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	Comentários sobre: A Líbia pode desintegrar-se como a Somália	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
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		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 18 Sep 2011 08:45:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Tal como a generalidade dos comentadores de esquerda, Samir Amin estabelece uma divisão entre as lutas populares que levaram às mudanças de regime na Tunísia e no Egipto e a luta na Líbia, mas não procede a qualquer análise das forças sociais que sustente essa divisão. Ela é útil para Samir Amin em termos geopolíticos, mas será que é legítima? Em vez da analisar as várias forças sociais em jogo na oposição líbia, Samir Amin denuncia o carácter reaccionário das figuras conhecidas do Conselho Nacional de Transição. Mas também no Egipto e na Tunísia surgiram ou foram promovidas várias figuras reaccionárias que pretenderam encabeçar a oposição, sem que no entanto isto possa servir para denegrir o movimento popular. Mais próximo dos leitores portugueses, seria como se alguém dissesse em meados de 1974 que o 25 de Abril não era revolucionário porque Spínola, Silvério Marques e Galvão de Melo tinham assento na Junta de Salvação Nacional.
Mas este artigo de Samir Amin tem pelo menos o mérito de não converter a denúncia das forças estrangeiras que intervieram ao lado da oposição num enaltecimento de Kadafi e do seu regime. Samir Amin considera Kadafi um «palhaço», «vazio de pensamento», mas o que é palhaçada para uns é entusiasmante para outros e no plano das ideias não existem pensamentos vazios, embora possam existir pensamentos cuja chave nos escape.
No dia 8 de Setembro o &lt;em&gt;Vias de Facto&lt;/em&gt; ( http://viasfacto.blogspot.com/ ) publicou um pequeno texto meu em que dizia: «Aqueles que, na esquerda, usam o pretexto da intervenção da Nato para defenderem o regime de Kadafi fariam talvez bem se lessem uma das obras do melhor dos teóricos fascistas do pós-guerra, o francês Maurice Bardèche. Em &lt;em&gt;Qu’Est-ce que le Fascisme?&lt;/em&gt; (Paris: Les Sept Couleurs, 1961) Bardèche censurou aos neofascistas do seu país a reacção “sentimental” que os levava a lutar pela presença da metrópole no Norte de África, sem verem que estavam assim a defender também “os interesses da democracia plutocrática”. “É preciso escolher as suas guerras”, preveniu Bardèche, e em vez disso os neofascistas aceitavam todas. “Eles não examinaram se, na realidade, os nacionalistas argelinos não fazem parte dessas forças que querem estabelecer regimes novos e autoritários, independentes de Washington e de Moscovo” (o raciocínio foi desenvolvido nas págs. 116-121 e as passagens e expressões citadas encontram-se nas págs. 116 e 119). O que permaneceu em filigrana nas observações de Bardèche, demasiado escandaloso para se afirmar claramente, é que na guerra da Argélia o fascismo estava talvez do lado dos independentistas. Mas o sentido das suas conclusões é tanto mais claro quanto no capítulo seguinte Bardèche se dedicou a mostrar o carácter fascista do regime de Nasser, para detectar adiante um carácter nasseriano em alguns elementos do FLN argelino (págs. 123-130 e 149-150). O carácter fascista do regime de Nasser foi reconhecido até pelo teórico neofascista italiano Adriano Romualdi, apesar de ele circunscrever o fascismo à Europa e criticar Bardèche por ter classificado como fascismos vários terceiro-mundismos. “O único fenómeno extra-europeu que, com um pouco de boa vontade, se poderia definir como ‘fascista’ é o Egipto de Nasser, onde efectivamente se procurou enxertar uma mística da antiga cultura árabe sobre uma disciplina política revolucionária”, escreveu Romualdi (citado em Francesco Germinario, &lt;em&gt;Estranei alla Democrazia. Negazionismo e Antisemitismo nella Destra Radicale Italiana&lt;/em&gt;, Pisa: Biblioteca Franco Serantini, 2001, pág. 45). Ora, tudo o que se disser acerca do nasserismo deve ser multiplicado por dez acerca do regime de Kadafi».
Nos comentários a este texto Miguel Madeira acrescentou: «Penso que o Jaime Nogueira Pinto também tem uns textos em que fala da admiração que (nos tempos do Movimento Jovem Portugal) tinham pelo Nasser e pelo Ba&#039;ath; segundo este livro ( http://www.wook.pt/ficha/imperio-nacao-revolucao/a/id/3195920 ), o &quot;Movimento Nacionalista&quot; (oposição pela direita ao Marcello Caetano) também andava por esses caminhos. Acerca do Kaddaffy, ele sempre reuniu uma ecléctica rede de admiradores — em Inglaterra os seus maiores defensores eram, por um lado, a Socialist Labour League (trotskista, da linha equivalente ao POUS em Portugal), e por outro uma das facções da National Front  ( http://en.wikipedia.org/wiki/Official_National_Front ), que distribuia o &quot;Livro Verde&quot; nos comícios».
