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	Comentários sobre: Romance policial. 1) a acção	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Leo V		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2012/02/51540/#comment-726201</link>

		<dc:creator><![CDATA[Leo V]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Mar 2021 18:58:10 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Essas semanas li Dália Negra, do James Ellroy. Único livro que li dele. Quanto esse artigo foi publicado acho que li em diagonal e não lembrava que James Ellroy se dizia de extrema-direita. O fato é que quando li Dália Negra suspeitei que ele era de direita. Alguma coisa me lembrava o escritor militante de direita Andrew Klavan. Refletindo sobre isso, talvez seja simplesmente pelo amoralismo de ambos. Hoje em dia a esquerda tem sido tão moralista, mesmo nas artes, que sinais de amoralidade se tornaram sinais de direita.

Sobre Dália Negra, um bom livro mas confesso que buscaria outros autores do gênero antes de tentar novamente o James Ellroy. Talvez meu gosto seja mais pelo romance dedutivo. Fiquei um pouco incomodado de James Ellroy deixar a gente suspeitar na metade do livro da pessoa ou grupo de pessoas que eram realmente os responsáveis pelo crime. Preciso ler novamente Agatha Christie para saber se eu gostava dela porque eu era adolescente quando li. E a propósito, um thriller que me marcou positivamente, que li uns de anos atrás, foi o Jogo da Mente (The Game of Mind), de Hector MacDonald. Cenários fora do lugar comum e uso de teoria dos jogos, gostei muito.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Essas semanas li Dália Negra, do James Ellroy. Único livro que li dele. Quanto esse artigo foi publicado acho que li em diagonal e não lembrava que James Ellroy se dizia de extrema-direita. O fato é que quando li Dália Negra suspeitei que ele era de direita. Alguma coisa me lembrava o escritor militante de direita Andrew Klavan. Refletindo sobre isso, talvez seja simplesmente pelo amoralismo de ambos. Hoje em dia a esquerda tem sido tão moralista, mesmo nas artes, que sinais de amoralidade se tornaram sinais de direita.</p>
<p>Sobre Dália Negra, um bom livro mas confesso que buscaria outros autores do gênero antes de tentar novamente o James Ellroy. Talvez meu gosto seja mais pelo romance dedutivo. Fiquei um pouco incomodado de James Ellroy deixar a gente suspeitar na metade do livro da pessoa ou grupo de pessoas que eram realmente os responsáveis pelo crime. Preciso ler novamente Agatha Christie para saber se eu gostava dela porque eu era adolescente quando li. E a propósito, um thriller que me marcou positivamente, que li uns de anos atrás, foi o Jogo da Mente (The Game of Mind), de Hector MacDonald. Cenários fora do lugar comum e uso de teoria dos jogos, gostei muito.</p>
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		<title>
		Por: Douglas Anfra		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2012/02/51540/#comment-56432</link>

