rápidos e suicídios a conta-gotas... Nada disto é assim tão &quot;anormal&quot; quanto parece. 

Mas sabe quando isto, de alguma maneira, melhora, ou fica &quot;menos pior&quot;? Justamente nos períodos mais ativos e coletivos das lutas. No início das ocupações de terra (no campo e na cidade), quando as assembleias são frequentes, tudo ainda está por construir, toda ajuda é boa, e todos metem a mão na massa. Isto vai durando até as primeiras mobilizações, as primeiras caminhadas, as primeiras paralizações de trânsito... 

E se tais iniciativas não resolvem a questão imediatamente, há um desânimo, uma sensação de que não adianta... e começam a surgir, deste desânimo, os embriões do apassivamento das &quot;bases&quot; e da consolidação da &quot;vanguarda&quot;, da &quot;minoria ativa&quot;, daqueles que tomam a frente das coisas, como um grupo de pessoas que tem o telefone do gabinete de Dr. Fulano; que conhece Sicrana e Beltrana que estudam na universidade e ajudam a fazer algumas mobilizações em troca de apoio a alguma atividade estudantil; que conhecem as técnicas necessárias para mobilizar as pessoas por qualquer motivo, dos mais legítimos aos mais absurdos; enfim, a consolidação deste grupo como uma elite cada vez mais separada daqueles com quem construíram a ocupação, a luta, o movimento. Dadas certas condições em processos de luta, é o que termina acontecendo quase invariavelmente. Depois disso, iniciado este processo, tome-lhe mística, tome-lhe Igreja Universal e tome-lhe Rivotril.

A solução para a questão estaria numa &quot;ginástica revolucionária&quot; estilo CNT-FAI, fazer mobilização atrás de mobilização até a vitória, sempre? Tenho cá minhas dúvidas se algum movimento nas atuais condições -- na verdade, falo das pessoas que o integram -- suportaria ritmo tão puxado. Só penso que qualquer iniciativa que resgate a dignidade humana daquelas pessoas que comem o pão que o diabo amassou nos processos de luta mais duros passa pela ruptura com este processo geminado de apassivamento/elitização.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Foi em Recife onde aprendi a origem da mística nos movimentos sociais. Numa reunião com uma liderança do MTST que por acaso também é pastor (ou religioso de algum tipo), estava no chão um conjunto bem-disposto de bandeiras, frutas, folhas, farinha de pupunha, pé-de-moleque, jornais, revistas, livros etc. Ao apresentar-se, com grandes arroubos oratórios, esta liderança relembrou sua formação enquanto militante, que se deu inclusive naquele mesmo convento onde realizávamos o encontro (a hospedagem nas casas da Santa Madre é sempre mais barata que hotel). E apontou para o chão: &#8220;&#8230; e vejo que vocês mantém esta origem, olha as sementes, as frutas, toda esta linda simbologia do altar que vocês fizeram&#8230;&#8221; Caiu a ficha.</p>
<p>Não nego que a mística sirva para, de alguma forma, resgatar para os presentes certa ligação com as lutas do passado e ativar mecanismos afetivos de vinculação às lutas. Mas seria o rito católico o único possível?</p>
<p>Dialogando com Caribé, lembrei de tudo o que já vi e vivi nas lutas de que participei. E a situação é tal e qual ele desenha: disciplinadíssimos leninistas amarrados pela tarja-preta, ex-militantes de CEBs afogados no álcool, suicídios rápidos e suicídios a conta-gotas&#8230; Nada disto é assim tão &#8220;anormal&#8221; quanto parece. </p>
<p>Mas sabe quando isto, de alguma maneira, melhora, ou fica &#8220;menos pior&#8221;? Justamente nos períodos mais ativos e coletivos das lutas. No início das ocupações de terra (no campo e na cidade), quando as assembleias são frequentes, tudo ainda está por construir, toda ajuda é boa, e todos metem a mão na massa. Isto vai durando até as primeiras mobilizações, as primeiras caminhadas, as primeiras paralizações de trânsito&#8230; </p>
<p>E se tais iniciativas não resolvem a questão imediatamente, há um desânimo, uma sensação de que não adianta&#8230; e começam a surgir, deste desânimo, os embriões do apassivamento das &#8220;bases&#8221; e da consolidação da &#8220;vanguarda&#8221;, da &#8220;minoria ativa&#8221;, daqueles que tomam a frente das coisas, como um grupo de pessoas que tem o telefone do gabinete de Dr. Fulano; que conhece Sicrana e Beltrana que estudam na universidade e ajudam a fazer algumas mobilizações em troca de apoio a alguma atividade estudantil; que conhecem as técnicas necessárias para mobilizar as pessoas por qualquer motivo, dos mais legítimos aos mais absurdos; enfim, a consolidação deste grupo como uma elite cada vez mais separada daqueles com quem construíram a ocupação, a luta, o movimento. Dadas certas condições em processos de luta, é o que termina acontecendo quase invariavelmente. Depois disso, iniciado este processo, tome-lhe mística, tome-lhe Igreja Universal e tome-lhe Rivotril.</p>
<p>A solução para a questão estaria numa &#8220;ginástica revolucionária&#8221; estilo CNT-FAI, fazer mobilização atrás de mobilização até a vitória, sempre? Tenho cá minhas dúvidas se algum movimento nas atuais condições &#8212; na verdade, falo das pessoas que o integram &#8212; suportaria ritmo tão puxado. Só penso que qualquer iniciativa que resgate a dignidade humana daquelas pessoas que comem o pão que o diabo amassou nos processos de luta mais duros passa pela ruptura com este processo geminado de apassivamento/elitização.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Allan		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2011/05/40157/#comment-26268</link>

