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	Comentários sobre: Luta, que cura! (2ª Parte)	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Rodrigo Araújo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2011/05/40366/#comment-26705</link>

		<dc:creator><![CDATA[Rodrigo Araújo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 03 Jun 2011 14:40:32 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[&quot;Um povo deve racionalizar na sua vida tudo que é suscetível de racionalização e deixar ao idealismo e mesmo ao misticismo aquilo que não se pode enquadrar nos limites estreitos da razão.&quot;
Recomendação de M. Manoïlescu sobre a coesão nacional.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;Um povo deve racionalizar na sua vida tudo que é suscetível de racionalização e deixar ao idealismo e mesmo ao misticismo aquilo que não se pode enquadrar nos limites estreitos da razão.&#8221;<br />
Recomendação de M. Manoïlescu sobre a coesão nacional.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: militante encafifado		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2011/05/40366/#comment-26667</link>

		<dc:creator><![CDATA[militante encafifado]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 02 Jun 2011 21:55:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Caro Leo,

Como creio que já expliquei o bastante nos comentários anteriores: um dos meus maiores incômodos com a idéia de &quot;mística&quot; nos nossos movimentos sociais, mesmo com a pura palavra - quando se refere a outra coisa, é justamente o quanto ela está presente em diversas ocasiões. Distintas situações que, na verdade, deveriam fortalecer realmente a &quot;coesão social&quot;, e não mistificá-la. Sejam práticas, ritos e/ou expressões artísticas coletivas - como algumas relatadas pelo Marco; seja no campo das palavras, idéias e teoria.

Acredito que as formas como este &quot;signo da mística&quot; tem aparecido e sido cultivado, em nossos movimentos, mais atrapalham do que ajudam uma real emancipação popular.

Luto, portanto, para fortalecer aquelas práticas concretas, objetivas e subjetivas, que contribuam para desmistificar as relações de dominação e, ao mesmo tempo, construir nelas mesmas outras formas de organização da vida coletiva, sem novas hierarquias nem renovados mistérios.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Leo,</p>
<p>Como creio que já expliquei o bastante nos comentários anteriores: um dos meus maiores incômodos com a idéia de &#8220;mística&#8221; nos nossos movimentos sociais, mesmo com a pura palavra &#8211; quando se refere a outra coisa, é justamente o quanto ela está presente em diversas ocasiões. Distintas situações que, na verdade, deveriam fortalecer realmente a &#8220;coesão social&#8221;, e não mistificá-la. Sejam práticas, ritos e/ou expressões artísticas coletivas &#8211; como algumas relatadas pelo Marco; seja no campo das palavras, idéias e teoria.</p>
<p>Acredito que as formas como este &#8220;signo da mística&#8221; tem aparecido e sido cultivado, em nossos movimentos, mais atrapalham do que ajudam uma real emancipação popular.</p>
<p>Luto, portanto, para fortalecer aquelas práticas concretas, objetivas e subjetivas, que contribuam para desmistificar as relações de dominação e, ao mesmo tempo, construir nelas mesmas outras formas de organização da vida coletiva, sem novas hierarquias nem renovados mistérios.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Leo Vinicius		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2011/05/40366/#comment-26611</link>

		<dc:creator><![CDATA[Leo Vinicius]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Jun 2011 21:53:51 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[corrigindo o final daúltima frase: &quot;mas não de forma tão problemática quanto achei em seu comentário&quot;.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>corrigindo o final daúltima frase: &#8220;mas não de forma tão problemática quanto achei em seu comentário&#8221;.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Leo Vinicius		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2011/05/40366/#comment-26610</link>

		<dc:creator><![CDATA[Leo Vinicius]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Jun 2011 21:51:58 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Encafifado,

eu troquei um &quot;dois pontos&quot; por &quot;vírgula&quot;. Para mim, mística é &quot;aquilo que os movimentos fazem para dar coesão: ritos, canções etc&quot;. Assim acho que estou sendo claro. Colocar toda a imensidão de objetivos e motivação subjetivas e imateriais sob o signo da &quot;mística&quot; só pode dar confusão. Achei que seu comentário misturava coisas muito diferentes, apresentadas no texto do Marco, com a &quot;mística&quot; propriamente dita, na definição que tentei dar a ela.
É verdade que o Marco também recorre a palavras como &quot;mística&quot; e &quot;estética&quot; para nomear fenômenos que acho muito distintos, mas de forma tão problemática quanto achei em seu comentário.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Encafifado,</p>
<p>eu troquei um &#8220;dois pontos&#8221; por &#8220;vírgula&#8221;. Para mim, mística é &#8220;aquilo que os movimentos fazem para dar coesão: ritos, canções etc&#8221;. Assim acho que estou sendo claro. Colocar toda a imensidão de objetivos e motivação subjetivas e imateriais sob o signo da &#8220;mística&#8221; só pode dar confusão. Achei que seu comentário misturava coisas muito diferentes, apresentadas no texto do Marco, com a &#8220;mística&#8221; propriamente dita, na definição que tentei dar a ela.<br />
É verdade que o Marco também recorre a palavras como &#8220;mística&#8221; e &#8220;estética&#8221; para nomear fenômenos que acho muito distintos, mas de forma tão problemática quanto achei em seu comentário.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: militante encafifado		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2011/05/40366/#comment-26568</link>

		<dc:creator><![CDATA[militante encafifado]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Jun 2011 03:30:26 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Caros Marco Fernandes e Leo Vinicius,

Primeiro obrigado Marco por suas observações cuidadosas, e aparentemente muito francas, sinceras: o bom debate, como você disse!

Eu queria mesmo entender melhor o que você vem chamando por &quot;mística&quot;, se é o mesmo quê muitas de nossas organizações chamam. E, se não, por que a insistência em chamar de &quot;mística&quot; outros processos que não são misteriosos, ocultos e, portanto, de acesso restrito? Mas sim fruto de muito esforço, organização, desmistificação das relações de dominação, e ação concreta. 

Por que chamar de &quot;mística&quot; levantes coletivos desmistificadores? Rupturas do cotidiano automático por meio da organização e ação? Produção estética coletiva? Expressão e elaboração coletiva da própria experiência, por meio de outras linguagens? Práticas terapêuticas populares? Momentos de consciência coletiva do poder da classe, da maioria? Alegria e elevação da auto-estima pela sensação concreta de poder ser senhor do próprio destino, de romper uma cerca de forma organizada e começar a construir outra vida? Etc

E eu chamei atenção disso porque sempre me encafifou essa estória da persistência da &quot;mística&quot;, que afinal tem a mesma origem das idéias de &quot;mistério&quot;, &quot;mistificação&quot;, &quot;missa&quot;. Cada uma delas com seus respectivos montes de problemas... Sempre me pareceu um eterno dízimo, um onipresente tributo que nós dos movimentos sociais populares - com muitas origens na Igreja Católica - deveríamos e devemos seguir pagando aos mistérios de nossos pastores imortais, os quais com suas &quot;místicas&quot; abrem os nossos caminhos e, no fundo, apontam o sentido para onde devemos seguir. 

Por que não chamar de &quot;trabalho coletivo&quot; ou &quot;arte coletiva&quot; aquilo que muitos de nós fazemos antes de tantas reuniões? Mas não, é a &quot;hora da mística&quot;, do dízimo, e depois voltamos à realidade.

