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	Comentários sobre: Romance policial. 2) a solidão	</title>
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	<description>Noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas</description>
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		<title>
		Por: Rui Matias		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2012/02/51542/#comment-57024</link>

		<dc:creator><![CDATA[Rui Matias]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Mar 2012 13:47:36 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Caro João Bernardo

Creio que ficou mais claro para mim o que está por trás dos meus questionamentos e de quão problemáticos são os pontos de vista que me ocorreram em relação a eles. 
 Tudo começou pela profunda impressão causada pela leitura cuzada dos textos de Poe e dos comentários de Baudellaire em relação a ele e dos textos de W. Benjamin com respeito à relação dos dois e do papel de Poe como precursor do romance policial. Pareceu-me então haver uma grande tensão nos textos de Poe e que poderia ser levada aos romances policiais em geral, entre a superação da ordem moral e a impossibilidade (prática mesmo) de se abandonar totalmente o plano do dever-ser. Estas reflexôes voltaram justamente quando estudei na faculdade de filosofia a ´´ Ética`` de Spinoza.
 Pensei então na possibilidade de se pensar num processo algo análogo ao de fantasmagoria de W. Benjamin, e que se aplicaria à esfera da cultura de geral. Mas, além do problema que vc apontou do risco metodológico de se misturar um conceito específico ( fantasmagoria - no caso de Benjamin - na relação das novas tecnologias do capitalismo com as antigas) com categorias mais gerais como as da moral, temos o fato de as antigas tecnologias aparecerem aos contemporâneos como quadros de referência para as novas tecnologias, o que obviamente não ocorre na relação do thriller com a moral. O que talvez reste disso tudo seja a tensão entre a negação da moral e o plano do dever-ser...
 Quando vc esclarece que a sua diferença maior com Nietzche é com relação ao carácter especulativo das suas idéias, ocorre-me que talvez seja este carácter a principal razão para que Marx tenha deixado de ser a principal referência teórica na Filosofia da USP, como nos anos 60 ( segundo o relato de alguns professores) e agora este espaço seja ocupado por Nietzche. Sinal dos tempos?
 Obrigado pelas indicações e 