		<dc:creator><![CDATA[Allan]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 May 2011 17:18:24 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Acho importante delimitarmos uma diferença entre o que me parece uma psicologia das lutas sociais, ou seja, um sentimento coletivo que perpassa os atuantes em determinada luta e a psicologia individual de cada pessoa que milita.

Sempre que se coloca essa questão da mística nos espaços, numa perspectiva de amparo psicológico aos militantes - e ai não durante a luta - tenho certa dificuldade em não relacionar esse aspecto com as origens católicas dos movimentos campesinos. Sempre que participo, me sinto retornando aos rituais semanais das missas de minha infância e que me remetem, necessariamente a adoração de símbolos que expressam hierarquias bem claras e uma inventividade demasiado extensa para alguém que é desejoso de ser um materialista. Acho que na atuação cotidiana faz-se necessário esse tipo de apego as origens religiosas por ainda não nos termos dado conta de o quão material - e real - é a nossa luta. Entretanto, outro aspecto bem diferente ocorre quando a ação está para ocorrer, ou seja, quando a subjetividade é pautada pela materialidade do embate direto contra nossos algozes. Justamente quando estamos focados na ação, o amparo psicológico da mística se torna obsoleto frente ao material e concreto posto que é a luta e todas as suas derivações.

Outro problema são as dificuldades psicológicas individuais dos militantes que já entram nos espaços de luta com objetivos outros que não sejam a materialidade da ação e da construção de uma sociedade para além do capitalismo. Querem fazer parte de algo maior, fazer novos amigos ou curar sua timidez... Enfim, já ouvi diversas trajetórias de pessoas que se decepcionaram por conta disso,de não entender nem buscar a materialidade da luta, e sim quererem resolver seus problemas individuais nesses espaços, buscarem alento individual na &quot;mística&quot;. Isso nada mais é do que o problema da exploração desmedida do sistema refletida no psicológico das pessoas que se inserem nas organizações e não reflexo de estruturas mais ou menos heterogestionadas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Acho importante delimitarmos uma diferença entre o que me parece uma psicologia das lutas sociais, ou seja, um sentimento coletivo que perpassa os atuantes em determinada luta e a psicologia individual de cada pessoa que milita.</p>
<p>Sempre que se coloca essa questão da mística nos espaços, numa perspectiva de amparo psicológico aos militantes &#8211; e ai não durante a luta &#8211; tenho certa dificuldade em não relacionar esse aspecto com as origens católicas dos movimentos campesinos. Sempre que participo, me sinto retornando aos rituais semanais das missas de minha infância e que me remetem, necessariamente a adoração de símbolos que expressam hierarquias bem claras e uma inventividade demasiado extensa para alguém que é desejoso de ser um materialista. Acho que na atuação cotidiana faz-se necessário esse tipo de apego as origens religiosas por ainda não nos termos dado conta de o quão material &#8211; e real &#8211; é a nossa luta. Entretanto, outro aspecto bem diferente ocorre quando a ação está para ocorrer, ou seja, quando a subjetividade é pautada pela materialidade do embate direto contra nossos algozes. Justamente quando estamos focados na ação, o amparo psicológico da mística se torna obsoleto frente ao material e concreto posto que é a luta e todas as suas derivações.</p>
<p>Outro problema são as dificuldades psicológicas individuais dos militantes que já entram nos espaços de luta com objetivos outros que não sejam a materialidade da ação e da construção de uma sociedade para além do capitalismo. Querem fazer parte de algo maior, fazer novos amigos ou curar sua timidez&#8230; Enfim, já ouvi diversas trajetórias de pessoas que se decepcionaram por conta disso,de não entender nem buscar a materialidade da luta, e sim quererem resolver seus problemas individuais nesses espaços, buscarem alento individual na &#8220;mística&#8221;. Isso nada mais é do que o problema da exploração desmedida do sistema refletida no psicológico das pessoas que se inserem nas organizações e não reflexo de estruturas mais ou menos heterogestionadas.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: D.Caribé		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2011/05/40157/#comment-26238</link>