Pois é. Continua a existir uma porção da esquerda que não aprendeu a grande lição da guerra fria — as consequências funestas de confundir as lutas sociais com a geopolítica. E este artigo de Samir Amin está tem-te-não-caias a meio do problema.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tal como a generalidade dos comentadores de esquerda, Samir Amin estabelece uma divisão entre as lutas populares que levaram às mudanças de regime na Tunísia e no Egipto e a luta na Líbia, mas não procede a qualquer análise das forças sociais que sustente essa divisão. Ela é útil para Samir Amin em termos geopolíticos, mas será que é legítima? Em vez da analisar as várias forças sociais em jogo na oposição líbia, Samir Amin denuncia o carácter reaccionário das figuras conhecidas do Conselho Nacional de Transição. Mas também no Egipto e na Tunísia surgiram ou foram promovidas várias figuras reaccionárias que pretenderam encabeçar a oposição, sem que no entanto isto possa servir para denegrir o movimento popular. Mais próximo dos leitores portugueses, seria como se alguém dissesse em meados de 1974 que o 25 de Abril não era revolucionário porque Spínola, Silvério Marques e Galvão de Melo tinham assento na Junta de Salvação Nacional.<br />
Mas este artigo de Samir Amin tem pelo menos o mérito de não converter a denúncia das forças estrangeiras que intervieram ao lado da oposição num enaltecimento de Kadafi e do seu regime. Samir Amin considera Kadafi um «palhaço», «vazio de pensamento», mas o que é palhaçada para uns é entusiasmante para outros e no plano das ideias não existem pensamentos vazios, embora possam existir pensamentos cuja chave nos escape.<br />
No dia 8 de Setembro o <em>Vias de Facto</em> ( <a href="http://viasfacto.blogspot.com/" rel="nofollow ugc">http://viasfacto.blogspot.com/</a> ) publicou um pequeno texto meu em que dizia: «Aqueles que, na esquerda, usam o pretexto da intervenção da Nato para defenderem o regime de Kadafi fariam talvez bem se lessem uma das obras do melhor dos teóricos fascistas do pós-guerra, o francês Maurice Bardèche. Em <em>Qu’Est-ce que le Fascisme?</em> (Paris: Les Sept Couleurs, 1961) Bardèche censurou aos neofascistas do seu país a reacção “sentimental” que os levava a lutar pela presença da metrópole no Norte de África, sem verem que estavam assim a defender também “os interesses da democracia plutocrática”. “É preciso escolher as suas guerras”, preveniu Bardèche, e em vez disso os neofascistas aceitavam todas. “Eles não examinaram se, na realidade, os nacionalistas argelinos não fazem parte dessas forças que querem estabelecer regimes novos e autoritários, independentes de Washington e de Moscovo” (o raciocínio foi desenvolvido nas págs. 116-121 e as passagens e expressões citadas encontram-se nas págs. 116 e 119). O que permaneceu em filigrana nas observações de Bardèche, demasiado escandaloso para se afirmar claramente, é que na guerra da Argélia o fascismo estava talvez do lado dos independentistas. Mas o sentido das suas conclusões é tanto mais claro quanto no capítulo seguinte Bardèche se dedicou a mostrar o carácter fascista do regime de Nasser, para detectar adiante um carácter nasseriano em alguns elementos do FLN argelino (págs. 123-130 e 149-150). O carácter fascista do regime de Nasser foi reconhecido até pelo teórico neofascista italiano Adriano Romualdi, apesar de ele circunscrever o fascismo à Europa e criticar Bardèche por ter classificado como fascismos vários terceiro-mundismos. “O único fenómeno extra-europeu que, com um pouco de boa vontade, se poderia definir como ‘fascista’ é o Egipto de Nasser, onde efectivamente se procurou enxertar uma mística da antiga cultura árabe sobre uma disciplina política revolucionária”, escreveu Romualdi (citado em Francesco Germinario, <em>Estranei alla Democrazia. Negazionismo e Antisemitismo nella Destra Radicale Italiana</em>, Pisa: Biblioteca Franco Serantini, 2001, pág. 45). Ora, tudo o que se disser acerca do nasserismo deve ser multiplicado por dez acerca do regime de Kadafi».<br />
Nos comentários a este texto Miguel Madeira acrescentou: «Penso que o Jaime Nogueira Pinto também tem uns textos em que fala da admiração que (nos tempos do Movimento Jovem Portugal) tinham pelo Nasser e pelo Ba&#8217;ath; segundo este livro ( <a href="http://www.wook.pt/ficha/imperio-nacao-revolucao/a/id/3195920" rel="nofollow ugc">http://www.wook.pt/ficha/imperio-nacao-revolucao/a/id/3195920</a> ), o &#8220;Movimento Nacionalista&#8221; (oposição pela direita ao Marcello Caetano) também andava por esses caminhos. Acerca do Kaddaffy, ele sempre reuniu uma ecléctica rede de admiradores — em Inglaterra os seus maiores defensores eram, por um lado, a Socialist Labour League (trotskista, da linha equivalente ao POUS em Portugal), e por outro uma das facções da National Front  ( <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Official_National_Front" rel="nofollow ugc">http://en.wikipedia.org/wiki/Official_National_Front</a> ), que distribuia o &#8220;Livro Verde&#8221; nos comícios».<br />
Pois é. Continua a existir uma porção da esquerda que não aprendeu a grande lição da guerra fria — as consequências funestas de confundir as lutas sociais com a geopolítica. E este artigo de Samir Amin está tem-te-não-caias a meio do problema.</p>
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