 Saudações]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro João Bernardo</p>
<p>Creio que ficou mais claro para mim o que está por trás dos meus questionamentos e de quão problemáticos são os pontos de vista que me ocorreram em relação a eles.<br />
 Tudo começou pela profunda impressão causada pela leitura cuzada dos textos de Poe e dos comentários de Baudellaire em relação a ele e dos textos de W. Benjamin com respeito à relação dos dois e do papel de Poe como precursor do romance policial. Pareceu-me então haver uma grande tensão nos textos de Poe e que poderia ser levada aos romances policiais em geral, entre a superação da ordem moral e a impossibilidade (prática mesmo) de se abandonar totalmente o plano do dever-ser. Estas reflexôes voltaram justamente quando estudei na faculdade de filosofia a ´´ Ética&#8220; de Spinoza.<br />
 Pensei então na possibilidade de se pensar num processo algo análogo ao de fantasmagoria de W. Benjamin, e que se aplicaria à esfera da cultura de geral. Mas, além do problema que vc apontou do risco metodológico de se misturar um conceito específico ( fantasmagoria &#8211; no caso de Benjamin &#8211; na relação das novas tecnologias do capitalismo com as antigas) com categorias mais gerais como as da moral, temos o fato de as antigas tecnologias aparecerem aos contemporâneos como quadros de referência para as novas tecnologias, o que obviamente não ocorre na relação do thriller com a moral. O que talvez reste disso tudo seja a tensão entre a negação da moral e o plano do dever-ser&#8230;<br />
 Quando vc esclarece que a sua diferença maior com Nietzche é com relação ao carácter especulativo das suas idéias, ocorre-me que talvez seja este carácter a principal razão para que Marx tenha deixado de ser a principal referência teórica na Filosofia da USP, como nos anos 60 ( segundo o relato de alguns professores) e agora este espaço seja ocupado por Nietzche. Sinal dos tempos?<br />
 Obrigado pelas indicações e </p>
<p> Saudações</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2012/02/51542/#comment-56922</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 01 Mar 2012 12:50:38 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Caro Rui Matias,
Quanto a Freud &amp; Cª, remeto para o segundo comentário no primeiro artigo desta série, a minha resposta a José Luiz.
A minha aversão a Nietzsche em nada se deve às propensões políticas dele. Deve-se ao facto de ser um filósofo meramente especulativo, desinteressado da visão factual, e ao facto de ter convertido o estilo de aforismos num álibi para o pensamento desconexo. Aliás, não esqueça que Wagner rompeu espectacularmente com Nietzsche, mas falar disso levaria demasiado longe. Para me limitar ao aspecto que mais de perto toca o &lt;em&gt;thriller&lt;/em&gt;, a questão do Bem e do Mal, remeto para o que disse acerca de Dostoievski no comentário há pouco referido. Mas a ausência de oposição entre Bem e Mal, ou a ultrapassagem dessa oposição, ou a restrição do significado desses termos encontra-se já tratada com profundidade na grande obra de Balzac e, imediatamente antes do romantismo, nos romancistas libertinos franceses das últimas décadas do século XVIII. Todavia, desde os libertinos até Dostoievski, todos os que se interessaram pela dialéctica do Bem e do Mal foram buscar inspiração num colossal filósofo — Spinoza, na &lt;em&gt;Ética&lt;/em&gt;. E na cultura europeia as raízes dessa dialéctica nascem mais longe, na Idade Média, nos Adeptos do Livre Espírito, que eu classificaria como os heterodoxos da heterodoxia. É exactamente nesta trama que os personagens dos &lt;em&gt;thrillers&lt;/em&gt; têm de agir. Eles são a ilustração viva de um milinénio de pensamento acerca da dialéctica do Bem e do Mal. Nesta longa linhagem as lucubrações de Nietzsche parece-me ocuparem um lugar menor.
Quanto ao &lt;em&gt;thriller&lt;/em&gt; no cinema, aconselho-o a ver os grandes clássicos, feitos antes de Hollywood ser o que é, os filmes com Humphrey Bogart como protaginista, sobretudo &lt;em&gt;The Maltese Falcon&lt;/em&gt;, de John Huston, e &lt;em&gt;The Big Sleep&lt;/em&gt;, de Howard Hawks. Estes foram os realizadores (ou directores, como se diz no Brasil) e o actor que fizeram no cinema verdadeiros &lt;em&gt;thrillers&lt;/em&gt;. Depois, Scorsese, na época em que ainda fazia filmes realmente bons, realizou (ou dirigiu) uma obra-prima do &lt;em&gt;thriller&lt;/em&gt; sórdido, &lt;em&gt;Mean Streets&lt;/em&gt;. Mais recentemente, Werner Herzog realizou &lt;em&gt;Bad Lieuetnant&lt;/em&gt;, que considero um excelente &lt;em&gt;thriller&lt;/em&gt;, ilustrando dois temas do género: a obsessão na acção e o polícia (policial, no Brasil) excêntrico que age por conta própria. Igualmente nos últimos anos, &lt;em&gt;Plata Quemada&lt;/em&gt;, do realizador argentino Marcelo Piñeyro, e &lt;em&gt;Rosa La China&lt;/em&gt;, da realizadora chilena Valeria Sarmiento, são dois &lt;em&gt;thrillers&lt;/em&gt; que me parece importante ver e que não se limitam aos lugares-comuns do género. Enfim, ficam algumas indicações.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Rui Matias,<br />
Quanto a Freud &#038; Cª, remeto para o segundo comentário no primeiro artigo desta série, a minha resposta a José Luiz.<br />
A minha aversão a Nietzsche em nada se deve às propensões políticas dele. Deve-se ao facto de ser um filósofo meramente especulativo, desinteressado da visão factual, e ao facto de ter convertido o estilo de aforismos num álibi para o pensamento desconexo. Aliás, não esqueça que Wagner rompeu espectacularmente com Nietzsche, mas falar disso levaria demasiado longe. Para me limitar ao aspecto que mais de perto toca o <em>thriller</em>, a questão do Bem e do Mal, remeto para o que disse acerca de Dostoievski no comentário há pouco referido. Mas a ausência de oposição entre Bem e Mal, ou a ultrapassagem dessa oposição, ou a restrição do significado desses termos encontra-se já tratada com profundidade na grande obra de Balzac e, imediatamente antes do romantismo, nos romancistas libertinos franceses das últimas décadas do século XVIII. Todavia, desde os libertinos até Dostoievski, todos os que se interessaram pela dialéctica do Bem e do Mal foram buscar inspiração num colossal filósofo — Spinoza, na <em>Ética</em>. E na cultura europeia as raízes dessa dialéctica nascem mais longe, na Idade Média, nos Adeptos do Livre Espírito, que eu classificaria como os heterodoxos da heterodoxia. É exactamente nesta trama que os personagens dos <em>thrillers</em> têm de agir. Eles são a ilustração viva de um milinénio de pensamento acerca da dialéctica do Bem e do Mal. Nesta longa linhagem as lucubrações de Nietzsche parece-me ocuparem um lugar menor.<br />
Quanto ao <em>thriller</em> no cinema, aconselho-o a ver os grandes clássicos, feitos antes de Hollywood ser o que é, os filmes com Humphrey Bogart como protaginista, sobretudo <em>The Maltese Falcon</em>, de John Huston, e <em>The Big Sleep</em>, de Howard Hawks. Estes foram os realizadores (ou directores, como se diz no Brasil) e o actor que fizeram no cinema verdadeiros <em>thrillers</em>. Depois, Scorsese, na época em que ainda fazia filmes realmente bons, realizou (ou dirigiu) uma obra-prima do <em>thriller</em> sórdido, <em>Mean Streets</em>. Mais recentemente, Werner Herzog realizou <em>Bad Lieuetnant</em>, que considero um excelente <em>thriller</em>, ilustrando dois temas do género: a obsessão na acção e o polícia (policial, no Brasil) excêntrico que age por conta própria. Igualmente nos últimos anos, <em>Plata Quemada</em>, do realizador argentino Marcelo Piñeyro, e <em>Rosa La China</em>, da realizadora chilena Valeria Sarmiento, são dois <em>thrillers</em> que me parece importante ver e que não se limitam aos lugares-comuns do género. Enfim, ficam algumas indicações.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Rui Matias		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2012/02/51542/#comment-56869</link>

		<dc:creator><![CDATA[Rui Matias]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 29 Feb 2012 23:23:12 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=51542#comment-56869</guid>

					<description><![CDATA[Caro João Bernardo

Quero agradecer-lhe o longo comentário,a paciência e a pertinência das suas observações, inclusive o exemplo da China que vc deu, também me ocorreu quando eu escrevia. Devo admitir envergonhadamente que o meu contacto com o thriller se dá mais através das versões muito transformadas que o Gênero sofre no cinema.Mesmo que eu tenha pensado a decadência não tanto como tema, mas muito mais como uma espécie de mitologia de fundo, é no cinema (principalmente no cine americano)e não na literatura que esta mitologia difusa às vezes aparece, então admito que foi mais um abuso da minha parte.
 Por fim, sem querer alugá-lo, não resisto à tentação de perguntar-lhe o porquê da sua antipatia por Nietzche.Causa-me espanto esta tendência recente de esquecer a inegável filiação dele à extrema-direita (mesmo que com muitas contradições) e de transformá-lo quase num autor libertário. Parte da sua antipatia tem a ver com esta ligação dele com as ideologias da direita radical do período? Quando vc citou Wagner eu logo lembrei da proximidade que ele e Nietzche chegaram a ter. Aliás, se vc puder acrescentar algo à relação da psicanálise freudiana com o legado nietzcheano; eu em algum lugar li uma declaração de Freud afirmando que Nietzche era provavelmente o maior psicólogo do Ocidente, e que ele, Freud, não lia mais do que algumas linhas em sequencia dos textos de Nietzche para preservar a própria independência intelectual...