E meu incômodo não pára nessa idéia do dízimo, todas as manhãs antes de qualquer atividade militante. Passa também por algo que decorre disso, afinal a existência de um momento específico &quot;da mística&quot; (da &quot;subjetividade&quot;, em seu melhor sentido), a separa dos demais momentos de disciplina, subserviência e sacrifício &quot;objetivo&quot;, que acabam reinando absoluto em todos os outros momentos. Se é algo tão amplo e importante, relacionado às questões &quot;subjetivas, psíquicas e imateriais&quot; sempre presentes, por que então restringí-lo a um momento específico, domesticado?

As propostas que você me pede, Marco, no seu segundo comentário, talvez devam começar a ser pensadas a partir daí. Por que a necessidade de &quot;momentos místicos&quot;, de lutas e ações espetaculares, em detrimento de um trabalho cotidiano, silencioso, constante e generoso, coletivamente. Fortalecendo espaços coletivos, ao invés de mistificá-los em cascas sem conteúdo, para fins pessoais.

E o incômodo passa também pelo caráter funcional que tem o cultivo desse &quot;lado místico&quot; das coisas, este lado &quot;misterioso&quot;, &quot;complexo&quot; e &quot;superior&quot;, que apenas alguns iluminados conseguem e podem atingir - frente ao resto dos mortais. Geralmente os pastores, as estrelas de televisão, os mestres do comportamento empresarial vitorioso, os torcedores mais apaixonados, os baladeiros mais ousados etc. Este Outro é sempre mais místico do que nós! E estes mecanismos místicos, embora gerem catarses em alguns momentos de exceção, tem como regra a frustração - sempre que falta a catarse. 

Um método que também acaba sendo reproduzido na &quot;forte mística&quot; gerada por alguns dirigentes dentro de nossos movimentos, mística que é mais forte quanto maior é a &quot;instância&quot;, e o &quot;quadro&quot; militante. E então estes companheiros vão cada vez mais &quot;desencarnando&quot;, e nós por nossa vez vamos ficando carne osso e frustração demais, encolhidos, subservientes, deprimidos, sem acesso às decisões sobre a nossa vida e a vida de nossos coletivos. A não ser que sigamos os exemplos deles, bem obedientes, e assim o Céu nos é prometido.

Eis o caráter instrumental e funcional do &quot;lance místico&quot;, que me parece ser cultivado toda vez que alimentamos mistérios ao invés de buscar enfrentá-los e superá-los, coletivamente. E nisso você tem muita razão, Marco: o poder destes mistérios, burocráticos, só perdura e se cristaliza devido à falta de mobilização, organização coletiva e trabalho crítico da base para questionar suas falsas místicas, seus superiores (mera aparência de poder), e substituí-las por coletivos realmente fortes. Será que é impossível mesmo fortalecer ocupações e assentamentos por mais tempo do que querem nos fazer crer? Isso depende de &quot;fatores místicos&quot; ou de outras formas de organização coletiva, com as bases mais fortalecidas para criar e recriar seus próprios espaços?

Se não tenho respostas prontas às perguntas e propostas que você pede, Caro Marco, pelo menos espero ter trazido novas questões para encafifar a todos nós. Agora, encafifar sem paralisar, porque de paralisia já basta a academia. Que a gente siga discutindo e praticando em nossos movimentos!

E finalmente, por falar em meios militantes e meios acadêmicos: realmente não entendi o seu comentário, Caro Leo Vinicius. Ou eu não tinha me feito entender e/ou você me interpretou de maneira completamente equivocada.

Mas para resumir o quê teria a falar para você, Leo: se &quot;mística é aquilo que os movimentos fazem para dar coesão, ritos, canções etc&quot;, é &quot;busca de relações, de satisfação, de alegria&quot;, por que não chamar essas coisas todas pelos seus nomes específicos? Como o próprio Marco chamou em seu texto: elementos de uma &quot;outra sociabilidade&quot;? 

Quem corre o risco de misturar coisas é você... A persistência da idéia e da palavra &quot;mística&quot; não pode estar ligada a práticas mistificadoras - inclusive sobre a (des)importância da dimensão &quot;imaterial&quot; da luta concreta?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caros Marco Fernandes e Leo Vinicius,</p>
<p>Primeiro obrigado Marco por suas observações cuidadosas, e aparentemente muito francas, sinceras: o bom debate, como você disse!</p>
<p>Eu queria mesmo entender melhor o que você vem chamando por &#8220;mística&#8221;, se é o mesmo quê muitas de nossas organizações chamam. E, se não, por que a insistência em chamar de &#8220;mística&#8221; outros processos que não são misteriosos, ocultos e, portanto, de acesso restrito? Mas sim fruto de muito esforço, organização, desmistificação das relações de dominação, e ação concreta. </p>
<p>Por que chamar de &#8220;mística&#8221; levantes coletivos desmistificadores? Rupturas do cotidiano automático por meio da organização e ação? Produção estética coletiva? Expressão e elaboração coletiva da própria experiência, por meio de outras linguagens? Práticas terapêuticas populares? Momentos de consciência coletiva do poder da classe, da maioria? Alegria e elevação da auto-estima pela sensação concreta de poder ser senhor do próprio destino, de romper uma cerca de forma organizada e começar a construir outra vida? Etc</p>
<p>E eu chamei atenção disso porque sempre me encafifou essa estória da persistência da &#8220;mística&#8221;, que afinal tem a mesma origem das idéias de &#8220;mistério&#8221;, &#8220;mistificação&#8221;, &#8220;missa&#8221;. Cada uma delas com seus respectivos montes de problemas&#8230; Sempre me pareceu um eterno dízimo, um onipresente tributo que nós dos movimentos sociais populares &#8211; com muitas origens na Igreja Católica &#8211; deveríamos e devemos seguir pagando aos mistérios de nossos pastores imortais, os quais com suas &#8220;místicas&#8221; abrem os nossos caminhos e, no fundo, apontam o sentido para onde devemos seguir. </p>
<p>Por que não chamar de &#8220;trabalho coletivo&#8221; ou &#8220;arte coletiva&#8221; aquilo que muitos de nós fazemos antes de tantas reuniões? Mas não, é a &#8220;hora da mística&#8221;, do dízimo, e depois voltamos à realidade.</p>
<p>E meu incômodo não pára nessa idéia do dízimo, todas as manhãs antes de qualquer atividade militante. Passa também por algo que decorre disso, afinal a existência de um momento específico &#8220;da mística&#8221; (da &#8220;subjetividade&#8221;, em seu melhor sentido), a separa dos demais momentos de disciplina, subserviência e sacrifício &#8220;objetivo&#8221;, que acabam reinando absoluto em todos os outros momentos. Se é algo tão amplo e importante, relacionado às questões &#8220;subjetivas, psíquicas e imateriais&#8221; sempre presentes, por que então restringí-lo a um momento específico, domesticado?</p>
<p>As propostas que você me pede, Marco, no seu segundo comentário, talvez devam começar a ser pensadas a partir daí. Por que a necessidade de &#8220;momentos místicos&#8221;, de lutas e ações espetaculares, em detrimento de um trabalho cotidiano, silencioso, constante e generoso, coletivamente. Fortalecendo espaços coletivos, ao invés de mistificá-los em cascas sem conteúdo, para fins pessoais.</p>
<p>E o incômodo passa também pelo caráter funcional que tem o cultivo desse &#8220;lado místico&#8221; das coisas, este lado &#8220;misterioso&#8221;, &#8220;complexo&#8221; e &#8220;superior&#8221;, que apenas alguns iluminados conseguem e podem atingir &#8211; frente ao resto dos mortais. Geralmente os pastores, as estrelas de televisão, os mestres do comportamento empresarial vitorioso, os torcedores mais apaixonados, os baladeiros mais ousados etc. Este Outro é sempre mais místico do que nós! E estes mecanismos místicos, embora gerem catarses em alguns momentos de exceção, tem como regra a frustração &#8211; sempre que falta a catarse. </p>
<p>Um método que também acaba sendo reproduzido na &#8220;forte mística&#8221; gerada por alguns dirigentes dentro de nossos movimentos, mística que é mais forte quanto maior é a &#8220;instância&#8221;, e o &#8220;quadro&#8221; militante. E então estes companheiros vão cada vez mais &#8220;desencarnando&#8221;, e nós por nossa vez vamos ficando carne osso e frustração demais, encolhidos, subservientes, deprimidos, sem acesso às decisões sobre a nossa vida e a vida de nossos coletivos. A não ser que sigamos os exemplos deles, bem obedientes, e assim o Céu nos é prometido.</p>
<p>Eis o caráter instrumental e funcional do &#8220;lance místico&#8221;, que me parece ser cultivado toda vez que alimentamos mistérios ao invés de buscar enfrentá-los e superá-los, coletivamente. E nisso você tem muita razão, Marco: o poder destes mistérios, burocráticos, só perdura e se cristaliza devido à falta de mobilização, organização coletiva e trabalho crítico da base para questionar suas falsas místicas, seus superiores (mera aparência de poder), e substituí-las por coletivos realmente fortes. Será que é impossível mesmo fortalecer ocupações e assentamentos por mais tempo do que querem nos fazer crer? Isso depende de &#8220;fatores místicos&#8221; ou de outras formas de organização coletiva, com as bases mais fortalecidas para criar e recriar seus próprios espaços?</p>
<p>Se não tenho respostas prontas às perguntas e propostas que você pede, Caro Marco, pelo menos espero ter trazido novas questões para encafifar a todos nós. Agora, encafifar sem paralisar, porque de paralisia já basta a academia. Que a gente siga discutindo e praticando em nossos movimentos!</p>
<p>E finalmente, por falar em meios militantes e meios acadêmicos: realmente não entendi o seu comentário, Caro Leo Vinicius. Ou eu não tinha me feito entender e/ou você me interpretou de maneira completamente equivocada.</p>
<p>Mas para resumir o quê teria a falar para você, Leo: se &#8220;mística é aquilo que os movimentos fazem para dar coesão, ritos, canções etc&#8221;, é &#8220;busca de relações, de satisfação, de alegria&#8221;, por que não chamar essas coisas todas pelos seus nomes específicos? Como o próprio Marco chamou em seu texto: elementos de uma &#8220;outra sociabilidade&#8221;? </p>
<p>Quem corre o risco de misturar coisas é você&#8230; A persistência da idéia e da palavra &#8220;mística&#8221; não pode estar ligada a práticas mistificadoras &#8211; inclusive sobre a (des)importância da dimensão &#8220;imaterial&#8221; da luta concreta?</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Leo Vinicius		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2011/05/40366/#comment-26564</link>