		<dc:creator><![CDATA[D.Caribé]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 May 2011 19:21:47 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=40157#comment-26238</guid>

					<description><![CDATA[Antes de tudo, achei o comentário de Eduardo Tomazine tão interessante quanto o artigo e acho que o autor poderia desenvolvê-lo melhor em um novo texto. Sim, é um pedido!

No mais, esse é um tema que andou me interessando muito ultimamente e, claro, me deparei com pouquíssimas coisas escritas que me ajudassem a entender os problemas psicológicos, se assim podemos chamá-los, que afetam os militantes de esquerda. Talvez seja porque realmente não estamos preparados para entender a questão, ou talvez seja porque ele não é exclusividade nossa e estamos chegando atrasados na questão. 

Qualquer um que participa de uma organização que sustente uma luta social qualquer vê a depressão dos seus militantes como um dos maiores problemas para o desenvolvimento das lutas. A partir daí, claro, eu tendia a chegar à conclusão oposta a que chegou o artigo de Marco, a saber: que a luta social, do jeito que está sendo feita, leva os seus sujeitos a um estado de degradação psicológica muito mais acentuada do que o normal, por mais que em muitíssimos casos os levem a uma situação material melhor. Bom, depois de me afastar por um tempo das lutas sociais concretas (porque a gente nunca se afasta por completo delas, mas só do seu cotidiano), e me adentrar em outros espaços organizativos com pautas e estruturas organizativas aparentemente distintas das organizações pautadas nas lutas sociais, entretanto tidas como marginais, percebi que a depressão e outras doenças/distúrbios da psique são tão ou até mais incidentes nestas organizações. Depois, então, passei a me perguntar se em outros espaços mais conservadores e que buscam seguir a lógica organizativa hegemônica e que em nenhum momento buscam questionar a sociedade (por exemplo, uma empresa ou um órgão da administração pública, ou a organização do tráfico de drogas ou um partido político de estrutura leninista) estas questões não seriam tão fortes quanto nos espaços dos quais eu tinha algum tipo de experiência. Claro, como freqüentei a universidade, tenho mais conhecidos nestes espaços do que naqueles primeiros, e como passei a ficar curioso e atento ao assunto, vi que por lá o nível de depressão me pareceu tão alto quanto nas organizações sociais. Então a qual conclusão eu posso chegar? Exatamente a nenhuma! Eu nem sequer poderia dizer que nas organizações rígidas e hierarquizadas havia uma preocupação menor com esses aspectos do que nas organizações das lutas sociais, porque nos dois casos o problema maior é o da produtividade, e eles de lá, das empresas, sabem lidar com isso muitíssimo melhor do que a gente. 

O primeiro a se fazer, se eu quiser responder a esta questão (a saber: se nas organizações das lutas sociais de alguma forma a depressão e outras questões de ordem psicológica se apresentam de forma diferenciada em relação às outras estruturas organizativas) é fazer algum tipo de levantamento que busque me mostrar se um espaço é ou não mais propício ao surgimento de problemas de ordem psicológica e individual do que em outros. No “olhômetro” eu não vejo como chegar a conclusão nenhuma. 