Abraços e mais uma vez obiigado]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro João Bernardo</p>
<p>Quero agradecer-lhe o longo comentário,a paciência e a pertinência das suas observações, inclusive o exemplo da China que vc deu, também me ocorreu quando eu escrevia. Devo admitir envergonhadamente que o meu contacto com o thriller se dá mais através das versões muito transformadas que o Gênero sofre no cinema.Mesmo que eu tenha pensado a decadência não tanto como tema, mas muito mais como uma espécie de mitologia de fundo, é no cinema (principalmente no cine americano)e não na literatura que esta mitologia difusa às vezes aparece, então admito que foi mais um abuso da minha parte.<br />
 Por fim, sem querer alugá-lo, não resisto à tentação de perguntar-lhe o porquê da sua antipatia por Nietzche.Causa-me espanto esta tendência recente de esquecer a inegável filiação dele à extrema-direita (mesmo que com muitas contradições) e de transformá-lo quase num autor libertário. Parte da sua antipatia tem a ver com esta ligação dele com as ideologias da direita radical do período? Quando vc citou Wagner eu logo lembrei da proximidade que ele e Nietzche chegaram a ter. Aliás, se vc puder acrescentar algo à relação da psicanálise freudiana com o legado nietzcheano; eu em algum lugar li uma declaração de Freud afirmando que Nietzche era provavelmente o maior psicólogo do Ocidente, e que ele, Freud, não lia mais do que algumas linhas em sequencia dos textos de Nietzche para preservar a própria independência intelectual&#8230;</p>
<p>Abraços e mais uma vez obiigado</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
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		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2012/02/51542/#comment-56849</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 29 Feb 2012 19:42:28 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Caro Rui Matias,
A noção de decadência existe em muitas civilizações, tanto urbanas como rurais, e não só em impérios universalizantes. Por outro lado, não creio — embora não tenha a certeza — que estivesse difundida a noção de decadência entre os pensadores políticos do império chinês, que foi o mais universal de todos. Note-se, no entanto, que na maior parte dos casos os historiadores só conseguem estudar formas ideológicas prevalecentes nas classes dominantes ou em alguns estratos das classes dominantes ou, como na Europa medieval do século XII em diante, prevalecentes nas cidades. Quanto ao resto ou não há documentação suficiente ou nada se sabe. É um dos grandes problemas com os estudos culturais hoje, esse de tomar a parte pelo todo e de atribuir a uma época noções e comportamentos que eram apenas específicos de alguns meios sociais dessa épopca.
Onde você encontra um excelente tratamento dos ciclos de ascensão e declínio das civilizações, fundamentado numa análise objectiva, sócio-económica, e não moralizante nem fatalista, é na &lt;em&gt;Muqaddimah&lt;/em&gt;, de Ibn Kaldūn, um monumento que todos os alunos de graduação de História deveriam ler, mas infelizmente não lêem, aliás os professores também não.
Mas, passando aos &lt;em&gt;thrillers&lt;/em&gt;, uma pergunta. Você é leitor habitual desse tipo de literatura? Porque, se o é, estranho a sua pergunta. Eu sou um fanático devorador de &lt;em&gt;thrillers&lt;/em&gt;. Há uns que se picam, há outros que cheiram, há os que fumam, eu leio &lt;em&gt;thrillers&lt;/em&gt;, é este o meu vício. E nestes romances nunca me apercebi da noção de decadência. Mesmo nos livros de Mickey Spillane e dos muitos outros que lhe imitaram o estilo encontra-se a luta do bem contra o mal, do puro contra o impuro, assumindo a forma dos valores ocidentais contra o comunismo e a perversão sexual, mas não se encontra a ideia de decadência civilizacional.
A noção de decadência civilizacional difundiu-se na cultura europeia desde os finais do século XIX até à segunda guerra mundial, e assumiu aquela que me parece ser a sua primeira forma clássica nas óperas de maturidade de Wagner, especialmente a &lt;em&gt;Tetralogia&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Parsifal&lt;/em&gt;. Pelo poema dessas óperas e acima de tudo, evidentemente, pela música, Wagner parece-me o grande pensador e encenador do tema da decadência. Não era só por causa dos textos racistas que o nacional-socialismo germânico considerava oficialmente Wagner como um dos seus quatro precursores, mas igualmente por causa da noção de decadência. Lukács, em &lt;em&gt;A Destruição da Razão&lt;/em&gt;, analisou muito bem a relação entre o tema da decadência e as concepções raciais prevalecentes no Terceiro Reich.
Mas a noção de decadência, tal como ela se encontra em Wagner, Spengler e noutras figuras menores, não é alheia à noção de contradição interna. Do mesmo modo o racismo hitleriano baseava-se na contradição entre uma &lt;em&gt;raça de senhores&lt;/em&gt;, que não existia ainda, mas devia ser edificada a partir da &lt;em&gt;raça nórdica&lt;/em&gt;, e a &lt;em&gt;anti-raça&lt;/em&gt;, os judeus, que não eram considerados propriamente uma raça, mas destruidores de raças, como os bacilos podem destruir o corpo. Do mesmo modo, tanto a &lt;em&gt;Tetralogia&lt;/em&gt; como o &lt;em&gt;Parsifal&lt;/em&gt; estão estruturados em função de contradições internas.
Naquela época o tema da decadência civilizacional era caracterizadamente um dos temas definidores da extrema-direita, e ninguém o ignorava. Mais recentemente, o multiculturalismo e a ecologia puseram a circular em vastos meios de esquerda temas originariamente de extrema-direita, e entre eles se conta o da decadência civilizacional. Mas não creio que isto tenha atingido os &lt;em&gt;thrillers&lt;/em&gt;, senão eu já tinha deixado de os ler.