		<dc:creator><![CDATA[Leo Vinicius]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Jun 2011 01:49:16 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Para completar, algo que acabei esquecendo de escrever.

A princípio não há nada mais ou menos racional ou irracional em um objetivo ou motivação material ou imaterial.

Confundir imaterialidade com irracionalismo é por deveras irracional.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Para completar, algo que acabei esquecendo de escrever.</p>
<p>A princípio não há nada mais ou menos racional ou irracional em um objetivo ou motivação material ou imaterial.</p>
<p>Confundir imaterialidade com irracionalismo é por deveras irracional.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Leo Vinicius		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2011/05/40366/#comment-26562</link>

		<dc:creator><![CDATA[Leo Vinicius]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Jun 2011 01:15:55 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=40366#comment-26562</guid>

					<description><![CDATA[Algumas vezes já deparei, seja em meio a militantes seja em meio acadêmico, com uma generalização que se faz da idéia de &quot;mística&quot;, colocando todo e qualquer objetivo ou motivação imaterial sob esse signo. Acho que o comentário do &quot;militante encafifado&quot; é um bom exemplo.

Como a esquerda trabalha pouco o tema, não chegando a formular conceitos precisos, então é feita a confusão, colocando fenômenos completamente diferentes num mesmo saco da &quot;mística&quot;, ou da &quot;estética&quot;.

O comentário do encafifado a mim pareceu que chega quase a misturar busca de relações, de satisfação, de alegria, com messianismo.

Por duas vezes, uma em meio a pessoas que militavam comigo, e outra em meio acadêmico, afirmei que os jovens com os quais lidávamos se impulsionavam mais a se engajar por objetivos imateriais do que pela bandeira ou objetivo material do movimento, no sentido de que o objetivo imaterial sobredeterminava a bandeira e objetivo explícito do movimento. Nas duas oportunidades interlocutores apontaram o que eu disse como se fosse a tal &quot;mística&quot;. Ora, mística é aquilo que os movimentos fazem para dar coesão, ritos, canções etc.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Algumas vezes já deparei, seja em meio a militantes seja em meio acadêmico, com uma generalização que se faz da idéia de &#8220;mística&#8221;, colocando todo e qualquer objetivo ou motivação imaterial sob esse signo. Acho que o comentário do &#8220;militante encafifado&#8221; é um bom exemplo.</p>
<p>Como a esquerda trabalha pouco o tema, não chegando a formular conceitos precisos, então é feita a confusão, colocando fenômenos completamente diferentes num mesmo saco da &#8220;mística&#8221;, ou da &#8220;estética&#8221;.</p>
<p>O comentário do encafifado a mim pareceu que chega quase a misturar busca de relações, de satisfação, de alegria, com messianismo.</p>
<p>Por duas vezes, uma em meio a pessoas que militavam comigo, e outra em meio acadêmico, afirmei que os jovens com os quais lidávamos se impulsionavam mais a se engajar por objetivos imateriais do que pela bandeira ou objetivo material do movimento, no sentido de que o objetivo imaterial sobredeterminava a bandeira e objetivo explícito do movimento. Nas duas oportunidades interlocutores apontaram o que eu disse como se fosse a tal &#8220;mística&#8221;. Ora, mística é aquilo que os movimentos fazem para dar coesão, ritos, canções etc.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Marco F		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2011/05/40366/#comment-26535</link>

		<dc:creator><![CDATA[Marco F]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 31 May 2011 16:30:16 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=40366#comment-26535</guid>

					<description><![CDATA[Compa Encafifado, faltou te fazer um pergunta: quando vc fala em &quot;superar as falsas místicas e falsas terapias tão presentes no cotidiano capitalista&quot;, vc tem alguma coisa em mente? Já pensou sobre isso em termos de propostas? O artigo é, no fundo, um chamado a este debate e a tais propostas.
Com profunda sinceridade, gostaria muito de te ouvir...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Compa Encafifado, faltou te fazer um pergunta: quando vc fala em &#8220;superar as falsas místicas e falsas terapias tão presentes no cotidiano capitalista&#8221;, vc tem alguma coisa em mente? Já pensou sobre isso em termos de propostas? O artigo é, no fundo, um chamado a este debate e a tais propostas.<br />
Com profunda sinceridade, gostaria muito de te ouvir&#8230;</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Marco F		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2011/05/40366/#comment-26533</link>