Mas a observação tem muita validade, antes que alguém diga que disse o inverso, até porque é a partir dela que decidimos o que vamos estudar. Daí, por exemplo, eu concordo com o artigo (na base sempre da observação), de que a luta social “cura”, desde que sejam separados aqueles que começaram agora a lutar dos que já estão organicamente (eu nunca vi sentido nesta expressão, mas serve pra dialogar nos meios de esquerda) inseridos na luta. Tenho pro base os sujeitos do meio estudantil e das ocupações de sem-teto não organizados antes das ações que os convidam à militância e à posterior organização. É nítido pra mim que nesses sujeitos, já no primeiro contato com as lutas sociais, há uma alegria contagiante em todos, que pode parecer o oposto da depressão (talvez até seja, vai lá saber). Claro, pra uma quantidade considerável deles, o isolamento social em que se encontravam é rompido com a participação política e organizativa. Mas depois desse primeiro momento e em conseqüência às primeiras derrotas e logo depois com a derrota definitiva daquela luta (sejamos honestos conosco: quando alguém entra numa ocupação, o que ele quer é ganhar aquele terreno, e não fazer revolução socialista!) um outro tipo de depressão se manifesta nos seus militantes. Eaí parei pra pensar em inúmeras vezes se não é uma depressão pior do que a que esses sujeitos viviam antes. Ter consciência do que lhe aflige e se sentir impotente diante disso, já que fez o que poderia ser feito, é o que caracteriza essa nova depressão. Aliás, tem um filme que se visto sob esta ótima me parece bem interessante, que é o “Lixo Extraordinário”. Está colocado este debate lá de alguma forma, inclusive a responsabilidade das vanguardas nessa dinâmica de motivação/decepção dos militantes.

Enfim, não falo essas coisas todas pra desmotivar que participemos das lutas. Pelo contrário. Escrevo essas coisas para melhorá-las, para temos mais clareza onde nos metemos e, daí, podermos fazer algo melhor do que já estamos fazendo. Dizer que a luta é um espaço terapêutico pode ser um caminho bem fácil para não encararmos os dilemas que estamos enfrentando. Terapeutico durante três ou quatro meses? E depois, como lidar com a frustração coletiva? E quando temos que nos organizar, nos enfiar no dia-a-dia de responsabilidades, de ter que abrir mão de muitas coisas pra poder &quot;tocar&quot; a luta, será que ficamos realmente felizes, de boa com a gente?