		<dc:creator><![CDATA[Douglas Anfra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 25 Feb 2012 14:42:28 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[No caso, no Brasil existe algo mais recente. Digamos que é muito particular o sentimento que coloca uma perspectiva que aproxime do protagonista, permitindo que se acompanhe a narrativa, no caso do romance policial, isto é conjunturalmente ligado, para mim, a certa imagem social da figura dos personagens típicos dessas histórias nuançados que sejam em seus contextos. 
Especialmente se considerarmos que ao narrar uma história aqui, pode-se ter como referência uma narrativa em outro país onde o policial, considerado lá bruto ou ambíguo moralmente, seria no Brasil quase um exemplo de direitos humanos e moralidade. 
Houveram tentativas de construção deste tipo de romance com resultados mais ou menos felizes no Brasil e, creia-se ou não, tinham sim certa recepção no Brasil, especialmente o Simenon, Agatha Christe, etc, em bancas de jornal onde estes romances, estrangeiros em mairoria, eram, ao menos até meados dos anos 90 trocados por um preço irrisório em bancas de todo o país, ao lado dos romances romanticos das séries Sabrina, Bianca, Júlia, etc etc.
A polícia de perfil burocrático, como coloca João Bernardo, de perfil francês existiu entre nós, inclusive na função de polícia política até o período Vargas, onde guarda certa semelhança com o modelo policial português que será vigente no salazarismo, pois o central era a coordenação e controle de informações. Após a militarização, depois da ditadura - que pese o mito de formação da própria instituição que é repisadamente divulgado também pela imprensa - surge outro tipo de policiamento que concorre e até hoje diminuiu o papel da polícia civil investigativa de levantamento de informações e formas de suborno levadas adiante após a ditadura segundo um perfil distinto, com uma ecologia própria entre o truta (ladrão), o ganso (alcaguete)e o tira, o policial civil e o advogado de porta de cadeia, esquema que coloca o tiras gansos e trutas. Já a PM tem esse perfil de ação militarizada que apresenta outro perfil e ação não individual, mas corporativa e militarizada com execução sumária e em ação constante.
A literatura que emerge deste furdúncio, com tendência à militarização, tentou sempre colocar em seu início, no período Vargas, em termos dedutivos, como as tentativas de Luís Coelho, assentando um certo perfil de uma sociedade em castas e estável. No entanto, parte da literatura brasileira como um todo é recortada pela forma de violência em relação ao poder institucional e apresenta, aqui e ali, personagens ligados a estes perfis, como milicianos e outros. 
Mas acredito que seja só no período recente que conheçamos na américa latina algo como uma literatura de gênero e como literatura maior que consiga olhar para o perfil do fora da lei e do policial já militarizado antes inexistente.
Curiosamente esta mudança começa com romances não ficcionais como os de Caco Barcellos, pois ele dá uma linearidade narrativa a reportagens como em Rota 66, Abusado - a história do traficante marcinho VP e, posteriormente surgindo o Cidade de Deus de Paulo Lins - e ao citar este romance, esqueçam o filme, ou biografias como o Quatrocentos contra um, escrita por um dos fundadores do comando vermelho, William da Silva. A realidade bate mais à cara e ganhna expressão num período onde obras de fôlego conseguem, finalmente tratar dos problemas policiais dos regimes ditadoriais da américa latina como Noturno do Chile, de Roberto Bolaño e O Material Humano de Rodrigo Rey Rosa, pois o político e o policial não se separam nestes contextos.
Quando tratamos destes romances é necessário lembrar do contexto em que nos inserimos no Brasil e do conflito entre a tentativa de criação de um policial herói absolutamente fictício em relação à realidade brasileira e que tenta justificar com a imagem do policial do romance o policial militar que age de fato no país como policiamento militarizado de exceção. Por outro lado, foi necessário todo um contexto de repulsa à figura do policial como em países como a França, onde é antiga a figura do romance marginal tento o astusioso bandido, como o ladrão Arsène Lupin de Maurice Leblanc, construído os pressupostos de um ladrão anarquizante que se possa identificar, o que é curioso, pois o banditismo social no Brasil apresenta figuras históricas reais interessantes que vão desde Lampião, os grandes assaltos, antes e depois da ditadura - que sempre possuem aceitação popular e mesmo o famoso ladrão italiano Meneghetti, o gato dos telhados.
Isto é, falta de substância não é, no entanto, podemos dizer que no Brasil a opinião pública oscila como um perigoso pêndulo entre a imagem fantasiosa do policial herói com uma imagem de policial civil importado contra uma corporação militar sanguinária e sua repulsa quando por motivo de um eventual massacre - entre os zilhões da história, que, por usa vez, não encontram resposta nos romances, isto é, qual o contexto de uma sociedade autoritária que produz massacres como se fossem eventos policiais e não guerras ?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No caso, no Brasil existe algo mais recente. Digamos que é muito particular o sentimento que coloca uma perspectiva que aproxime do protagonista, permitindo que se acompanhe a narrativa, no caso do romance policial, isto é conjunturalmente ligado, para mim, a certa imagem social da figura dos personagens típicos dessas histórias nuançados que sejam em seus contextos.<br />
Especialmente se considerarmos que ao narrar uma história aqui, pode-se ter como referência uma narrativa em outro país onde o policial, considerado lá bruto ou ambíguo moralmente, seria no Brasil quase um exemplo de direitos humanos e moralidade.<br />
Houveram tentativas de construção deste tipo de romance com resultados mais ou menos felizes no Brasil e, creia-se ou não, tinham sim certa recepção no Brasil, especialmente o Simenon, Agatha Christe, etc, em bancas de jornal onde estes romances, estrangeiros em mairoria, eram, ao menos até meados dos anos 90 trocados por um preço irrisório em bancas de todo o país, ao lado dos romances romanticos das séries Sabrina, Bianca, Júlia, etc etc.<br />