		<dc:creator><![CDATA[Marco F]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 31 May 2011 16:17:50 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=40366#comment-26533</guid>

					<description><![CDATA[Caro Militante Encafifado,

muito pertinentes os teus comentários! Penso que nos ajudam a aprofundar um debate que me parece estratégico. Já me desculpo por talvez não dar as respostas que vc esperava, mas, sinceramente, também não as tenho, e nem as terei individualmente, porque tenho certeza de que só chegaremos a respostas - e a outras perguntas - num esforço coletivo, sobretudo num tema em que temos tão pouco acúmulo na esquerda contemporânea. Bom, é meio estranho responder algumas críticas antes do artigo ser integralmente publicado, e eu pensava em esperar mais um pouco para responder a  algumas das críticas que foram feitas já na primeira parte (todas também muito importantes e certeiras), mas como vc fez inúmeras críticas, achei que valia a pena começar por aí.
Bom, também já me desculpo pela extensão dos comentários abaixo. Talvez só interesse ao “militante encafifado”...Mas vamos lá!
Não desconheço o quadro altamente problemático do modelo hegemônico de nossas organizações. Aliás, acho que ele já foi bem discutido em outros artigos e listas de debates do Passa Palavra. Muito menos desconheço os danos  psíquicos que tal “burocratização” tem gerado em nossa militância – e posso me incluir certamente entre aqueles que sofreram e sofrem na pele e na alma com isso. Mas não creio que uma lista aberta de internet seja o espaço para expor e aprofundar questões internas das organizações, ainda que com as “melhores intenções”, por motivos óbvios - aliás, acho que vc concorda com isso, ao menos em parte, pois certamente vc não se chama “militante encafifado”, né?...De certa forma, também me preocupa aquilo que, em outro artigo, o Rugai chamou de “fetiche da burocratização”, porque vejo muita gente boa reduzir a nossa atual incapacidade de organização e mobilização da classe à “maldade” de dirigentes burocratas que não largam o osso da direção de suas organizações. Não acho que esteja errado, mas não creio que seja o nosso maior problema. Se bem lembro o que dizia o Rugai, parece que o problema passa muito mais pela falência de nossos métodos de trabalho de base, que fazem com que o espaço das organizações (instâncias) não faça sentido ou não sejam atrativos pra maioria das pessoas que delas se aproximam, e aí sim o movimento se esvazia e seus espaços de poder são controlados por meia dúzia de pessoas.
Também não acho que fui “idealista” ao narrar algumas das experiências que estão no texto. Primeiro, porque elas, de fato, acontecem em muitos processos de luta (não necessariamente todos), e, segundo, porque  penso que talvez interesse à militância dos movimentos populares refletir sobre alguns desses processos, sobre suas “verdades” e sobre como podemos avançar nisso, sobretudo em tempos tão difíceis e com tão poucas mobilizações em nossos movimentos populares. No final das contas, como anuncio no subtítulo do artigo, trata-se de pautar alguns dos desafios para repensarmos as formas do nosso trabalho de base - que, aliás, temos feito pouco...Mas também posso estar enganado, talvez eu esteja dizendo uma obviedade para quem é militante...Contudo, sabendo do quão pouco espaço temos em nossas organizações para aprofundar debates sobre a dimensão subjetiva das lutas sociais, achei que talvez valesse a pena fomentar tais debates neste artigo e neste espaço.
E não acho que nesses processo de luta ocorram “em si, lampejos de uma mística terapêutica”. Não mesmo! É preciso muito trabalho, reflexão e organização para que isso ocorra! Um pouco disso, fomos capazes de realizar nestas experiências, mas de forma muito precária e ainda é preciso avançar muito. Ou vc acha ruim transformar uma ocupação por moradia num espaço onde as pessoas tenham a chance de se expressar e elaborar sua própria experiência (como nos saraus de sábado à noite)? onde se possa ter acesso à beleza e ao entretenimento (como nas festas e apresentações de grupos de artistas convidados)? onde @s compas possam se organizar e trabalhar coletivamente (como nas cozinhas dos grupos e nos espaços da coordenação do acampamento)?
Agora, nem toda ocupação passa por esse processo. Sei bem disso! E aquelas que eu relato no texto também deixaram muito a desejar nestes aspectos. Mas foi uma tentativa, que não me parece que devamos desqualificar, como se toda experiência nesse sentido fosse fruto da “manipulação de dirigentes autoritários”, tentando enganar o povo e a militância.
Do contrário, o que vc propõe? Que não façamos nada? Que a ocupação se reduza a um par de assembléias frias e marchas enfadonhas ao palácio do governo? Creio que, se dependesse destes mesmos burocratas que vc critica com toda a razão, uma ocupação deveria mesmo se reduzir a isso...
Também discordo quando vc põe no mesmo pacote de “falsas místicas” e “falsas terapias” as igrejas, a TV, os livros de auto-ajuda, o futebol, as baladas. Sobretudo em se tratando das religiões populares, penso ser um enorme preconceito da classe média ilustrada (e atéia) desqualificar, por exemplo, toda e qualquer igreja pentecostal, como se muitas das experiências e “curas” que ali ocorrem para milhares e milhares de pessoas fossem simplesmente “falsas” ou “mentirosas” (curas, aliás, fartamente relatadas em recentes trabalhos de pesquisadores universitários não-religiosos que vêm se multiplicando no Brasil. e a &quot;cura&quot; não vem de nenhuma &quot;mágica&quot;, mas de eficientes métodos terapêuticos). Ora, me parece que pensar assim é pensar que o povo é trouxa, que cai na conversa fiada de qualquer pastor, que não sabe diferenciar uma igreja oportunista de uma que, de fato, traz algum sentido pra sua vida cotidiana (outro grande equívoco é pensar que o universo pentecostal é “tudo a mesma coisa”, como se não houvessem inúmeras correntes com diferentes métodos). Do contrário, como explicar o fenômeno quase inacreditável da massificação dessas igrejas? Enfim, não acho que o povo seja trouxa. Acho que ali tem “verdades”, que não são as nossas apostas políticas, mas me parece que é preciso extrair lições de tal fenômeno. Mas tem mais sobre isso na terceira e última parte do texto...
Quanto ao que vc critica em relação ao “vazio da mística” na prática das organizações (“reprodução de burocratizações mistificadoras, catarses personalistas, autoritarismos, e consequentes frustrações coletivas ou individuais semelhantes as que tanto se multiplicam na sociedade. Depressão, alcoolismo, disputas violentas, suicídio…”), estou de pleno acordo contigo. Aliás, na próxima parte, falo um pouco sobre os problemas psíquicos da militância.
Mas, como vc mesmo diz, num contexto interno de uma organização como o que vc pinta, a “mística” deixa de ser “mística” e se torna, no máximo, uma mera encenação, um simulacro que não gera mais efeito na militância (ou ao menos na militância crítica) que percebe a manipulação que está por trás daquilo.
Mas aí, meu caro, não é um problema da “mística” (ou, em outras palavras, do uso de uma produção estética ou de uma possível prática terapêutica popular), mas do grupo – em geral, reduzidíssimo – que tem o poder de ditar os rumos da direção da organização, sabendo como alijar a maior parte da militância do processo. E pra isso, vc sabe, não é nem preciso se utilizar instrumentalmente da “mística”, pois há inúmeros outros artifícios, como o uso de contatos privilegiados no estado, as reuniões secretas com meia dúzia que se articulam para impor suas propostas, a “queimação” de militantes nos “corredores” sem direito de defesa etc., etc.
Em suma, não gostaria de me alongar ainda mais porque o artigo ainda não terminou e talvez algumas coisas da última parte ajudem a avançarmos no debate, mas veja que o foco do artigo não é a “mística” - bom, também intuo que estamos reduzindo um pouco o conceito de “mística” para aquelas encenações teatrais que muitos movimentos fazem antes de alguma atividade, e me parece que não se trata somente disso, creio que é muito mais do que isso.
Mas voltando, o que desconfio é que há uma enorme e urgente demanda do nosso povo por espaços e práticas terapêuticas, e creio que isso deveria ser uma pauta importante para as organizações populares, mas no momento não é. Além disso, como tento sugerir com as contribuições de Frei Betto e Trotsky, a maioria dos aspectos que fazem o sucesso das religiões populares não têm nada de “místico” ou de “sobrenatural”, mas são aspectos bem “mundanos”, como a produção estética, a formação de comunidades, as práticas terapêuticas etc., ou seja, aspectos que fazem parte da cultura popular, das necessidades subjetivas do nosso povo (demandas que a classe média preenche de outras formas). Nada que nós, nas organizações populares de esquerda, não possamos debater e produzir.
Quanto ao email da Consulta Popular que vc publicou, prefiro comentar depois que a última parte do artigo sair...
E sigamos com o bom debate!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Militante Encafifado,</p>