O que se encontra no &lt;em&gt;thriller&lt;/em&gt; são as contradições no estado puro, e o núcleo dessas contradições, a ambição pelo ganho, o desejo de poder, a vingança. O sórdido resulta de dois factores. Primeiro, tudo isso é feito sem frases nem pretextos hipócritas. É, como acabei de dizer, a contradição no estado puro. Segundo, toda essa agitação tem como objectivo ambições muito mesquinhas. Os Bórgias não são personagens de &lt;em&gt;thriller&lt;/em&gt;. Mas são-no os malandros e os espertalhões. E é aqui que, como você escreve, o «próprio amoralismo» do detective «expressa a sua real impossibilidade de mudar as regras do jogo». Não é só, como você indica, que «a amoralidade poderia funcionar como uma crítica implícita às formas de negação do sistema vigente baseadas na concepção de ordem moral». Não é que «poderia», é que funciona mesmo. Funciona nos romances e nos contos do comunista Dashiell Hammett, o grande mestre que codificou o estilo, como funciona nas obras de Raymond Chandler ou de Ross Macdonald ou de muitos outros, cujas simpatias se encontram do lado esquerdo, como funciona nas de autores de direita ou de coisa nenhuma. Para mim o essencial do &lt;em&gt;thriller&lt;/em&gt; é isto — desvenda os mecanismos elementares da sociedade.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Rui Matias,<br />
A noção de decadência existe em muitas civilizações, tanto urbanas como rurais, e não só em impérios universalizantes. Por outro lado, não creio — embora não tenha a certeza — que estivesse difundida a noção de decadência entre os pensadores políticos do império chinês, que foi o mais universal de todos. Note-se, no entanto, que na maior parte dos casos os historiadores só conseguem estudar formas ideológicas prevalecentes nas classes dominantes ou em alguns estratos das classes dominantes ou, como na Europa medieval do século XII em diante, prevalecentes nas cidades. Quanto ao resto ou não há documentação suficiente ou nada se sabe. É um dos grandes problemas com os estudos culturais hoje, esse de tomar a parte pelo todo e de atribuir a uma época noções e comportamentos que eram apenas específicos de alguns meios sociais dessa épopca.<br />
Onde você encontra um excelente tratamento dos ciclos de ascensão e declínio das civilizações, fundamentado numa análise objectiva, sócio-económica, e não moralizante nem fatalista, é na <em>Muqaddimah</em>, de Ibn Kaldūn, um monumento que todos os alunos de graduação de História deveriam ler, mas infelizmente não lêem, aliás os professores também não.<br />
Mas, passando aos <em>thrillers</em>, uma pergunta. Você é leitor habitual desse tipo de literatura? Porque, se o é, estranho a sua pergunta. Eu sou um fanático devorador de <em>thrillers</em>. Há uns que se picam, há outros que cheiram, há os que fumam, eu leio <em>thrillers</em>, é este o meu vício. E nestes romances nunca me apercebi da noção de decadência. Mesmo nos livros de Mickey Spillane e dos muitos outros que lhe imitaram o estilo encontra-se a luta do bem contra o mal, do puro contra o impuro, assumindo a forma dos valores ocidentais contra o comunismo e a perversão sexual, mas não se encontra a ideia de decadência civilizacional.<br />
A noção de decadência civilizacional difundiu-se na cultura europeia desde os finais do século XIX até à segunda guerra mundial, e assumiu aquela que me parece ser a sua primeira forma clássica nas óperas de maturidade de Wagner, especialmente a <em>Tetralogia</em> e <em>Parsifal</em>. Pelo poema dessas óperas e acima de tudo, evidentemente, pela música, Wagner parece-me o grande pensador e encenador do tema da decadência. Não era só por causa dos textos racistas que o nacional-socialismo germânico considerava oficialmente Wagner como um dos seus quatro precursores, mas igualmente por causa da noção de decadência. Lukács, em <em>A Destruição da Razão</em>, analisou muito bem a relação entre o tema da decadência e as concepções raciais prevalecentes no Terceiro Reich.<br />
Mas a noção de decadência, tal como ela se encontra em Wagner, Spengler e noutras figuras menores, não é alheia à noção de contradição interna. Do mesmo modo o racismo hitleriano baseava-se na contradição entre uma <em>raça de senhores</em>, que não existia ainda, mas devia ser edificada a partir da <em>raça nórdica</em>, e a <em>anti-raça</em>, os judeus, que não eram considerados propriamente uma raça, mas destruidores de raças, como os bacilos podem destruir o corpo. Do mesmo modo, tanto a <em>Tetralogia</em> como o <em>Parsifal</em> estão estruturados em função de contradições internas.<br />
Naquela época o tema da decadência civilizacional era caracterizadamente um dos temas definidores da extrema-direita, e ninguém o ignorava. Mais recentemente, o multiculturalismo e a ecologia puseram a circular em vastos meios de esquerda temas originariamente de extrema-direita, e entre eles se conta o da decadência civilizacional. Mas não creio que isto tenha atingido os <em>thrillers</em>, senão eu já tinha deixado de os ler.<br />
O que se encontra no <em>thriller</em> são as contradições no estado puro, e o núcleo dessas contradições, a ambição pelo ganho, o desejo de poder, a vingança. O sórdido resulta de dois factores. Primeiro, tudo isso é feito sem frases nem pretextos hipócritas. É, como acabei de dizer, a contradição no estado puro. Segundo, toda essa agitação tem como objectivo ambições muito mesquinhas. Os Bórgias não são personagens de <em>thriller</em>. Mas são-no os malandros e os espertalhões. E é aqui que, como você escreve, o «próprio amoralismo» do detective «expressa a sua real impossibilidade de mudar as regras do jogo». Não é só, como você indica, que «a amoralidade poderia funcionar como uma crítica implícita às formas de negação do sistema vigente baseadas na concepção de ordem moral». Não é que «poderia», é que funciona mesmo. Funciona nos romances e nos contos do comunista Dashiell Hammett, o grande mestre que codificou o estilo, como funciona nas obras de Raymond Chandler ou de Ross Macdonald ou de muitos outros, cujas simpatias se encontram do lado esquerdo, como funciona nas de autores de direita ou de coisa nenhuma. Para mim o essencial do <em>thriller</em> é isto — desvenda os mecanismos elementares da sociedade.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Rui Matias		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2012/02/51542/#comment-56838</link>