A polícia de perfil burocrático, como coloca João Bernardo, de perfil francês existiu entre nós, inclusive na função de polícia política até o período Vargas, onde guarda certa semelhança com o modelo policial português que será vigente no salazarismo, pois o central era a coordenação e controle de informações. Após a militarização, depois da ditadura &#8211; que pese o mito de formação da própria instituição que é repisadamente divulgado também pela imprensa &#8211; surge outro tipo de policiamento que concorre e até hoje diminuiu o papel da polícia civil investigativa de levantamento de informações e formas de suborno levadas adiante após a ditadura segundo um perfil distinto, com uma ecologia própria entre o truta (ladrão), o ganso (alcaguete)e o tira, o policial civil e o advogado de porta de cadeia, esquema que coloca o tiras gansos e trutas. Já a PM tem esse perfil de ação militarizada que apresenta outro perfil e ação não individual, mas corporativa e militarizada com execução sumária e em ação constante.<br />
A literatura que emerge deste furdúncio, com tendência à militarização, tentou sempre colocar em seu início, no período Vargas, em termos dedutivos, como as tentativas de Luís Coelho, assentando um certo perfil de uma sociedade em castas e estável. No entanto, parte da literatura brasileira como um todo é recortada pela forma de violência em relação ao poder institucional e apresenta, aqui e ali, personagens ligados a estes perfis, como milicianos e outros.<br />
Mas acredito que seja só no período recente que conheçamos na américa latina algo como uma literatura de gênero e como literatura maior que consiga olhar para o perfil do fora da lei e do policial já militarizado antes inexistente.<br />
Curiosamente esta mudança começa com romances não ficcionais como os de Caco Barcellos, pois ele dá uma linearidade narrativa a reportagens como em Rota 66, Abusado &#8211; a história do traficante marcinho VP e, posteriormente surgindo o Cidade de Deus de Paulo Lins &#8211; e ao citar este romance, esqueçam o filme, ou biografias como o Quatrocentos contra um, escrita por um dos fundadores do comando vermelho, William da Silva. A realidade bate mais à cara e ganhna expressão num período onde obras de fôlego conseguem, finalmente tratar dos problemas policiais dos regimes ditadoriais da américa latina como Noturno do Chile, de Roberto Bolaño e O Material Humano de Rodrigo Rey Rosa, pois o político e o policial não se separam nestes contextos.<br />
Quando tratamos destes romances é necessário lembrar do contexto em que nos inserimos no Brasil e do conflito entre a tentativa de criação de um policial herói absolutamente fictício em relação à realidade brasileira e que tenta justificar com a imagem do policial do romance o policial militar que age de fato no país como policiamento militarizado de exceção. Por outro lado, foi necessário todo um contexto de repulsa à figura do policial como em países como a França, onde é antiga a figura do romance marginal tento o astusioso bandido, como o ladrão Arsène Lupin de Maurice Leblanc, construído os pressupostos de um ladrão anarquizante que se possa identificar, o que é curioso, pois o banditismo social no Brasil apresenta figuras históricas reais interessantes que vão desde Lampião, os grandes assaltos, antes e depois da ditadura &#8211; que sempre possuem aceitação popular e mesmo o famoso ladrão italiano Meneghetti, o gato dos telhados.<br />
Isto é, falta de substância não é, no entanto, podemos dizer que no Brasil a opinião pública oscila como um perigoso pêndulo entre a imagem fantasiosa do policial herói com uma imagem de policial civil importado contra uma corporação militar sanguinária e sua repulsa quando por motivo de um eventual massacre &#8211; entre os zilhões da história, que, por usa vez, não encontram resposta nos romances, isto é, qual o contexto de uma sociedade autoritária que produz massacres como se fossem eventos policiais e não guerras ?</p>
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		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2012/02/51540/#comment-56419</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 25 Feb 2012 09:38:54 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Douglas,
Procurei responder a essa questão no segundo artigo da série.
Perguntador,
Não conheço suficientemente a literatura policial e a cinematografia brasileiras para lhe dar uma resposta. Seria necessário também situar a literatura policial brasileira no contexto deste tipo de romance nos demais países da América Latina, o que não tenho competência para fazer. Usando os conceitos a que recorri no segundo artigo, no Brasil seria impossível um detective privado, a não ser nas condições de Mandrake, evocado por Dokonal nos comentários desse segundo artigo. Mas seria perfeitamente possível o tipo de &lt;em&gt;thriller&lt;/em&gt; em que existem só gângsters perseguindo-se reciprocamente e em que, por conseguinte, cada um funciona para os outros como sendo um polícia. Também me parece que seria possível no Brasil inventar um polícia excêntrico, actuando por sua conta e isolado do resto da corporação, como analisei no segundo artigo.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Douglas,<br />
Procurei responder a essa questão no segundo artigo da série.<br />
Perguntador,<br />
Não conheço suficientemente a literatura policial e a cinematografia brasileiras para lhe dar uma resposta. Seria necessário também situar a literatura policial brasileira no contexto deste tipo de romance nos demais países da América Latina, o que não tenho competência para fazer. Usando os conceitos a que recorri no segundo artigo, no Brasil seria impossível um detective privado, a não ser nas condições de Mandrake, evocado por Dokonal nos comentários desse segundo artigo. Mas seria perfeitamente possível o tipo de <em>thriller</em> em que existem só gângsters perseguindo-se reciprocamente e em que, por conseguinte, cada um funciona para os outros como sendo um polícia. Também me parece que seria possível no Brasil inventar um polícia excêntrico, actuando por sua conta e isolado do resto da corporação, como analisei no segundo artigo.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: perguntador		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2012/02/51540/#comment-56403</link>