<p>muito pertinentes os teus comentários! Penso que nos ajudam a aprofundar um debate que me parece estratégico. Já me desculpo por talvez não dar as respostas que vc esperava, mas, sinceramente, também não as tenho, e nem as terei individualmente, porque tenho certeza de que só chegaremos a respostas &#8211; e a outras perguntas &#8211; num esforço coletivo, sobretudo num tema em que temos tão pouco acúmulo na esquerda contemporânea. Bom, é meio estranho responder algumas críticas antes do artigo ser integralmente publicado, e eu pensava em esperar mais um pouco para responder a  algumas das críticas que foram feitas já na primeira parte (todas também muito importantes e certeiras), mas como vc fez inúmeras críticas, achei que valia a pena começar por aí.<br />
Bom, também já me desculpo pela extensão dos comentários abaixo. Talvez só interesse ao “militante encafifado”&#8230;Mas vamos lá!<br />
Não desconheço o quadro altamente problemático do modelo hegemônico de nossas organizações. Aliás, acho que ele já foi bem discutido em outros artigos e listas de debates do Passa Palavra. Muito menos desconheço os danos  psíquicos que tal “burocratização” tem gerado em nossa militância – e posso me incluir certamente entre aqueles que sofreram e sofrem na pele e na alma com isso. Mas não creio que uma lista aberta de internet seja o espaço para expor e aprofundar questões internas das organizações, ainda que com as “melhores intenções”, por motivos óbvios &#8211; aliás, acho que vc concorda com isso, ao menos em parte, pois certamente vc não se chama “militante encafifado”, né?&#8230;De certa forma, também me preocupa aquilo que, em outro artigo, o Rugai chamou de “fetiche da burocratização”, porque vejo muita gente boa reduzir a nossa atual incapacidade de organização e mobilização da classe à “maldade” de dirigentes burocratas que não largam o osso da direção de suas organizações. Não acho que esteja errado, mas não creio que seja o nosso maior problema. Se bem lembro o que dizia o Rugai, parece que o problema passa muito mais pela falência de nossos métodos de trabalho de base, que fazem com que o espaço das organizações (instâncias) não faça sentido ou não sejam atrativos pra maioria das pessoas que delas se aproximam, e aí sim o movimento se esvazia e seus espaços de poder são controlados por meia dúzia de pessoas.<br />
Também não acho que fui “idealista” ao narrar algumas das experiências que estão no texto. Primeiro, porque elas, de fato, acontecem em muitos processos de luta (não necessariamente todos), e, segundo, porque  penso que talvez interesse à militância dos movimentos populares refletir sobre alguns desses processos, sobre suas “verdades” e sobre como podemos avançar nisso, sobretudo em tempos tão difíceis e com tão poucas mobilizações em nossos movimentos populares. No final das contas, como anuncio no subtítulo do artigo, trata-se de pautar alguns dos desafios para repensarmos as formas do nosso trabalho de base &#8211; que, aliás, temos feito pouco&#8230;Mas também posso estar enganado, talvez eu esteja dizendo uma obviedade para quem é militante&#8230;Contudo, sabendo do quão pouco espaço temos em nossas organizações para aprofundar debates sobre a dimensão subjetiva das lutas sociais, achei que talvez valesse a pena fomentar tais debates neste artigo e neste espaço.<br />
E não acho que nesses processo de luta ocorram “em si, lampejos de uma mística terapêutica”. Não mesmo! É preciso muito trabalho, reflexão e organização para que isso ocorra! Um pouco disso, fomos capazes de realizar nestas experiências, mas de forma muito precária e ainda é preciso avançar muito. Ou vc acha ruim transformar uma ocupação por moradia num espaço onde as pessoas tenham a chance de se expressar e elaborar sua própria experiência (como nos saraus de sábado à noite)? onde se possa ter acesso à beleza e ao entretenimento (como nas festas e apresentações de grupos de artistas convidados)? onde @s compas possam se organizar e trabalhar coletivamente (como nas cozinhas dos grupos e nos espaços da coordenação do acampamento)?<br />
Agora, nem toda ocupação passa por esse processo. Sei bem disso! E aquelas que eu relato no texto também deixaram muito a desejar nestes aspectos. Mas foi uma tentativa, que não me parece que devamos desqualificar, como se toda experiência nesse sentido fosse fruto da “manipulação de dirigentes autoritários”, tentando enganar o povo e a militância.<br />
Do contrário, o que vc propõe? Que não façamos nada? Que a ocupação se reduza a um par de assembléias frias e marchas enfadonhas ao palácio do governo? Creio que, se dependesse destes mesmos burocratas que vc critica com toda a razão, uma ocupação deveria mesmo se reduzir a isso&#8230;<br />
Também discordo quando vc põe no mesmo pacote de “falsas místicas” e “falsas terapias” as igrejas, a TV, os livros de auto-ajuda, o futebol, as baladas. Sobretudo em se tratando das religiões populares, penso ser um enorme preconceito da classe média ilustrada (e atéia) desqualificar, por exemplo, toda e qualquer igreja pentecostal, como se muitas das experiências e “curas” que ali ocorrem para milhares e milhares de pessoas fossem simplesmente “falsas” ou “mentirosas” (curas, aliás, fartamente relatadas em recentes trabalhos de pesquisadores universitários não-religiosos que vêm se multiplicando no Brasil. e a &#8220;cura&#8221; não vem de nenhuma &#8220;mágica&#8221;, mas de eficientes métodos terapêuticos). Ora, me parece que pensar assim é pensar que o povo é trouxa, que cai na conversa fiada de qualquer pastor, que não sabe diferenciar uma igreja oportunista de uma que, de fato, traz algum sentido pra sua vida cotidiana (outro grande equívoco é pensar que o universo pentecostal é “tudo a mesma coisa”, como se não houvessem inúmeras correntes com diferentes métodos). Do contrário, como explicar o fenômeno quase inacreditável da massificação dessas igrejas? Enfim, não acho que o povo seja trouxa. Acho que ali tem “verdades”, que não são as nossas apostas políticas, mas me parece que é preciso extrair lições de tal fenômeno. Mas tem mais sobre isso na terceira e última parte do texto&#8230;<br />
Quanto ao que vc critica em relação ao “vazio da mística” na prática das organizações (“reprodução de burocratizações mistificadoras, catarses personalistas, autoritarismos, e consequentes frustrações coletivas ou individuais semelhantes as que tanto se multiplicam na sociedade. Depressão, alcoolismo, disputas violentas, suicídio…”), estou de pleno acordo contigo. Aliás, na próxima parte, falo um pouco sobre os problemas psíquicos da militância.<br />
Mas, como vc mesmo diz, num contexto interno de uma organização como o que vc pinta, a “mística” deixa de ser “mística” e se torna, no máximo, uma mera encenação, um simulacro que não gera mais efeito na militância (ou ao menos na militância crítica) que percebe a manipulação que está por trás daquilo.<br />
Mas aí, meu caro, não é um problema da “mística” (ou, em outras palavras, do uso de uma produção estética ou de uma possível prática terapêutica popular), mas do grupo – em geral, reduzidíssimo – que tem o poder de ditar os rumos da direção da organização, sabendo como alijar a maior parte da militância do processo. E pra isso, vc sabe, não é nem preciso se utilizar instrumentalmente da “mística”, pois há inúmeros outros artifícios, como o uso de contatos privilegiados no estado, as reuniões secretas com meia dúzia que se articulam para impor suas propostas, a “queimação” de militantes nos “corredores” sem direito de defesa etc., etc.<br />
Em suma, não gostaria de me alongar ainda mais porque o artigo ainda não terminou e talvez algumas coisas da última parte ajudem a avançarmos no debate, mas veja que o foco do artigo não é a “mística” &#8211; bom, também intuo que estamos reduzindo um pouco o conceito de “mística” para aquelas encenações teatrais que muitos movimentos fazem antes de alguma atividade, e me parece que não se trata somente disso, creio que é muito mais do que isso.<br />
Mas voltando, o que desconfio é que há uma enorme e urgente demanda do nosso povo por espaços e práticas terapêuticas, e creio que isso deveria ser uma pauta importante para as organizações populares, mas no momento não é. Além disso, como tento sugerir com as contribuições de Frei Betto e Trotsky, a maioria dos aspectos que fazem o sucesso das religiões populares não têm nada de “místico” ou de “sobrenatural”, mas são aspectos bem “mundanos”, como a produção estética, a formação de comunidades, as práticas terapêuticas etc., ou seja, aspectos que fazem parte da cultura popular, das necessidades subjetivas do nosso povo (demandas que a classe média preenche de outras formas). Nada que nós, nas organizações populares de esquerda, não possamos debater e produzir.<br />
Quanto ao email da Consulta Popular que vc publicou, prefiro comentar depois que a última parte do artigo sair&#8230;<br />
E sigamos com o bom debate!</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: militante encafifado		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2011/05/40366/#comment-26509</link>