		<dc:creator><![CDATA[Rui Matias]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 29 Feb 2012 16:30:09 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=51542#comment-56838</guid>

					<description><![CDATA[Caro João Bernardo

Desculpe-me voltar às questões abordadas por mim, apesar de suas respostas terem sido realmente pertinentes - e até mesmo por isso - e gostaria de reformulá-las para deixar mais claro quais as dúvidas que carrego há muito tempo não só sobre os romances policiais, mas envolvendo outras mais gerais e centrais.
 Parece-me existir nas sociedades baseadas na exploração-dominação com vocação para ``Impérios Universais´´ uma espécie de ``espectro de decadência´´ ou um tipo de consciência reificada do próprio fim, ou melhor ainda, a reificação das relações sociais alienadas e/ou estranhadas que determinam os processos de dominação-exploração numa sociedade na forma ideológica de forças colossais e externas senão à sociedade pelo menos aos indivíduos. Essas forças não seriam fruto da própria atividade das pessoas em sociedade, mas de algo externo a esta atividade que a determina de forma fatalista. Um exemplo disto, e atualmente na moda, seria a idéia dos antigos Maias (claro que circunscrita e consubstanciada pela temporalidade circular) do Fim e recomeço periódico do seu mundo.
 Para vc até que ponto se poderia atribuir este ``espectro de decadência`` aos ambientes sórdidos que geralmente prevalecem nos thrillers, ou este no máximo poderia ser imputado aos romances com algum fundo moralizante.E o detetive até que ponto se apresenta como um elemento efetivamente ativo na trama, como uma rota de fuga para o fatalismo, ou o seu próprio amoralismo expressa a sua real impossibilidade de mudar as regras do jogo?Por outro lado, a amoralidade poderia funcionar como uma crítica implícita às formas de negação do sistema vigente baseadas na concepção de ordem moral? Bom, espero não ter me alongado demais.

Saudações]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro João Bernardo</p>
<p>Desculpe-me voltar às questões abordadas por mim, apesar de suas respostas terem sido realmente pertinentes &#8211; e até mesmo por isso &#8211; e gostaria de reformulá-las para deixar mais claro quais as dúvidas que carrego há muito tempo não só sobre os romances policiais, mas envolvendo outras mais gerais e centrais.<br />
 Parece-me existir nas sociedades baseadas na exploração-dominação com vocação para &#8220;Impérios Universais´´ uma espécie de &#8220;espectro de decadência´´ ou um tipo de consciência reificada do próprio fim, ou melhor ainda, a reificação das relações sociais alienadas e/ou estranhadas que determinam os processos de dominação-exploração numa sociedade na forma ideológica de forças colossais e externas senão à sociedade pelo menos aos indivíduos. Essas forças não seriam fruto da própria atividade das pessoas em sociedade, mas de algo externo a esta atividade que a determina de forma fatalista. Um exemplo disto, e atualmente na moda, seria a idéia dos antigos Maias (claro que circunscrita e consubstanciada pela temporalidade circular) do Fim e recomeço periódico do seu mundo.<br />
 Para vc até que ponto se poderia atribuir este &#8220;espectro de decadência&#8220; aos ambientes sórdidos que geralmente prevalecem nos thrillers, ou este no máximo poderia ser imputado aos romances com algum fundo moralizante.E o detetive até que ponto se apresenta como um elemento efetivamente ativo na trama, como uma rota de fuga para o fatalismo, ou o seu próprio amoralismo expressa a sua real impossibilidade de mudar as regras do jogo?Por outro lado, a amoralidade poderia funcionar como uma crítica implícita às formas de negação do sistema vigente baseadas na concepção de ordem moral? Bom, espero não ter me alongado demais.</p>
<p>Saudações</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2012/02/51542/#comment-56039</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Feb 2012 19:46:29 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=51542#comment-56039</guid>