		<dc:creator><![CDATA[perguntador]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 25 Feb 2012 04:47:54 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A população pobre no geral não lê, mas faz narrativas incansáveis e transmitidas por décadas dos horrores que presencia: são romances policiais coletivos e orais. Depois inventaram o Datena, só um acréscimo do papo do cotidiano.

No Brasil não se pode brincar muito com história de polícia, a realidade é dura e presente. Mas há os filmes, alguns grandes retratos. Nunca entendi porque um país em parte dominado pelo crime organizado não tem boa literatura e bons filmes policiais. Douglas, João bernardo ou outros podem explicar?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A população pobre no geral não lê, mas faz narrativas incansáveis e transmitidas por décadas dos horrores que presencia: são romances policiais coletivos e orais. Depois inventaram o Datena, só um acréscimo do papo do cotidiano.</p>
<p>No Brasil não se pode brincar muito com história de polícia, a realidade é dura e presente. Mas há os filmes, alguns grandes retratos. Nunca entendi porque um país em parte dominado pelo crime organizado não tem boa literatura e bons filmes policiais. Douglas, João bernardo ou outros podem explicar?</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Douglas Anfra		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2012/02/51540/#comment-56398</link>

		<dc:creator><![CDATA[Douglas Anfra]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 25 Feb 2012 02:22:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Acho curioso que boa parte do romance policial tem suas ações calcadas nos detetives particulares e não nos policiais, o que faz pensar nas múltiplas formas de organização policial e suas múltiplas formas oriundas dos países em que se desenvolveram. A relação entre o sistema repressivo e o crime pode ajudar a entender contextos onde o romance ganha um solo onde se potencializa e desenvolve, pois há contexto para tais relações da &quot;pequena política&quot; (nas palavras de Hélène L&#039;Heuillet)que explica a múltipla origem da polícia.
Onde não há esse sistema da pequena política da polícia o romance policial soa quase como algo alienígena, pois qual seria o procedimento verossímil de um policial no Brasil, por exemplo ? Aquele da anedota da competição internacional das polícias por exemplo, onde todos são postos a procurar um coelho e, no final, a polícia brasileira ganha pelo tempo porque um animal qualquer é torturado e obrigado a confessar ser um coelho. Investigar a elite seria impossível, e o crime seria prontamente imputado a um pobre e fim da história.
Pergunto, de outro modo, porque esse gênero é tão desenvolvido nos EUA e Inglaterra e não em outros países, e porque sua tipologia analítica é distinta de outros autores que colocariam destaque por exemplo em Poe, como um primeiro motor da narrativa policial dedutiva.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Acho curioso que boa parte do romance policial tem suas ações calcadas nos detetives particulares e não nos policiais, o que faz pensar nas múltiplas formas de organização policial e suas múltiplas formas oriundas dos países em que se desenvolveram. A relação entre o sistema repressivo e o crime pode ajudar a entender contextos onde o romance ganha um solo onde se potencializa e desenvolve, pois há contexto para tais relações da &#8220;pequena política&#8221; (nas palavras de Hélène L&#8217;Heuillet)que explica a múltipla origem da polícia.<br />
Onde não há esse sistema da pequena política da polícia o romance policial soa quase como algo alienígena, pois qual seria o procedimento verossímil de um policial no Brasil, por exemplo ? Aquele da anedota da competição internacional das polícias por exemplo, onde todos são postos a procurar um coelho e, no final, a polícia brasileira ganha pelo tempo porque um animal qualquer é torturado e obrigado a confessar ser um coelho. Investigar a elite seria impossível, e o crime seria prontamente imputado a um pobre e fim da história.<br />
Pergunto, de outro modo, porque esse gênero é tão desenvolvido nos EUA e Inglaterra e não em outros países, e porque sua tipologia analítica é distinta de outros autores que colocariam destaque por exemplo em Poe, como um primeiro motor da narrativa policial dedutiva.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2012/02/51540/#comment-56381</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Feb 2012 23:45:12 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=51540#comment-56381</guid>

					<description><![CDATA[Caro Douglas,
Crescido e educado no funcionalismo, no construtivismo e no neoplasticismo, eu defendo que o principal conteúdo da arte é a forma e por isso sou aquilo que os zhdanovistas — e também muitos esquerdistas, sem o saberem, coitados — consideram depreciativamente um &lt;em&gt;formalista&lt;/em&gt;. Ruskin, Pugin, o Arts and Crafts e os pré-rafaelitas, tal como os nazarenos antes deles, apreciavam a estética medieval porque viam nela uma forma decorrente da função, e não uma forma mascarando a função, como sucedeu na arte ocidental desde a segunda renascença em diante, ou seja, a partir de Rafael e Miguel Ângelo. Foi neste sentido e só neste sentido que eles procederam à apologia do artesanato. Se você ler os textos políticos de William Morris, que enchem um grosso volume, e se seguir a sua militância prática, verificará que ele se posicionava na ala esquerda do marxismo, defendendo o antiparlamentarismo, o que o levou a romper com Engels, com Eleanor Marx e com Aveling.
Depois desta geração de precursores, o funcionalismo ligou-se estreitamente à produção industrial, procurando que tanto na arquitectura como nos objectos produzidos em massa a forma decorresse do conteúdo, a forma expressasse o conteúdo. Era este o objectivo do &lt;em&gt;design&lt;/em&gt;, pretendendo chegar a formas que, ao conseguirem uma adequação completa ao conteúdo, se tornassem definitivas e imutáveis, e por isso clássicas. Os dois exemplos mais comuns eram a bicicleta e o relógio. A noção original de &lt;em&gt;design&lt;/em&gt; estava nos antípodas da noção de &lt;em&gt;moda&lt;/em&gt;.
É interessante saber que o termo e a noção de &lt;em&gt;pós-modernismo&lt;/em&gt; começaram por se difundir na arquitectura, correspondendo à restauração de formas que, uma vez mais, mascarassem os conteúdos. Antes de ser filosófica e política, a minha rejeição do pós-modernismo é estética e, por isso, é visceral.
Mas por que será que ninguém fala de romance policial nestes comentários?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Douglas,<br />
Crescido e educado no funcionalismo, no construtivismo e no neoplasticismo, eu defendo que o principal conteúdo da arte é a forma e por isso sou aquilo que os zhdanovistas — e também muitos esquerdistas, sem o saberem, coitados — consideram depreciativamente um <em>formalista</em>. Ruskin, Pugin, o Arts and Crafts e os pré-rafaelitas, tal como os nazarenos antes deles, apreciavam a estética medieval porque viam nela uma forma decorrente da função, e não uma forma mascarando a função, como sucedeu na arte ocidental desde a segunda renascença em diante, ou seja, a partir de Rafael e Miguel Ângelo. Foi neste sentido e só neste sentido que eles procederam à apologia do artesanato. Se você ler os textos políticos de William Morris, que enchem um grosso volume, e se seguir a sua militância prática, verificará que ele se posicionava na ala esquerda do marxismo, defendendo o antiparlamentarismo, o que o levou a romper com Engels, com Eleanor Marx e com Aveling.<br />
Depois desta geração de precursores, o funcionalismo ligou-se estreitamente à produção industrial, procurando que tanto na arquitectura como nos objectos produzidos em massa a forma decorresse do conteúdo, a forma expressasse o conteúdo. Era este o objectivo do <em>design</em>, pretendendo chegar a formas que, ao conseguirem uma adequação completa ao conteúdo, se tornassem definitivas e imutáveis, e por isso clássicas. Os dois exemplos mais comuns eram a bicicleta e o relógio. A noção original de <em>design</em> estava nos antípodas da noção de <em>moda</em>.<br />
É interessante saber que o termo e a noção de <em>pós-modernismo</em> começaram por se difundir na arquitectura, correspondendo à restauração de formas que, uma vez mais, mascarassem os conteúdos. Antes de ser filosófica e política, a minha rejeição do pós-modernismo é estética e, por isso, é visceral.<br />
Mas por que será que ninguém fala de romance policial nestes comentários?</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Douglas Anfra		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2012/02/51540/#comment-56370</link>