		<dc:creator><![CDATA[militante encafifado]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 31 May 2011 06:11:16 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=40366#comment-26509</guid>

					<description><![CDATA[Caros,

Gostaria de dizer que estou gostando bastante deste debate levantado por este texto do Marco Fernandes. Estava ansioso pela segunda parte deste artigo, pois acho que o autor levanta um problema fundamental que é o quanto as &quot;demandas subjetivas e psíquicas&quot; são tão importantes para se mudar a realidade quanto a discussão e a reflexão sobre elas é desprezada nos meios de esquerda.

Só acabei ficando um pouco frustado com a análise e com as propostas do autor nesta segunda parte do texto, pois acho que diferente de muitos comentários na primeira parte (do Eduardo, D.Caribé, Allan e Manolo), o autor foi muito pouco crítico em relação ao quadro de burocratização, mistificação, autoritarismo e depressão dentro dos próprios espaços de muitos dos nossos movimentos. Achei que o Marco fosse avançar nessa área nesta segunda parte, porém ele só fez uma crítica no início (a falta de atenção ao tema) para depois fazer um elogio meio idealista aos espaços e práticas dos movimentos. Como se eles tivessem em si &quot;lampejos de uma mística terapêutica&quot;.

Assim fiquei com a impressão que o autor ao invés de querer superar as falsas místicas e as falsas terapias tão presentes no cotidiano capitalista (nas igrejas carismáticas e pentecostais, nos programas de tevê, nos livros de auto-ajuda, nas torcidas de futebol, nas baladas drogadas de jovens etc), propõe que elas se renovem e se multipliquem de outras maneiras dentro dos espaços das ocupações e dos movimentos sociais. E se eu entendi errado peço ao autor que me corrija, por favor.

Acho esse caminho muito perigoso, clamar por mais místicas e por um suposto resultado terapêutico delas, ainda mais quando o que temos visto na prática em muitos espaços de nossas organizações e movimentos é exatamente a reprodução de burocratizações mistificadoras, catarses personalistas, autoritarismos, e consequentes frustrações coletivas ou individuais semelhantes as que tanto se multiplicam na sociedade. Depressão, alcoolismo, disputas violentas, suicídio... 

Apesar de alguns momentos de euforia - geralmente no início das lutas -, a brutalidade do mundo e a repetição dos erros de nossas organizações tratam rapidinho de acabar com qualquer &quot;mística&quot; ou qualquer &quot;efeito terapêutico&quot;, gerando logo o seu contrário. Afinal Guias Geniais e seus milagres não existem, logo se revelam; e o Ministério da Revolução deveria sempre advertir: &quot;burocracia faz mal à saúde coletiva&quot;. Os métodos de catarse e euforia não seriam os mesmos que depois geram as frustrações e esvaziamentos, pois as promessas milagrosas jamais podem ser cumpridas?

É nesse sentido que eu ainda estou matutando e muito sobre uma mensagem que circulou há cerca de uns três meses na lista da Consulta Popular, organização da qual faço parte, que falava exatamente sobre os perigos das místicas e das terapias deformadoras, foras de hora e de contexto, nos movimentos sociais. Tomo a liberdade de reproduzir esta longa mensagem abaixo (preservando a identidade do companheiro que a enviou) para tentarmos refletir juntos sobre outros aspectos dessas importantes questões que o Marco nos trouxe:

&quot;Grandes e respeitáveis camaradas e amig@s da Consulta Popular,

volto à carga com o assunto da Mística, que tratei (provoquei) na mensagem anterior.

1. Entendo que cada militante pode ou não ter sua religião, e outros podem ser igualmente ateus militantes. Isto não é, e nunca foi problema. Isto não é problema. Este não é o problema.

2. Entendo, no entanto, que o espaço das místicas são os espaços das religiões - e cada uma cuida desses espaços e de suas místicas à sua maneira. E quando lá estamos em uma cerimônia, sejamos de qualquer religião ou ateus, devemos todos respeitar os rituais. Aliás, na condição de ateu militante, tenho participado de diversas cerimônias religiosas (das mais diversas matrizes), e procuro sempre me manifestar com profundo respeito com relação aos meus anfitriões e ao que ali se passa. E não haveria porque ser diferente.