Tinha outras coisas a dizer, mas como eu mesmo me encho dos comentários gigantescos... ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Antes de tudo, achei o comentário de Eduardo Tomazine tão interessante quanto o artigo e acho que o autor poderia desenvolvê-lo melhor em um novo texto. Sim, é um pedido!</p>
<p>No mais, esse é um tema que andou me interessando muito ultimamente e, claro, me deparei com pouquíssimas coisas escritas que me ajudassem a entender os problemas psicológicos, se assim podemos chamá-los, que afetam os militantes de esquerda. Talvez seja porque realmente não estamos preparados para entender a questão, ou talvez seja porque ele não é exclusividade nossa e estamos chegando atrasados na questão. </p>
<p>Qualquer um que participa de uma organização que sustente uma luta social qualquer vê a depressão dos seus militantes como um dos maiores problemas para o desenvolvimento das lutas. A partir daí, claro, eu tendia a chegar à conclusão oposta a que chegou o artigo de Marco, a saber: que a luta social, do jeito que está sendo feita, leva os seus sujeitos a um estado de degradação psicológica muito mais acentuada do que o normal, por mais que em muitíssimos casos os levem a uma situação material melhor. Bom, depois de me afastar por um tempo das lutas sociais concretas (porque a gente nunca se afasta por completo delas, mas só do seu cotidiano), e me adentrar em outros espaços organizativos com pautas e estruturas organizativas aparentemente distintas das organizações pautadas nas lutas sociais, entretanto tidas como marginais, percebi que a depressão e outras doenças/distúrbios da psique são tão ou até mais incidentes nestas organizações. Depois, então, passei a me perguntar se em outros espaços mais conservadores e que buscam seguir a lógica organizativa hegemônica e que em nenhum momento buscam questionar a sociedade (por exemplo, uma empresa ou um órgão da administração pública, ou a organização do tráfico de drogas ou um partido político de estrutura leninista) estas questões não seriam tão fortes quanto nos espaços dos quais eu tinha algum tipo de experiência. Claro, como freqüentei a universidade, tenho mais conhecidos nestes espaços do que naqueles primeiros, e como passei a ficar curioso e atento ao assunto, vi que por lá o nível de depressão me pareceu tão alto quanto nas organizações sociais. Então a qual conclusão eu posso chegar? Exatamente a nenhuma! Eu nem sequer poderia dizer que nas organizações rígidas e hierarquizadas havia uma preocupação menor com esses aspectos do que nas organizações das lutas sociais, porque nos dois casos o problema maior é o da produtividade, e eles de lá, das empresas, sabem lidar com isso muitíssimo melhor do que a gente. </p>
<p>O primeiro a se fazer, se eu quiser responder a esta questão (a saber: se nas organizações das lutas sociais de alguma forma a depressão e outras questões de ordem psicológica se apresentam de forma diferenciada em relação às outras estruturas organizativas) é fazer algum tipo de levantamento que busque me mostrar se um espaço é ou não mais propício ao surgimento de problemas de ordem psicológica e individual do que em outros. No “olhômetro” eu não vejo como chegar a conclusão nenhuma. </p>
<p>Mas a observação tem muita validade, antes que alguém diga que disse o inverso, até porque é a partir dela que decidimos o que vamos estudar. Daí, por exemplo, eu concordo com o artigo (na base sempre da observação), de que a luta social “cura”, desde que sejam separados aqueles que começaram agora a lutar dos que já estão organicamente (eu nunca vi sentido nesta expressão, mas serve pra dialogar nos meios de esquerda) inseridos na luta. Tenho pro base os sujeitos do meio estudantil e das ocupações de sem-teto não organizados antes das ações que os convidam à militância e à posterior organização. É nítido pra mim que nesses sujeitos, já no primeiro contato com as lutas sociais, há uma alegria contagiante em todos, que pode parecer o oposto da depressão (talvez até seja, vai lá saber). Claro, pra uma quantidade considerável deles, o isolamento social em que se encontravam é rompido com a participação política e organizativa. Mas depois desse primeiro momento e em conseqüência às primeiras derrotas e logo depois com a derrota definitiva daquela luta (sejamos honestos conosco: quando alguém entra numa ocupação, o que ele quer é ganhar aquele terreno, e não fazer revolução socialista!) um outro tipo de depressão se manifesta nos seus militantes. Eaí parei pra pensar em inúmeras vezes se não é uma depressão pior do que a que esses sujeitos viviam antes. Ter consciência do que lhe aflige e se sentir impotente diante disso, já que fez o que poderia ser feito, é o que caracteriza essa nova depressão. Aliás, tem um filme que se visto sob esta ótima me parece bem interessante, que é o “Lixo Extraordinário”. Está colocado este debate lá de alguma forma, inclusive a responsabilidade das vanguardas nessa dinâmica de motivação/decepção dos militantes.</p>
<p>Enfim, não falo essas coisas todas pra desmotivar que participemos das lutas. Pelo contrário. Escrevo essas coisas para melhorá-las, para temos mais clareza onde nos metemos e, daí, podermos fazer algo melhor do que já estamos fazendo. Dizer que a luta é um espaço terapêutico pode ser um caminho bem fácil para não encararmos os dilemas que estamos enfrentando. Terapeutico durante três ou quatro meses? E depois, como lidar com a frustração coletiva? E quando temos que nos organizar, nos enfiar no dia-a-dia de responsabilidades, de ter que abrir mão de muitas coisas pra poder &#8220;tocar&#8221; a luta, será que ficamos realmente felizes, de boa com a gente?</p>
<p>Tinha outras coisas a dizer, mas como eu mesmo me encho dos comentários gigantescos&#8230; </p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Giancarlo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2011/05/40157/#comment-26214</link>

		<dc:creator><![CDATA[Giancarlo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 May 2011 03:52:55 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=40157#comment-26214</guid>

					<description><![CDATA[Interessantíssimo o artigo. Há tempos estava querendo ler Fanon e este artigo me instigou mais a lê-lo, até para perceber os limites, como o pontuado acima pelo &quot;Pobre&quot;.
Venho há alguns anos pensando sobre a questão terapêutica das lutas, de como no processo de luta e de autonomização de um grupo frente ao capitalismo os indivíduos vão desenvolvendo as suas potencialidades humanas e reforçando cada vez mais as lutas. Assim como também, por outro lado, de casos onde o stress causado pelo conflito contribui para surtos e desenvolvimento de problemas psíquicos.
As místicas, muito comuns no mst, cumprem, entre outros, um papel de fortalecimento de identidades coletivas, quesito fundamental para uma ocupação de terra por exemplo, já que se não se confia no companheiro ao lado tal tarefa se torna insustentável. No entanto, como um libertário eu pergunto: até que ponto estas místicas não reproduzem idéias e valores nacionalistas, centralizadores e dirigistas? Estou escrevendo um trabalho amador sobre o tema e em breve tornarei ele público para o debate.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Interessantíssimo o artigo. Há tempos estava querendo ler Fanon e este artigo me instigou mais a lê-lo, até para perceber os limites, como o pontuado acima pelo &#8220;Pobre&#8221;.<br />
Venho há alguns anos pensando sobre a questão terapêutica das lutas, de como no processo de luta e de autonomização de um grupo frente ao capitalismo os indivíduos vão desenvolvendo as suas potencialidades humanas e reforçando cada vez mais as lutas. Assim como também, por outro lado, de casos onde o stress causado pelo conflito contribui para surtos e desenvolvimento de problemas psíquicos.<br />
As místicas, muito comuns no mst, cumprem, entre outros, um papel de fortalecimento de identidades coletivas, quesito fundamental para uma ocupação de terra por exemplo, já que se não se confia no companheiro ao lado tal tarefa se torna insustentável. No entanto, como um libertário eu pergunto: até que ponto estas místicas não reproduzem idéias e valores nacionalistas, centralizadores e dirigistas? Estou escrevendo um trabalho amador sobre o tema e em breve tornarei ele público para o debate.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Eduardo Tomazine Teixeira		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2011/05/40157/#comment-26212</link>