		<dc:creator><![CDATA[Douglas Anfra]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Feb 2012 21:27:53 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=51540#comment-56370</guid>

					<description><![CDATA[Eu concordaria somente em parte quando ao comentário sobre o Arts and Crafts, e pediria mais um desenvolvimento sobre o ponto de discordância onde filamente diz aquilo que especificamente a literatura supera a psicanálise que você já disse por fora em outras ocasiões.
Que o Arts and Crafts seja um movimento ambíguo no sentido muito mais de um tipo de Proudhonismo, pois tentariam negar a alienação do trabalho no contexto do romantismo, certamente influenciados, todos eles, que tinham relação com a irmandade pré-rafaelita com o romantismo ruskiniano, isto é, está em questão um pensamento socialista utópico, mas o que viam na idade média ? 
“Porque as pessoas tinham amor pelo que faziam, a idade média foi um período dourado da arte do homem comum. Os tesouros em nossos museus agora são apenas os utensílios comuns utilizados em residências daquela época, quando centenas de igrejas medievais – cada uma, uma obra de arte – foram construídas por simples camponeses”
Em primeiro lugar, diria que ao buscarem a forma cooperativa de produção artesanal, estavam num espírito de negação dos horrores da grande indústria, especialmente a divisão do trabalho, optando por voltar ao modo anterior, isto é, ao período prévio à manufatura, como se um sentido humano houvesse se perdido no processo de desenvolvimento e produção de objetos. Não tinham nada muito diferente no horror à manufatura   em relação aos ludistas.
No entanto, nesse processo operavam não exatamente uma volta ao mundo antigo, mas a criação de um novo sistema num princípio distinto e isso teve consequências, pois reinterpretavam o passado medieval, em outras palavras, gótico, não como ele ocorreu. 
E este processo teve consequências distintas, de um lado ajudou a dar forma a uma ideia de não separação entre o objeto útil e o artístico, que terá consequências na leitura que fazer dos utensílios que passam a ser racionalizados a partir de padrões observados, surgindo dai o design, que unirá, de certo modo o processo posterior de uma arte que racionaliza estes padrões dos objetos ligando-os, neste aspecto à Bauhaus.
Tanto que para Ashbee, era necessário &quot;Procurar não só para definir um padrão mais elevado de perfeição, mas, ao mesmo tempo, e ao fazê-lo, para proteger o estado do artesão. Para esse efeito, se esforça para orientar uma média entre a independência do artista, que é individualista e, muitas vezes parasita e do comércio de loja, onde o trabalhador é obrigado a tradições puramente comerciais e antiquada, e tem, como regra, a participação não nos negócios e sem qualquer interesse além do seu salário semanal&quot;. 
E eis onde a porca torce o rabo, digamos, estão além do interesse do trabalhador individual, mas tentam garantir o elevado trabalho do artesão como forma de resistência em tensão com o negociante num sociedade capitalista e seu interesse limitado e burguês, frutos desta época. viam a necessidade da criação de uma cultura de resistência do trabalhador, com uma capacidade de resistência, mas que resultou apenas em objetos caros nesse caso.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu concordaria somente em parte quando ao comentário sobre o Arts and Crafts, e pediria mais um desenvolvimento sobre o ponto de discordância onde filamente diz aquilo que especificamente a literatura supera a psicanálise que você já disse por fora em outras ocasiões.<br />
Que o Arts and Crafts seja um movimento ambíguo no sentido muito mais de um tipo de Proudhonismo, pois tentariam negar a alienação do trabalho no contexto do romantismo, certamente influenciados, todos eles, que tinham relação com a irmandade pré-rafaelita com o romantismo ruskiniano, isto é, está em questão um pensamento socialista utópico, mas o que viam na idade média ?<br />
“Porque as pessoas tinham amor pelo que faziam, a idade média foi um período dourado da arte do homem comum. Os tesouros em nossos museus agora são apenas os utensílios comuns utilizados em residências daquela época, quando centenas de igrejas medievais – cada uma, uma obra de arte – foram construídas por simples camponeses”<br />
Em primeiro lugar, diria que ao buscarem a forma cooperativa de produção artesanal, estavam num espírito de negação dos horrores da grande indústria, especialmente a divisão do trabalho, optando por voltar ao modo anterior, isto é, ao período prévio à manufatura, como se um sentido humano houvesse se perdido no processo de desenvolvimento e produção de objetos. Não tinham nada muito diferente no horror à manufatura   em relação aos ludistas.<br />
No entanto, nesse processo operavam não exatamente uma volta ao mundo antigo, mas a criação de um novo sistema num princípio distinto e isso teve consequências, pois reinterpretavam o passado medieval, em outras palavras, gótico, não como ele ocorreu.<br />
E este processo teve consequências distintas, de um lado ajudou a dar forma a uma ideia de não separação entre o objeto útil e o artístico, que terá consequências na leitura que fazer dos utensílios que passam a ser racionalizados a partir de padrões observados, surgindo dai o design, que unirá, de certo modo o processo posterior de uma arte que racionaliza estes padrões dos objetos ligando-os, neste aspecto à Bauhaus.<br />
Tanto que para Ashbee, era necessário &#8220;Procurar não só para definir um padrão mais elevado de perfeição, mas, ao mesmo tempo, e ao fazê-lo, para proteger o estado do artesão. Para esse efeito, se esforça para orientar uma média entre a independência do artista, que é individualista e, muitas vezes parasita e do comércio de loja, onde o trabalhador é obrigado a tradições puramente comerciais e antiquada, e tem, como regra, a participação não nos negócios e sem qualquer interesse além do seu salário semanal&#8221;.<br />
E eis onde a porca torce o rabo, digamos, estão além do interesse do trabalhador individual, mas tentam garantir o elevado trabalho do artesão como forma de resistência em tensão com o negociante num sociedade capitalista e seu interesse limitado e burguês, frutos desta época. viam a necessidade da criação de uma cultura de resistência do trabalhador, com uma capacidade de resistência, mas que resultou apenas em objetos caros nesse caso.</p>
]]></content:encoded>
		