					<description><![CDATA[Caros Paulo e Rui Matias,
Em obras escritas na época da guerrilha e da guerra popular Mao Tsé-tung analisou formas como o mais fraco pode jogar com as contradições entre os mais fortes. Isto na sequência de outros grandes estrategas chineses, como Sun Tzu. Há dois monumentos da literatura clássica chinesa, a &lt;em&gt;História dos Três Reinos&lt;/em&gt;, de Luo Guan-zhong, e &lt;em&gt;À Beira de Água&lt;/em&gt;, de Luo Guan-zhong e Shi Nai-an, que são os melhores estudos que conheço sobre o aproveitamento das contradições na acção política. No &lt;em&gt;thriller&lt;/em&gt; o detective vai sozinho a um dos campos inimigos porque possui uma informação sobre o campo rival, com ela obtém novas informações, que usa depois em sentido contrário, e quanto mais todos os campos se digladiam entre si, mais o detective assegura a sua imunidade — com a condição de se saber mover para um e outro lado consoante os momentos. Esta é uma característica da totalidade dos &lt;em&gt;thrillers&lt;/em&gt;, faz parte das regras desse género literário. Mas vanguarda nunca! O detective privado é um sujeito solitário e modesto nas suas ambições, um assalariado que cumpre um contrato. E o polícia excêntrico é igualmente solitário, visto com desconfiança ou pelo menos com perplexidade pelos restantes membros da corporação. Eles só são heróis no romance, aos olhos do leitor. Não são nem querem ser vanguardas, mas só pessoas comuns executando um trabalho. Nas ruas que percorrem eles são pessoas anónimas e confundem-se com a multidão. Olhe o Maigret, de Simenon, apesar de ser comissário e de ter as suas investigações narradas na primeira página dos jornais, como ele se confunde com o cidadão comum, como ele desaparece na multidão. 
E passo aqui para a segunda das questões do último comentário de Rui Matias. Acho que se pode definir exactamente assim a multidão, como uma materialização das relações impessoais. É isto que garante o anonimato a todos nós. Passar despercebido no meio de muita gente, ser invisível na multidão, é um dos prazeres do &lt;em&gt;flâneur&lt;/em&gt; e uma das necessidades profissionais do detective no &lt;em&gt;thriller&lt;/em&gt;.
Mas hesito em estabelecer uma relação entre, por um lado, o crime e o pecado no &lt;em&gt;thriller&lt;/em&gt; e, por outro lado, as relações sociais prevalecentes no capitalismo, porque me parece metodologicamente arriscado pôr a par uma noção específica e outra muito ampla. Talvez se encontre a solução em Dostoievski, no &lt;em&gt;Crime e Castigo&lt;/em&gt;, nos diálogos entre Raskolnikov e o polícia.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caros Paulo e Rui Matias,<br />
Em obras escritas na época da guerrilha e da guerra popular Mao Tsé-tung analisou formas como o mais fraco pode jogar com as contradições entre os mais fortes. Isto na sequência de outros grandes estrategas chineses, como Sun Tzu. Há dois monumentos da literatura clássica chinesa, a <em>História dos Três Reinos</em>, de Luo Guan-zhong, e <em>À Beira de Água</em>, de Luo Guan-zhong e Shi Nai-an, que são os melhores estudos que conheço sobre o aproveitamento das contradições na acção política. No <em>thriller</em> o detective vai sozinho a um dos campos inimigos porque possui uma informação sobre o campo rival, com ela obtém novas informações, que usa depois em sentido contrário, e quanto mais todos os campos se digladiam entre si, mais o detective assegura a sua imunidade — com a condição de se saber mover para um e outro lado consoante os momentos. Esta é uma característica da totalidade dos <em>thrillers</em>, faz parte das regras desse género literário. Mas vanguarda nunca! O detective privado é um sujeito solitário e modesto nas suas ambições, um assalariado que cumpre um contrato. E o polícia excêntrico é igualmente solitário, visto com desconfiança ou pelo menos com perplexidade pelos restantes membros da corporação. Eles só são heróis no romance, aos olhos do leitor. Não são nem querem ser vanguardas, mas só pessoas comuns executando um trabalho. Nas ruas que percorrem eles são pessoas anónimas e confundem-se com a multidão. Olhe o Maigret, de Simenon, apesar de ser comissário e de ter as suas investigações narradas na primeira página dos jornais, como ele se confunde com o cidadão comum, como ele desaparece na multidão.<br />
E passo aqui para a segunda das questões do último comentário de Rui Matias. Acho que se pode definir exactamente assim a multidão, como uma materialização das relações impessoais. É isto que garante o anonimato a todos nós. Passar despercebido no meio de muita gente, ser invisível na multidão, é um dos prazeres do <em>flâneur</em> e uma das necessidades profissionais do detective no <em>thriller</em>.<br />
Mas hesito em estabelecer uma relação entre, por um lado, o crime e o pecado no <em>thriller</em> e, por outro lado, as relações sociais prevalecentes no capitalismo, porque me parece metodologicamente arriscado pôr a par uma noção específica e outra muito ampla. Talvez se encontre a solução em Dostoievski, no <em>Crime e Castigo</em>, nos diálogos entre Raskolnikov e o polícia.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Rui Matias		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2012/02/51542/#comment-56036</link>

		<dc:creator><![CDATA[Rui Matias]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Feb 2012 19:16:43 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=51542#comment-56036</guid>

					<description><![CDATA[Caro João Bernardo

Vc acha possível pensar a relação do pecado com o crime nos thrillers como uma manifestação fantasmagórica das relações sociais prevalecentes no capitalismo?E a multidão como uma materialização das relações impessoais no mundo moderno?
Obrigado pela resposta e saudações]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro João Bernardo</p>
<p>Vc acha possível pensar a relação do pecado com o crime nos thrillers como uma manifestação fantasmagórica das relações sociais prevalecentes no capitalismo?E a multidão como uma materialização das relações impessoais no mundo moderno?<br />
Obrigado pela resposta e saudações</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Paulo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2012/02/51542/#comment-56034</link>

		<dc:creator><![CDATA[Paulo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Feb 2012 19:04:56 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=51542#comment-56034</guid>