		<dc:creator><![CDATA[Eduardo Tomazine Teixeira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 May 2011 23:58:03 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Caro Marco, vou tecer alguns comentários mesmo antes da publicação da segunda parte do artigo, pela qual espero ansiosamente! Antes, eu gostaria de endereçar ao leitor que se identificou como &quot;Pobre&quot; a seguinte pergunta: qual é o propósito do seu comentário? Não vejo absolutamente como ele pode contribuir para a elucidação do tema abordado pelo texto do Marco. 

Afinal, o grande problema apontado pelo artigo não é a crítica a uma certa ortodoxia de um certo marxismo, mas a constatação irrefutável de que existe uma assimetria enorme entre o conhecimento crítico produzido a respeito do papel do mundo psíquico no processo emancipatório e a sua apropriação na práxis das nossas organizações de esquerda. Como diminuir essa assimetria? 

Entrando, pois, no problema, achei primorosa a formulação segundo a qual, junto às análises conjunturais e da correlação de forças política, deveríamos encarar como uma tarefa fundamental dos revolucionários a análise das &quot;relações de forças subjetivas&quot; e as &quot;demandas simbólicas&quot; do povo. A minha objeção, no entanto, é quanto à redução do universo subjetivo (ou psíquico) a um produto das relações de classe, subordinando todas as demais relações geradoras de subjetividade às relações de produção. Creio que, nesse ponto, o autor do texto está coerente com o marxismo que ele professa, residindo o problema, pois, no tratamento materialista do tema.

Castoriadis, por exemplo, foi um dos pensadores revolucionários que mais profundamente refletiram a respeito do papel da psique no projeto de autonomia, e chegou a exercer, inclusive, a psicanálise durante muitos anos. Para ele, a psique é um dos pólos fundamentais, junto com o processo de socialização (os dois se moldando dialeticamente), da instituição da sociedade  -  e não um produto da luta de classes. No entanto, acho que as reflexões dele necessitam de um complemento, o qual os aportes trazidos por alguns teóricos de filiação marxista podem fornecer, sobretudo o papel da psicologia social e das terapias de grupo.

Mas bem, voltando à crítica ao materialismo em sua aproximação ao problema do papel terapêutico das lutas emancipatórias, as formulações de Fanon dão mostras das suas limitações: tratar as manifestações místicas e catárticas tradicionais (mesmo reconhecendo as suas contribuições terapêuticas) como portadoras de um certo &quot;veneno&quot;, por servirem para esfriar o sentimento de revolta contra a sua situação insuportável, e dizer que o movimento de libertação nacional substitui esses rituais por canalizar as energias libidinais na &quot;economia psíquica&quot; é o mesmo que tomar a metáfora econômica por uma realidade, como se a constituição das pulsões psíquicas realmente compartilhassem o mesmo princípio de escassez da economia. Ora, não vejo como os rituais de transe presentes historicamente no seio das comunidades quilombolas teria competido para gerar um déficit libidinal na sua luta de resistência à escravidão, e não vejo passividade entre camaradas que participam de algumas religiões onde a prática do transe é central.