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		<item>
		<title>
		Por: iraldo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2012/02/51540/#comment-55685</link>

		<dc:creator><![CDATA[iraldo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Feb 2012 00:48:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Joao, obrigado pela riqueza dos esclarecimentos. Eis um campo onde muito falta por esclarecer...

Saudaçoes!

Iraldo.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Joao, obrigado pela riqueza dos esclarecimentos. Eis um campo onde muito falta por esclarecer&#8230;</p>
<p>Saudaçoes!</p>
<p>Iraldo.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2012/02/51540/#comment-55545</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Feb 2012 15:09:57 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Caro Iraldo,
1) O movimento Arts and Crafts, animado por William Morris e inspirado teoricamente por Ruskin, era anti-industrial, revivalista e medievalizante. Todavia, devido ao seu interesse pelas artes aplicadas e à sua insistência na estrutura da obra, William Morris encontra lugar nos prolegómenos do funcionalismo, pelo que ele foi ao mesmo tempo um revivalista e um precursor do modernismo. E foi tudo isto no quadro do marxismo militante, pois foi um dos mais activos participantes da primeira geração de marxistas britânicos, o que colocaria aos teóricos marxistas da estética um sério problema se eles não preferissem virar a cara para o outro lado.
2) A grande ruptura estética ocorreu com o modernismo e demorou mais de meio século a ser gerada. Recorrendo aos marcos cronológicos habituais, a gestação iniciou-se com o Palácio de Cristal, construído para a Grande Exposição de Londres de 1851, e alcançou a maturidade com a fundação da Bauhaus em 1919. Tratava-se de adoptar uma visão, e um ouvido também, aptos a perceber a novidade da sociedade industrial e urbana. Tratava-se, em suma, de tornar as pessoas contemporâneas do mundo em que vivem. Transportar uma visão e um ouvido ruralistas para a sociedade urbana e industrial é condenar-se à cegueira e à surdez.
3) Nos seus anos iniciais a revolução russa fundiu a transformação da política e a transformação da estética, mas Lenin rapidamente pôs cobro às experiências construtivistas e abstraccionistas mais ousadas e obrigou ao exílio ou ao esquecimento a vanguarda estética não só russa mas igualmente estrangeira, que pensara encontrar na revolução política um campo fértil para a revolução estética. No entanto, aquela fusão de dois projectos revolucionários foi suficientemente forte para ter deixado traços mesmo durante a época staliniana. As telas vanguardistas foram afastadas das exposições, mas artistas como El Lissitzky e Rodtchenko marcaram as artes gráficas durante o período stalinista e inventaram a forma de exibir em exposições os dados de carácter económico, o que teve uma grande importância com os primeiros planos quinquenais.
4) O desparecimento da aura da obra de arte — uma questão acerca da qual se tornaram conhecidas as reflexões de Walter Benjamin — resulta da inserção da obra de arte na sociedade industrial. Creio ter sido Moholy-Nagy quem criou um quadro, em folha de Flandres, mediante uma encomenda telefónica feita para uma fábrica, indicando as dimensões e indicando as cores através de números de catálogo. O desaparecimento da marca individual e a preocupação com a estrutura são dois dos elementos definidores do construtivismo e do funcionalismo. E também o fim da arte como ilusão. Assumindo a bidimensionalidade do quadro e, portanto, rejeitando os artifícios da perspectiva geométrica; recorrendo a cores puras para evitar a perpectiva luminosa; e assumindo o carácter estático do quadro e, portanto, aplicando uma estrita ortogonalidade, para não sugerir com ângulos uma noção de movimento, Mondrian levou ao apogeu o funcionalismo nas artes plásticas. E no mesmo gesto pôs fim à pintura. Por igual motivo os vanguardistas manifestavam tanto interesse pelas obras africanas e da América pré-colombiana, porque encontravam nelas uma negação do individualismo, assumida como um classismo, e uma preocupação com a estrutura idênticas às que eles mesmos tinham. Paralelamente a arquitectura funcionalista liquidou a distinção entre fachada e interior, ou seja, aboliu as fachadas, cuja função é mascararem o interior. O funcionalismo não constituiu somente a invenção de uma estética, mas correspondeu à adopção de uma nova postura na vida.
5) Em conjugação com este processo nas artes visuais, a música abriu-se a outros sons e a uma estética de colagem, liquidando definitivamente as noções de melodia e de tema. Edgar Varèse é o maior compositor do século XX, porque inaugurou um espaço sonoro onde se insere tudo o que de melhor se fez depois.
6) Aqueles militantes políticos de esquerda que dizem que não se interessam por arte não sabem o que dizem. Eles vêem e ouvem, e por conseguinte têm os olhos e os ouvidos educados para perceber certas coisas e não perceber outras. O problema é que eles não tornaram consciente essa educação visual e auditiva, entregaram-na passivamente aos &lt;em&gt;outdoors&lt;/em&gt;, à televisão, às vitrines, ao arranjo gráfico dos jornais e revistas, às decorações de &lt;em&gt;shopping&lt;/em&gt;, aos filmes de grande cartaz, às músicas de três minutos feitas em massa para chegar ao &lt;em&gt;top ten&lt;/em&gt; num dia e serem esquecidas no dia seguinte, substituídas por outras. Isto significa que não há pessoas que não se interessam por arte. O que há é pessoas que alienaram à mais rasteira indústria de massas a sua formação estética. Este é um sintoma trágico da incapacidade dos militantes políticos de esquerda contemporâneos para efectuar qualquer ruptura significativa. No que diz respeito às sensações visuais e auditivas, vivem de maneira inteiramente alienada. Não espanta que, no que diz respeito às ideias políticas, oscilem entre a pop-filosofia e as encenações ruralistas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Iraldo,<br />