					<description><![CDATA[Caro João Bernardo
Parabéns por mais esta série da artigos. Nesta análise, como em outras, percebo que usa o conceito de campo, e lembro que no seu Dialetica da Prática e da Ideologia você explorou esse conceito, partindo do de práticas sociais e articulando-o a outros como grupo, classe etc. (Perdoe-me a simplificação.) Neste texto, no entanto, você alude à dialética exposta por Mao, ao referir-se ao fato de o detetive jogar em campos diversos, antagônicos. Agradeceria se pudesse me explicar essa referência a Mao e, um tanto perplexo, arrisco indagar se o detetive, nessa posição privilegiada, capaz de lhe render uma espécie de &quot;consciência crítica&quot;, poderia se constituir numa espécie de vanguarda? 
Abraço,
Paulo]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro João Bernardo<br />
Parabéns por mais esta série da artigos. Nesta análise, como em outras, percebo que usa o conceito de campo, e lembro que no seu Dialetica da Prática e da Ideologia você explorou esse conceito, partindo do de práticas sociais e articulando-o a outros como grupo, classe etc. (Perdoe-me a simplificação.) Neste texto, no entanto, você alude à dialética exposta por Mao, ao referir-se ao fato de o detetive jogar em campos diversos, antagônicos. Agradeceria se pudesse me explicar essa referência a Mao e, um tanto perplexo, arrisco indagar se o detetive, nessa posição privilegiada, capaz de lhe render uma espécie de &#8220;consciência crítica&#8221;, poderia se constituir numa espécie de vanguarda?<br />
Abraço,<br />
Paulo</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: João Bernardo		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2012/02/51542/#comment-56032</link>

		<dc:creator><![CDATA[João Bernardo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Feb 2012 18:15:02 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=51542#comment-56032</guid>

					<description><![CDATA[Caro Rui Matias,
Se substituirmos a noção teológica de &lt;em&gt;pecado original&lt;/em&gt; pela sua consequência psicológica, o &lt;em&gt;sentimento de culpa&lt;/em&gt;, é curioso observar que nos &lt;em&gt;thrillers&lt;/em&gt; é o detective privado ou o polícia excêntrico quem é possuído por esse sentimento, jamais o criminoso. Há excepções, por isso eu perguntei no final deste segundo artigo o que havia sucedido aos heróis apolíneos dos primeiros &lt;em&gt;thrillers&lt;/em&gt;. Sam Spade é desprovido de culpa, e poder-se-ia pensar que isto se deve ao facto de Dashiell Hammett ser comunista numa época em que a teologia da libertação não se tinha ainda misturado com o marxismo, mas os personagens de James Hadley Chase são igualmente alheios ao sentimento de culpa, a tal ponto que num dos primeiros números dos &lt;em&gt;Temps Modernes&lt;/em&gt; (cito de memória) uma resenha do &lt;em&gt;No Orchids for Miss Blandish&lt;/em&gt; se indignava com o amoralismo da obra, onde os existencialistas não encontravam pasto para lucubrações. Mas já em James Cain, por exemplo, em &lt;em&gt;The Postman Always Rings Twice&lt;/em&gt; e em &lt;em&gt;Double Indemnity&lt;/em&gt;, me parece que podemos detectar no narrador vestígios daquela compaixão que distingue o cristianismo. Depois, o detective ou o polícia excêntrico passou a arrastar a cruz dos outros e a dele, a solidão deixou de ser uma simples exigência estilística e permeou a frustração amorosa e a vida destroçada do investigador, a tal ponto que nas obras de Rankin ou de Nesbø, de outros também, a busca do criminoso se assemelha a um longo calvário. E da psicologia caímos novamente na teologia, porque nessas investigações prosseguidas por detectives rasgados pela culpa soa um eco da &lt;em&gt;remissão dos pecados&lt;/em&gt;. Ou da forma truculenta dessa remissão, quando Mike Hammer, a criação do cruzado da guerra fria Mickey Spillane, destrói a ferro e fogo comunistas e pederastas, num afã purificador. Tudo isto, e tudo junto nos mesmos personagens, vamos encontrar na obra de James Ellroy, que elevou o romance policial a uma nova síntese e a mais altos cumes. Afinal, em vez de eu ter lastimado o desaparecimento dos heróis apolíneos, talvez devesse ter-me queixado da extinção do olho clínico entre os escritores de &lt;em&gt;thrillers&lt;/em&gt;. Precisamos urgentemente de um Flaubert dos &lt;em&gt;thrillers&lt;/em&gt;.
A multidão anónima e tentacular é um elemento tão essencial da paisagem urbana como o são as ruas e as casas. Mas em vez de evocar aqui o &lt;em&gt;flâneur&lt;/em&gt; Baudelaire remeto para a origem e lembro o mais gigantesco de todos os &lt;em&gt;flâneurs&lt;/em&gt;, Balzac. «[...] Paris é um verdadeiro oceano. Lancem-lhe a sonda, nunca hão-de descobrir a profundidade», escreveu ele em &lt;em&gt;Le Père Goriot&lt;/em&gt;. No mesmo romance Jacques Collin, quando era ainda o chefe do submundo e não se convertera em chefe da polícia secreta, desvendou ao jovem Rastignac os mecanismos ocultos da sociedade: «Paris, sabe, é como uma floresta do Novo Mundo, onde se debatem vinte espécies de tribos selvagens, os Ilinóis, os Hurons, que vivem do produto dado pelas várias caçadas sociais». E em &lt;em&gt;Z. Marcas&lt;/em&gt; o narrador de uma história de ambições frustradas evoca «as longas caçadas através dos matagais parisienses». No meio desta emboscada de perigos, o &lt;em&gt;flâneur&lt;/em&gt; é um precursor do detective, o que confirma que o romance policial é a legítima epopeia da nossa sociedade urbana.
E remeto aqui para um dos mais notáveis ensaios de George Orwell, &lt;em&gt;Decline of the English Murder&lt;/em&gt;, onde o autor mostra como a segunda guerra mundial, extinguindo o paroquialismo da sociedade inglesa, pôs fim na vida real aos crimes de estilo Agatha Christie e importou o &lt;em&gt;thriller&lt;/em&gt; real para o quotidiano da Grã-Bretanha.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro Rui Matias,<br />
Se substituirmos a noção teológica de <em>pecado original</em> pela sua consequência psicológica, o <em>sentimento de culpa</em>, é curioso observar que nos <em>thrillers</em> é o detective privado ou o polícia excêntrico quem é possuído por esse sentimento, jamais o criminoso. Há excepções, por isso eu perguntei no final deste segundo artigo o que havia sucedido aos heróis apolíneos dos primeiros <em>thrillers</em>. Sam Spade é desprovido de culpa, e poder-se-ia pensar que isto se deve ao facto de Dashiell Hammett ser comunista numa época em que a teologia da libertação não se tinha ainda misturado com o marxismo, mas os personagens de James Hadley Chase são igualmente alheios ao sentimento de culpa, a tal ponto que num dos primeiros números dos <em>Temps Modernes</em> (cito de memória) uma resenha do <em>No Orchids for Miss Blandish</em> se indignava com o amoralismo da obra, onde os existencialistas não encontravam pasto para lucubrações. Mas já em James Cain, por exemplo, em <em>The Postman Always Rings Twice</em> e em <em>Double Indemnity</em>, me parece que podemos detectar no narrador vestígios daquela compaixão que distingue o cristianismo. Depois, o detective ou o polícia excêntrico passou a arrastar a cruz dos outros e a dele, a solidão deixou de ser uma simples exigência estilística e permeou a frustração amorosa e a vida destroçada do investigador, a tal ponto que nas obras de Rankin ou de Nesbø, de outros também, a busca do criminoso se assemelha a um longo calvário. E da psicologia caímos novamente na teologia, porque nessas investigações prosseguidas por detectives rasgados pela culpa soa um eco da <em>remissão dos pecados</em>. Ou da forma truculenta dessa remissão, quando Mike Hammer, a criação do cruzado da guerra fria Mickey Spillane, destrói a ferro e fogo comunistas e pederastas, num afã purificador. Tudo isto, e tudo junto nos mesmos personagens, vamos encontrar na obra de James Ellroy, que elevou o romance policial a uma nova síntese e a mais altos cumes. Afinal, em vez de eu ter lastimado o desaparecimento dos heróis apolíneos, talvez devesse ter-me queixado da extinção do olho clínico entre os escritores de <em>thrillers</em>. Precisamos urgentemente de um Flaubert dos <em>thrillers</em>.<br />
A multidão anónima e tentacular é um elemento tão essencial da paisagem urbana como o são as ruas e as casas. Mas em vez de evocar aqui o <em>flâneur</em> Baudelaire remeto para a origem e lembro o mais gigantesco de todos os <em>flâneurs</em>, Balzac. «[&#8230;] Paris é um verdadeiro oceano. Lancem-lhe a sonda, nunca hão-de descobrir a profundidade», escreveu ele em <em>Le Père Goriot</em>. No mesmo romance Jacques Collin, quando era ainda o chefe do submundo e não se convertera em chefe da polícia secreta, desvendou ao jovem Rastignac os mecanismos ocultos da sociedade: «Paris, sabe, é como uma floresta do Novo Mundo, onde se debatem vinte espécies de tribos selvagens, os Ilinóis, os Hurons, que vivem do produto dado pelas várias caçadas sociais». E em <em>Z. Marcas</em> o narrador de uma história de ambições frustradas evoca «as longas caçadas através dos matagais parisienses». No meio desta emboscada de perigos, o <em>flâneur</em> é um precursor do detective, o que confirma que o romance policial é a legítima epopeia da nossa sociedade urbana.<br />
E remeto aqui para um dos mais notáveis ensaios de George Orwell, <em>Decline of the English Murder</em>, onde o autor mostra como a segunda guerra mundial, extinguindo o paroquialismo da sociedade inglesa, pôs fim na vida real aos crimes de estilo Agatha Christie e importou o <em>thriller</em> real para o quotidiano da Grã-Bretanha.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Rui Matias		</title>
		<link>https://passapalavra.info/2012/02/51542/#comment-56030</link>