3. A mística cuida do universo da irracionalidade - que todos trazemos conosco, enquanto a política deve ser colocada no terreno da razão - o que não significa em nenhuma hipótese o universo do racionalismo, ou da Deusa da Razão que, encarnada por uma conhecida prostituta parisiense do final do século 18, foi entronizada no altar-mor da Catedral de Paris, durante a Revolução Francesa (Revolução burguesa) de 1789. Essa mística do racionalismo, por exemplo, nos tem levado aos mais diversos desastres.

4. A política, no entanto, se quisermos ser de fato transformadores (revolucionários ou reformadores), não pode se fundar em qualquer tipo de mística. Na política, a mística só conduz ao sectarismo, ao seguidismo, ao não acúmulo de massa crítica. E um revolucionário ou um reformador incapaz da crítica, marcha irremediavelmente para o culto à/s personalidade/s, à estigmatização dos divergentes, aos desastres, cujo momento maior no século passado foi o Cambodja de Pol Pot. A política é o terreno da racionalidade.

5. Isto não implica - é bom que fique claro - que para ser um reformador ou um revolucionário, os religiosos necessitem abandonar sua fé. Assim como os ateus militantes que fazem terapias, não podem nem devem misturar terapia e política, os religiosos não podem transformar um núcleo político, num local de práticas místicas. Ou seja, um núcleo político, do mesmo modo que não pode ser um espaço de prática religiosa, não pode igualmente ser tratado como um espaço para terapia de grupo.

6. Não se trata de qualquer esquizofrenia, de partir homens e mulheres ao meio em porções irreconciliáveis. Explico ainda que o exemplo possa ser considerado um tanto tosco: como numa casa que, apesar de ser uma unidade, nós, homens e mulheres, destinamos espaços específicos para cada atividade - cozinha, banheiros, quartos, salas, área de serviço, etc. - devemos igualmente pensar os espaços da política e da mística (ou das terapias). Ou seja, não é aconselhável dormir na área de serviço; defecar na cozinha; receber as visitas no banheiro; cozinhar no telhado, etc. etc. Considero igualmente desastrosa (e, aqui, muitas vezes com conseqüências das mais terríveis) a utilização da mística na política.

7. Mais perigoso ainda é fazer preceder assembléias e/ou encontros que devem tomar posições políticas, por qualquer tipo de ritual místico; mexer com o lado irracional das pessoas (indivíduos ou coletivos) para induzi-las a conclusões, tomadas de posição, ações, etc. Este é um terreno fértil para a manipulação (no caso) política das consciências, da racionalidade coletiva, através das emoções e desejos exacerbados.

Não sei se vocês conhecem, mas a palavra ASSASSINATO provém da palavra HAXIXE. E o motivo é simples: houve no Oriente uma seita político-religiosa que, em suas reuniões, se utilizavam do haxixe para induzir seus membros a assassinar adversários, inimigos, ou apenas desafetos. O papel das drogas, para dar &quot;coragem&quot; aos soldados nas frentes de batalha, também é um bom exemplo - neste caso, sugiro que assistam ao filme &quot;Apocalypse, now&quot;, do Francis Coppola, sobre a guerra no Vietnã. Com isto, não pretendo cair no lugar comum de que &quot;a religião é o ópio do povo&quot;. De modo algum. O que tento explicar é que (pelo menos na política), qualquer iniciativa que exacerbe o nosso irracional, de modo a fazê-lo se impor e até substituir a nossa razão; de modo a levar o indivíduo a catarses; sempre foi e sempre será uma atitude manipuladora.

8. A exploração do irracional, das emoções, das catarses, etc., sempre foi instrumento da propaganda fascista. Sugiro que leiam Bertold Brecht a este respeito. Por exemplo, no cinema: quando estruturamos um filme onde a cada 10 ou 15 minutos colocamos uma cena de violência, tortura, crueldade, de modo a derrubar a platéia em sucessivos prantos, sofrimentos e catarses, retirando-lhe, assim, sua condição de avaliação crítica e racional das historinhas que contamos entre uma e outra catarse, podemos convencer os espectadores que uma messalina é uma vestal; que um bandido é um herói; que um pusilânime é um revolucionário, e assim por diante.

Ou seja, podemos manipular o espectador para o lado que quisermos. E isto sempre foi, é e será um método fascista de nos dirigirmos às pessoas, de convencermos as pessoas.

9. Por essas e outras fiz (intencionalmente) a provocação sobre a questão da MÍSTICA em minha mensagem anterior. Uma provocação capaz de gerar uma preocupação e uma discussão dirigida à capacidade crítica de cada um desses combativos jovens camaradas da Consulta Popular.

NÃO LHES OFERECI HAXIXE -  E JAMAIS O FARIA.
OFEREÇO-LHES A CRÍTICA.

Não convido meus jovens camaradas para uma sessão de hipnose, mas para uma discussão entre iguais.&quot;