1) O movimento Arts and Crafts, animado por William Morris e inspirado teoricamente por Ruskin, era anti-industrial, revivalista e medievalizante. Todavia, devido ao seu interesse pelas artes aplicadas e à sua insistência na estrutura da obra, William Morris encontra lugar nos prolegómenos do funcionalismo, pelo que ele foi ao mesmo tempo um revivalista e um precursor do modernismo. E foi tudo isto no quadro do marxismo militante, pois foi um dos mais activos participantes da primeira geração de marxistas britânicos, o que colocaria aos teóricos marxistas da estética um sério problema se eles não preferissem virar a cara para o outro lado.<br />
2) A grande ruptura estética ocorreu com o modernismo e demorou mais de meio século a ser gerada. Recorrendo aos marcos cronológicos habituais, a gestação iniciou-se com o Palácio de Cristal, construído para a Grande Exposição de Londres de 1851, e alcançou a maturidade com a fundação da Bauhaus em 1919. Tratava-se de adoptar uma visão, e um ouvido também, aptos a perceber a novidade da sociedade industrial e urbana. Tratava-se, em suma, de tornar as pessoas contemporâneas do mundo em que vivem. Transportar uma visão e um ouvido ruralistas para a sociedade urbana e industrial é condenar-se à cegueira e à surdez.<br />
3) Nos seus anos iniciais a revolução russa fundiu a transformação da política e a transformação da estética, mas Lenin rapidamente pôs cobro às experiências construtivistas e abstraccionistas mais ousadas e obrigou ao exílio ou ao esquecimento a vanguarda estética não só russa mas igualmente estrangeira, que pensara encontrar na revolução política um campo fértil para a revolução estética. No entanto, aquela fusão de dois projectos revolucionários foi suficientemente forte para ter deixado traços mesmo durante a época staliniana. As telas vanguardistas foram afastadas das exposições, mas artistas como El Lissitzky e Rodtchenko marcaram as artes gráficas durante o período stalinista e inventaram a forma de exibir em exposições os dados de carácter económico, o que teve uma grande importância com os primeiros planos quinquenais.<br />
4) O desparecimento da aura da obra de arte — uma questão acerca da qual se tornaram conhecidas as reflexões de Walter Benjamin — resulta da inserção da obra de arte na sociedade industrial. Creio ter sido Moholy-Nagy quem criou um quadro, em folha de Flandres, mediante uma encomenda telefónica feita para uma fábrica, indicando as dimensões e indicando as cores através de números de catálogo. O desaparecimento da marca individual e a preocupação com a estrutura são dois dos elementos definidores do construtivismo e do funcionalismo. E também o fim da arte como ilusão. Assumindo a bidimensionalidade do quadro e, portanto, rejeitando os artifícios da perspectiva geométrica; recorrendo a cores puras para evitar a perpectiva luminosa; e assumindo o carácter estático do quadro e, portanto, aplicando uma estrita ortogonalidade, para não sugerir com ângulos uma noção de movimento, Mondrian levou ao apogeu o funcionalismo nas artes plásticas. E no mesmo gesto pôs fim à pintura. Por igual motivo os vanguardistas manifestavam tanto interesse pelas obras africanas e da América pré-colombiana, porque encontravam nelas uma negação do individualismo, assumida como um classismo, e uma preocupação com a estrutura idênticas às que eles mesmos tinham. Paralelamente a arquitectura funcionalista liquidou a distinção entre fachada e interior, ou seja, aboliu as fachadas, cuja função é mascararem o interior. O funcionalismo não constituiu somente a invenção de uma estética, mas correspondeu à adopção de uma nova postura na vida.<br />
5) Em conjugação com este processo nas artes visuais, a música abriu-se a outros sons e a uma estética de colagem, liquidando definitivamente as noções de melodia e de tema. Edgar Varèse é o maior compositor do século XX, porque inaugurou um espaço sonoro onde se insere tudo o que de melhor se fez depois.<br />
6) Aqueles militantes políticos de esquerda que dizem que não se interessam por arte não sabem o que dizem. Eles vêem e ouvem, e por conseguinte têm os olhos e os ouvidos educados para perceber certas coisas e não perceber outras. O problema é que eles não tornaram consciente essa educação visual e auditiva, entregaram-na passivamente aos <em>outdoors</em>, à televisão, às vitrines, ao arranjo gráfico dos jornais e revistas, às decorações de <em>shopping</em>, aos filmes de grande cartaz, às músicas de três minutos feitas em massa para chegar ao <em>top ten</em> num dia e serem esquecidas no dia seguinte, substituídas por outras. Isto significa que não há pessoas que não se interessam por arte. O que há é pessoas que alienaram à mais rasteira indústria de massas a sua formação estética. Este é um sintoma trágico da incapacidade dos militantes políticos de esquerda contemporâneos para efectuar qualquer ruptura significativa. No que diz respeito às sensações visuais e auditivas, vivem de maneira inteiramente alienada. Não espanta que, no que diz respeito às ideias políticas, oscilem entre a pop-filosofia e as encenações ruralistas.</p>
]]></content:encoded>
		