		<dc:creator><![CDATA[Rui Matias]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Feb 2012 16:47:26 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://passapalavra.info/?p=51542#comment-56030</guid>

					<description><![CDATA[Caro João Bernardo

Tenho muita curiosidade em saber como se relacionaria para vc a ideia cristã de universalização do pecado através do mito do pecado original com o princípio subjacente ao thriller de que todos são (não só potencialmente) criminosos, apesar de saber que o amoralismo dos romances policiais se contrapõe (pelo menos aparentemente) à ideia de uma ordem moral que fundamenta a teologia cristã em suas várias vertentes. Também gostaria de saber como vc vê o papel da multidão (que tanto W. Benjamin enfatizou) não só na questão que levantei como inclusive no aspecto dos papéis intercambiáveis no thriller (todos podem ser criminosos e detetives).

Saudações]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Caro João Bernardo</p>
<p>Tenho muita curiosidade em saber como se relacionaria para vc a ideia cristã de universalização do pecado através do mito do pecado original com o princípio subjacente ao thriller de que todos são (não só potencialmente) criminosos, apesar de saber que o amoralismo dos romances policiais se contrapõe (pelo menos aparentemente) à ideia de uma ordem moral que fundamenta a teologia cristã em suas várias vertentes. Também gostaria de saber como vc vê o papel da multidão (que tanto W. Benjamin enfatizou) não só na questão que levantei como inclusive no aspecto dos papéis intercambiáveis no thriller (todos podem ser criminosos e detetives).</p>
<p>Saudações</p>
]]></content:encoded>
		
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