Se, de fato, a &quot;economia psíquica&quot; operasse sob o imperativo da escassez e o dualismo que dele deriva (um &quot;jogo de soma zero&quot; no dispêndio das pulsões), então as qualidades das &quot;místicas&quot; e terapias desenvolvidas no âmbito das organizações de esquerda seriam, ao fim e ao cabo, um desperdício de uma preciosa libido a fazer falta nas lutas... A absurdidade de uma tal formulação só faria sentido se aceitássemos um outro problema das formulações de Fanon, a mistificação excessiva da violência no processo emancipatório, um problema apontado por Hannah Arendt em seu ensaio &quot;Sobre a violência&quot;. Afinal, se a violência revolucionária ajuda a libertar o corpo e a &quot;alma&quot; de estigmas e repressões provocadas pela dominação, é bem verdade que ela não é capaz de criar, por si só, indivíduos emancipados, moldando, geralmente, indivíduos autoritários e... violentos. A trajetória de movimentos revolucionários que estetizaram a violência, com a sua incapacidade de criar espaços políticos livres, deveriam ser um alerta para nós. São poucos os movimentos revolucionários armados que escaparam, em grande parte, da imposição autoritária das armas sobre os seus espaços de atuação política(alguns exemplos são o exército revolucionário Makhnovista, as brigadas revolucionárias de Aragão e da Catalunha na Revolução Espanhola e o EZLN, em Chiapas). Aliás, as relações entre o machismo e as lutas de liberação nacional não são poucas, e deveriam ser objeto de maior consideração nas análises psicológicas das lutas sociais. Sobre este assunto, recomendo a obra de S. Walby, &quot;Woman and Nation&quot;.  

Para encerrar o meu comentário, deixo uma questão para ser discutida: por que religiões em que os ritos catárticos de transe têm um lugar importante têm sido menos pervasivas a um programa político de transformação social? Seria possível (ou já existe) algo semelhante a uma Teologia da Libertação entre os (neo)pentecostais, umbandistas ou no Candomblé? Não me refiro a casos de militantes isolados que participam destas religiões (como já disse, eu conheço um monte deles!), mas de setores organizados no seio destas religiões com alguma reflexão sistemática sobre a forma de trabalhar a sua fé na emancipação social. Alguém conhece exemplos?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Marco, vou tecer alguns comentários mesmo antes da publicação da segunda parte do artigo, pela qual espero ansiosamente! Antes, eu gostaria de endereçar ao leitor que se identificou como &#8220;Pobre&#8221; a seguinte pergunta: qual é o propósito do seu comentário? Não vejo absolutamente como ele pode contribuir para a elucidação do tema abordado pelo texto do Marco. </p>
<p>Afinal, o grande problema apontado pelo artigo não é a crítica a uma certa ortodoxia de um certo marxismo, mas a constatação irrefutável de que existe uma assimetria enorme entre o conhecimento crítico produzido a respeito do papel do mundo psíquico no processo emancipatório e a sua apropriação na práxis das nossas organizações de esquerda. Como diminuir essa assimetria? </p>
<p>Entrando, pois, no problema, achei primorosa a formulação segundo a qual, junto às análises conjunturais e da correlação de forças política, deveríamos encarar como uma tarefa fundamental dos revolucionários a análise das &#8220;relações de forças subjetivas&#8221; e as &#8220;demandas simbólicas&#8221; do povo. A minha objeção, no entanto, é quanto à redução do universo subjetivo (ou psíquico) a um produto das relações de classe, subordinando todas as demais relações geradoras de subjetividade às relações de produção. Creio que, nesse ponto, o autor do texto está coerente com o marxismo que ele professa, residindo o problema, pois, no tratamento materialista do tema.</p>
<p>Castoriadis, por exemplo, foi um dos pensadores revolucionários que mais profundamente refletiram a respeito do papel da psique no projeto de autonomia, e chegou a exercer, inclusive, a psicanálise durante muitos anos. Para ele, a psique é um dos pólos fundamentais, junto com o processo de socialização (os dois se moldando dialeticamente), da instituição da sociedade  &#8211;  e não um produto da luta de classes. No entanto, acho que as reflexões dele necessitam de um complemento, o qual os aportes trazidos por alguns teóricos de filiação marxista podem fornecer, sobretudo o papel da psicologia social e das terapias de grupo.</p>
<p>Mas bem, voltando à crítica ao materialismo em sua aproximação ao problema do papel terapêutico das lutas emancipatórias, as formulações de Fanon dão mostras das suas limitações: tratar as manifestações místicas e catárticas tradicionais (mesmo reconhecendo as suas contribuições terapêuticas) como portadoras de um certo &#8220;veneno&#8221;, por servirem para esfriar o sentimento de revolta contra a sua situação insuportável, e dizer que o movimento de libertação nacional substitui esses rituais por canalizar as energias libidinais na &#8220;economia psíquica&#8221; é o mesmo que tomar a metáfora econômica por uma realidade, como se a constituição das pulsões psíquicas realmente compartilhassem o mesmo princípio de escassez da economia. Ora, não vejo como os rituais de transe presentes historicamente no seio das comunidades quilombolas teria competido para gerar um déficit libidinal na sua luta de resistência à escravidão, e não vejo passividade entre camaradas que participam de algumas religiões onde a prática do transe é central.</p>
<p>Se, de fato, a &#8220;economia psíquica&#8221; operasse sob o imperativo da escassez e o dualismo que dele deriva (um &#8220;jogo de soma zero&#8221; no dispêndio das pulsões), então as qualidades das &#8220;místicas&#8221; e terapias desenvolvidas no âmbito das organizações de esquerda seriam, ao fim e ao cabo, um desperdício de uma preciosa libido a fazer falta nas lutas&#8230; A absurdidade de uma tal formulação só faria sentido se aceitássemos um outro problema das formulações de Fanon, a mistificação excessiva da violência no processo emancipatório, um problema apontado por Hannah Arendt em seu ensaio &#8220;Sobre a violência&#8221;. Afinal, se a violência revolucionária ajuda a libertar o corpo e a &#8220;alma&#8221; de estigmas e repressões provocadas pela dominação, é bem verdade que ela não é capaz de criar, por si só, indivíduos emancipados, moldando, geralmente, indivíduos autoritários e&#8230; violentos. A trajetória de movimentos revolucionários que estetizaram a violência, com a sua incapacidade de criar espaços políticos livres, deveriam ser um alerta para nós. São poucos os movimentos revolucionários armados que escaparam, em grande parte, da imposição autoritária das armas sobre os seus espaços de atuação política(alguns exemplos são o exército revolucionário Makhnovista, as brigadas revolucionárias de Aragão e da Catalunha na Revolução Espanhola e o EZLN, em Chiapas). Aliás, as relações entre o machismo e as lutas de liberação nacional não são poucas, e deveriam ser objeto de maior consideração nas análises psicológicas das lutas sociais. Sobre este assunto, recomendo a obra de S. Walby, &#8220;Woman and Nation&#8221;.  </p>
<p>Para encerrar o meu comentário, deixo uma questão para ser discutida: por que religiões em que os ritos catárticos de transe têm um lugar importante têm sido menos pervasivas a um programa político de transformação social? Seria possível (ou já existe) algo semelhante a uma Teologia da Libertação entre os (neo)pentecostais, umbandistas ou no Candomblé? Não me refiro a casos de militantes isolados que participam destas religiões (como já disse, eu conheço um monte deles!), mas de setores organizados no seio destas religiões com alguma reflexão sistemática sobre a forma de trabalhar a sua fé na emancipação social. Alguém conhece exemplos?</p>
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		<title>
		Por: Pobre		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2011/05/40157/#comment-26184</link>