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		<item>
		<title>
		Por: iraldo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2012/02/51540/#comment-55501</link>

		<dc:creator><![CDATA[iraldo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Feb 2012 02:44:51 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Gostei da elucidaçao do carater positivista do &quot;romance dedutivo&quot;...

Aproveitando o comentario de Maria Amelia sobre a questao estetica, mas em outro campo, h´a muito quero entender melhor, Joao, sua an´alise sobre o design, pois existem algumas poucas passagens  sobre o funcionalismo e os revivalismos, a Bauhaus e o Vkhutemas, em Economia dos conflitos sociais. Tambem conheço sua admiraçao pelo neoplasticismo, especificamente por Mondrian, e li alguns breves comentarios seus sobre o romantismo de William Morris, lembrando-o como o primeiro artista marxista. Alem das ilustraçoes que eventualmente aparecem no Passapalavra, de  Moholy-Nagy, Rodtchenko, Gabo, entre outros. Sei que ´e um tema que desperta pouco interesse nos meios politicos de esquerda, pois design ´e sempre superficialmente, embora nao sem motivos, associado ao &quot;consumismo&quot;.  No entanto, sempre o vejo tangenciando a questao, embora nunca em uma obra de maior folego. ´E poss´ivel sintetizar seu olhar sobre o tema, principalmente em termos pol´iticos, neste espaço de coment´arios? Eu agradeço.

Saudaçoes!

Iraldo.

Me desculpem pela acentuaçao, meu teclado est´a p´essimo...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Gostei da elucidaçao do carater positivista do &#8220;romance dedutivo&#8221;&#8230;</p>
<p>Aproveitando o comentario de Maria Amelia sobre a questao estetica, mas em outro campo, h´a muito quero entender melhor, Joao, sua an´alise sobre o design, pois existem algumas poucas passagens  sobre o funcionalismo e os revivalismos, a Bauhaus e o Vkhutemas, em Economia dos conflitos sociais. Tambem conheço sua admiraçao pelo neoplasticismo, especificamente por Mondrian, e li alguns breves comentarios seus sobre o romantismo de William Morris, lembrando-o como o primeiro artista marxista. Alem das ilustraçoes que eventualmente aparecem no Passapalavra, de  Moholy-Nagy, Rodtchenko, Gabo, entre outros. Sei que ´e um tema que desperta pouco interesse nos meios politicos de esquerda, pois design ´e sempre superficialmente, embora nao sem motivos, associado ao &#8220;consumismo&#8221;.  No entanto, sempre o vejo tangenciando a questao, embora nunca em uma obra de maior folego. ´E poss´ivel sintetizar seu olhar sobre o tema, principalmente em termos pol´iticos, neste espaço de coment´arios? Eu agradeço.</p>
<p>Saudaçoes!</p>
<p>Iraldo.</p>
<p>Me desculpem pela acentuaçao, meu teclado est´a p´essimo&#8230;</p>
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