Foi uma provocação que deu pano pra manga na nossa lista - porém não tanto quanto poderia dar... E eu aproveito a deixa dessa discussão pra compartilhar também com os leitores do Passa Palavra. Será que a luta &quot;cura&quot; mesmo? Será esse o caminho correto, da &quot;cura&quot;?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caros,</p>
<p>Gostaria de dizer que estou gostando bastante deste debate levantado por este texto do Marco Fernandes. Estava ansioso pela segunda parte deste artigo, pois acho que o autor levanta um problema fundamental que é o quanto as &#8220;demandas subjetivas e psíquicas&#8221; são tão importantes para se mudar a realidade quanto a discussão e a reflexão sobre elas é desprezada nos meios de esquerda.</p>
<p>Só acabei ficando um pouco frustado com a análise e com as propostas do autor nesta segunda parte do texto, pois acho que diferente de muitos comentários na primeira parte (do Eduardo, D.Caribé, Allan e Manolo), o autor foi muito pouco crítico em relação ao quadro de burocratização, mistificação, autoritarismo e depressão dentro dos próprios espaços de muitos dos nossos movimentos. Achei que o Marco fosse avançar nessa área nesta segunda parte, porém ele só fez uma crítica no início (a falta de atenção ao tema) para depois fazer um elogio meio idealista aos espaços e práticas dos movimentos. Como se eles tivessem em si &#8220;lampejos de uma mística terapêutica&#8221;.</p>
<p>Assim fiquei com a impressão que o autor ao invés de querer superar as falsas místicas e as falsas terapias tão presentes no cotidiano capitalista (nas igrejas carismáticas e pentecostais, nos programas de tevê, nos livros de auto-ajuda, nas torcidas de futebol, nas baladas drogadas de jovens etc), propõe que elas se renovem e se multipliquem de outras maneiras dentro dos espaços das ocupações e dos movimentos sociais. E se eu entendi errado peço ao autor que me corrija, por favor.</p>
<p>Acho esse caminho muito perigoso, clamar por mais místicas e por um suposto resultado terapêutico delas, ainda mais quando o que temos visto na prática em muitos espaços de nossas organizações e movimentos é exatamente a reprodução de burocratizações mistificadoras, catarses personalistas, autoritarismos, e consequentes frustrações coletivas ou individuais semelhantes as que tanto se multiplicam na sociedade. Depressão, alcoolismo, disputas violentas, suicídio&#8230; </p>
<p>Apesar de alguns momentos de euforia &#8211; geralmente no início das lutas -, a brutalidade do mundo e a repetição dos erros de nossas organizações tratam rapidinho de acabar com qualquer &#8220;mística&#8221; ou qualquer &#8220;efeito terapêutico&#8221;, gerando logo o seu contrário. Afinal Guias Geniais e seus milagres não existem, logo se revelam; e o Ministério da Revolução deveria sempre advertir: &#8220;burocracia faz mal à saúde coletiva&#8221;. Os métodos de catarse e euforia não seriam os mesmos que depois geram as frustrações e esvaziamentos, pois as promessas milagrosas jamais podem ser cumpridas?</p>
<p>É nesse sentido que eu ainda estou matutando e muito sobre uma mensagem que circulou há cerca de uns três meses na lista da Consulta Popular, organização da qual faço parte, que falava exatamente sobre os perigos das místicas e das terapias deformadoras, foras de hora e de contexto, nos movimentos sociais. Tomo a liberdade de reproduzir esta longa mensagem abaixo (preservando a identidade do companheiro que a enviou) para tentarmos refletir juntos sobre outros aspectos dessas importantes questões que o Marco nos trouxe:</p>
<p>&#8220;Grandes e respeitáveis camaradas e amig@s da Consulta Popular,</p>
<p>volto à carga com o assunto da Mística, que tratei (provoquei) na mensagem anterior.</p>
<p>1. Entendo que cada militante pode ou não ter sua religião, e outros podem ser igualmente ateus militantes. Isto não é, e nunca foi problema. Isto não é problema. Este não é o problema.</p>
<p>2. Entendo, no entanto, que o espaço das místicas são os espaços das religiões &#8211; e cada uma cuida desses espaços e de suas místicas à sua maneira. E quando lá estamos em uma cerimônia, sejamos de qualquer religião ou ateus, devemos todos respeitar os rituais. Aliás, na condição de ateu militante, tenho participado de diversas cerimônias religiosas (das mais diversas matrizes), e procuro sempre me manifestar com profundo respeito com relação aos meus anfitriões e ao que ali se passa. E não haveria porque ser diferente.</p>
<p>3. A mística cuida do universo da irracionalidade &#8211; que todos trazemos conosco, enquanto a política deve ser colocada no terreno da razão &#8211; o que não significa em nenhuma hipótese o universo do racionalismo, ou da Deusa da Razão que, encarnada por uma conhecida prostituta parisiense do final do século 18, foi entronizada no altar-mor da Catedral de Paris, durante a Revolução Francesa (Revolução burguesa) de 1789. Essa mística do racionalismo, por exemplo, nos tem levado aos mais diversos desastres.</p>
<p>4. A política, no entanto, se quisermos ser de fato transformadores (revolucionários ou reformadores), não pode se fundar em qualquer tipo de mística. Na política, a mística só conduz ao sectarismo, ao seguidismo, ao não acúmulo de massa crítica. E um revolucionário ou um reformador incapaz da crítica, marcha irremediavelmente para o culto à/s personalidade/s, à estigmatização dos divergentes, aos desastres, cujo momento maior no século passado foi o Cambodja de Pol Pot. A política é o terreno da racionalidade.</p>
<p>5. Isto não implica &#8211; é bom que fique claro &#8211; que para ser um reformador ou um revolucionário, os religiosos necessitem abandonar sua fé. Assim como os ateus militantes que fazem terapias, não podem nem devem misturar terapia e política, os religiosos não podem transformar um núcleo político, num local de práticas místicas. Ou seja, um núcleo político, do mesmo modo que não pode ser um espaço de prática religiosa, não pode igualmente ser tratado como um espaço para terapia de grupo.</p>
<p>6. Não se trata de qualquer esquizofrenia, de partir homens e mulheres ao meio em porções irreconciliáveis. Explico ainda que o exemplo possa ser considerado um tanto tosco: como numa casa que, apesar de ser uma unidade, nós, homens e mulheres, destinamos espaços específicos para cada atividade &#8211; cozinha, banheiros, quartos, salas, área de serviço, etc. &#8211; devemos igualmente pensar os espaços da política e da mística (ou das terapias). Ou seja, não é aconselhável dormir na área de serviço; defecar na cozinha; receber as visitas no banheiro; cozinhar no telhado, etc. etc. Considero igualmente desastrosa (e, aqui, muitas vezes com conseqüências das mais terríveis) a utilização da mística na política.</p>
<p>7. Mais perigoso ainda é fazer preceder assembléias e/ou encontros que devem tomar posições políticas, por qualquer tipo de ritual místico; mexer com o lado irracional das pessoas (indivíduos ou coletivos) para induzi-las a conclusões, tomadas de posição, ações, etc. Este é um terreno fértil para a manipulação (no caso) política das consciências, da racionalidade coletiva, através das emoções e desejos exacerbados.</p>
<p>Não sei se vocês conhecem, mas a palavra ASSASSINATO provém da palavra HAXIXE. E o motivo é simples: houve no Oriente uma seita político-religiosa que, em suas reuniões, se utilizavam do haxixe para induzir seus membros a assassinar adversários, inimigos, ou apenas desafetos. O papel das drogas, para dar &#8220;coragem&#8221; aos soldados nas frentes de batalha, também é um bom exemplo &#8211; neste caso, sugiro que assistam ao filme &#8220;Apocalypse, now&#8221;, do Francis Coppola, sobre a guerra no Vietnã. Com isto, não pretendo cair no lugar comum de que &#8220;a religião é o ópio do povo&#8221;. De modo algum. O que tento explicar é que (pelo menos na política), qualquer iniciativa que exacerbe o nosso irracional, de modo a fazê-lo se impor e até substituir a nossa razão; de modo a levar o indivíduo a catarses; sempre foi e sempre será uma atitude manipuladora.</p>
<p>8. A exploração do irracional, das emoções, das catarses, etc., sempre foi instrumento da propaganda fascista. Sugiro que leiam Bertold Brecht a este respeito. Por exemplo, no cinema: quando estruturamos um filme onde a cada 10 ou 15 minutos colocamos uma cena de violência, tortura, crueldade, de modo a derrubar a platéia em sucessivos prantos, sofrimentos e catarses, retirando-lhe, assim, sua condição de avaliação crítica e racional das historinhas que contamos entre uma e outra catarse, podemos convencer os espectadores que uma messalina é uma vestal; que um bandido é um herói; que um pusilânime é um revolucionário, e assim por diante.</p>
<p>Ou seja, podemos manipular o espectador para o lado que quisermos. E isto sempre foi, é e será um método fascista de nos dirigirmos às pessoas, de convencermos as pessoas.</p>
<p>9. Por essas e outras fiz (intencionalmente) a provocação sobre a questão da MÍSTICA em minha mensagem anterior. Uma provocação capaz de gerar uma preocupação e uma discussão dirigida à capacidade crítica de cada um desses combativos jovens camaradas da Consulta Popular.</p>
<p>NÃO LHES OFERECI HAXIXE &#8211;  E JAMAIS O FARIA.<br />
OFEREÇO-LHES A CRÍTICA.</p>
<p>Não convido meus jovens camaradas para uma sessão de hipnose, mas para uma discussão entre iguais.&#8221;</p>
<p>Foi uma provocação que deu pano pra manga na nossa lista &#8211; porém não tanto quanto poderia dar&#8230; E eu aproveito a deixa dessa discussão pra compartilhar também com os leitores do Passa Palavra. Será que a luta &#8220;cura&#8221; mesmo? Será esse o caminho correto, da &#8220;cura&#8221;?</p>
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