		<dc:creator><![CDATA[Pobre]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 22 May 2011 18:26:35 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[&quot;Trata-se de um livro ousado, que se propõe a interpretar teoricamente o desenvolvimento político da guerra de libertação nacional, suas idas e vindas, suas virtudes e limitações, além de questionar, sob um ponto de vista marxista - mas formado na periferia do sistema - alguns “dogmas” do marxismo europeu: como o suposto caráter reacionário do campesinato e do “lumpenproletariado” urbano (na Argélia, ambos foram, em momentos distintos, protagonistas das lutas) e o papel de sujeito histórico revolucionário do operariado fabril (que era então o setor mais privilegiado do proletariado argelino e menos propenso a se engajar nas lutas).&quot;

É que para o marxismo não terceiro-mundista nem nacionalista, a revolução não é a luta de libertação nacional.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;Trata-se de um livro ousado, que se propõe a interpretar teoricamente o desenvolvimento político da guerra de libertação nacional, suas idas e vindas, suas virtudes e limitações, além de questionar, sob um ponto de vista marxista &#8211; mas formado na periferia do sistema &#8211; alguns “dogmas” do marxismo europeu: como o suposto caráter reacionário do campesinato e do “lumpenproletariado” urbano (na Argélia, ambos foram, em momentos distintos, protagonistas das lutas) e o papel de sujeito histórico revolucionário do operariado fabril (que era então o setor mais privilegiado do proletariado argelino e menos propenso a se engajar nas lutas).&#8221;</p>
<p>É que para o marxismo não terceiro-mundista nem nacionalista, a revolução não é a luta de libertação nacional.</p>
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